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ENCONTRO DO PAPA BENTO XVI
COM O CLERO DA DIOCESE DE ROMA
PELO INÍCIO DA QUARESMA

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

 

P. Santo Padre, sou Padre Gianpiero Palmieri, pároco da paróquia de São Frumêncio "ai Prati Fiscali". Desejo fazer-lhe uma pergunta sobre a missão evangelizadora da comunidade cristã e, em particular, sobre o papel e sobre a nossa formação, de nós que somos presbíteros no âmbito desta missão evangelizadora.

Para me explicar melhor, parto de um episódio pessoal. Quando, jovem presbítero, iniciei o meu serviço pastoral na paróquia e na escola, sentia-me fortalecido pela bagagem dos estudos e da formação recebida, bem radicado no mundo das minhas convicções e dos meus sistemas de pensamento. Uma mulher crente e sábia, ao ver-me em acção, abanou a cabeça sorrindo e disse-me: Padre Gianpiero, quando é que vestes as calças, quando é que te tornas homem? Trata-se de um episódio que me ficou gravado no coração. Aquela mulher sábia procurava explicar-me que a vida, o mundo real, o próprio Deus, são maiores e mais surpreendentes do que nós elaboramos. Convidava-me a pôr-me à escuta do humano para procurar compreender, sem ter pressa de julgar. Pedia-me que aprendesse a entrar em relação com a realidade, sem receios, porque a realidade é habitada pelo próprio Cristo que age misteriosamente no seu Espírito. Face à missão evangelizadora hoje nós, presbíteros, sentimo-nos impreparados e inadequados, sempre com os calções. Tanto sob o aspecto cultural eludimos o conhecimento atento das grandes directrizes do pensamento contemporâneo, nas suas positividades e nos seus limites e sobretudo sob o aspecto humano. Corremos sempre o risco de sermos demasiado esquemáticos, incapazes de compreender de modo sábio o coração dos homens de hoje. O anúncio da salvação em Jesus não é também o anúncio do homem novo Jesus, o Filho de Deus, no qual também a nossa humanidade pobre é remida, tornada autêntica, transformada por Deus? Então a minha pergunta é a seguinte: compartilha estes poucos pensamentos? Às nossas comunidades cristãs vêm tantas pessoas feridas pela vida. Que lugares e modos podemos inventar para ajudar no encontro com Jesus a humanidade dos outros? E também, como construir em nós sacerdotes, uma humanidade bela e fecunda? Obrigado, Santidade!

R. Obrigado! Queridos irmãos, antes de tudo gostaria de expressar a minha grande alegria por estar convosco, párocos de Roma: os meus párocos, somos uma família. O Cardeal Vigário bem disse que é um momento de repouso espiritual. E neste sentido estou grato também porque posso iniciar a Quaresma com um momento de repouso espiritual, de fôlego espiritual, no contacto convosco. Ele disse também: estamos juntos para que possais contar-me as vossas experiências, os vossos sofrimentos, também os vossos sucessos e alegrias. Portanto não diria que aqui fala um oráculo, ao qual vós perguntais. Ao contrário, estamos num diálogo familiar, no qual para mim é também muito importante, através de vós, conhecer a vida nas paróquias, as vossas experiências com a Palavra de Deus no contexto do nosso mundo de hoje. E assim gostaria também eu de aprender, aproximar-me à realidade da qual quem se encontra no Palácio Apostólico está também um pouco demasiado distante. E este é também o limite das minhas respostas. Vós viveis no contacto directo, dia após dia, com o mundo de hoje; eu vivo em contactos diversificados, que são muito úteis. Por exemplo, ultimamente recebi em visita "ad limina" os Bispos da Nigéria. E assim pude ver, através das pessoas, a vida da Igreja num País importante da África, o maior, com 140 milhões de habitantes, um grande número de católicos, e ver as alegrias mas também os sofrimentos da Igreja. Mas para mim este é obviamente um repouso espiritual, porque é uma Igreja como a vemos nos Actos dos Apóstolos. Uma Igreja na qual existe a alegria vigorosa de ter encontrado Cristo, de ter encontrado o Messias de Deus. Uma Igreja que vive e cresce todos os dias. O povo é jubiloso de encontrar Cristo. Têm vocações e assim podem dar, nos diversos Países do mundo, sacerdotes fidei donum. E ver que não há apenas uma Igreja cansada, como se vê com frequência na Europa, mas uma Igreja jovem, cheia da alegria do Espírito Santo, é certamente um alívio espiritual. Mas é também importante para mim, com todas estas experiências universais, ver a minha Diocese, os problemas e todas as realidades que vivem nesta Diocese.

