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 VIAGEM APOSTÓLICA À FRANÇA
 POR OCASIÃO DO 150º ANIVERSÁRIO
DAS APARIÇÕES DE LOURDES
(12 - 15 DE SETEMBRO DE 2008)
 

PROCISSÃO EUCARÍSTICA NA PRAIRIE

MEDITAÇÃO DO PAPA BENTO XVI

Lourdes
Domingo, 14 de Setembro de
2008

 

Senhor Jesus, Tu estás aqui!

E vós, meus irmãos, minhas irmãs e meus amigos,
vós também estais aqui, comigo, diante d’Ele!

Senhor, há dois mil anos, aceitaste subir a uma cruz de infâmia para depois ressuscitar e ficar sempre connosco, teus irmãos, tuas irmãs!

E vós, meus irmãos, minhas irmãs e meus amigos,
aceitai deixar-vos agarrar por Ele.

Nós O contemplamos.
Nós O adoramos.
Nós O amamos. E procuramos amá-Lo ainda mais.

Contemplamos Aquele que, durante a ceia pascal, entregou o seu Corpo e o seu Sangue aos discípulos, para estar com eles «todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28, 20).

Adoramos Aquele que está no princípio e no fim da nossa fé, Aquele sem o Qual não estaríamos aqui nesta tarde, Aquele sem o Qual simplesmente não existiríamos, Aquele sem o Qual nada existiria, nada, absolutamente nada! Ele, por Quem «tudo foi feito» (Jo 1, 3), Ele em Quem fomos criados para a eternidade, Ele que nos entregou o seu Corpo e o seu Sangue, Ele está aqui nesta tarde, diante de nós, oferecido aos nossos olhares.

Amamos – e procuramos amar ainda mais – Aquele que está aqui, diante de nós, oferecido aos nossos olhares, às nossas questões talvez, ao nosso amor.

Quer caminhemos ou estejamos cravados num leito de sofrimento, quer caminhemos na alegria ou nos encontremos no deserto da alma (cf. Nm 21, 5), Senhor, arrebata-nos a todos no teu Amor: no amor infinito, que é eternamente o do Pai pelo Filho e do Filho pelo Pai, o do Pai e do Filho pelo Espírito e do Espírito pelo Pai e pelo Filho.

A Hóstia Sagrada, exposta aos nossos olhos, exprime esta força infinita do Amor manifestada na Cruz gloriosa. A Hóstia Sagrada diz-nos a incrível humilhação d’Aquele que Se fez pobre para nos enriquecer d’Ele, Aquele que aceitou perder tudo a fim de nos ganhar para seu Pai. A Hóstia Sagrada é o sacramento vivo e eficaz da presença eterna do Salvador dos homens na sua Igreja.

Meus irmãos, minhas irmãs e meus amigos,

Aceitemos, aceitai oferecer-vos Àquele que nos deu tudo, que não veio para julgar o mundo, mas para o salvar (cf. Jo 3, 17), aceitai reconhecer nas vossas vidas a presença activa d’Aquele que está aqui presente, exposto aos nossos olhares. Aceitai oferecer-Lhe as vossas próprias vidas.

Maria, a Virgem Santa, Maria, a Imaculada Conceição, há dois mil anos aceitou dar tudo, oferecer o seu corpo para acolher o Corpo do Criador. Tudo veio de Cristo, mesmo Maria; tudo veio por meio de Maria, mesmo Cristo.

Maria, a Virgem Santa, está connosco nesta tarde, diante do Corpo do seu Filho, cento e cinquenta anos depois de Se ter revelado à pequena Bernadete.

Virgem Santa, ajuda-nos a contemplar, ajuda-nos a adorar, ajuda-nos a amar, a amar ainda mais Aquele que tanto nos amou, para vivermos eternamente com Ele.

Uma multidão imensa de testemunhas encontra-se invisivelmente presente ao nosso lado, próximo desta gruta abençoada e diante desta igreja desejada pela Virgem Maria;

a multidão de todos os homens e de todas as mulheres que contemplaram, veneraram, adoraram a presença real d’Aquele que Se nos deu até à última gota de sangue;

a multidão dos homens e das mulheres que passaram horas a adorá-Lo no Santíssimo Sacramento do altar.

Nesta tarde, nós não os vemos, mas ouvimo-los dizer a cada um e a cada uma de nós: «Vem, deixa-te atrair pelo Mestre! Ele está aqui e chama-te! (cf. Jo 11, 28)! Ele quer tomar a tua vida e uni-la à Sua. Deixa-te agarrar por Ele! Não olhes mais para as tuas feridas, mas para as d’Ele. Não olhes para o que ainda te separa d’Ele e dos outros; olha a distância infinita que Ele aboliu ao assumir a tua carne, ao subir à Cruz que os homens Lhe prepararam e ao deixar-Se enviar à morte para te mostrar o seu amor. Nas suas feridas, Ele te acolhe; nas suas feridas, Ele te esconde. Não te negues ao seu amor».

A multudão imensa de testemunhas que se deixou agarrar pelo seu amor é a multidão dos Santos do céu que não cessam de interceder por nós. Eram pecadores e sabiam-no, mas aceitaram não olhar para as suas feridas e considerar somente as feridas do seu Senhor, para aí descobrirem a glória da Cruz, para aí descobrirem a vitória da Vida sobre a morte. São Pedro Julião Eymard diz-nos tudo, quando exclama: «A Sagrada Eucaristia é Jesus Cristo passado, presente e futuro» (Sermões e instruções paroquiais posteriores a 1856, 4 -2, 1. Sobre a meditação).

