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ENCONTRO DE BENTO XVI COM OS JOVENS
DE ROMA E DO LÁCIO EM PREPARAÇÃO PARA A XXI JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE
Quinta-feira, 6 de Abril 2006
1. Santidade, chamo-me Simone, pertenço à paróquia de São Bartolomeu,
tenho 21 anos e estudo engenharia química na Universidade "La Sapienza" de Roma.
Antes de mais, agradeço por nos ter enviado a Mensagem para a XXI Jornada
Mundial da Juventude sobre o tema da Palavra de Deus que ilumina os passos da
vida do homem. Perante as ansiedades, as incertezas do futuro, e também quando
enfrento simplesmente a rotina da vida quotidiana, também eu sinto a necessidade
de me alimentar da Palavra de Deus e de conhecer melhor Cristo e assim encontrar
respostas para as minhas perguntas. Com frequência me interrogo sobre o que
faria Jesus se estivesse no meu lugar numa determinada situação, mas nem sempre
consigo compreender o que a Bíblia me diz. Além disso sei que os livros da
Bíblia foram escritos por diversos homens, em épocas diversas e todas muito
distantes da minha. Como posso reconhecer que aquilo que leio é Palavra
de Deus que interpela a minha vida? Obrigado.
Respondo realçando um primeiro ponto: antes de tudo, é preciso dizer que se
deve ler a Sagrada Escritura não como um livro histórico qualquer, como lemos,
por exemplo, Homero, Ovídio, Horácio; é preciso lê-la realmente como Palavra de
Deus, isto é, colocando-se em diálogo com Deus. Inicialmente deve-se rezar,
falar com o Senhor: "Abre-me a porta". É quanto diz com frequência Santo
Agostinho nas suas homilias: "Bati à porta da tua Palavra para encontrar
finalmente o que o Senhor me quer dizer". Isto parece-me um ponto muito
importante. Não se lê a Escritura num clima académico, mas rezando e dizendo ao
Senhor: "Ajuda-me a compreender a tua Palavra, o que agora tu me queres dizer
nesta página".
O segundo ponto é: a Sagrada Escritura introduz na comunhão com a família de
Deus. Por conseguinte, não se pode ler sozinhos a Sagrada Escritura. Não há
dúvida de que é sempre importante ler a Bíblia de modo muito pessoal, num
diálogo pessoal com Deus, mas ao mesmo tempo é importante lê-la na companhia de
pessoas com as quais se caminha. Deixar-se ajudar pelos grandes mestres da "Lectio
divina". Temos, por exemplo, tantos livros do Cardeal Martini, um verdadeiro
mestre da "Lectio divina", que ajuda a entrar no coração da Sagrada
Escritura. Ele conhece bem todas as circunstâncias históricas, todos os
elementos característicos do passado, mas procura abrir sempre a porta para
mostrar que aparentemente palavras do passado também são palavras do presente.
Estes mestres ajudam-nos a compreender melhor e também a aprender como ler bem a
Sagrada Escritura. Depois, em geral, é oportuno lê-la também em companhia dos
amigos que estão a caminho connosco e procuram, juntos, o modo de viver com
Cristo, qual deve ser a vida que nos vem da Palavra de Deus.
O terceiro ponto: se é importante ler a Sagrada Escritura ajudados pelos
mestres, acompanhados pelos amigos, pelos companheiros de caminhada, é
importante em particular lê-la na grande companhia do Povo de Deus peregrino,
isto é, na Igreja. A Sagrada Escritura tem dois sujeitos. Antes de tudo, o
sujeito divino: é Deus que fala. Mas Deus quis envolver o homem na sua Palavra.
Enquanto os muçulmanos têm a convicção de que o Alcorão seja inspirado
verbalmente por Deus, nós cremos que a Sagrada Escritura se caracteriza como
dizem os teólogos pela "sinergia", a colaboração de Deus com o Homem. Ele
envolve o seu Povo com a sua palavra e assim o segundo sujeito o primeiro
sujeito, como disse, é Deus é humano. Nela há escritores individuais, mas também
a continuidade de um sujeito permanente o Povo de Deus que caminha com a Palavra
de Deus e está em diálogo com Deus. Ouvindo Deus, aprende-se a ouvir a Palavra
de Deus e depois também a interpretá-la. E assim a Palavra de Deus torna-se
presente, porque as pessoas morrem, mas o sujeito vital, o Povo de Deus, está
sempre vivo, e é idêntico ao longo dos milénios: é sempre o mesmo sujeito
vivente, no qual vive a Palavra.