Neste sentido, em suma, concordo consigo: não é suficiente pregar ou fazer pastoral com a bagagem preciosa adquirida nos estudos da teologia. Isto é importante e fundamental, mas deve ser personalizado: de conhecimento académico, que aprendemos e também reflectimos, em visão pessoal da minha vida, para chegar às outras pessoas. Neste sentido gostaria de dizer que é importante, por um lado, concretizar com a nossa experiência pessoal da fé, no encontro com os nossos paroquianos, a grande palavra da fé, mas também não perder a sua simplicidade. Naturalmente, palavras grandes da tradição como sacrifício de expiação, redenção do sacrifício de Cristo, pecado original hoje são, como tais, incompreensíveis. Não podemos simplesmente trabalhar com fórmulas grandes, verdadeiras, mas já não contextualizadas no mundo de hoje. Devemos, através do estudo e de quanto nos dizem os mestres da teologia e a nossa experiência pessoal com Deus, concretizar, traduzir estas grandes palavras, de modo que entrem no anúncio de Deus ao homem no hoje.

E, diria, por outro lado, que não deveríamos cobrir a simplicidade da Palavra de Deus com avaliações demasiado pesadas de aproximações humanas. Recordo-me de um amigo que, depois de ter ouvido pregações com longas reflexões antropológicas para alcançar juntos o Evangelho, dizia: mas não me interessam estas aproximações, eu gostaria de compreender o que diz o Evangelho! E parece-me que muitas vezes, em vez de longos caminhos de aproximação, seria melhor eu fi-lo quando ainda estava na minha vida normal dizer: não gostamos deste Evangelho, somos contrários ao que diz o Senhor! Mas que significa isto? Se digo sinceramente que à primeira vista não concordo, já temos a atenção: vê-se que eu gostaria, como homem de hoje, de compreender o que diz o Senhor. Assim podemos entrar, sem longos circuitos, no vivo da Palavra. E devemos ter presente também, sem falsas simplificações, que os doze apóstolos eram pescadores, artesãos, desta província, a Galileia, sem uma preparação particular, sem conhecimento do grande mundo grego e latino. Contudo foram a todas as regiões do império, também fora do império, até à Índia, e anunciaram Cristo com simplicidade e com a força da simplicidade do que é verdadeiro. E também isto me parece importante: não perdemos a simplicidade da verdade. Deus existe e não é um ser hipotético, distante, mas está próximo, falou connosco, falou comigo. E assim dizemos simplesmente o que é e como se pode e se deve naturalmente explicar e desenvolver. Mas não perdemos o facto de que não propomos reflexões, não propomos uma filosofia, mas propomos o anúncio simples do Deus que agiu. E que agiu também comigo.

E depois para a contextualização cultural, romana que é absolutamente necessária diria que a primeira ajuda é a nossa experiência pessoal: Não vivemos na lua. Sou um homem deste tempo se viver sinceramente a minha fé na cultura de hoje, sendo alguém que vive com a mídia de hoje, com os diálogos, com as realidades da economia, com tudo, se eu próprio levo a sério a minha experiência e procuro personalizar em mim esta realidade. Assim, estamos precisamente no caminho de nos fazermos compreender também pelos outros. São Bernardo de Claraval disse no seu livro de considerações ao seu discípulo Papa Eugénio: considera beber da tua própria fonte, isto é, da tua própria humanidade. Se és sincero contigo e começas a ver contigo o que é a fé, com a tua experiência humana neste tempo, bebendo do teu próprio poço, como diz São Bernardo, podes dizer também aos outros o que se deve dizer. E neste sentido parece-me importante estar realmente atento ao mundo de hoje, mas também estar atento ao Senhor em mim próprio: ser um homem deste tempo e simultaneamente um crente de Cristo, que em si transforma a mensagem eterna em mensagem actual.

