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ENCONTRO DO PAPA BENTO XVI
COM O CLERO DAS DIOCESES
DE BELLUNO-FELTRE E TREVISO

Igreja Santa Justina Mártir
Auronzo di Cadore, 24 de Julho de 2007

P. – Santidade, sou Padre Cláudio e queria formular-lhe uma pergunta acerca da formação da consciência, em particular a respeito das jovens gerações, porque hoje formar uma consciência coerente, uma consciência recta, parece cada vez mais difícil. Troca-se o bem e o mal com o sentir-se bem e o sentir-se mal, o aspecto mais emotivo. Então, queria ter alguns conselhos da sua parte. Obrigado...

R. – Excelências, caros irmãos, antes de tudo gostaria de vos expressar a minha alegria e a minha gratidão por este bonito encontro. Estou grato aos dois Bispos, Sua Excelência D. Andrich e Sua Excelência D. Mazzocato, por este convite. A todos vós que viestes tão numerosos no período de férias, o meu sentido agradecimento. Ver uma igreja cheia de sacerdotes é animador, porque vemos que há sacerdotes. A Igreja vive, embora os problemas cresçam no nosso tempo e precisamente no nosso Ocidente. A Igreja é sempre viva e com sacerdotes que realmente desejam anunciar o Reino de Deus, cresce e resiste a estas complicações, que vemos na nossa situação cultural de hoje. Agora, esta primeira pergunta reflecte um pouco o problema da situação cultural no Ocidente, porque o conceito de consciência nos últimos dois séculos se transformou profundamente. Hoje prevalece a ideia de que racional, que parte da razão, só seria aquilo que é quantificável. As outras coisas, ou seja, as matérias da religião e da moral, não entrariam na razão comum, porque não são verificáveis ou, como se diz, não são falsificáveis na experiência. Nesta situação, onde moral e religião são quase expulsas da razão, o único critério último da moralidade e também da religião é o sujeito, a consciência subjectiva que não conhece outras instâncias. No final, decide somente o sujeito com o seu sentimento, as suas experiências e eventuais critérios que encontrou. Mas assim o sujeito torna-se uma realidade isolada, e assim mudam, como o senhor disse, dia após dia os parâmetros. Na tradição cristã, "consciência" quer dizer com-ciência: ou seja nós, o nosso ser está aberto, pode ouvir a voz do próprio ser, a voz de Deus. Portanto, a voz dos grandes valores está inscrita no nosso ser e a grandeza do homem é precisamente que não está fechado em si, não está reduzido às coisas materiais, quantificáveis, mas tem uma abertura interior para as coisas essenciais, a possibilidade de uma escuta. Na profundidade do nosso ser podemos ouvir não apenas as necessidades do momento, não só as coisas materiais, mas ouvir a voz do próprio Criador e assim conhece-se o que é bem e o que é mal. Mas naturalmente esta capacidade de escuta deve ser educada e desenvolvida. É precisamente este o compromisso do anúncio que nós fazemos na Igreja: desenvolver esta altíssima capacidade doada por Deus ao homem, de ouvir a voz da verdade e assim a voz dos valores. Portanto, diria que um primeiro passo é tornar as pessoas conscientes de que a nossas própria natureza traz em si uma mensagem moral, uma mensagem divina, que deve ser decifrada e que nós gradualmente podemos conhecer melhor, ouvir, se a nossa escuta interior for aberta e desenvolvida. Agora a questão concreta é como fazer esta educação para a escuta, como tornar o homem capaz disto, apesar de toda esta surdez moderna, como fazer com que esta escuta volte, que seja realmente um acontecimento, o Effatá do Baptismo, a abertura dos sentidos interiores. Vendo a situação em que nos encontramos, eu proporia uma combinação entre um caminho laico e um caminho religioso, o caminho da fé. Todos nós vemos hoje que o homem poderia destruir o fundamento da sua existência, a sua terra, e portanto que já não podemos simplesmente fazer com esta nossa terra, com a realidade que nos foi confiada, aquilo que quisermos e quanto parece útil e promissor no momento, mas devemos respeitar as leis interiores da criação, desta terra, aprender estas leis e obedecer também a estas leis, se quisermos sobreviver. Portanto, esta obediência à voz da terra, do ser, é mais importante para a nossa felicidade futura que as vozes do momento, os desejos do momento. Em síntese, este é um primeiro critério para aprender: que o próprio ser, a nossa terra, fala connosco e nós devemos ouvir, se quisermos sobreviver e decifrar esta mensagem da terra. E se temos que ser obedientes à voz da terra, isto vale ainda mais para a voz da vida humana. Não só devemos cuidar da terra, mas devemos respeitar o outro, os outros. Quer o outro na sua singularidade como pessoa, como meu próximo, quer os outros como comunidade que vive no mundo e que deve viver em conjunto. E vemos que somente no respeito absoluto desta criatura de Deus, desta imagem de Deus que é o homem, só no respeito do viver juntos na terra, podemos ir em frente. E aqui chegamos ao ponto que temos necessidade das grandes experiências morais da humanidade, que são experiências nascidas do encontro com o outro, com a humanidade, com a comunidade, a experiência que a liberdade é sempre uma liberdade compartilhada e só pode funcionar se compartilharmos as nossas liberdades no respeito de valores que são comuns para todos. Parece-me que com estes passos se pode fazer ver a necessidade de obedecer à voz do ser, de obedecer à dignidade do outro, de obedecer à necessidade do viver juntos as nossas liberdades como uma liberdade, e por tudo isto conhecer o valor que existe no permitir uma digna comunhão de vida entre os homens. Assim chegamos, como já se disse, às grandes experiências da humanidade, em que se expressa a voz do ser, e sobretudo às experiências desta grande peregrinação histórica do povo de Deus, que teve início com Abraão, em quem encontramos não apenas as experiências humanas fundamentais mas podemos, através destas experiências, ouvir a voz do próprio Criador que nos ama e que falou connosco. Aqui, neste contexto, respeitando as experiências humanas que nos indicam o caminho hoje e amanhã, parece-me que os Dez Mandamentos têm sempre um valor prioritário, em que vemos os grandes indicadores de caminho. Os Dez Mandamentos relidos, revividos à luz de Cristo, à luz da vida da Igreja e das suas experiências, indicam alguns valores fundamentais e essenciais: o quarto e o sexto mandamento em conjunto indicam a importância do nosso corpo, de respeitar as leis do corpo e da sexualidade e do amor, o valor do amor fiel, a família; o quinto mandamento indica o valor da vida e também o valor da vida comum; o sétimo mandamento indica o valor da partilha dos bens da terra e a justa partilha destes bens, a administração da criação de Deus; o oitavo mandamento indica o grande valor da verdade. Se, portanto, no quarto, quinto e sexto mandamentos temos o amor ao próximo, no sétimo temos a verdade. Tudo isto não funciona sem a comunhão com Deus, sem o respeito por Deus e a presença de Deus no mundo. Um mundo onde Deus não existe torna-se de qualquer modo um mundo da arbitrariedade e do egoísmo. Somente se Deus aparece, há luz, há esperança. A nossa vida tem um sentido que não nos compete produzir, mas que nos precede e nos guia. Portanto, neste sentido diria que tomamos juntos os caminhos óbvios que hoje também a consciência laica pode facilmente ver, e procuramos assim orientar para as vozes mais profundas, para a verdadeira voz da consciência, que se comunica na grande tradição da oração, da vida moral da Igreja. Assim, num caminho de educação paciente podemos, talvez, todos aprender a viver e a encontrar a vida verdadeira.