Explicam-se assim também muitas estruturas da Sagrada Escritura, sobretudo a
chamada "releitura". Um texto antigo é lido de novo noutro livro, digamos 100
anos mais tarde, e então o que ainda não era compreensível naquele momento
precedente é compreendido em profundidade, mesmo se já estava contido no texto
precedente. E volta a ser lido de novo mais tarde, e de novo se compreendem
outros aspectos, outras dimensões da Palavra, e assim nesta permanente releitura
e reescritura no contexto de uma continuidade profunda, enquanto se sucediam os
tempos da expectativa, a Sagrada Escritura cresceu. Por fim, com a vinda de
Cristo e com a experiência dos Apóstolos a Palavra tornou-se definitiva, de
forma que não podem haver mais reescrituras, mas continuam a ser necessários
novos aprofundamentos da nossa compreensão. O Senhor disse: "O Espírito Santo
introduzir-vos-á numa profundidade que agora não podeis ter". Por conseguinte, a
comunhão da Igreja é o sujeito vivo da Escritura. Mas também agora o sujeito é o
próprio Senhor, o qual continua a falar na Escritura que temos nas mãos. Penso
que devemos aprender estes três elementos: ler em diálogo pessoal com o Senhor;
ler acompanhados por mestres que têm a experiência da fé, que entraram na
Sagrada Escritura; ler na grande companhia da Igreja, em cuja Liturgia estes
acontecimentos se tornam sempre de novo presentes, na qual o Senhor fala agora
connosco, para que, lentamente entremos cada vez mais na Sagrada Escritura, na
qual Deus fala realmente connosco, hoje.
2. Santo Padre, chamo-me Anna, tenho 19 anos, estudo Letras e pertenço à
Paróquia de Santa Maria do Carmelo.
Um dos problemas com os quais me deparo com mais frequência é o afectivo.
Em maior medida temos dificuldade em amar. Sim, dificuldade: porque é fácil
confundir o amor com o egoísmo, sobretudo hoje, quando grande parte da mídia
quase nos impõe uma visão da sexualidade individualista, secularizada, onde tudo
parece ser lícito, e tudo é concedido em nome da liberdade e da consciência dos
indivíduos. A família fundada no matrimónio parece ser apenas uma invenção da
Igreja, para não falar, depois, das relações pré-matrimoniais, cuja proibição é
considerada, até por muitos de nós, crentes, incompreensível ou fora do tempo...
Sabendo bem que muitos de nós procuramos viver responsavelmente a nossa vida
afectiva, pode ilustrar-nos o que nos quer dizer em relação a isto a Palavra de
Deus? Obrigada.
Trata-se de uma grande questão e responder em poucos minutos certamente não é
possível, mas procuro dizer alguma coisa. A própria Anna já deu algumas
respostas quando disse que hoje o amor é com frequência mal interpretado, porque
é apresentado como uma experiência egoísta, enquanto que na realidade é um
abandono de si e assim torna-se um encontrar-se. Ela disse também que uma
cultura consumista falsifica a nossa vida com um relativismo que parece
conceder-nos tudo e na realidade nos esvazia. Mas ouçamos então o que diz a
Palavra de Deus em relação a isto. Anna queria saber exactamente o que diz a
Palavra de Deus. É para mim muito agradável ver que já nas primeiras páginas da
Sagrada Escritura, logo após a narração da Criação do homem, encontramos a
definição do amor e do matrimónio. O autor sagrado diz: "O homem deixará seu
pai e sua mãe, unir-se-á à sua mulher e os dois serão uma só carne, uma única
existência". Estamos no início e já nos é dada uma profecia do que é o
matrimónio; e esta definição também permanece idêntica no Novo Testamento. O
matrimónio é este seguir o outro no amor e, desta forma, tornar-se uma única
existência, uma só carne, e por isso, inseparáveis; uma nova existência que
nasce desta comunhão de amor, que une e cria um futuro. Os teólogos medievais,
interpretando esta afirmação que se encontra no início da Sagrada Escritura,
disseram que dos sete Sacramentos, o matrimónio foi o primeiro que Deus
instituiu, porque foi instituído já no momento da criação, no Paraíso, no início
da história, e antes de qualquer história humana. É um sacramento do Criador do
universo, inscrito precisamente no próprio ser humano, que está orientado para
este caminho, no qual o homem abandona os pais e se une à sua mulher para formar