E quem, mais que o pároco, conhece melhor os homens de hoje? A canónica não está no mundo, mas sim na paróquia. E os homens vão com frequência ter com o pároco, normalmente sem máscara, não com outros pretextos, mas na sua situação do sofrimento, da doença, da morte, das questões de família. Vão ao confessionário sem máscara, com o seu próprio ser. Nenhuma outra profissão, parece-me, dá esta possibilidade de conhecer o homem como ele é na sua humanidade e não no seu papel que desempenha na sociedade. Neste sentido, podemos estudar realmente o homem como ele é na sua profundidade, fora dos seus papéis, e aprender também nós o ser humano, o ser homem sempre na escola de Cristo. Neste sentido diria que é absolutamente importante aprender o homem, o homem de hoje, em nós e com os outros, mas também sempre na escuta atenta do Senhor e aceitando em mim a semente da Palavra, porque em mim se transforma em fermento e torna-se comunicável aos outros.

P. Sou Padre Fabio Rossini, pároco de Santa Francisca Romana no Ardeatino. Face ao actual processo de secularização e das suas evidentes consequências sociais e existenciais, recebemos oportunamente várias vezes do seu magistério, em admirável continuidade com o do seu venerado Predecessor, a exortação à urgência do primeiro anúncio, ao zelo pastoral pela evangelização ou reevangelização, a assumir uma mentalidade missionária. Compreendemos como é importante a conversão da acção pastoral ordinária, já não supondo a fé da massa e contentando-nos com curar aquela porção de crentes que persevera, graças a Deus, na vida cristã, mas interessando-nos, mais decidida e organicamente, pelas muitas ovelhas perdidas, ou pelo menos desorientadas. Muitos de nós, presbíteros romanos, e com várias abordagens, procurámos responder a esta objectiva urgência de fundar de novo ou, até, muitas vezes, fundar a fé. Estão a multiplicar-se as experiências de primeiro anúncio e não faltam resultados também muito encorajadores. Pessoalmente posso verificar como o Evangelho, anunciado com alegria e franqueza, não tarda a conquistar o coração dos homens e das mulheres desta cidade, precisamente porque ele é a verdade e corresponde ao que de mais íntimo a pessoa humana precisa. A beleza do Evangelho e da fé, de facto, se forem apresentados com amorosa autenticidade, são em si evidentes. Mas o confronto numérico, por vezes surpreendentemente alto, em si não garante a bondade de uma iniciativa. A história da Igreja, até recente, está cheia de exemplos. Um sucesso pastoral, paradoxalmente, pode esconder um erro, uma orientação errada, que talvez não seja evidente imediatamente. Eis por que lhe queria perguntar: quais devem ser os critérios imprescindíveis desta acção urgente de evangelização? Quais são, segundo Vossa Santidade, os elementos que garantem não correr em vão na fadiga pastoral do anúncio a esta geração que nos é contemporânea? Peço-lhe humildemente que nos indique, no seu prudente discernimento, os parâmetros a serem respeitados e valorizados para poder dizer que se realiza uma obra evangelizadora genuinamente católica que dê fruto na Igreja. Agradeço-lhe de coração o seu iluminado magistério. Abençoe-nos.

R. Estou contente por ouvir que se faz realmente este primeiro anúncio, que se vai além dos limites da comunidade fiel, da paróquia, em busca das chamadas ovelhas tres-malhadas; que se procura ir ao encontro do homem de hoje que vive sem Cristo, que esqueceu Cristo, para lhe anunciar o Evangelho. Sinto-me feliz por ouvir que não se faz só isto, mas que se obtêm também sucessos numericamente confortadores. Portanto, vejo que sois capazes de falar àquelas pessoas nas quais se deve refundar, ou até fundar, a fé.

Para este trabalho concreto, não posso dar receitas, porque são diversos os caminhos a seguir, de acordo com as pessoas, com as suas profissões e as várias situações. O Catecismo indica a essência do anunciar. Mas é quem conhece as situações que deve aplicar as indicações, encontrar um método para abrir os corações e convidar a pôr-se a caminho com o Senhor e com a Igreja.

