![]() |
![]() |
|
|
SOLENE CONCLUSÃO DA XI ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA
HOMILIA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
Venerados Irmãos Neste XXX Domingo do tempo comum, a nossa Celebração eucarística enriquece-se de diversos motivos de agradecimento e de súplica a Deus. Concluem-se contemporaneamente o Ano da Eucaristia e a Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, dedicada precisamente ao mistério eucarístico na vida e na missão da Igreja, enquanto serão daqui a pouco proclamados santos cinco Beatos: o Bispo José Bilczewski, os presbíteros Caetano Catanoso, Sigismundo Gorazdowski e Alberto Hurtado Cruchaga, e o religioso Capuchinho Félix de Nicósia. Além disso celebra-se hoje o Dia Missionário Mundial, encontro anual que desperta na Comunidade eclesial o impulso para a missão. Dirijo com alegria a minha saudação a todos os presentes, aos Padres Sinodais em primeiro lugar, e depois aos peregrinos vindos de várias nações, juntamente com os seus Pastores, para festejar os novos Santos. A liturgia de hoje convida-nos a contemplar a Eucaristia como fonte de santidade e alimento espiritual para a nossa missão no mundo: este sumo "dom e mistério" manifesta e comunica a plenitude do amor de Deus. A Palavra do Senhor, que há pouco ressoou no Evangelho, recorda-nos que no amor se resume toda a lei divina. O dúplice mandamento do amor de Deus e do próximo contém os dois aspectos de um único dinamismo do coração e da vida. Assim, Jesus leva a cumprimento a revelação antiga, sem acrescentar um mandamento inédito, mas realizando em si mesmo e na própria acção salvífica a síntese viva das duas grandes palavras da antiga Aliança: "Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração..." e "Amarás o próximo como a ti mesmo" (cf. Dt 6, 5; Lv 19, 18). Na Eucaristia nós contemplamos o Sacramento desta síntese viva da lei: Cristo entrega-nos em si mesmo a plena realização do amor a Deus e do amor aos irmãos. Ele comunica-nos este seu amor quando nos alimentamos do seu Corpo e do seu Sangue. Pode então realizar-se em nós quanto escreve São Paulo aos Tessalonicenses na segunda Leitura de hoje: "convertestes-vos dos ídolos de Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro" (1 Ts 1, 9). Esta conversão é o princípio do caminho de santidade que o cristão está chamado a realizar na sua existência. O santo é aquele que, sentindo-se de tal forma atraído pela beleza de Deus e pela sua perfeita verdade, progressivamente por ele é transformado. Por esta beleza e verdade está pronto a renunciar a tudo, também a si mesmo. Para ele é suficiente o amor de Deus, que experimenta no serviço humilde e abnegado do próximo, sobretudo de quantos não são capazes de retribuir. Como é providencial, nesta perspectiva, o facto de que hoje a Igreja indique a todos os seus membros cinco novos Santos que, alimentados por Cristo, Pão vivo, se converteram ao amor e por ele orientaram toda a sua existência! Em diversas situações e com vários carismas, eles amaram o Senhor com todo o coração e ao próximo como a si mesmos "tendo-vos assim tornado modelo para todos os crentes" (1 Ts 1, 6-7). O santo José Bilczewski foi um homem de oração. A Santa Missa, a Liturgia das Horas, a meditação, o rosário e as outras práticas de piedade marcavam as suas jornadas. Dedicava um tempo particularmente longo à adoração eucarística. Também o santo Sigismundo Gorazdowski se tornou famoso pela devoção fundada na celebração e na adoração da Eucaristia. Viver a oferta de Cristo estimulou-o a dedicar-se aos doentes, aos pobres e aos necessitados. O profundo conhecimento teológico, a fé e a devoção eucarística de José Bilczeski fizeram dele um exemplo para os sacerdotes e uma testemunha para todos os fiéis. Sigismundo Gorazdowski, ao fundar a Associação dos sacerdotes, a Congregação das Irmãs de São José e muitas outras instituições caritativas, deixou-se sempre guiar pelo espírito de comunhão, que se revela plenamente na Eucaristia. "Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração... Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mt 22, 37.39). Foi este o programa de vida do santo Alberto Hurtado, que se quis identificar com o Senhor e amar os pobres com o seu amor. A formação que recebeu na Companhia de Jesus, consolidada pela oração e pela adoração da Eucaristia, levou-o a deixar-se conquistar por Cristo, sendo um verdadeiro contemplativo na acção. No amor e na entrega total à vontade de Deus encontrou a força para o apostolado. Fundou El Hogar de Cristo para os mais necessitados e para os sem-tecto, oferecendo-lhes um ambiente familiar cheio de calor humano. No seu ministério sacerdotal ele sobressaía pela sua sensibilidade e disponibilidade para com o próximo, sendo uma imagem viva do mestre "manso e humilde de coração". No final dos seus dias, entre