P. – Sou Padre Mauro. Santidade, no cumprimento do nosso ministério pastoral, somos cada vez mais sobrecarregados por muitas incumbências. Aumentam os compromissos de gestão administrativa das paróquias, de organização pastoral e de acolhimento das pessoas em situações difíceis. Pergunto-lhe com que prioridades orientar hoje o nosso ministério de sacerdotes e de párocos, para evitar por um lado a fragmentariedade e, por outro, a dispersão? Obrigado.

R. – É uma questão muito realista, é verdade. Também eu conheço um pouco este problema, com muitas documentações que chegam todos os dias, com muitas audiências necessárias, com muitas coisas para fazer. Todavia, é preciso encontrar as justas prioridades e não esquecer o essencial: o anúncio do Reino de Deus. Ouvindo esta pergunta, veio-a à mente o Evangelho de há duas semanas, sobre a missão dos setenta discípulos. Para esta primeira grande missão que Jesus faz realizar, a estes setenta discípulos o Senhor dá três imperativos, que me parecem expressar também hoje substancialmente as grandes prioridades do trabalho de um discípulo de Cristo, de um sacerdote. Os três imperativos são: rezai, curai e anunciai. Penso que devemos encontrar o equilíbrio entre estes três imperativos essenciais, tê-los sempre presentes como centro do nosso trabalho. Rezai: ou seja, sem uma relação pessoal com Deus, o resto não pode funcionar, porque não podemos realmente levar Deus e a realidade divina e a verdadeira vida humana às pessoas, se nós mesmos não vivermos numa profunda e verdadeira relação de amizade com Deus, em Jesus Cristo. Daqui a celebração, todos os dias, da Sagrada Eucaristia como encontro fundamental, onde o Senhor fala comigo e eu com o Senhor, que se doa nas minhas mãos. Sem a oração das Horas, em que entramos na grande oração de todo o Povo de Deus, a começar pelos Salmos do antigo povo renovado na fé da Igreja, e sem a oração pessoal não podemos ser bons sacerdotes, porque se perde a substância do nosso ministério. Portanto, ser um homem de Deus, no sentido de um homem em amizade com Cristo e com os seus santos é o primeiro imperativo. Depois, há o segundo. Jesus disse: curai os enfermos, os dispersos, os necessitados. É o amor da Igreja pelos marginalizados, por quem sofre. Também as pessoas ricas podem ser interiormente marginalizadas e sofrer. "Curar" refere-se a todas as necessidades humanas, que são sempre carências que vão em profundidade rumo a Deus. Portanto, como se diz, é necessário conhecer as ovelhas, ter relacionamentos humanos com as pessoas que nos foram confiadas, ter um contacto humano e não perder a humanidade, porque Deus se fez homem e assim confirmou todas as dimensões do nosso ser humano. Mas como mencionei, o humano e o divino caminham sempre juntos. A este "curar" nas suas múltiplas formas pertence, parece-me, também o ministério sacramental. O ministério da reconciliação é um acto de cura extraordinário, do qual o homem tem necessidade para ser sadio até ao fundo. Portanto, estes cuidados sacramentais, a começar pelo Baptismo, que é a renovação fundamental da nossa existência, passando ao Sacramento da reconciliação e à unção dos enfermos. Naturalmente, em todos os outros Sacramentos, também na Eucaristia, há um grande cuidado das almas. Temos que cuidar dos corpos, mas sobretudo este é o nosso mandato das almas. Devemos pensar nas numerosas doenças, nas necessidades morais e espirituais que hoje existem e que devemos enfrentar, orientando as pessoas para o encontro com Cristo no sacramento, ajudando-as a descobrir a oração, a meditação, o estar na Igreja silenciosamente com esta presença de Deus. E depois, anunciar. O que é que nós anunciamos? Anunciamos o Reino de Deus. Mas o Reino de Deus não é uma utopia distante de um mundo melhor, que talvez se realize daqui a cinquenta anos, ou quem sabe quando. O Reino de Deus é o próprio Deus, Deus que se aproximou e se tornou extremamente próximo em Cristo. Este é o Reino de Deus: o próprio Deus está próximo e nós temos que nos aproximar deste Deus que é próximo, porque se fez homem, permanece homem e está sempre connosco na sua Palavra, na Santíssima Eucaristia e em todos os fiéis. Portanto, anunciar o Reino de Deus quer dizer falar de Deus hoje, tornar presente a Palavra de Deus, o Evangelho que é presença de Deus e, naturalmente, tornar presente o Deus que se fez presente na Sagrada Eucaristia. No entrelaçamento destas três prioridades e, naturalmente, tendo em consideração todos os aspectos humanos, os nossos limites que temos de reconhecer, podemos realizar bem o nosso sacerdócio. É importante também esta humildade, que reconhece os limites das nossas forças. Aquilo que não podemos fazer, é o Senhor que o deve fazer. E também a capacidade de delegar, de colaborar. Tudo isto, sempre com os imperativos fundamentais do rezar, curar e anunciar.

P. – Chamo-me Padre Daniele. Santidade, o Véneto é terra de forte imigração, com a presença consistente de pessoas não cristãs. Tal situação põe as nossas dioceses diante de uma nova tarefa de evangelização no seu interior. Porém, subsiste um certo cansaço, porque temos que conciliar as exigências do anúncio do Evangelho com as de um diálogo respeitoso pelas outras religiões. Que indicações pastorais poderia oferecer? Obrigado.