O senhor fala dos critérios de discernimento para não correr em vão. Gostaria antes de tudo de dizer que as duas partes são importantes. A comunidade dos fiéis é um elemento precioso e não devemos subestimar também considerando os numerosos que estão distantes a realidade positiva e bela que estes fiéis constituem, os quais dizem sim ao Senhor na Igreja, procurando viver a fé, procurando caminhar nas pegadas do Senhor. Devemos ajudar estes fiéis, como já há pouco dissemos ao responder à primeira pergunta, a ver a presença da fé, a compreender que não é uma coisa do passado, mas que hoje indica o caminho, ensina a viver como homem. É muito importante que eles encontrem no seu pároco realmente o pastor que os ama e que os ajuda a ouvir hoje a Palavra de Deus; a compreender que é uma Palavra para eles e não só para as pessoas do passado ou do futuro; que os ajuda, ainda, na vida sacramental, na experiência da oração, na escuta da Palavra de Deus e na vida da justiça e da caridade, porque os cristãos deveriam ser fermento na nossa sociedade com tantos problemas e com tantos perigos e também com tanta corrupção que existe.

Desta forma penso que eles podem também interpretar um papel missionário "sem palavras", porque se trata de pessoas que vivem realmente uma vida justa. E assim oferecem um testemunho do modo como é possível viver bem pelos caminhos indicados pelo Senhor. A nossa sociedade tem necessidade precisamente destas comunidades, capazes de viver hoje a justiça não só para si mesmos mas também para o outro. Pessoas que saibam viver, como ouvimos hoje na primeira leitura, a vida. Esta leitura no início diz: "Escolhe a vida": é fácil dizer sim. Mas depois prossegue: "A tua vida é Deus". Portanto escolher a vida é escolher a opção pela vida, que é a opção por Deus. Se existem pessoas ou comunidades que fazem esta opção completa da vida e tornam visível o facto de que a vida que escolheram é realmente vida, dão um testemunho de grandíssimo valor.

Faço uma segunda reflexão. Para o anúncio precisamos de dois elementos: a Palavra e o testemunho. É necessária, como sabemos do próprio Senhor, a Palavra que diz quanto Ele nos deu, que evidencia a verdade de Deus, a presença de Deus em Cristo, o caminho que se abre diante de nós. Trata-se, portanto, de um anúncio no presente, como o senhor disse, que traduz as palavras do passado no mundo da nossa experiência. É uma coisa absolutamente indispensável, fundamental, com o testemunho dar credibilidade a esta Palavra, para que não se apresente apenas como uma bela filosofia, ou como uma bela utopia, mas antes como realidade. Uma realidade com a qual se pode viver, mas não só: uma realidade que faz viver. Neste sentido parece-me que o testemunho da comunidade crente, como fundo da Palavra, do anúncio, é de grandíssima importância. Com a Palavra devemos abrir lugares de experiência da fé a quantos procuram Deus. Assim fez a Igreja antiga com o catecumenato, que não era simplesmente uma catequese, algo doutrinal, mas um lugar de progressiva experiência da vida da fé, na qual depois se abre também a Palavra, que só se torna compreensível se for interpretada pela vida, realizada pela vida.

Parece-me portanto importante, juntamente com a Palavra, a presença de um lugar de hospitalidade da fé, um lugar no qual se faz uma progressiva experiência da fé. E aqui vejo também uma das tarefas da paróquia: hospitalidade para quantos não conhecem esta vida típica da comunidade paroquial. Não devemos ser um círculo fechado em nós mesmos. Temos os nossos costumes, contudo devemos abrir-nos e procurar criar também vestíbulos, ou seja espaços de aproximação. Quem vem de longe não pode imediatamente entrar na vida formada de uma paróquia, que tem os seus costumes. Para essa pessoa no momento tudo é muito surpreendente. Distante da sua vida. Por conseguinte, devemos procurar criar, com a ajuda da Palavra, aquilo que a Igreja antiga criou com os catecúmenos: espaços nos quais começar a viver a Palavra, a seguir a Palavra, a torná-la compreensível e realista, correspondente às formas de experiência real. Neste sentido parece-me muito importante o que o senhor disse, ou seja, a necessidade de relacionar a Palavra com o testemunho de uma vida justa, do ser para os outros, abrir-se aos pobres, aos necessitados, mas também aos ricos, que precisam ser abertos no seu coração, ouvir bater à porta do seu coração. Trata-se portanto de espaços diversos, de acordo com a situação.

