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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS DELEGADOS DA ASSEMBLEIA DA ACÇÃO CATÓLICA ITALIANA

9 de Novembro de 1983

 

Caríssimos Delegados à V Assembleia Nacional da Acção Católica Italiana

1. Sede bem-vindos à casa do Papa. Agradeço-vos esta visita, que quer ser expressão da vossa adesão à Sé de Pedro.

Saúdo com afecto todos vós, a começar do Assistente Eclesiástico, Mons. Fiorino Tagliaferri, e do Presidente Nacional, Prof. Alberto Monticone, até a cada um dos Presidentes e dos Delegados das Associações diocesanas, augurando bom prosseguimento aos vossos trabalhos.

Com esta quinta Assembleia a Acção Católica italiana é chamada a renovar não só o Conselho Nacional para o próximo triénio, mas também a promessa de fidelidade à tarefa que desde as suas origens os meus Predecessores lhe confiaram, e que os Bispos expressaram e constantemente manifestam num apelo a generosa dedicação nas Igrejas locais que estão na Itália.

O tema específico dos vossos trabalhos: "Leigos chamados a compartilhar com a Igreja os anseios e as esperanças dos homens de hoje" é de maneira significativa tomado do Proémio da Constituição do Concílio Vaticano II sobre o mundo contemporâneo, a Gaudium et Spes. A luz desta inspiração conciliar desejaria indicar-vos as linhas de orientação que, num programa de Acção Católica, sempre, mas sobretudo nas presentes circunstâncias da Igreja e da Itália, parecem merecedoras de reflexão mais aprofundada e são garantia de validade para uma acção evangelicamente construtiva.

2. Antes de mais é preciso reafirmar a revalorização da dimensão espiritual. No decreto sobre o apostolado dos leigos, o Concílio coloca na base do apostolado a espiritualidade como factor capaz de produzir a indispensável união dos membros com Cristo Cabeça. "É evidente que a fecundidade do apostolado dos leigos depende da sua união vital com Cristo, segundo as palavras do Senhor: 'aquele que permanece em Mim e em quem Eu permaneço, esse produz muitos frutos; pois, sem Mim nada podeis fazer" (AA n. 4). O novo Código de Direito Canónico, ao recordar aos fiéis o dever e o direito de se empenharem por que o anúncio divino da salvação se difunda cada vez mais entre os homens de todos os tempos e no mundo inteiro, vai mais além, sublinhando de maneira explícita o dever que todos os fiéis têm de "empenhar as suas forças a fim de levar uma vida santa" (cân. 210). A vontade da Igreja, Mãe e Mestra, é clara ao pedir um incentivo da espiritualidade para transformar o mundo.

O objectivo da santidade vem proposto não só às pessoas que optaram pela vida consagrada, mas também a todos os fiéis, dado que receberam o dom de ser regenerados em Cristo. No mundo dos leigos católicos esse objectivo deve tornar-se preocupação constante para aqueles que, como vós da Acção Católica, fazem uma opção de qualidade, para viverem a vida do homem em todas as suas dimensões, dando de novo à fé e ao espírito o primado que lhes convém segundo a perspectiva do Evangelho, e que a sociedade de hoje, com a sua mentalidade difundida e as suas estruturas, tende a ignorar.

Sem este fundamento o edifício humano seria construído na areia. Ser cristãos autênticos, em plenitude de vida, significa por isso conversão contínua do coração, comunhão vital com Cristo, diálogo familiar com Ele, harmonização entre espiritualidade e operosidade, maturidade humana e capacidade de animação cristã.

É com base no princípio vital da espiritualidade que a acção inserida no contexto da obra da salvação se torna circulação de seiva do tronco aos ramos, testemunho, apostolicidade viva, evangelização. Doutro modo será obra morta, rumor sem ressonância. Assim como não existe espiritualismo interior, fechado em si mesmo, assim também não há verdadeira acção sem ligação com a fonte interior.

A produtividade externa, em sentido evangélico, capaz de encarnar a Palavra de Deus em cada manifestação da vida pessoal e associativa, depende da medida em que se enriquece a partir de dentro.

3. Outra conotação essencial, que caracteriza a vida e a actividade do cristão, é a dimensão eclesial.

A Igreja é mistério como fundação e obra de Deus no desenvolvimento da história, povo de Deus, constituída e ordenada no mundo como sociedade, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele (C.D.C., 204).

