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PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 28 de Dezembro 2005
Salmo 138, 18. 23-24: Sonda-me, ó Deus
e conhece o meu coração!
1. Nesta Audiência geral da quarta-feira da Oitava de Natal,
festa litúrgica dos Santos Inocentes, retomamos a nossa meditação sobre o Salmo
138, cuja leitura orante é proposta pela Liturgia das Vésperas em duas
etapas distintas. Depois de ter contemplado na primeira parte (cf. vv. 1-12) o
Deus omnisciente e omnipotente, Senhor da existência e da história, agora este
hino sapiencial de intensa beleza e paixão indica a realidade mais alta e
admirável de todo o universo, o homem, definido como o "prodígio" de Deus (cf.
v. 14). Trata-se, na realidade, de um tema profundamente em sintonia com o clima
natalício que estamos vivendo nestes dias, em que celebramos o grande mistério
do Filho de Deus que se fez homem, aliás, que se fez Menino para a nossa
salvação.
Depois de ter considerado o olhar e a presença do Criador, que
abrangem todo o horizonte cósmico, na segunda parte do Salmo que hoje meditamos,
os olhos amáveis de Deus voltam-se para o ser humano, considerado na sua origem
plena e completa. Ele ainda está "sem forma" no útero materno: o vocábulo
hebraico usado é entendido por alguns estudiosos da Bíblia remissivo ao
"embrião", descrito como uma pequena realidade oval, envolvida em si mesma, mas
sobre a qual já se coloca o olhar benévolo e amoroso dos olhos de Deus (cf. v.
16).
2. Para definir a acção divina dentro do ventre materno, o
Salmista recorre às clássicas imagens bíblicas, enquanto a cavidade geradora da
mãe é comparada com as "profundezas da terra", ou seja, com a vitalidade
constante da grande mãe-terra (cf. v. 15). Antes de mais nada, há o símbolo do
oleiro e do escultor que "forma", plasma a sua criação artística, a sua
obra-prima, exactamente como se dizia no livro da Génesis, para a criação
do homem: "O Senhor plasmou o homem com pó do solo" (Gn 2, 7). A seguir,
há o símbolo "têxtil" que evoca a delicadeza da pele, da carne, dos nervos
"tecidos" no esqueleto ósseo. Também Job evoca com força estas e outras imagens
para exaltar aquela obra-prima que é a pessoa humana, apesar de ser golpeada e
ferida pelo sofrimento: "As tuas mãos formaram e modelaram todo o meu ser...
Lembra-te de que me fizeste do barro... Não me derramaste como leite e me
coalhaste como queijo? Revestiste-me de pele e carne, e teceste-me de ossos
e nervos" (Job 10, 8-11).
3. Extremamente poderosa é, no nosso Salmo, a ideia de que o
Deus daquele embrião ainda "sem forma" já veja todo o futuro: no livro da vida
do Senhor já estão inscritos os dias que aquela criatura viverá e cumulará de
obras durante a sua existência terrena. Assim, volta a emergir a grandeza
transcendente do conhecimento divino, que não abraça somente o passado e o
presente da humanidade, mas também o arco ainda escondido do futuro. Mas
manifesta-se também a grandeza desta pequena criatura humana nascitura, formada
pelas mãos de Deus e rodeada pelo seu amor: um elogio bíblico do ser humano,
desde o primeiro momento da sua existência.
Agora, gostaríamos de confiar-nos à reflexão que São Gregório
Magno, nas suas Homilias sobre Ezequiel, teceu sobre a frase do Salmo,
que antes comentámos: "Os teus olhos viam as minhas acções e eram todas
escritas no teu livro" (v. 16). Sobre estas palavras o Pontífice e Padre da
Igreja edificou uma meditação original e delicada, relativa àqueles que, na
Comunidade cristã, são mais frágeis no seu caminho espiritual.
E diz também que os indivíduos frágeis na fé e na vida cristã
fazem parte da arquitectura da Igreja. E continua: "Contudo, nela são
incluídos... em virtude da boa vontade. É verdade, são imperfeitos e pequenos,
mas naquilo que conseguem compreender, amam a Deus e o próximo e não deixam de
realizar o bem que podem. Embora ainda não alcancem os dons espirituais, a ponto
de abrir a alma à acção perfeita e à contemplação ardente, todavia não renunciam
ao amor a Deus e ao próximo, na medida em que são capazes de o compreender. Por
isso, ainda que ocupem um lugar menos importante, é verdade que também eles
contribuem para a edificação da Igreja porque, embora sejam inferiores por
doutrina, profecia, graça dos milagres e desprezo completo pelo mundo, todavia
estão alicerçados sobre o fundamento do temor e do amor, onde encontram a
própria solidez" (2, 3, 12-13, Obras de Gregório Magno, III/2, Roma 1993,
pp. 79.81).
Assim, a mensagem de São Gregório torna-se uma grande consolação
para todos nós que, frequentemente, progredimos com dificuldade ao longo do
caminho da vida espiritual e eclesial. O Senhor conhece todos nós e circunda-nos
com o seu amor.
Saudações
Saúdo cordialmente os peregrinos francófonos, de maneira
especial os membros do Conselho geral ampliado da Congregação de Jesus e Maria,
e o grupo da Paróquia de São Vítor de Meylan. Desejo a todos vós um feliz e
abençoado Ano de 2006, com a Bênção Apostólica.
É-me grato saudar os peregrinos de expressão inglesa,
presentes nesta Audiência, especialmente os que vieram do Japão e dos Estados
Unidos da América. Sobre todos vós, invoco as Bênçãos deste período de Natal.
Saúdo de todo o coração os peregrinos de língua espanhola,
que participam nesta Audiência. Nestes dias natalícios, convido todos vós a
contemplar no Menino Jesus a grandeza do amor de Deus por nós. Muito obrigado e,
novamente, Feliz Natal!
É com prazer que saúdo os fiéis polacos aqui presentes.
Na atmosfera do Natal e do iminente Ano Novo, desejo a todos vós numerosas
graças, sobretudo o dom da paz e da alegria. Deus vos abençoe!
Dirijo cordiais bons votos de Natal aos peregrinos de língua
italiana. Em particular, saúdo a Comunidade dos Legionários de Cristo; os
fiéis da Paróquia do Santíssimo Nome de Maria, em Caserta; os Voluntários de Dom
Bosco e os representantes do Comando Especial da Guarda Fiscal, de Livorno. Além
disso, saúdo os jovens, os doentes e os novos casais.
A luz de Cristo, que na Noite de Natal brilhou na humanidade,
resplandeça sobre cada um de vós, dilectos amigos, e vos oriente no compromisso
de um corajoso testemunho cristão.
O Papa recorda as vítimas do tsunami um ano depois
Enfim, uno-me à recordação que nestes dias vincula as queridas
populações atingidas, há um ano, pelo tsunami, que causou inúmeras vítimas e
ingentes prejuízos ambientais. Oremos ao Senhor por todas elas e por quantos,
também noutras regiões do mundo, sofreram calamidades naturais e esperam a nossa
solidariedade concreta e efectiva.
© Copyright 2005 - Libreria
Editrice Vaticana
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