Parece-me que em teoria se pode dizer pouco, mas a experiência concreta mostrará os caminhos a seguir. E naturalmente critério sempre importante a seguir é preciso estar na grande comunhão da Igreja, mesmo se talvez num espaço ainda um pouco distante: ou seja, em comunhão com o bispo, com o Papa, e assim em comunhão com o grande passado e com o grande futuro da Igreja. Estar na Igreja católica, de facto, não implica apenas estar num grande caminho que nos precede, mas significa estar em perspectiva de uma grande abertura ao futuro. Um futuro que só se abre deste modo. Talvez se pudesse continuar a falar dos conteúdos, mas podemos encontrar outra ocasião para isto.

P. Santo Padre, sou Padre Giuseppe Forlai, vigário paroquial na paróquia de São João Crisóstomo, no sector norte da nossa Diocese. A emergência educativa, da qual Vossa Santidade justamente falou, é também, como todos sabemos, emergência de educadores, penso sobretudo sob dois aspectos. Antes de tudo, é necessário prestar mais atenção à continuidade da presença do educador-sacerdote. Um jovem não estabelece um pacto de crescimento com quem se vai embora depois de dois ou três anos, também porque já está empenhado emotivamente a gerir relações com os pais que deixam em casa, novos companheiros da mãe ou do pai, professores precários que todos os anos mudam. Para educar é preciso estar presente. A primeira necessidade que sinto é, portanto, a de uma certa estabilidade no lugar do educador-sacerdote. Segundo aspecto: penso que o aspecto fundamental da pastoral juvenil depende da frente da cultura. Cultura intensa como competência emotivo-relacional e como domínio das palavras que os conceitos contêm. Um jovem sem esta cultura pode tornar-se o pobre de amanhã, uma pessoa com risco de falência afectiva e um náufrago no mundo do trabalho. Um jovem sem esta cultura corre o risco de permanecer um não-crente ou, pior ainda, um praticante sem fé porque a incompetência nas relações deforma a relação com Deus e a ignorância das palavras impede a compreensão da excelência da palavra do Evangelho. Não é suficiente que os jovens preencham fisicamente o espaço dos nossos oratórios para passar um pouco de tempo livre. Gostaria que o oratório fosse um lugar onde se aprendem a desenvolver competências relacionais e onde se recebem escuta e apoio escolar. Um lugar que não seja o refúgio constante de quem não tem vontade de estudar ou de se empenhar, mas uma comunidade de pessoas que elaborem aquelas perguntas justas que abrem para o sentido religioso e onde se faça a grande caridade de ajudar a pensar. E aqui dever-se-ia também iniciar uma séria reflexão sobre a colaboração entre oratórios e professores de religião. Santidade, diga-nos uma palavra influente a mais sobre estes dois aspectos da emergência educativa: a necessária estabilidade dos agentes e a urgência de ter educadores-sacerdotes culturalmente competentes. Obrigado.

R. Então, comecemos pelo segundo ponto. Digamos que é mais amplo e, num certo sentido, também mais fácil. Certamente um oratório no qual se fazem apenas jogos e se tomam bebidas seria absolutamente supérfluo. O sentido de um oratório deve realmente ser uma formação cultural, humana e cristã de uma personalidade, que deve tornar-se madura. Sobre isto estamos em perfeita sintonia e, parece-me, precisamente hoje existe uma pobreza cultural onde se sabem tantas coisas, mas sem um coração, sem uma ligação interior porque falta uma visão comum do mundo. E, por isso, uma solução cultural inspirada pela fé da Igreja, pelo conhecimento de Deus que no-la doou, é absolutamente necessária. Diria que é precisamente esta a função de um oratório: não um lugar onde se encontram possibilidades para o tempo livre mas sobretudo encontre a formação humana integral que torne a personalidade completa.