uma só carne, para que, desta forma, se tornem uma única existência. Por
conseguinte, o sacramento do matrimónio não é invenção da Igreja, é realmente "con-criado"
com o homem como tal, como fruto do dinamismo do amor, no qual o homem e a
mulher se encontram reciprocamente e assim encontram também o Criador que os
chamou ao amor. É verdade que o homem caiu e foi expulso do Paraíso, ou por
outras palavras mais modernas, é verdade que todas as culturas estão poluídas
pelo pecado, pelos erros do homem na sua história e assim o desígnio inicial
inscrito na nossa natureza está obscurecido. De facto, nas culturas humanas
encontramos este obscurecimento do desígnio original de Deus. Mas, ao mesmo
tempo, observamos as culturas, toda a história cultural da humanidade,
verificamos também que o homem nunca pôde esquecer totalmente este desígnio que
existe na profundidade do seu ser. Sempre soube, num certo sentido, que as
outras formas de relação entre homem e mulher não correspondiam realmente ao
desígnio original do seu ser. E assim nas culturas, sobretudo nas grandes
culturas, vemos sempre de novo como elas se orientam para esta realidade, a
monogamia, ser o homem e a mulher uma só carne. É assim, na fidelidade, que uma
nova geração pode crescer, que se pode dar continuidade a uma tradição cultural,
renovando-se e realizando, na continuidade, um progresso autêntico.
O Senhor, que falou disto na língua dos profetas de Israel, mencionando a
concessão da parte de Moisés do divórcio, disse: Moisés vo-lo concedeu "devido
à dureza do vosso coração". O coração depois do pecado tornou-se "duro", mas não
era este o desígnio do Criador e os Profetas com clareza crescente insistiram
sobre este desígnio originário. Para renovar o homem, o Senhor aludindo a estas
vozes proféticas que sempre guiaram Israel para a clareza da monogamia
reconheceu com Ezequiel que temos necessidade, para viver esta vocação, de um
coração novo; em vez de um coração de pedra como diz Ezequiel precisamos de um
coração de carne, de um coração verdadeiramente humano. E o Senhor no Baptismo,
mediante a fé "implanta" em nós este coração novo. Não é um transplante físico,
mas talvez nos possamos servir precisamente desta comparação: depois do
transplante, é necessário que o organismo seja cuidado, que receba os remédios
necessários para poder viver com o coração novo, de forma a tornar-se o "seu
coração" e não o "coração de outrém". Muito mais neste "transplante espiritual",
onde o Senhor nos implanta um coração novo, um coração aberto ao Criador, à
vocação de Deus, para poder viver com este coração novo, são necessários
cuidados adequados, é preciso recorrer aos remédios oportunos, para que ele se
torne verdadeiramente "o nosso coração". Vivendo na comunhão com Cristo, com a
sua Igreja, o novo coração torna-se realmente "o nosso coração" e torna-se
possível o matrimónio. O amor exclusivo entre um homem e uma mulher, a vida a
dois designada pelo Criador torna-se possível, mesmo se o clima do nosso mundo
lhe apresenta tantas dificuldades, até fazê-la parecer impossível.
O Senhor dá-nos um coração novo e nós devemos viver com este coração novo,
usando as terapias oportunas para que seja realmente "nosso". É assim que
vivemos tudo o que o Criador nos deu e isto cria uma vida verdadeiramente feliz.
De facto, também podemos ver isto neste mundo, apesar de tantos outros modelos
de vida: existem tantas famílias cristãs que vivem com fidelidade e com alegria
a vida e o amor indicados pelo Criador e assim cresce uma nova humanidade.
E por fim acrescentaria: todos sabemos que para alcançar uma meta no desporto e
na profissão são necessárias disciplina e renúncias, mas depois elas são
coroadas pelo sucesso, por ter alcançado a meta desejada. Também a própria vida,
isto é, o tornar-se homens segundo o desígnio de Jesus, exige renúncias; mas
elas não são uma coisa negativa, ao contrário ajudam a viver como homens com um
coração novo, a viver uma vida verdadeiramente humana e feliz. Dado que existe
uma cultura consumista que pretende impedir que vivamos segundo o desígnio do
Criador, nós devemos ter a coragem de criar ilhas, oásis, e depois grandes
terrenos de cultura católica, nos quais viver o desígnio do Criador.