as grandes dores da enfermidade, ainda teve forças para repetir: "Estou contente, Senhor, estou contente", expressando assim a alegria com que sempre viveu. São Caetano Catanoso foi cultor e apóstolo da Sagrada Face de Cristo. "A Sagrada Face afirmava é a vida. Ele é a minha força". Com uma feliz intuição ele conjugou esta devoção à piedade eucarística. Assim se expressava: "Se queremos adorar a Face real de Jesus... encontramo-lo na divina Eucaristia, onde o Corpo e Sangue de Jesus Cristo se esconde sob o branco véu da Hóstia a Face de Nosso Senhor". A Missa quotidiana e a frequente adoração do Sacramento do altar foram a alma do seu sacerdócio: com fervor e incansável caridade pastoral ele dedicou-se à pregação, à catequese, ao ministério das Confissões, aos pobres, aos doentes, ao cuidado das vocações sacerdotais. Às Irmãs Verónicas da Sagrada Face, que ele fundou, transmitiu o espírito de caridade, de humildade e de sacrifício, que animou toda a sua existência. São Félix de Nicósia amava repetir em todas as circunstâncias, alegres e tristes: "Seja por amor de Deus". Assim podemos compreender bem quanto era intensa e concreta nele a experiência do amor de Deus revelado aos homens em Cristo. Este humilde Frade capuchinho, ilustre filho da terra da Sicília, austero e penitente, fiel às mais genuínas expressões da tradição franciscana, foi gradualmente plasmado e transformado pelo amor de Deus, vivido e concretizado no amor ao próximo. Frei Félix ajuda-nos a descobrir o valor das pequenas coisas que enriquecem a vida e ensina-nos a colher o sentido da família e do serviço aos irmãos, mostrando-nos que a alegria verdadeira e duradoura, pela qual aspira o coração de cada ser humano, é fruto do amor. Queridos e venerados Padres Sinodais, durante três semanas vivemos juntos um clima de renovado fervor eucarístico. Gostaria agora, convosco e em nome de todo o Episcopado, de enviar uma saudação fraterna aos Bispos da Igreja na China. Com profundo pesar sentimos a falta dos seus representantes. Contudo, desejo garantir a todos os Prelados chineses que os acompanhamos com a oração, assim como aos seus sacerdotes e fiéis. O difícil caminho das comunidades, confiadas aos seus cuidados pastorais, está presente no nosso coração: ela não permanecerá sem fruto, porque é uma participação no Mistério pascal, para glória do Pai. Os trabalhos sinodais permitiram que aprofundássemos os aspectos salientes deste mistério dado à Igreja desde o início. A contemplação da Eucaristia deve estimular todos os membros da Igreja, em primeiro lugar os sacerdotes, ministros da Eucaristia, a reavivar o seu compromisso de fidelidade. Sobre o mistério eucarístico, celebrado e adorado, funda-se o celibato que os presbíteros receberam como dom precioso e sinal do amor indiviso a Deus e ao próximo. Também para os leigos a espiritualidade eucarística deve ser o motor interior de todas as actividades e dicotomia alguma é admissível entre a fé e a vida na sua missão de animação cristã do mundo. Ao concluir-se o Ano da Eucaristia, como não dar graças a Deus pelos numerosos dons concedidos à Igreja neste tempo? E como não retomar o convite do amado Papa João Paulo II a "recomeçar a partir de Cristo"? Como os discípulos de Emaús que, acalentados no coração pela palavra do Ressuscitado e iluminados pela sua presença viva reconhecida ao partir do pão, regressaram sem hesitações a Jerusalém e tornaram-se anunciadores da ressurreição de Cristo, também nós retomamos o nosso caminho animados pelo desejo ardente de testemunhar o mistério deste amor que dá esperança ao mundo. Coloca-se bem nesta perspectiva eucarística o hodierno Dia Missionário Mundial, para a qual o venerado Servo de Deus João Paulo II deu como tema de reflexão: "Missão: Pão repartido para a vida do mundo". A Comunidade eclesial quando celebra a Eucaristia, sobretudo no dia do Senhor, consciencializa-se cada vez mais de que o sacrifício de Cristo é "para todos" (Mt 26, 28) e que a Eucaristia estimula o cristão a ser "pão repartido" para os outros, a comprometer-se por um mundo mais justo e fraterno. Ainda hoje, perante as multidões, Cristo continua a exortar os seus discípulos: "dai-lhes vós mesmos de comer" (Mt 14, 16) e, em seu nome, os missionários anunciam e testemunham o Evangelho, por vezes até com o sacrifício da vida. Queridos amigos, todos devemos recomeçar a partir da Eucaristia. Ajuda-nos Maria, Mulher eucarística, a inamorarmo-nos dela; ajuda-nos a "permanecer" no amor de Cristo, para sermos por Ele intimamente renovados. Dócil à acção do Espírito e atenta às necessidades dos homens, a Igreja será então, cada vez mais, farol de luz, de verdadeira alegria e de esperança, realizando plenamente a sua missão de "sinal e instrumento... da unidade de todo o género humano" (Lumen gentium, 1).
© Copyright 2005 - Libreria Editrice Vaticana
|
|