R. – Naturalmente, vós estais mais próximos desta situação. E neste sentido talvez não posso dar muitos conselhos práticos, mas posso dizer que em todas as visitas ad Limina, quer dos Bispos asiáticos, africanos, latino-americanos, quer de toda a Itália, estou sempre diante destas situações. Já não existe um mundo uniforme. Sobretudo no nosso Ocidente estão presentes todos os outros continentes, as demais religiões, os outros modos de levar a vida humana. Vivemos um encontro permanente, que talvez nos assemelhe à Igreja antiga, onde se vivia a mesma situação. Os cristãos eram uma ínfima minoria, um grão de mostarda que começava a crescer, circundado por religiões e condições de vida muito diversas. Portanto, temos que voltar a aprender quanto viveram os cristãos das primeiras gerações. São Pedro na sua primeira Carta, no terceiro capítulo disse: "Deveis estar sempre prontos a responder a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança". Assim ele formulou para o homem normal daquele tempo, para o cristão normal, a necessidade de unir o anúncio e o diálogo. Não disse formalmente: "Anunciai o Evangelho a todos". Disse: "Deveis ser capazes, prontos a responder a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança". Parece-me que esta é a síntese necessária entre diálogo e anúncio. O primeiro ponto é que em nós mesmos deve estar sempre presente a razão da nossa esperança. Devemos ser pessoas que vivem a fé, que pensam a fé e que a conhecem interiormente. Assim em nós mesmos a fé torna-se razão, torna-se razoável. A meditação do Evangelho e aqui o anúncio, a homilia, a catequese, para tornar as pessoas capazes de pensar a fé, já são elementos fundamentais nesta união entre diálogo e anúncio. Nós mesmos devemos pensar a fé, viver a fé e como sacerdotes encontrar diversos modos para a tornar presente, de tal maneira que os nossos católicos cristãos possam encontrar a convicção, a prontidão e a capacidade de explicar a razão da sua fé. Este anúncio que transmite a fé na consciência de hoje deve ter múltiplas formas. Sem dúvida, homilia e catequese são duas formas principais, mas depois existem muitos modos para se encontrar seminários da fé, movimentos laicais, etc. onde se fala da fé e se aprende a fé. Tudo isto nos torna capazes, antes de tudo, de viver realmente como próximos dos não-cristãos de modo predominante, aqui são cristãos ortodoxos, protestantes e depois também representantes de outras religiões, muçulmanos e outros. O primeiro aspecto é viver com eles, reconhecendo com eles o próximo, o nosso próximo. Portanto, viver em primeira linha o amor ao próximo como expressão da nossa fé. Penso que este é já um testemunho muito forte, e também uma forma de anúncio: viver realmente com outros o amor ao próximo, reconhecer nestes, neles, o nosso próximo, para que eles possam ver: este "amor ao próximo" é para mim. Se isto acontecer, poderemos apresentar mais facilmente a fonte deste nosso comportamento, ou seja, que o amor ao próximo é expressão da nossa fé. Assim, no diálogo não se pode passar imediatamente aos grandes mistérios da fé, embora os muçulmanos tenham um certo conhecimento de Cristo, que nega a sua divindade mas reconhece nele pelo menos um grande profeta. Têm amor por Nossa Senhora. Portanto, existem elementos comuns também na fé, que são pontos de partida para o diálogo. Algo prático, realizável e necessário é sobretudo buscar o entendimento fundamental sobre os valores para viver. Também aqui temos um tesouro comum, porque eles vêm da religião abramítica, reinterpretada e revivida de modos que devem ser estudados, aos quais enfim devemos responder. Mas a grande experiência substancial, a dos Dez Mandamentos, está presente e este parece-me o ponto a ser aprofundado. Passar aos grandes mistérios parece-me um nível não fácil, que não se realiza nos grandes encontros. A semente deve, talvez, entrar no coração para que assim a resposta da fé em diálogos mais específicos possa amadurecer aqui e ali. Mas o que podemos e devemos fazer é buscar o consenso sobre os valores fundamentais, expressos nos Dez Mandamentos, resumidos no amor ao próximo e no amor a Deus, e assim interpretáveis nos diversos sectores da vida. Pelo menos estamos num caminho comum rumo ao Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus que é finalmente o Deus com um rosto humano, o Deus presente em Jesus Cristo. Mas se este último passo deve dar-se sobretudo em encontros íntimos, pessoais ou de pequenos grupos, o caminho rumo a este Deus, do qual provêm estes valores que tornam possível a vida comum, parece-me que isto seja realizável também em encontros maiores. Portanto, parece-me que se realiza uma forma de anúncio humilde, paciente, que aguarda, mas também que já torna concreto o nosso viver segundo a consciência iluminada por Deus.

P. – Sou Padre Samuele. Acolhemos o seu convite a rezar, a curar e a anunciar. Já nos permitimos tomá-lo a sério, ao dedicar atenção à sua pessoa e numa manifestação de afecto trouxemos-lhe algumas garrafas de bom vinho da nossa terra, que lhe entregaremos pelas mãos do nosso bispo. Faço a pergunta. Assistimos cada vez mais a um grande aumento de situações de pessoas divorciadas que voltam a casar, convivem e para a sua vida espiritual pedem ajuda a nós, sacerdotes. São pessoas que muitas vezes trazem consigo o difícil pedido de aceder aos sacramentos. São realidades que exigem de nós um confronto e também uma partilha dos sofrimentos que elas causam. Pergunto-lhe, Santo Padre, com que atitudes humanas, espirituais e pastorais poder unir misericórdia e verdade. Obrigado.