3. Beatíssimo Padre, chamo-me Inelida, tenho 17 anos, sou ajudante do
Chefe dos Escuteiros dos Lobinhos na Paróquia de São Gregório Barbarigo e estudo
no Liceu Artístico "Mario Mafai".
Na sua Mensagem para a XXI Jornada Mundial da Juventude Vossa Santidade
disse-nos que "é urgente que surja uma nova geração de apóstolos radicados na
palavra de Cristo". São palavras tão fortes e comprometedoras que quase
assustam. Sem dúvida, também nós gostaríamos de ser novos apóstolos, mas pode
explicar-nos mais detalhadamente quais são, segundo Vossa Santidade, os maiores
desafios a enfrentar no nosso tempo, e como espera que sejam estes novos
apóstolos? Por outras palavras: que espera de nós, Santidade?
Todos nos perguntamos o que espera de nós o Senhor. Parece-me que o grande
desafio do nosso tempo assim me dizem também os Bispos em visita "ad Limina",
por exemplo, os da África é o secularismo: isto é, um modo de viver e de
apresentar o mundo como "si Deus non daretur", isto é, como se Deus não
existisse. Pretende-se limitar Deus à esfera privada, a um sentimento, como se
Ele não fosse uma realidade objectiva e assim cada um forma o seu projecto de
vida. Mas, esta visão que se apresenta como se fosse científica, aceita como
válido só o que se pode verificar com a experiência. Com um Deus que não se
dispõe para a experiência imediata, esta visão termina por dilacerar também a
sociedade: de facto, isto leva cada um a formar o seu projecto e no final
encontram-se uns contra os outros. Uma situação, como se vê, decididamente
insuportável. Devemos tornar de novo Deus presente nas nossas sociedades.
Parece-me que esta seja a primeira necessidade: que Deus esteja de novo
presente na nossa vida, que não vivamos como se fôssemos autónomos, autorizados
a inventar o que é a liberdade e a vida. Devemos capacitar-nos que somos
criaturas, constatar que existe um Deus que nos criou e que na sua vontade não é
dependência mas um dom de amor que nos faz viver.
Por conseguinte, o primeiro ponto é conhecer Deus, conhecê-lo cada vez mais,
reconhecer na nossa vida que Deus existe, e que Deus está relacionado com ela. O
segundo ponto se reconhecemos que Deus existe, que a nossa liberdade é
partilhada com os outros e que deve existir um parâmetro comum para construir
uma realidade comum o segundo ponto, dizia, apresenta a questão: qual Deus? De
facto, existem tantas imagens falsas de Deus, um Deus violento, etc. A segunda
questão é: reconhecer o Deus que nos mostrou o seu rosto em Jesus, que sofreu
por nós, que nos amou até à morte e desta forma venceu a violência. É preciso
tornar presente, antes de tudo na nossa "própria" vida o Deus vivo, o Deus que
não é desconhecido, um Deus inventado, um Deus só pensado, mas um Deus que se
mostrou, se mostrou a si mesmo e o seu rosto. Só assim, a nossa vida se torna
verdadeira, autenticamente humana e também os critérios do verdadeiro humanismo
se tornam presentes na sociedade. Também aqui é válido, como disse na primeira
resposta, que não podemos construir sozinhos esta vida justa e recta, mas
devemos caminhar em companhia de amigos justos e rectos, de companheiros com os
quais podemos fazer a experiência de que Deus existe e que é agradável caminhar
com Deus. E caminhar na grande companhia da Igreja, que nos apresenta nos
séculos a presença do Deus que fala, que age, que nos acompanha. Portanto
diria: encontrar o Deus que se revelou em Jesus Cristo, caminhar juntamente com
a sua grande família, com os nossos irmãos e irmãs que são a família de Deus,
isto parece-me o conteúdo essencial deste apostolado do qual falei.
4. Santidade, chamo-me Vittorio, pertenço à Paróquia de São João Bosco em
"Cinecittà", tenho 20 anos e estudo Ciência da Educação na Universidade de "Tor
Vergata".
Sempre na sua Mensagem, Vossa Santidade convida-nos a não ter medo de
responder com generosidade ao Senhor, especialmente quando propõe que o sigamos
na vida consagrada ou na vida sacerdotal. Diz-nos que não devemos ter medo, que
devemos ter confiança n'Ele, e que não seremos desiludidos. Estou convencido de
que muitos de nós, que estamos aqui ou quem nos segue de casa esta tarde através
da televisão, tenho a certeza de que estejam pensando em seguir Jesus por um
caminho de especial consagração, mas nem sempre é fácil compreender qual é o
caminho justo. Pode dizer-nos como compreendeu Vossa Santidade qual era a sua
vocação? Pode dar-nos conselhos para compreendermos melhor se o Senhor nos chama
para o seguir na vida consagrada ou sacerdotal? Obrigado.
