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PRIMEIRAS VÉSPERAS DA SOLENIDADE
DE MARIA SANTÍSSIMA MÃE DE DEUS
E RECITAÇÃO DO "TE DEUM"

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

Prezados irmãos e irmãs

Também neste ano, já na sua iminente conclusão, estamos reunidos na Basílica Vaticana para celebrar as primeiras Vésperas da Solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus. A liturgia faz coincidir esta significativa festividade mariana com o final e o início do ano solar. À contemplação do mistério da maternidade divina une-se, por conseguinte, o cântico da nossa acção de graças pelo ano de 2007 que termina e pelo ano de 2008 que já vislumbramos. O tempo transcorre e a sua passagem inexorável leva-nos a dirigir o olhar com íntimo reconhecimento Àquele que é eterno, ao Senhor do tempo. Queridos irmãos e irmãs, demos-lhe graças em conjunto, em nome de toda a Comunidade diocesana de Roma. Transmito a minha saudação a cada um de vós. Em primeiro lugar, saúdo o Cardeal Vigário, os Bispos Auxiliares, os sacerdotes e as pessoas consagradas, assim como os numerosos fiéis leigos aqui congregados. Saúdo o Senhor Presidente da Câmara Municipal e as Autoridades presentes, enquanto torno o meu pensamento extensivo a toda a população de Roma e, de maneira especial, a quantos vivem em condições de dificuldade e de privação. Asseguro a todos a minha proximidade cordial, corroborada por uma lembrança constante na oração.

Na breve leitura que acabamos de ouvir, tirada da Carta aos Gálatas, falando sobre a libertação do homem realizada por Deus mediante o mistério da Encarnação, São Paulo refere-se de maneira discreta Àquela por meio de quem o Filho de Deus entrou no mundo: "Quando chegou a plenitude do tempo escreve ele Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher" (Gl 4, 4). Nesta "mulher", a Igreja contempla os lineamentos de Maria de Nazaré, mulher singular porque é chamada a cumprir uma missão que a coloca numa relação profundamente estreita com Cristo: aliás, uma relação absolutamente única, porque Maria é a Mãe do Salvador. No entanto, com igual evidência podemos e devemos afirmar que Ela é também a nossa Mãe porque, vivendo a sua singularíssima relação materna com o Filho, compartilhou a sua missão por nós e pela salvação de todos os homens. Contemplando-a, a Igreja vislumbra nela os traços da sua própria fisionomia: Maria vive a fé e a caridade; Maria é uma criatura, também Ela salva pelo único Salvador; Maria colabora na iniciativa de salvação de toda a humanidade. Deste modo, Maria constitui para a Igreja a sua imagem mais genuína: Aquela em quem a Comunidade eclesial deve descobrir continuamente o sentido autêntico da sua vocação e do seu próprio mistério.

Sucessivamente, este breve mas intenso trecho paulino tem continuidade, mostrando como o facto do Filho ter assumido a natureza humana abriu a perspectiva de uma mudança radical da própria condição do homem. Ali, afirma-se que "Deus enviou o seu Filho... para resgatar aqueles que se encontravam sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de filhos" (Gl 4, 4-5). O Verbo encarnado transforma a existência humana a partir de dentro, comunicando-nos o seu ser Filho do Pai. Ele fez-se como nós, para nos fazer como Ele: filhos no Filho, portanto, homens livres da lei do pecado. Não é este porventura um motivo fundamental para elevar a Deus a nossa acção de graças? Uma acção de graças que não pode deixar de ser ainda mais motivada no final de um ano, considerando os numerosos benefícios e a sua assistência constante que pudemos experimentar no arco dos doze meses transcorridos. Eis por que motivo nesta noite cada uma das comunidades cristãs se reúne e entoa o cântico do Te Deum, tradicional hino de louvor e de acção de graças à Santíssima Trindade. Assim faremos também nós, no encerramento deste nosso encontro litúrgico, diante do Santíssimo Sacramento.