R. – Sim, é um problema doloroso e certamente não existe a receita simples, que o resolva. Todos sofremos deste problema, porque todos nós temos perto pessoas nestas situações e sabemos que para eles é uma dor e um sofrimento, porque desejam estar em plena comunhão com a Igreja. Este vínculo do matrimónio precedente é um vínculo que reduz a sua participação na vida da Igreja. Que fazer? Diria: um primeiro ponto seria naturalmente a prevenção, na medida do possível. Portanto, a preparação para o matrimónio torna-se cada vez mais fundamental e necessária. O Direito Canónico supõe que o homem como tal, mesmo sem grande instrução, tencione realizar um matrimónio segundo a natureza humana, como está indicado nos primeiros capítulos do Génesis. É homem, tem a natureza humana e portanto sabe o que é o matrimónio. Tenciona fazer quando lhe diz a natureza humana. O Direito Canónico parte deste pressuposto. É algo que se impõe: o homem é homem, a natureza é aquela e diz-lhe isto. Mas hoje este axioma segundo o qual o homem tenciona fazer quanto está na sua natureza, um matrimónio único, fiel, transforma-se num axioma um pouco diferente. "Volunt contrahere matrimonium sicut ceteri homines". Já não é simplesmente a natureza que fala, mas os "ceteri homines", como todos fazem. E quanto todos fazem hoje não é mais simplesmente o matrimónio natural, segundo o Criador, segundo a criação. Aquilo que os "ceteri homines" fazem é casar com a ideia de que um dia o matrimónio possa falhar e assim se possa passar a outro, a um terceiro e a um quarto matrimónio. Este modelo "como todos fazem" torna-se um modelo em contraste com quanto diz a natureza. Assim torna-se normal casar, divorciar e voltar a casar, e ninguém pensa que é algo que vai contra a natureza humana ou, seja como for, dificilmente se encontra alguém que pensa assim. Por isso, para ajudar a chegar realmente ao matrimónio, não somente no sentido da Igreja, mas do Criador, devemos reparar a capacidade de ouvir a natureza. Voltemos à primeira questão, à primeira pergunta. Redescobrir por detrás daquilo que todos fazem, quanto nos diz a própria natureza, que fala de modo diverso deste hábito moderno. Com efeito, convida-nos ao matrimónio vitalício, numa fidelidade vitalícia, mesmo com os sofrimentos de crescer juntos no amor. Portanto, estes cursos preparatórios para o matrimónio deveriam ser um reparar a voz da natureza, do Criador em nós, redescobrir por detrás daquilo que todos fazem os "ceteri homines", quanto nos diz intimamente o nosso próprio ser. Nesta situação, portanto, entre aquilo que todos fazem e quanto diz o nosso ser, os cursos preparatórios devem ser um caminho de redescoberta, para voltar a aprender quanto o nosso ser nos diz, ajudar a chegar a uma verdadeira decisão para o matrimónio segundo o Criador e segundo o Redentor. Portanto, estes cursos preparatórios para "aprender-se a si mesmo", para aprender a verdadeira vontade matrimonial, são de grande importância. Mas não basta a preparação; as grandes crises vêm depois. Portanto, um acompanhamento permanente, pelo menos nos primeiros dez anos, é muito importante. Por isso na paróquia é necessário cuidar não somente dos cursos de preparação, mas da comunhão no caminho sucessivo, do acompanhamento e da ajuda recíproca. Que os sacerdotes, mas não só, também as famílias que já fizeram estas experiências, que conhecem estes sofrimentos, estas tentações, estejam presentes nos momentos de crise. É importante a presença de uma rede de famílias que se ajudem e diversos movimentos podem oferecer uma grande contribuição. A primeira parte da minha resposta vê a prevenção, não apenas no sentido de preparar, mas de acompanhar, a presença de uma rede de famílias que ajude esta situação moderna, onde tudo fala contra a fidelidade vitalícia. É preciso ajudar a encontrar, a aprender também com o sofrimento, esta fidelidade. Todavia, em caso de fracasso, ou seja, que os esposos não se mostrem capazes de perseverar na primeira vontade, há sempre a questão se realmente era uma vontade, no sentido do sacramento. E portanto, eventualmente há também o processo para a declaração de nulidade. Se era um matrimónio verdadeiro, e portanto não podem voltar a casar, a presença permanente da Igreja ajuda estas pessoas a suportarem mais um sofrimento. No primeiro caso, temos o sofrimento de superar esta crise, de aprender uma fidelidade difícil e madura. No segundo caso, temos o sofrimento de estar num vínculo novo, que não é o sacramental e que portanto não permite a comunhão plena nos sacramentos da Igreja. Aqui, seria útil ensinar e aprender a viver com este sofrimento. Nesta altura, voltaremos à primeira pergunta da outra diocese. De maneira geral na nossa geração, na nossa cultura, devemos redescobrir o valor do sofrimento, aprender que o sofrimento pode ser uma realidade muito positiva, que nos ajuda a amadurecer, a tornarmo-nos mais nós mesmos, mais próximos do Senhor, que sofreu por nós e sofre connosco. Portanto, também nesta segunda situação a presença do sacerdote, das famílias e dos movimentos, a comunhão pessoal e comunitária nestas situações, a ajuda do amor ao próximo, um amor muito específico, é de enorme importância. E penso que somente este amor sentido da Igreja, que se realiza num acompanhamento múltiplo, pode ajudar estas pessoas a reconhecerem-se amadas por Cristo, membros da Igreja, mesmo numa situação difícil, e assim a viverem a fé.

P. – Santidade, chamo-me Padre Saverio e portanto a pergunta certamente diz respeito às missões. Este ano celebra-se o 50º aniversário da Encíclica Fidei donum. Acolhendo o convite do Papa, muitos sacerdotes inclusive da nossa diocese, e eu também, viveram, vivemos, e estão a viver a experiência da missão ad gentes. Sem dúvida, esta experiência é extraordinária e, na minha modesta opinião poderiam vivê-la muitos sacerdotes, na óptica do intercâmbio entre Igrejas irmãs. Porém, considerando a redução numérica dos sacerdotes nos nossos países, como a indicação da Encíclica é actual ainda hoje, e com que espírito acolhê-la e vivê-la, tanto por parte dos sacerdotes enviados, como de toda a diocese? Obrigado.

R. – Obrigado. Antes de tudo, gostaria de dizer obrigado a todos estes sacerdotes fidei donum e às dioceses. Como já mencionei, agora recebi muitas visitas ad Limina, tanto dos Bispos da Ásia, como da África e da América Latina, e todos me perguntam: "Temos muita necessidade de sacerdotes fidei donum e estamos imensamente gratos pelo trabalho que fazem, tornando presente em situações frequentemente muito difíceis, a catolicidade da Igreja, a visibilidade do facto que somos uma grande comunhão, universal, e existe um amor ao próximo distante, que se torna próximo na situação do sacerdote fidei donum. Este grande dom, que realmente foi realizado nestes cinquenta anos, senti-o e vi-o quase de modo palpável em todos os meus diálogos com os sacerdotes, que nos dizem: "Não penseis que nós, Africanos, agora somos simplesmente auto-suficientes; temos sempre necessidade da visibilidade da grande comunhão da Igreja universal". Diria que todos nós temos necessidade desta visibilidade de ser católicos, de um amor ao próximo que chega de longe e assim encontra o próximo. Hoje, a situação mudou no sentido de que também nós na Europa recebemos sacerdotes provenientes da África, da América Latina, de outras partes da própria Europa, e isto permite-nos ver a beleza deste intercâmbio de dons, desta dádiva recíproca, porque todos temos necessidade de todos: precisamente assim cresce o Corpo de Cristo. Para resumir, gostaria de dizer que este era e é um grande dom, sentido como tal na Igreja: em muitas situações, que agora não posso descrever, em que existem problemas sociais, problemas de desenvolvimento, problemas de anúncio da fé, problemas de isolamento, de necessidade da presença de outros, estes sacerdotes são um dom no qual as dioceses e as Igrejas particulares reconhecem a presença de Cristo que se entrega por nós e, ao mesmo tempo, reconhecem que a Comunhão eucarística não é apenas comunhão sobrenatural, mas que se torna comunhão concreta neste doar-se de sacerdotes diocesanos, que se fazem presentes em outras dioceses e que assim a rede das Igrejas particulares se torna realmente uma rede de amor. Obrigado a todos aqueles que ofereceram este dom. Posso somente encorajar os Bispos e os sacerdotes a darem continuidade a este dom. Sei que agora, com a falta de vocações, na Europa se torna cada vez mais difícil fazer esta dádiva; mas já temos a experiência que outros continentes, como a Índia e sobretudo a África, também da sua parte nos oferecem sacerdotes. A reciprocidade permanece muito importante, e precisamente a experiência de que somos Igreja enviada ao mundo e que todos conhecem todos e se amam a todos é muito necessária, e é também a força do anúncio. Assim torna-se visível que o grão de mostarda dá fruto e se torna sempre e de novo uma árvore frondosa onde os pássaros do céu encontram descanso. Obrigado e ânimo!