Jesus Cristo passado, na verdade histórica da noite no cenáculo, aonde nos reconduz cada celebração da Santa Missa.

Jesus Cristo presente, porque Ele nos diz: «Tomai e comei todos: isto é o meu Corpo, isto é o meu Sangue». «Isto é», no presente, aqui e agora, como em todos os «aqui e agora» da história humana. Presença real, presença que ultrapassa os nossos pobres lábios, os nossos pobres corações, os nossos pobres pensamentos. Presença oferecida aos nossos olhares como aqui, nesta tarde, junto da gruta onde Maria Se revelou como Imaculada Conceição.

A Eucaristia é também Jesus Cristo futuro, Jesus Cristo que virá. Quando contemplamos a Hóstia sagrada, o seu Corpo de glória transfigurado e ressuscitado, contemplamos aquilo que contemplaremos na eternidade, descobrindo aí o mundo inteiro sustentado pelo seu Criador em cada instante da sua história. Cada vez que O comemos, mas também cada vez que O contemplamos, anunciamo-Lo até que Ele regresse, «donec veniat». Por isso mesmo, recebemo-Lo com respeito infinito.

Alguns de entre nós não podem, ou não podem ainda, recebê-Lo no sacramento, mas podem contemplá-Lo com fé e amor e manifestar o desejo de finalmente poder unir-se a Ele. É um desejo que tem grande valor diante de Deus: estes esperam com maior ardor o seu regresso; esperam Jesus Cristo que há-de vir.

Quando uma amiga de Bernadete, no dia seguinte ao da sua primeira comunhão, lhe perguntou: «O que é que te fez sentir mais feliz: a primeira comunhão ou as aparições?», Bernadete respondeu: «São duas coisas que caminham juntas, mas não podem ser comparadas. Eu senti-me feliz nas duas» (Emmanuélite Estrade, 4 de Junho de 1858). E o seu pároco testemunhou ao Bispo de Tarbes, a respeito da sua primeira comunhão: «Bernadete comportou-se com grande recolhimento, com uma atenção impecável (...) Aparecia profundamente consciente da acção santa que estava a realizar. Tudo se passa nela de modo admirável».

Juntamente com Pedro Julião Eymard e com Bernadete, invocamos o testemunho de tantos e tantos santos e santas que tiveram o maior amor pela Eucaristia. Nesta tarde, Nicolau Cabasilas exclama e diz-nos: «Se Cristo permanece em nós, de que é que precisamos mais? O que é que nos falta? Se permanecemos em Cristo, que mais podemos desejar? Ele é nosso hóspede e nossa morada. Felizes de nós que somos a sua casa! Que alegria sermos nós mesmos a morada de tal Inquilino!» (La vie en Jésus-Christ, IV, 6).

O Beato Carlos de Foucauld nasceu em 1858, no mesmo ano das aparições de Lourdes. Não distante do seu corpo hirto pela morte foi encontrada, como o grão de trigo lançado na terra, a lúnula que continha o Santíssimo Sacramento, que Frei Carlos adorava todos os dias durante longas horas. O Padre Foucauld confia-nos a oração que brota da intimidade do seu coração, uma oração dirigida ao nosso Pai, mas que, juntamente com Jesus, podemos com toda a verdade fazer nossa diante da Hóstia Sagrada:

«“Meu Pai, nas vossas mãos entrego o meu espírito”.

É a última oração do nosso Mestre, do nosso Amado...

Possa tornar-se a nossa, e que seja não apenas a do nosso último instante, mas também a de todos os nossos momentos:

Meu Pai, entrego-me nas vossas mãos; meu Pai, confio-me a Vós; meu Pai, abandono-me a Vós; meu Pai, fazei de mim o que quiserdes; seja o que for, eu Vo-lo agradeço: obrigado por tudo; estou pronto para tudo, aceito tudo; agradeço-Vos tudo. Contanto que a vossa vontade se cumpra em mim, ó meu Deus, contanto que a vossa vontade se cumpra em todas as vossas criaturas, em todos os vossos filhos, em todos aqueles que o vosso Coração ama, eu nada mais desejo, meu Deus; entrego a minha alma nas vossas mãos; dou-Vo-la, meu Deus, com todo o amor do meu coração, porque Vos amo, e é uma necessidade do meu coração dar-me, entregar-me nas vossas mãos sem medida, com confiança infinita, porque Vós sois o meu Pai» (Meditação sobre os Santos Evangelhos).

Amados irmãos e irmãs, peregrinos de um dia e habitantes destes vales, irmãos Bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas, vós todos que vedes diante dos vossos olhos a humilhação infinita do Filho de Deus e a glória infinita da ressurreição, permanecei em silêncio e adorai o vosso Senhor, o nosso Mestre e Senhor Jesus Cristo. Permanecei em silêncio, depois falai e dizei ao mundo: não podemos calar mais aquilo que sabemos. Ide contar ao mundo inteiro as maravilhas de Deus, presente em cada momento das nossas vidas, em todos os lugares da terra. Que Deus nos abençoe e proteja, nos conduza pelo caminho da vida eterna, Ele que é a Vida, pelos séculos dos séculos. Amen.

 

© Copyright 2008 - Libreria Editrice Vaticana

 

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