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46º DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES
CELEBRAÇÃO PARA A ORDENAÇÃO DE DEZANOVE PRESBÍTEROS

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Basílica Vaticana
Domingo, 3 de Maio de 2009

Queridos irmãos e irmãs!

Segundo um bonito costume, o "Domingo do Bom Pastor" vê reunidos o Bispo de Roma com o seu presbitério para as Ordenações dos novos sacerdotes da Diocese. Isto constitui sempre um grande dom de Deus; é graça sua! Despertemos portanto em nós um sentimento profundo de fé e de reconhecimento ao viver esta celebração. E neste clima é-me grato saudar o Cardeal Vigário Agostino Vallini, os Bispos Auxiliares, os outros Irmãos no episcopado e no sacerdócio, e com afecto especial vós, queridos Diáconos candidatos ao presbiterado, juntamente com os vossos familiares e amigos. A Palavra de Deus que ouvimos oferece-nos abundantes motivos de meditação: mencionarei alguns, para que ela possa iluminar indelevelmente o caminho da vossa vida e do vosso ministério.

"É Ele a pedra... não há... outro nome pelo qual devamos ser salvos" (Act 4, 11-12). No trecho dos Actos dos Apóstolos admira e faz reflectir esta singular "homonímia" entre Pedro e Jesus: Pedro, o qual recebeu o seu novo nome do próprio Jesus, afirma aqui que é Ele, Jesus, "a pedra". De facto, a única rocha verdadeira é Jesus. O único nome que salva é o seu. O apóstolo, e portanto o sacerdote, recebe o próprio "nome", isto é, a própria identidade, de Cristo. Tudo o que faz, fá-lo em seu nome. O seu "eu" torna-se totalmente relativo ao "eu" de Jesus. No nome de Cristo, e não certamente no próprio nome, o apóstolo pode compreender gestos de cura dos irmãos, pode ajudar os "enfermos" a levantar-se e a retomar o caminho (cf. Act 4, 10). No caso de Pedro, o milagre realizado pouco antes torna isto particularmente evidente. E também a referência ao que diz o Salmo é essencial: "a pedra rejeitada pelos construtores / tornou-se pedra angular" (Sl 117[118], 22). Jesus foi "rejeitado", mas o Pai escolheu-o e colocou-o como fundamento do templo da Nova Aliança. Assim o apóstolo, como o sacerdote, experimenta por sua vez a cruz, e só através dela se torna deveras útil para a construção da Igreja. Apraz a Deus construir a sua Igreja com pessoas que, seguindo Jesus, têm confiança total em Deus, como diz o mesmo Salmo: "É melhor abrigar-se em Iahweh / do que pôr confiança no homem; / é melhor abrigar-se no Senhor / do que pôr confiança nos nobres" (vv. 8-9).

Cabe ao discípulo o mesmo destino do Mestre, que em última análise é o destino escrito na própria vontade de Deus Pai! Jesus confessou-o no final da sua vida, na grande oração chamada "sacerdotal": "Pai justo, o mundo não te conheceu, mas Eu conheci-Te" (Jo 17, 25). Também anteriormente o tinha afirmado: "Ninguém conhece o Pai senão o Filho" (Mt 11, 27). Jesus experimentou na sua carne a rejeição de Deus por parte do mundo, a incompreensão, a indiferença, a desfiguração do rosto de Deus. E Jesus passou o "testemunho" para os discípulos: "Eu diz ainda na oração ao Pai lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles" (Jo 17, 26). Por isso o discípulo e especialmente o apóstolo experimenta a mesma alegria de Jesus, de conhecer o nome e o rosto do Pai; e partilha também o seu sofrimento, de ver que Deus não é conhecido, que o seu amor não é retribuído. Por um lado exclamamos com alegria, como João na sua primeira Carta: "O mundo não nos conhece, porque não O conheceu" (1 Jo 3, 1). É verdade, e nós sacerdotes fazemos experiência disso: o "mundo" na acepção joanina do termo não compreende o cristão, não compreende os ministros do Evangelho. Um pouco porque de facto não conhece Deus, e um pouco porque não quer conhecê-l'O. O mundo não quer conhecer Deus para não ser perturbado pela sua vontade e por isso não quer ouvir os seus ministros, isto poderia pô-lo em crise.