P. – Padre Alberto. Santo Padre, os jovens são o nosso futuro e a nossa esperança: mas por vezes, vêem a vida não como uma oportunidade, mas como uma dificuldade; não um dom para si e para os outros, mas algo para consumir imediatamente; não um projecto para construir, mas um vaguear sem meta. A mentalidade de hoje impõe que os jovens sejam sempre felizes e perfeitos, com a consequência de que qualquer pequena falência e dificuldade já não é vista como motivo de crescimento, mas como uma derrota. Tudo isto os leva com frequência a gestos irremediáveis como o suicídio, que provocam uma dilaceração no coração de quantos os amam e de toda a sociedade. Que nos pode dizer a nós, educadores que, com frequência, nos sentimos na impossibilidade de agir e sem respostas? Obrigado.

R. – Parece-me que Vossa Reverência fez uma descrição clara de uma vida na qual Deus não existe. Num primeiro momento parece que não há necessidade de Deus, ou até que sem Deus seríamos mais livres e o mundo seria mais amplo. Mas depois de um certo tempo, nas nossas novas gerações, vê-se o que acontece quando Deus desaparece. Como disse Nietzsche, "A grande luz apagou-se, o sol apagou-se". Então a vida é ocasional, torna-se uma coisa e devo procurar fazer o melhor com ela e usar a vida como se fosse algo para uma felicidade imediata, palpável e realizável. Mas o grande problema é que se Deus não existe e não é o Criador também da minha vida, na realidade a vida é uma simples parte da evolução, e nada mais, em si não tem sentido. Mas ao contrário, eu devo procurar dar sentido a esta parte de vida. Vejo actualmente na Alemanha, mas também nos Estados Unidos, um debate bastante aceso entre o chamado reaccionismo e o evolucionismo, apresentados como se fossem alternativas que se excluem: quem crê no Criador não poderia pensar na evolução e quem, ao contrário, afirma a evolução deveria excluir Deus. Esta contraposição é um absurdo, porque por um lado há tantas provas científicas a favor de uma evolução que aparece como uma realidade que devemos ver e que enriquece o nosso conhecimento da vida e do ser como tal. Mas a doutrina da evolução não responde a todas estas questões e sobretudo não responde à grande questão filosófica: de onde provém tudo? E como o tudo empreende um caminho que finalmente chega ao homem? Parece-me muito importante, também em Regensburg pretendia dizer isto na minha lição, que a razão se abra mais, sim, que veja estes dados, mas que veja também que não são suficientes para explicar toda a realidade. Não é suficiente, a nossa razão é mais ampla e pode ver também que a nossa razão no fundo não é algo de irracional, um produto da irracionalidade, mas que a razão precede tudo, a razão criadora, e que nós somos realmente o reflexo da razão criadora. Somos pensados e queridos e, portanto, há uma ideia que me precede, um sentido que me precede e que devo descobrir, seguir e que dá finalmente significado à minha vida. Parece-me que este é o primeiro ponto: descobrir que realmente o meu ser é racional, é pensado, tem um sentido e a minha grande missão é descobrir este sentido, vivê-lo e dar assim um novo elemento à grande harmonia cósmica pensada pelo Criador. Se é assim, então também os elementos de dificuldade se tornam momentos de maturidade, de processo e de progresso do meu próprio ser, que tem sentido desde a sua concepção até ao último momento de vida. Podemos conhecer esta realidade do sentido precedente a todos nós, podemos também redescobrir o sentido do sofrimento e da dor; certamente há um sofrimento que devemos evitar e que devemos afastar do mundo: tantas dores inúteis, provocadas pelas ditaduras, pelos sistemas errados, pelo ódio e pela violência. Mas na dor há também um sentido profundo e só se pudermos dar sentido à dor e ao sofrimento a nossa vida pode amadurecer. Mas sobretudo, diria que não é possível o amor sem a dor, porque o amor implica sempre uma renúncia a mim, um deixar-me, um aceitar o outro na sua alteridade, implica uma doação de mim e, portanto, um sair de mim próprio. Tudo isto é dor, sofrimento, mas precisamente neste sofrimento do perder-me pelo outro, pelo amado, e portanto por Deus, me torno grande e a minha vida encontra o amor e no amor o seu sentido. Também a inseparabilidade de amor e dor, de amor e Deus são elementos que devem entrar na consciência moderna para nos ajudar a viver. Neste sentido diria que é importante fazer com que os jovens descubram Deus, com que descubram o amor verdadeiro que precisamente na renúncia se torna grande e, assim, fazer com que descubram também a bondade interior do sofrimento, que me torna mais livre e maior. Naturalmente para ajudar os jovens a encontrar estes elementos há sempre necessidade de companhia e de caminho, que seja a paróquia ou a Acção Católica ou um Movimento, só em companhia com os outros podemos também descobrir nas novas gerações esta grande dimensão do nosso ser.

P. – Sou Padro Francesco. Santo Padre, ficou gravada em mim uma frase que escreveu no seu livro "Jesus de Nazaré": "Mas que trouxe verdadeiramente Jesus, se não trouxe a paz ao mundo, o bem-estar para todos, um mundo melhor? O que trouxe? A resposta é muito simples: "Deus. Trouxe Deus"". Até aqui a citação que é para mim muito clara e desarmante. Mas pergunto: fala-se de nova evangelização, de novo anúncio do Evangelho esta foi também a opção principal do Sínodo da nossa diocese de Belluno-Feltre mas que fazer para que este Deus, única riqueza trazida por Jesus e que com frequência a muitos parece estar envolvido em nevoeiro, ainda possa resplandecer entre as nossas casas e ser água que sacia também quantos parecem não terem mais sede? Obrigado.