No que me diz respeito, cresci num mundo muito diferente do actual, mas
contudo as situações assemelham-se. Por um lado, existia ainda o ambiente de
"cristandade", no qual era normal frequentar a igreja e aceitar a fé como a
revelação de Deus e procurar viver segundo a revelação; por outro lado, havia o
regime nazista, que afirmava em voz alta: "Na nova Alemanha não haverá mais
sacerdotes, nem vida consagrada, já não temos necessidade dessa gente; procurai
outra profissão". Mas precisamente ouvindo estas vozes "fortes", no confronto
com a brutalidade daquele sistema com um rosto desumano, compreendi que ao
contrário havia muita necessidade de sacerdotes. Este contraste, ver aquela
cultura anti-humana, confirmou-me na convicção de que o Senhor, o Evangelho, a
fé nos mostravam o caminho justo e que nos devíamos comprometer para que esse
caminho sobrevivesse. Nessa situação, a vocação ao sacerdócio aumentou quase de
modo natural juntamente comigo e sem grandes acontecimentos de conversão. Além
disso, duas coisas me ajudaram neste caminho: já desde jovem, ajudado pelos
meus pais e pelo pároco, descobri a beleza da Liturgia e sempre a amei, porque
sentia que nela está reflectida a beleza divina e se nos abre o céu; o segundo
elemento foi a descoberta da beleza do conhecimento, conhecer Deus, a Sagrada
Escritura, graças à qual é possível introduzir-se naquela grande aventura do
diálogo com Deus que é a Teologia. E assim, foi uma alegria entrar neste
trabalho milenário da Teologia, nesta celebração da Liturgia, na qual Deus está
connosco e festeja juntamente connosco.
Naturalmente não faltaram as dificuldades. Perguntava-me se na realidade eu
tinha a capacidade de viver toda a vida o celibato. Sendo um homem de formação
teórica e não prática, também sabia que não é suficiente amar a Teologia para
ser um bom sacerdote, mas há a necessidade de estar sempre disponível para os
jovens, os idosos, os doentes, os pobres; é preciso ser simples com os simples.
A Teologia é bela, mas também é necessária a simplicidade da palavra e da vida
cristã. E perguntava: serei capaz de viver tudo isto e de não ser unilateral,
só um teólogo, etc.? Mas o Senhor ajudou-me e ajudou-me sobretudo a companhia
dos amigos, de bons sacerdotes e mestres.
Voltando à pergunta, penso que é importante estar atentos aos gestos do Senhor
no nosso caminho. Ele fala-nos através de acontecimentos, de pessoas, de
encontros: é preciso estar atentos a tudo isto. Depois, o segundo ponto, entrar
realmente na amizade de Jesus, numa relação pessoal com Ele e não saber só
através de outros ou dos livros quem é Jesus, mas viver uma relação cada vez
mais aprofundada de amizade pessoal com Jesus, na qual podemos começar a
compreender o que Ele nos pede. E depois, a atenção ao que somos, às nossas
possibilidades: por um lado, ter coragem e, por outro, ser humildes, confiantes
e abertos, com a ajuda dos amigos, da autoridade da Igreja, dos sacerdotes, e
também das famílias: que quer de mim o Senhor? Sem dúvida isto permanece sempre
uma grande aventura, mas a vida só pode ser bem sucedida se tivermos a coragem
da aventura, a confiança de que o Senhor nunca nos deixará sozinhos, que nos
acompanhará e nos ajudará.
5. Santo Padre, chamo-me Giovanni, tenho 17 anos, estudo no Liceu
Científico Tecnológico "Giovanni Giorgi" de Roma e pertenço à Paróquia de Santa
Maria Mãe da Misericórdia.