Cantando, havemos de rezar: "Te ergo, quaesumus, tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti Socorrei os vossos filhos, nós vos suplicamos ó Senhor, que redimistes com o vosso sangue precioso". Hoje à noite, esta é a nossa oração: Socorrei, ó Senhor, com a vossa misericórdia os habitantes da nossa Cidade em que, assim como alhures, graves carências e pobrezas pesam sobre a vida das pessoas e das famílias, impedindo-as de olhar para o futuro com confiança; não poucos, sobretudo os jovens, são atraídos por uma falsa exaltação, ou melhor, pela profanação do corpo e pela banalização da sexualidade; além disso, como enumerar os múltiplos desafios que, ligados ao consumismo e ao secularismo, interpelam os fiéis e os homens de boa vontade? Para dizer tudo com uma palavra, também em Roma se sente aquele défice de esperança e de confiança na vida, que constitui o mal "obscuro" da sociedade ocidental moderna.

No entanto, se as deficiências são evidentes, contudo não faltam luzes nem motivos de esperança, sobre os quais implorar a especial bênção divina. Precisamente nesta perspectiva, quando entoarmos o Te Deum, rezaremos: "Salvum fac populum tuum, Domine, et benedic hereditati tuae Salvai o vosso povo, ó Senhor, olhai e protegei os vossos filhos que constituem a vossa herança". Ó Senhor, olhai e protegei de maneira particular a comunidade diocesana comprometida com vigor crescente nas fronteiras da educação, para responder àquela grande "emergência educativa" sobre a qual pude discorrer no dia 11 do passado mês de Junho, encontrando-me com os participantes no Congresso diocesano, ou seja, a dificuldade que se sente na transmissão às novas gerações dos valores-base da existência e de um comportamento recto (cf. ed. quot. de L'Osservatore Romano de 13 de Junho de 2007, pág. 4). Sem clamores e com confiança paciente, procuremos fazer face a esta emergência, acima de tudo no âmbito da família; e, indubitavelmente, é confortador constatar que o trabalho empreendido ao longo destes últimos anos por parte das paróquias, dos movimentos e das associações para a pastoral da família continua a desenvolver-se e a produzir os seus frutos.

Ó Senhor, protegei igualmente as iniciativas missionárias que interpelam o mundo juvenil: elas estão a aumentar e vêem um número já relevante de jovens assumir pessoalmente a responsabilidade e a alegria do anúncio e do testemunho do Evangelho. Neste contexto, como deixar de dar graças a Deus pelo precioso serviço pastoral oferecido ao mundo pelas Universidades romanas? Apesar das não poucas dificuldades, é oportuno dar início a algo de semelhante, inclusivamente no âmbito das escolas.

Abençoai, ó Senhor, os numerosos jovens e adultos que, ao longo das últimas décadas, se consagraram ao sacerdócio para a Diocese de Roma: actualmente, vinte e oito diáconos aguardam a Ordenação presbiteral, prevista para o próximo mês de Abril. Deste modo, rejuvenesce a idade média do clero e é possível enfrentar o incremento das necessidades pastorais, mas também ir ao encontro de outras dioceses. De maneira especial nas periferias, aumenta a necessidade de novos centros paroquiais, embora actualmente haja oito deles em fase de construção depois que eu mesmo, recentemente, tive o prazer de consagrar o último daqueles que já tinham sido concluídos: a Paróquia de Santa Maria do Rosário dos Mártires Portuenses. É bonito sentir intimamente o júbilo e a gratidão dos habitantes de um bairro, que entram pela primeira vez na sua nova igreja.
"In te, Domine, speravi: non confundar in aeternum Senhor, Vós sois a nossa esperança, não ficaremos confundidos para sempre". O hino majestoso do Te Deum termina com este brado de fé, de total confiança em Deus, com esta solene proclamação da nossa esperança. Cristo é a nossa esperança "confiável", e foi a este tema que consagrei a recente Carta Encíclica intitulada Spe salvi. No entanto, a nossa esperança é sempre, de maneira essencial, também esperança para os outros, e somente assim ela constitui verdadeiramente uma esperança também para cada um de nós (cf. n. 48).

Estimados irmãos e irmãs da Igreja de Roma, peçamos ao Senhor que faça de cada um de nós um autêntico fermento de esperança nos vários ambientes, a fim de que se possa construir um porvir melhor para a cidade inteira. Estes são os meus bons votos para todos, na véspera de um novo ano, bons votos estes que confio à intercessão maternal de Maria, Mãe de Deus e Estrela da Esperança.

Amém!

© Copyright 2007 - Libreria Editrice Vaticana

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