R. – Obrigado. É uma pergunta fundamental. A pergunta fundamental do nosso trabalho pastoral é como levar Deus ao mundo, aos nossos contemporâneos. Evidentemente este levar Deus é uma coisa multidimensional: já no anúncio, na vida e na morte de Jesus, vemos como se desenvolve em tantas dimensões este Único. Parece-me que devemos ter sempre em consideração duas coisas: por um lado o anúncio cristão, o cristianismo não é um complicadíssimo conjunto de tantos dogmas, que ninguém pode conhecer todos; não é algo só para académicos, que podem estudar estas coisas, mas é simples: Deus existe e está perto em Jesus Cristo. O próprio Jesus Cristo disse assim, resumindo, chegou o Reino de Deus. É isto que anunciamos. No fundo, uma coisa simples. Todas as dimensões que depois se mostram são dimensões da única coisa e nem todos devem conhecer tudo, mas certamente devem entrar no íntimo e no essencial, assim abrem-se com uma alegria sempre crescente também as diversas dimensões. Mas agora como fazer concretamente? Parece-me que, falando do trabalho pastoral hoje, já mencionámos os seus pontos fundamentais. Mas para continuar neste sentido, levar Deus implica sobretudo, por um lado, o amor e, por outro, a esperança e a fé. Portanto a dimensão da vida vivida, o melhor testemunho de Cristo, o melhor anúncio é sempre a vida de verdadeiros cristãos. Se vemos famílias alimentadas pela fé como vivem na alegria, como vivem também o sofrimento numa alegria profunda e fundamental, como ajudam os outros, amando Deus e o próximo, parece-me que este é hoje o anúncio mais belo. Também para mim o anúncio mais confortador é sempre o de ver as famílias católicas ou as personalidades católicas que estão imbuídas de fé: neles resplandece realmente a presença de Deus e chega esta "água viva" da qual Vossa Reverência falou. Portanto o anúncio fundamental é precisamente o da própria vida dos cristãos. Naturalmente há depois o anúncio da Palavra. Devemos fazer tudo para que a Palavra seja ouvida, conhecida. Hoje há muitas escolas da Palavra e do diálogo com Deus na Sagrada Escritura, diálogo que se torna necessariamente também oração, porque um estudo meramente teórico da Sagrada Escritura é uma escuta só intelectual e não seria um encontro verdadeiro e suficiente com a Palavra de Deus. Se é verdade que na Escritura e na Palavra de Deus é o Senhor Deus Vivo que fala connosco, provoca a resposta e a oração, então as escolas da Escritura devem ser também escolas da oração, do diálogo com Deus, do aproximar-se intimamente de Deus. Portanto, todo o anúncio. Depois diria naturalmente os Sacramentos. Com Deus vêm sempre também todos os Santos. É importante a Sagrada Escritura diz-nos isto desde o início Deus nunca vem sozinho, mas sempre acompanhado e circundado pelos Anjos e pelos Santos. No grande vitral de São Pedro que representa o Espírito Santo agrada-me muito o facto de Deus estar circundado por uma multidão de anjos e de seres vivos, que são expressão e emanação por assim dizer do amor de Deus. Com Deus, com Cristo, com o homem que é Deus e com Deus que é homem, chega Nossa Senhora. Isto é muito importante. Deus, o Senhor, tem uma Mãe e na Mãe reconhecemos realmente a bondade materna de Deus. Nossa Senhora, a Mãe de Deus, é o auxílio dos cristãos, é o nosso conforto permanente, é a nossa grande ajuda. Vejo isto também no diálogo com os Bispos do mundo, da África e ultimamente da América Latina, que o amor a Nossa Senhora é a grande força da catolicidade. Em Nossa Senhora reconhecemos toda a ternura de Deus e, portanto, cultivar e viver este amor jubiloso de Nossa Senhora, de Maria, é um dom muito grande da catolicidade. E depois há os Santos, cada lugar tem o seu Santo. E é bom assim, porque assim vemos as numerosas cores da única luz de Deus e do seu amor, que se aproxima de nós. Descobrir os santos na sua beleza, no seu aproximar-se de mim na Palavra inexaurível de Deus. E depois todos os aspectos da vida paroquial, também os humanos. Não devemos estar sempre nas nuvens, nas nuvens altíssimas do Mistério, devemos estar também com os pés firmes e viver juntos a alegria de ser uma grande família: a pequena grande família da Igreja universal. Em Roma posso ver tudo isto, posso ver como pessoas provenientes de todas as partes da terra e que não se conhecem, na realidade se conhecem, porque todos fazem parte da família de Deus, estão próximos porque têm tudo: o amor do Senhor, o amor de Nossa Senhora, o amor dos Santos, a sucessão apostólica e o sucessor de Pedro, os Bispos. Diria que esta alegria da catolicidade, com as suas numerosas cores, é também a alegria da beleza. Temos aqui a beleza de um lindo órgão; a beleza de uma lindíssima igreja, a beleza que cresceu na Igreja. Parece-me um maravilhoso testemunho da presença e da verdade de Deus. A Verdade expressa-se na beleza e devemos estar gratos por esta beleza e procurar fazer o possível para que permaneça presente, se desenvolva e ainda cresça. Assim parece-me que Deus chega, de modo muito concreto, ao nosso meio.

P. – Sou Padre Lorenzo, pároco. Santo Padre, os fiéis esperam dos sacerdotes apenas uma coisa: que sejam especialistas na promoção do encontro do homem com Deus. Não são palavras minhas, mas de Vossa Santidade num pronunciamento ao clero. O meu padre espiritual no Seminário, durante aqueles cansativos encontros de direcção espiritual, dizia-me: "Lorenzino, humanamente tudo bem, mas..." e quando dizia "mas" pretendia dizer que me agradava mais jogar à bola que fazer a adoração eucarística. E que isto não fazia bem à minha vocação, que não era bom contestar as lições de moral e de direito, porque os professores sabiam mais do que eu. E com aquele "mas" não se sabe que mais queria dizer. Agora penso que está no céu e contudo rezo por ele alguns requiens. Não obstante tudo isto, sou sacerdote há 34 anos e por isto sinto-me feliz: não fiz milagres, mas nem sequer complicações conhecidas, desconhecidas talvez. "Humanamente tudo bem", é para mim um grande elogio. Mas aproximar o homem a Deus e Deus ao homem não passa sobretudo através de quanto chamamos humanidade que é irrenunciável, também para nós, sacerdotes?

R. – Obrigado. A quanto disse no final, eu diria simplesmente sim. O catolicismo, um pouco simplistamente, foi sempre considerado a religião do grande et et: não de grandes exclusivismos, mas da síntese. Católico significa precisamente "síntese". Por isso eu seria contra a alternativa jogar à bola ou estudar a Sagrada Escritura ou o Direito Canónico. Façamos as duas coisas. É belo praticar um desporto, eu não sou desportivo, mas gostava muito de ir à montanha quando era mais jovem, agora faço só caminhadas muito fáceis, mas é muito agradável para mim caminhar nesta bela terra que o Senhor nos concedeu. Portanto, não podemos viver sempre na meditação alta, talvez um Santo no último degrau do seu caminho terrestre possa chegar a este ponto, mas normalmente vivemos com os pés por terra e com os olhos voltados para o céu. As duas coisas são-nos dadas pelo Senhor e portanto amar as coisas humanas, amar as belezas da sua terra não só é muito humano, mas é também muito cristão e precisamente católico. Diria que também este aspecto parece-me que já o mencionei acima pertence a uma pastoral boa e realmente católica: viver no et et; viver a humanidade e o humanismo do homem, todos os dons que o Senhor nos concedeu e que temos desenvolvido e, ao mesmo tempo, não esquecer Deus, porque no final a luz grande vem de Deus e só d'Ele vem depois a luz que dá alegria a todos estes aspectos das coisas que existem. Portanto, gostaria simplesmente de me comprometer pela grande síntese católica, por este "et et"; ser verdadeiramente homem e cada um segundo os seus dons e o seu carisma ame a terra e as coisas belas que o Senhor nos deu, mas ser também gratos porque na terra resplandece a luz de Deus, que dá esplendor e beleza a tudo. Neste sentido, vivamos jubilosamente a catolicidade. Esta seria a minha resposta.