É preciso aqui prestar atenção a uma realidade de facto: que este "mundo", interpretado no sentido evangélico, insidia também a Igreja, contagiando os seus membros e os próprios ministros ordenados, e sob esta palavra mundo, São João indica e pretende esclarecer uma mentalidade, um modo de pensar e de viver que pode contaminar também a Igreja, e realmente contamina-a, e portanto exige vigilância e purificação constantes. Enquanto Deus não se tiver plenamente manifestado, também os seus filhos não serão plenamente "semelhantes a Ele" (1 Jo 3, 2). Estamos "no" mundo, e arriscamos ser também "do" mundo. E de facto por vezes somo-lo. Por isso Jesus no final não rezou pelo mundo, sempre neste sentido, mas pelos seus discípulos, para que o Pai os preservasse do maligno e para que eles fossem livres e diversos do mundo, mesmo vivendo no mundo (cf. Jo 17, 9.15). Naquele momento, no final da Última Ceia, Jesus elevou ao Pai a oração de consagração pelos apóstolos e por todos os sacerdotes de cada época, quando disse: "Santifica-os na verdade" (Jo 17, 17).E acrescentou: "E, por eles, a mim mesmo me santifico, para que sejam santificados na verdade" (Jo 17, 19). Reflecti sobre estas palavras de Jesus na homilia da Missa Crismal, na passada Quinta-feira Santa. Hoje retomo essa reflexão fazendo referência ao Evangelho do Bom Pastor, no qual Jesus declara: "Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas" (cf. Jo 10, 15.17.18).

Ser sacerdote, na Igreja, significa entrar nesta autodoação de Cristo, mediante o Sacramento da Ordem, e entrar totalmente nela. Jesus doou a vida por todos, mas de modo particular consagrou-se por aqueles que o Pai já lhe tinha confiado, para que fossem consagrados na verdade, isto é, n'Ele, e pudessem falar e agir em seu nome, representá-lo, prolongar os seus gestos salvíficos: partir o pão da vida e perdoar os pecados. Assim, o Bom Pastor ofereceu a sua vida por todas as ovelhas, mas ofereceu-a e oferece-a de modo especial às que Ele mesmo "com afecto e predilecção", chamou e chama para o seguir na vida do serviço pastoral. Depois, de modo especial, Jesus rezou por Simão Pedro, e sacrificou-se por ele, porque lhe devia dizer um dia, nas margens do lago de Tiberíades: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21, 16-17). Analogamente, cada sacerdote é destinatário de uma oração pessoal de Cristo, e do seu próprio sacrifício, e só como tal é habilitado para colaborar com Ele no apascentar o rebanho que é todo e só do Senhor.

Desejo falar aqui de um aspecto que me está particularmente a peito: a oração e o seu vínculo com o serviço. Vimos que ser ordenados sacerdotes significa entrar de modo sacramental e existencial na oração de Cristo pelos "seus". Deriva disto para nós presbíteros uma vocação particular para a oração, em sentido fortemente cristocêntrico: isto é, somos chamados a "permanecer" em Cristo como gosta de repetir o evangelista João (cf. Jo 1, 35-39; 15, 4-10) e este permanecer em Cristo realiza-se particularmente na oração. O nosso ministério é totalmente ligado a este "permanecer" que equivale a rezar, e deriva dele a sua eficiência. Nesta perspectiva devemos pensar nas diversas formas da oração de um sacerdote, antes de tudo na santa Missa quotidiana. A celebração eucarística é o maior e mais nobre acto de oração, e constitui o centro e a fonte da qual também as outras formas recebem a "linfa": a liturgia das horas, a adoração eucarística, a lectio divina, o santo Rosário, a meditação. Todas estas expressões de oração, que têm o seu centro na Eucaristia, fazem com que na jornada do sacerdote, e em toda a sua vida, se realize a palavra de Jesus: "Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, ... Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas" (Jo 10, 14-15). De facto, este "conhecer" e "ser conhecido" em Cristo e, através d'Ele, na Santíssima Trindade, mais não é do que a realidade mais verdadeira e mais profunda da oração. O sacerdote que reza muito, e que reza bem, é progressivamente expropriado de si e cada vez mais unido a Jesus Bom Pastor e Servo dos irmãos. Em conformidade com Ele, também o sacerdote "dá a vida" pelas ovelhas que lhe estão confiadas. Ninguém lha tira: oferece-a por si, em união com o Senhor, o qual tem o poder de dar a sua vida e o poder de a retomar não só para si, mas também para os seus amigos, unidos a Ele pelo Sacramento da Ordem. Assim a própria vida de Cristo, Cordeiro e Pastor, é comunicada a todo o rebanho, mediante os ministros consagrados.

Queridos Diáconos, o Espírito Santo imprima esta Palavra divina, que comentei brevemente, nos vossos corações, para que dê frutos abundantes e duradouros. Isto pedimos por intercessão dos santos apóstolos Pedro e Paulo e de São João Maria Vianney, o Cura d'Ars, a cujo patrocínio intitulei o próximo Ano Sacerdotal. Vo-lo obtenha a Mãe do Bom Pastor, Maria Santíssima. Em cada circunstância da vossa vida, olhai para Ela, estrela do vosso sacerdócio. Como aos servos nas Bodas de Caná, também a vós Maria repete: "Fazei tudo o que ele vos disser" (Jo 2, 5). Na escola da Virgem, sede sempre homens de oração e de serviço, para vos tornardes, no fiel exercício do vosso ministério, sacerdotes santos segundo o coração de Deus.

© Copyright 2009 - Libreria Editrice Vaticana

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