Na vossa história de ontem e no documento de base de hoje vós fazeis continua referência à Palavra do Senhor e ao Magistério da Igreja. Daqui o vosso empenho de docilidade e a disponibilidade do vosso serviço às directrizes do Magistério, cônscios de que a vitalidade do empenho apostólico depende do grau de comunhão com o Papa e os Pastores, da vontade de caminhardes juntos pelos caminhos do homem. Assim como é infecunda a acção externa sem o alimento da vida interior, assim também é estéril o apostolado sem o vínculo com as orientações do Magistério. Semeia-se no vazio ou espalha-se na confusão.

A vossa eclesialidade não se exaure na adesão pessoal de fé à verdade teológica de princípio, mas concretiza-se, a nível de realidade, no serviço às Igrejas locais, nas quais subsiste — como afirma o novo Código de Direito Canónico (cân. 368) — a una e única Igreja católica. Seja a Diocese, porção do povo de Deus confiada ao cuidado pastoral de um Bispo; seja a Paróquia, em que se vive o quotidiano da existência. Assim a vossa eclesialidade se traduz em empenho de associação, que se torna escola de apóstolos e de discípulos, que vivem para a Igreja local em que se encontram, ao serviço da sua vida e do seu projecto pastoral.

Exorto-vos a prosseguir com entusiasmo cada vez maior neste caminho de maturação eclesial, que promete frutos autênticos e duradouros.

4. Aquilo que para outros é mais genérico, para vós, devido à natureza da vossa associação, se torna mais específico. Esta observação vale também para a dimensão laical.

A Igreja esclareceu a partir dos documentos do Concílio, e repete-o no novo Código, que é dever dos leigos, em virtude do Baptismo e da Confirmação, empenharem-se, quer individualmente quer reunidos em associações, a fim de que o anúncio da salvação seja conhecido e acolhido por todos os homens e no mundo inteiro. Essa obrigação é ainda mais premente nas circunstâncias em que os homens, a não ser por meio deles, podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. De maneira mais específica ele declarou e reafirmou que é dever próprio dos leigos, cada um segundo a própria condição, animarem e aperfeiçoarem com o espírito evangélico a ordem das realidades temporais, e assim darem testemunho de Cristo, de modo especial na gestão dessas realidades e no exercício das actividades seculares (cf. cân. 225).

Os leigos da Acção Católica, porém, como tive oportunidade de dizer já noutra ocasião (27 de Setembro de 1980), embora não seja esta a única forma de associação laical, são chamados a uma singular forma de ministério eclesial. Vós vos reunis em associação para vos empenhardes na difusão do Evangelho fiéis à vocação de cristãos. A vossa adesão pessoal à associação entende exprimir um empenho esporádico, mas permanente, uma presença visível, uma opção de vida através de uma qualificada instituição de apostolado, promovida pela mesma Hierarquia dia Igreja, da qual recebeis um explicito mandato.

A vossa tarefa como leigos consiste em revigorar a forma associativa e organizada de apostolado com o objectivo de vos colocardes ao serviço dos Pastores a fim de se construir, em cada Igreja local, uma comunidade cristã viva, projectada para a obra de conversão e de salvação segundo o Evangelho. Deste modo contribuis para encarnar a Igreja no mundo contemporâneo, e animar as suas estruturas pelo espírito divino.

A obra a realizar, sob a orientação da Hierarquia, em profunda comunhão e em cordial colaboração com todos os grupos do laicado católico, é uma obra nova, porque a sociedade de hoje é diferente da de ontem, bem como diferentes são as suas culturas. E todos têm necessidade de Deus, para construírem a civilização do amor.

A vossa opção vos estimula a dirigir a atenção não só aos que estão perto, mas também aos que estão afastados, a fim de que a auscultação da Palavra de vida se difunda e o Povo de Deus cresça em quantidade e qualidade, com a adesão de todos os homens, de todas as culturas, à novidade de vida do Evangelho.

5. Caros Delegados, levai a todas as associações da Acção Católica a minha cordial saudação, com a viva exortação a serem elas mesmas, para darem um próprio e coerente testemunho apostólico no serviço da Igreja italiana. Se a Acção Católica conservar a própria identidade, a sua função ideal, prestará um grande serviço, conseguindo também superar as dificuldades de carácter organizativo e ser centro catalisador de novas adesões.

Maria, Mãe da Igreja, cuja festa da Imaculada Conceição ontem celebrámos, proteja o vosso empenho de santificação pessoal e de acção missionária ao serviço da Igreja.

Com estes votos de coração vos concedo a minha Bênção.

 



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