P. – Chamo-me Padre Arnaldo. Santo Padre, as exigências pastorais e de ministério, além do diminuído número de sacerdotes, solicitam os nossos bispos a rever a distribuição do clero, muitas vezes acumulando compromissos e mais que uma paróquia na mesma pessoa. Isto toca a sensibilidade de muitas comunidades de baptizados e a nossa disponibilidade, como sacerdotes, a viver juntos sacerdotes e leigos o ministério pastoral. Como viver esta mudança de organização pastoral, privilegiando a espiritualidade do bom Pastor? Obrigado, Santidade...

R. – Sim, voltemos a esta questão das prioridades pastorais e como ser pároco hoje. Há pouco tempo, um Bispo francês, que era religioso e portanto nunca foi pároco, disse-me: "Santo Padre, gostaria que Vossa Santidade me esclarecesse o que é um pároco. Nós na França temos estas grandes unidades pastorais com 5-6-7 paróquias e o pároco torna-se um coordenador de organismos, de diversos trabalhos", mas tinha a impressão de que, estando tão ocupado com a coordenação destas diversas unidades com as quais está comprometido, já não tivesse a possibilidade do encontro pessoal com as suas ovelhas e, sendo Bispo e portanto um grande pároco, perguntava se este sistema é justo ou se não devemos encontrar uma possibilidade para que o pároco seja realmente pároco e portanto pastor do seu rebanho. Naturalmente não podia dar uma receita imediata para resolver esta situação da França, mas o problema apresenta-se em geral, que o pároco não obstante novas situações e novas formas de responsabilidade não perca o contacto com o povo, ser realmente em pessoa o pastor deste rebanho que lhe foi confiado pelo Senhor. As situações são diversas: penso nos Bispos nas suas dioceses com situações muito diversas; eles devem ver bem como garantir que o pároco permaneça pastor e não se torne um burocrata sagrado. Contudo, parece-me que uma primeira oportunidade na qual podemos estar presentes para as pessoas que nos foram confiadas é precisamente a vida sacramental: na Eucaristia estamos juntos e podemos e devemos encontrar-nos; o Sacramento da penitência e da reconciliação é um encontro muito pessoal; assim como também o Baptismo que é um encontro pessoal e não só o momento da conferência do Sacramento. Diria que todos estes Sacramentos têm um contexto: baptizar significa antes de tudo catequizar um pouco esta jovem família, falar com ela para que o Baptismo seja também um encontro pessoal e uma ocasião para uma catequese muito concreta. Também a preparação para a Primeira Comunhão, para a Confirmação e para o Matrimónio são sempre ocasiões onde realmente o pároco, o sacerdote, encontra individualmente as pessoas; é pregador e administrador dos Sacramentos num sentido que implica sempre a dimensão humana. O Sacramento nunca é apenas um acto ritual, mas o acto ritual e sacramental é a condensação de um contexto humano no qual o sacerdote, o pároco, se move. Depois parece-me muito importante encontrar sistemas justos de delegação. Não é justo que o pároco deva fazer só a coordenação de organismos; ele deve antes delegar de modos diversos e certamente nos Sínodos e tivestes na vossa diocese um Sínodo encontra-se o modo para poder libertar o pároco de modo suficiente, para que por um lado conserve a responsabilidade desta totalidade da unidade pastoral que lhe foi confiada, mas não se reduza substancialmente e sobretudo a um burocrata que coordena, a alguém que detém as orientações essenciais, e que tem colaboradores. Parece-me que este é um dos resultados importantes e positivos do Concílio: a co-responsabilidade de toda a paróquia: já não é apenas o pároco que deve vivificar tudo, mas, dado que todos estamos na paróquia, devemos colaborar todos e ajudar, para que o pároco não permaneça isolado como coordenador, mas se encontre realmente como pastor apoiado nestes trabalhos comuns nos quais, em conjunto, se realiza e se vive a paróquia. Portanto diria que por um lado esta coordenação e responsabilidade vital de toda a paróquia e por outro a vida sacramental e de anúncio como centro da vida paroquial poderiam permitir também hoje, em circunstâncias certamente mais difíceis, ser o pároco que talvez não conheça todos pelo nome, como o Senhor nos diz do Bom Pastor, mas conhece realmente as suas ovelhas e é realmente o pastor que as chama e guia.

P. – Faço a última pergunta e sinto-me muito tentado a pô-la de lado, porque se trata de uma pergunta pequena e depois de nove vezes que Vossa Santidade soube encontrar o caminho para nos falar de Deus e nos elevar, quase me parece banal e pobre o que estou para perguntar, mas contudo faço-o. Trata-se de uma palavra para todos aqueles da minha geração, para nós que nos preparamos durante os anos do Concílio, depois partimos com entusiasmo e talvez também com a pretensão de mudar o mundo, trabalhámos também tanto e hoje estamos um pouco em dificuldade, porque cansados, porque não se realizaram muitos sonhos e também porque nos sentimos um pouco isolados. Os mais idosos dizem-nos "Vedes que nós tínhamos razão em ser mais prudentes" e às vezes os jovens consideram-nos como "nostálgicos do Concílio". A nossa pergunta é esta: "Podemos ainda levar um dom à nossa Igreja, especialmente com aquela dedicação ao povo que parece nos tenha distinguido". Ajude-nos a ter de novo esperança e serenidade...