Peço-lhe que nos ajude a compreender melhor como a revelação bíblica e as
teorias científicas podem convergir na busca da verdade. Muitas vezes somos
tentados a pensar que ciência e fé entre si sejam inimigas; que ciência e
técnica sejam a mesma coisa; que a lógica matemática tenha descoberto tudo; que
o mundo é fruto da casualidade, e que se a matemática não descobriu o teorema
Deus é porque Deus, simplesmente, não existe. Em síntese, sobretudo quando
estudamos, nem sempre é fácil reconduzir tudo a um projecto divino, ínsito na
natureza e na história do Homem. Por vezes, a fé vacila ou reduz-se a simples
acto sentimental. Também eu, Santo Padre, como todos os jovens, tenho fome de
Verdade: mas como posso fazer para harmonizar Ciência e Fé?
O grande Galileu disse que Deus escreveu o livro da natureza na forma da
linguagem matemática. Ele estava convencido de que Deus nos deu dois livros: o
da Sagrada Escritura e o da natureza. E a linguagem da natureza era esta a sua
convicção é a matemática, por conseguinte, ela é linguagem de Deus, do Criador.
Reflictamos agora sobre o que é a matemática: em si é um sistema abstracto, uma
invenção do espírito humano, que como tal na sua pureza não existe. É sempre
realizado aproximativamente, mas como tal é um sistema intelectual, é uma
grande, genial invenção do espírito humano. O que surpreende é que esta invenção
da nossa mente humana é verdadeiramente a chave para compreender a natureza, que
a natureza está realmente estruturada de modo matemático e que a nossa
matemática, inventada pelo nosso espírito, é realmente o instrumento para poder
trabalhar com a natureza, para a pôr ao nosso serviço, para a instrumentalizar
através da técnica.
Parece-me quase incrível que uma invenção do intelecto humano e a estrutura
do universo coincidam: a matemática por nós inventada dá-nos realmente acesso à
natureza do universo e faz com que ele seja utilizado por nós. Portanto, a
estrutura intelectual do sujeito humano e a estrutura objectiva da realidade
coincidem: a razão subjectiva e a razão objectiva na natureza são idênticas.
Penso que esta coincidência entre quanto nós pensámos e como se realiza e se
comporta a natureza, sejam um grande enigma e desafio, porque vemos que, no
final, é "uma" razão que relaciona os dois: a nossa razão não poderia descobrir
essa outra, se na origem das duas não se encontrasse uma razão idêntica.
Neste sentido, tenho a impressão que a matemática na qual Deus, como tal, não
pode aparecer nos mostra a estrutura inteligente do universo. Agora existem
também teorias do caos, mas são limitadas, porque se o caos prevalecesse, toda a
técnica se tornaria impossível. Só porque se pode confiar na nossa matemática,
também se pode confiar na técnica. A nossa ciência, que torna finalmente
possível trabalhar com as energias da natureza, supõe a estrutura confiável,
inteligente da matéria. E desta forma vemos que há uma racionalidade subjectiva
e uma racionalidade objectiva na matéria, que coincidem. Evidentemente agora
ninguém pode provar como se prova na experimentação, nas leis técnicas que as
duas são realmente originadas numa única inteligência, mas parece-me que esta
unidade da inteligência, atrás das duas inteligências, esteja realmente no nosso
mundo. E quanto mais nós podemos instrumentalizar o mundo com a nossa
inteligência, tanto mais sobressai o desígnio da Criação.
Por fim, para chegar à questão definitiva, digo: Deus ou existe ou não
existe. Há apenas duas opções. Ou se reconhece a prioridade da razão, da Razão
criadora que está na origem de tudo e é o princípio de tudo a prioridade da
razão é também prioridade da liberdade ou se defende a prioridade do irracional,
segundo o qual tudo o que acontece na nossa terra e na nossa vida seria apenas
ocasional, marginal, um produto irracional a razão seria um produto da
irracionalidade. Por fim, não se pode "provar" um projecto ou outro, mas a
grande opção do Cristianismo é a opção pela racionalidade e pela prioridade da
razão. Parece-me que esta seja uma óptima opção, que nos mostra como por trás de
tudo haja uma grande Inteligência, na qual podemos confiar.
Mas hoje o verdadeiro problema contra a fé parece ser o mal no mundo:
perguntamos como pode ser ele compatível com esta racionalidade do Criador. E
aqui temos realmente necessidade do Deus que se fez carne e que nos mostra como
Ele não seja apenas uma razão matemática, mas que esta razão originária também é
Amor. Se olharmos para as grandes opções, a opção cristã também é hoje a mais
racional e a mais humana. Por isso, podemos elaborar com confiança uma
filosofia, uma visão do mundo que esteja baseada nesta prioridade da razão,
nesta confiança de que a Razão criadora é amor, e que este amor é Deus.
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