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DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
AOS REDATORES E AOS COLABORADORES
 DA REVISTA "ATUALIZAÇÕES SOCIAIS"

Sala do Consistório
Sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

[Multimídia]


 

Queridos irmãos e irmãs!

Dou-vos as boas-vindas e agradeço ao Diretor, Padre Giacomo Costa, a sua introdução. Saúdo também o Padre Bartolomeo Sorge, que durante muitos anos foi, e continua a ser, um ponto de referência para a Revista e, em geral, para o compromisso com o bem comum.

Ajudar os leitores a “orientarem-se no mundo em mudança”: foi o lema que escolhestes. Desempenhais um serviço valioso, especialmente num tempo de mudanças aceleradas, o que deixa muitas pessoas desorientadas e confusas. Agradeço-vos por o levar por diante com fidelidade e constância há 70 anos. É preciso energia e compromisso, e certamente esforço. Mas também dá satisfação pelo trabalho realizado. Este agradecimento abrange todos os que não estão aqui, mas que trabalharam durante estas décadas: jesuítas, leigas e leigos.

1. Discernir na sociedade

Orientar significa compreender onde estamos, quais são os pontos de referência, e depois decidir em que direção mover-se: é esforço desperdiçado orientar-se e depois ficar parado. Portanto, tem um sentido muito próximo do discernimento: de facto, também no caminho da sociedade, precisamos de aprender a reconhecer a voz do Espírito, interpretar os seus sinais e escolher seguir esta voz e não as outras (cf. Exortação ap. Evangelii gaudium, 51).

Isso interpela-nos a nível pessoal, mas também como comunidade civil e eclesial, porque o Espírito age misteriosamente nas dinâmicas da sociedade. Eis que o discernimento não é simples. Não basta treinar a sensibilidade espiritual, que permanece indispensável; precisamos de habilidades e análises específicas, aquelas às quais dais espaço nas vossas páginas, graças à contribuição de muitos especialistas. Ocupais-vos de questões complexas e controversas: o impacto da inteligência artificial na sociedade e no trabalho, as fronteiras da bioética, a migração, os problemas da desigualdade e da iniquidade, uma visão da economia atenta à sustentabilidade, os cuidados do meio ambiente e a construção do bem comum no concreto cenário político atual. Nestes âmbitos Aggiornamenti Sociali tem a tarefa não só de oferecer informações confiáveis, mas também de acompanhar os leitores para que aprendam a fazer julgamentos e agir com maior responsabilidade e não apenas por meio de boatos, talvez na onda de fake news.

Em relação à análise científica dos fenómenos sociais, continuai a cultivar o equilíbrio correto: a sua importância deve ser reiterada, mas sem cair na tentação de um olhar asséptico sobre a realidade, o que é impossível. A visão da realidade depende sempre do olhar do observador e da posição em que se coloca. Assim, faz parte das tarefas de uma Revista como a vossa ajudar a acolher os resultados da investigação científica com o olhar do discípulo, assumindo a compaixão que Jesus, o Mestre, sente e demonstra pelo povo sofredor, pelos pobres que clamam por Ele e, juntamente com eles, pela «nossa terra oprimida e devastada» (cf. Carta enc. Laudato si’, 2).

Para os cristãos, o discernimento dos fenómenos sociais não pode ignorar a opção preferencial pelos pobres. Antes de nos apressarmos a ajudá-los, esta opção pede-nos que estejamos ao seu lado, mesmo considerando as dinâmicas da sociedade. E os pobres têm muito para nos ensinar sobre ela, sobre os seus valores e as suas contradições! (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 197-201). Entre os pontos fortes da Aggiornamenti Sociali está também o de dar espaço à perspectiva daqueles que são “descartados”. Continuai a estar com eles, escutai-os, acompanhai-os para que a sua voz possa falar. Também quantos pesquisam e refletem sobre questões sociais são chamados a ter um coração de um pastor com o cheiro de ovelhas.

2. Um caminho a percorrer juntos

Não se pode fazer sozinho o discernimento dos fenómenos sociais. Ninguém — nem mesmo o Papa ou a Igreja — consegue abraçar todas as perspetivas relevantes: precisamos de um confronto sério e honesto, que envolva todas as partes.