R. – Obrigado, é uma pergunta importante e que eu conheço muito bem. Também eu vivi os tempos do Concílio, estando na Basílica de São Pedro com grande entusiasmo e vendo como se abrem novas portas e parecia realmente o novo Pentecostes, onde a Igreja podia de novo convencer a humanidade, depois do afastamento do mundo da Igreja nos séculos XIX e XX, parecia que se voltavam a encontrar Igreja e mundo e que voltassem a nascer um mundo cristão e uma Igreja do mundo e verdadeiramente aberta ao mundo. Esperámos tanto, mas as coisas na realidade revelaram-se mais difíceis. Contudo permanece a grande herança do Concílio, que abriu um novo caminho, é sempre uma magna charta do caminho da Igreja, muito essencial e fundamental. Mas por que aconteceu assim? Primeiro gostaria de começar talvez com uma observação histórica. Os tempos de um pós-Concílio são quase sempre muito difíceis. Depois do grande Concílio de Niceia que é realmente o fundamento da nossa fé, de facto nós confessamos a fé formulada em Niceia não surgiu uma situação de reconciliação e de unidade como tinha esperado Constantino, promotor desse grande Concílio, mas uma situação realmente caótica de litígios de todos contra todos. São Basílio no seu livro sobre o Espírito Santo compara a situação da Igreja depois do Concílio de Niceia com uma batalha naval de noite, onde ninguém pode conhecer o outro, mas todos estão contra todos. Era realmente uma situação de caos total: São Basílio descreve assim com tons fortes o drama do pós-Concílio, do pós-Niceia. Cinquenta anos mais tarde, para o I Concílio de Constantinopla, o imperador convida São Gregório Nazianzeno a participar no Concílio e São Gregório Nazianzeno responde: Não, não venho, porque eu conheço estas coisas, sei que de todos os Concílios nascem apenas confusão e batalha, portanto não venho. E não foi. Portanto, não é agora, em retrospectiva, uma surpresa tão grande como era no primeiro momento para todos nós digerir o Concílio, esta grande mensagem. Inseri-lo na vida da Igreja, recebê-lo, de modo que se torne vida da Igreja, assimilá-lo nas diversas realidades da Igreja, é um sofrimento, e só no sofrimento se realiza também o crescimento. Crescer é sempre também sofrer, porque é sair de um estado e passar para outro. E no concreto do pós-Concílio devemos constatar que existem duas grandes suspensões históricas. No pós-Concílio, a suspensão de 1968, o início ou a explosão ousaria dizer da grande crise cultural do Ocidente. Tinha terminado a geração do pós-guerra, uma geração que depois de todas as destruições e vendo o horror da guerra, do combater-se e verificando o drama destas grandes ideologias tinham realmente levado as pessoas à voragem da guerra, tinham redescoberto as raízes cristãs da Europa e começado a reconstruir a Europa com estas grandes inspirações. Mas tendo terminado esta geração viram-se também todas as falências, as lacunas desta reconstrução, a grande miséria do mundo e começa assim, explode, a crise da cultura ocidental que pretende mudar radicalmente. Diz: não criámos, em dois mil anos de cristianismo, o mundo melhor. Devemos recomeçar de zero de modo absolutamente novo; o marxismo parece a receita científica para criar finalmente um mundo novo. E neste digamos grave, grande confronto entre a nova, sadia modernidade querida pelo Concílio e a crise da modernidade, tudo se torna difícil como depois do primeiro Concílio de Niceia. Uma parte tinha a opinião de que esta revolução identificava esta nova revolução cultural marxista com a vontade do Concílio; dizia: este é o Concílio. No papel os textos ainda são um pouco antiquados, mas por detrás das palavras escritas está este espírito, esta é a vontade do Concílio, assim devemos fazer. E por outro lado, naturalmente, a reacção: destruir assim a Igreja. A reacção digamos absoluta contra o Concílio, o anti-Concílio e digamos a tímida, humilde busca de realizar o verdadeiro espírito do Concílio. E como diz um provérbio "Se uma árvore cai faz um grande ruído, se cresce uma selva nada se ouve porque se desenvolve um processo sem barulho" e portanto durante estes grandes ruídos do progressismo errado, do anti-Concílio cresce muito silenciosamente, com tantos sofrimentos e também com tantas perdas na construção de uma nova época cultural, o caminho da Igreja. E depois a segunda suspensão em 1989. A queda dos regimes comunistas, mas a resposta não foi o regresso à fé, como se podia talvez esperar, não foi a redescoberta de que a Igreja com o Concílio autêntico tinha dado a resposta. Ao contrário, a resposta foi o cepticismo total, a chamada pós-modernidade. Nada é verdadeiro, cada um deve ver como viver, afirma-se um materialismo, um cepticismo pseudo-racionalista cego que termina na droga, termina em todos estes problemas que conhecemos e de novo fecha os caminhos à fé, porque é tão simples, tão evidente. Não, não há nada de verdadeiro. A verdade é intolerante, não podemos ir por este caminho. Eis: nestes contextos de duas rupturas culturais, a primeira, a revolução cultural de 1968, a segunda, a queda, poderíamos dizer, no niilismo depois de 1989, a Igreja com humildade, entre as paixões do mundo e a glória do Senhor, empreende o seu caminho. Neste caminho devemos crescer com paciência e agora devemos aprender de modo novo o que significa renunciar ao triunfalismo. O Concílio tinha dito que renunciar ao triunfalismo e tinha pensado no barroco, em todas estas grandes culturas da Igreja. Foi dito: comecemos de maneira moderna, nova. Mas tinha crescido outro triunfalismo, o de pensar: agora nós fazemos as coisas, nós encontramos o caminho e encontramos nele o mundo novo. Mas a humildade da Cruz, do Crucifixo exclui precisamente também este triunfalismo, devemos renunciar ao triunfalismo segundo o qual agora nasce realmente a grande Igreja do futuro. A Igreja de Cristo é sempre humilde e precisamente assim é grande e jubilosa. Parece-me muito importante o facto de agora podermos ver com olhos abertos o que também cresceu de positivo no pós-Concílio: na renovação da liturgia, nos Sínodos, Sínodos romanos, Sínodos universais, Sínodos diocesanos, nas estruturas paroquiais, na colaboração, na nova responsabilidade dos leigos, na grande co-responsabilidade intercultural e inter-continental, numa nova experiência da catolicidade da Igreja, da unanimidade que cresce em humildade e contudo é a verdadeira esperança do mundo. E assim devemos, parece-me, redescobrir a grande herança do Concílio que não é um espírito reconstruído por detrás de textos, mas são precisamente os grandes textos conciliares relidos agora com as experiências que fizemos e que deram fruto em tantos movimentos, tantas novas comunidades religiosas. Fui ao Brasil sabendo como se expandem as seitas e como a Igreja parece um pouco esclerotizada; mas quando cheguei vi que quase todos os dias no Brasil nasce uma nova comunidade religiosa, nasce um novo movimento, não crescem só seitas. Cresce a Igreja com novas realidades cheias de vitalidade, não a ponto de encher as estatísticas esta é uma esperança falsa, a estatística não é a nossa divindade mas crescem nos ânimos e geram a alegria da fé, geram a presença do Evangelho, geram assim também verdadeiro desenvolvimento do mundo e da sociedade. Portanto parece-me que devemos combinar a grande humildade do Crucificado, de uma Igreja que é sempre humilde e sempre contrastada pelas grandes potências económicas, militares, etc., mas devemos aprender juntos com esta humildade também o verdadeiro triunfalismo da catolicidade que cresce em todos os séculos. Cresce também hoje a presença do Crucificado ressuscitado, que tem e conserva as suas feridas; é ferido, mas precisamente assim renova o mundo, dá o seu sopro que renova também a Igreja apesar de toda a nossa pobreza. E diria, neste conjunto de humildade da Cruz e de alegria do Senhor ressuscitado, que no Concílio nos deu uma grande indicação de caminho, podemos ir em frente jubilosamente e cheios de esperança.

 

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