Já São Paulo vi ensinava que a análise da situação social e a identificação dos compromissos a assumir para a sua transformação são uma tarefa que compete a todas as comunidades nas suas articulações, sob a orientação do Espírito (cf. Carta ap. Octogesima adveniens, 4). Hoje podemos acrescentar que elas requerem um método sinodal: trata-se de construir uma relação, feita de palavras e gestos, estabelecer um objetivo comum e procurar alcançá-lo. É uma dinâmica em que cada um fala com liberdade, mas também ouve e está disposto a aprender e a mudar. Dialogar é construir um caminho a percorrer juntos e, quando for necessário, pontes para se encontrar e estender a mão uns aos outros. As divergências e os conflitos não devem ser negados nem encobertos, como muitas vezes somos tentados a fazer, até na Igreja. Devem ser assumidos, não para ficar presos neles — o conflito nunca pode ser a última palavra — mas para abrir novos processos (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 226-227).

Este modo de proceder sinodal interpela também uma Revista, que pode usar as suas páginas para fazer convergir posições e pontos de vista; mas deve precaver-se da tentação de se abstrair, de se limitar ao nível das ideias, esquecendo a concretude do fazer e do caminhar juntos. Evita este risco quando publica palavras enraizadas em experiências e práticas sociais, alimentadas por esta concretude. A pesquisa intelectual séria é também um caminho feito em conjunto, especialmente quando se trata de questões de fronteira, fazendo interagir diferentes perspetivas e disciplinas e promovendo relações de respeito e amizade entre as pessoas concernidas, que descobrem como o encontro enriquece todos. Isto é ainda mais verdadeiro em iniciativas que requerem a criação de redes, a participação em eventos e a ativação de grupos de pesquisa. Sei que participais em muitas dessas experiências, algumas até aqui no Vaticano, e encorajo-vos a continuar.

Três âmbitos parecem-me particularmente significativos. O primeiro é a integração de partes da sociedade que, por várias razões, são marginalizadas e nas quais as vítimas da cultura do descarte são mais facilmente encontradas. São portadoras de uma contribuição original indispensável para a construção de uma sociedade mais justa: veem aspetos que os outros não conseguem ver.

Um segundo âmbito diz respeito ao encontro entre as gerações, cuja urgência constatamos no Sínodo dos jovens. A aceleração da mudança social corre o risco de afastar os jovens do seu passado, projetando-os para um futuro sem raízes e tornando-os mais fáceis de manipular, enquanto expõe os idosos à tentação do rejuvenescimento. Contra estes riscos, temos de reforçar os pactos de confiança e solidariedade entre as gerações.

Por fim, o terceiro âmbito é a promoção de oportunidades de encontro e ação comum entre cristãos e crentes de outras religiões, mas também com todas as pessoas de boa vontade. Para isso, é preciso enfrentar os medos atávicos e as tensões muito radicadas: alguns dizem respeito às relações inter-religiosas, outros referem-se aos contrastes entre “leigos” e “católicos” que percorrem a história italiana, outros — e não devemos esquecê-los, pois requerem uma atenção especial — estão dentro do corpo eclesial. Mas se não conseguirmos unir toda a família humana, será impossível prosseguir na busca de um desenvolvimento sustentável e integral (cf. Carta enc. Laudato si', 13).

3. A alegria do compromisso social

Por fim, exorto-vos a não desanimar: o empenho pela justiça e pelo cuidado da casa comum está associado a uma promessa de alegria e de plenitude. Muitos podem testemunhá-lo e certamente também vós tendes a oportunidade de o experimentar no vosso trabalho: colocar-se ao lado dos pobres é um encontro com o sofrimento e a injustiça, mas também com uma felicidade genuína e contagiosa. O empenho pela justiça faz-nos entrar na dinâmica das Bem-aventuranças: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (Mt 5, 6). Continuai a cultivar esta fome e a contagiar os outros: juntos experimentaremos o dom de nos sentir saciados.

Obrigado mais uma vez pelo vosso trabalho. Peço a Deus, nosso Pai, que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule com o seu amor e com a força da esperança. E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado.

 



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