E, portanto, também o sacerdote como educador deve naturalmente ele mesmo ser bem formado e situado na cultura de hoje, rico de cultura, para ajudar também os jovens a entrar numa cultura inspirada pela fé. Acrescentaria, naturalmente, que no final o ponto de orientação de cada cultura é Deus, o Deus presente em Cristo. Vemos como existem hoje pessoas com tantos conhecimentos, mas sem orientação interior. Assim a ciência pode até ser perigosa para o homem, porque sem orientações éticas mais profundas, deixa o homem ao arbítrio e, portanto, sem as orientações necessárias para se tornar realmente homem. Neste sentido, o coração de cada formação cultural, tão necessária, deve ser sem dúvida a fé: conhecer o rosto de Deus que se mostrou em Cristo e assim ter o ponto de orientação para toda a outra cultura, que de outro modo se torna desorientada e desorientadora. Uma cultura sem o conhecimento pessoal de Deus e sem o conhecimento do rosto de Deus em Cristo, é uma cultura que poderia ser também destrutiva, porque não conhece as orientações éticas necessárias. Neste sentido, parece-me, nós temos realmente uma missão de profunda formação cultural e humana, que se abre a todas as riquezas da cultura do nosso tempo, mas oferece também o critério, o discernimento para provar o que é cultura verdadeira e o que poderia tornar-se anticultura.

Para mim, a primeira pergunta é muito mais difícil é feita também a Sua Eminência isto é, a permanência do jovem sacerdote para dar orientação aos jovens. Sem dúvida uma relação pessoal com o educador é importante e deve ter também a possibilidade de um certo tempo para se orientar juntos. E, neste sentido posso concordar que o sacerdote, ponto de orientação para o jovem, não pode mudar todos os dias, porque assim perde precisamente esta orientação. Por outro lado, o jovem sacerdote deve também fazer várias experiências em contextos culturais diversos, precisamente para alcançar, no fim, a bagagem cultural necessária para ser, como pároco, ponto de referência da paróquia por muito tempo. E, diria, na vida do jovem as dimensões do tempo são diversas da vida de um adulto. Em três anos, do décimo sexto ao décimo nono, são pelo menos tão longos e importantes quanto os anos entre os quarenta e os cinquenta. De facto, precisamente aqui se forma a personalidade: é um caminho interior de grande importância, de grande extensão existencial. Neste sentido, diria que três anos para um vice-pároco é um bom tempo para formar uma geração de jovens; e assim, por outro lado, pode conhecer também outros contextos, aprender noutras paróquias outras situações, enriquecer a sua bagagem humana. Este é sempre um tempo não muito breve para uma certa continuidade, um caminho educativo da experiência comum, do aprender o ser humano. Aliás, como disse, na juventude três anos são um tempo decisivo e muito longo, porque nessa fase forma-se realmente a personalidade futura. Parece-me portanto que se poderiam conciliar as duas necessidades: por um lado, que o sacerdote jovem tenha possibilidades de experiência humana; por outro, a necessidade de estar um determinado tempo com os jovens para os introduzir realmente na vida, para lhes ensinar a ser pessoas humanas. Neste sentido, penso numa conciliação dos dois aspectos: experiências diversas para um jovem sacerdote, continuidade do acompanhamento dos jovens para os guiar na sua vida. Mas não sei o que o Cardeal Vigário nos pode dizer acerca disto.

Cardeal Vigário: Santo Padre, naturalmente partilho estas duas exigências, a composição entre as duas exigências. Parece-me, pelo pouco que pude conhecer, que em Roma se conserva contudo uma certa estabilidade dos jovens sacerdotes nas paróquias pelo menos por alguns anos, salvo excepções. Pode haver sempre excepções. Mas por vezes o verdadeiro problema surge de graves exigências ou de situações concretas, sobretudo nas relações entre pároco e vigário paroquial e aqui toco um ponto nevrálgico e depois também pela escassez de jovens sacerdotes. Como tive também a ocasião de lhe dizer quando me recebeu em audiência, um dos graves problemas da nossa Diocese é precisamente o número das vocações para o sacerdócio. Pessoalmente estou persuadido de que o Senhor chama, continua a chamar. Talvez nós devêssemos fazer mais. Roma pode dar vocações, disto tenho certeza. Mas em toda esta matéria complexa interferem muitos aspectos. Certamente uma certa estabilidade penso que tenha sido garantida e também eu me orientarei, no que posso, segundo as linhas indicadas pelo Santo Padre.

P. Santidade, sou Padre Giampiero Ialongo, um entre tantos párocos que desempenha o seu ministério na periferia de Roma, fisicamente em Torre Angela, no limite com Torbellamonaca, Borghesiana, Borgata Finocchio, Colle Prenestino. Estas são periferias, como numerosas outras, muitas vezes esquecidas e descuidadas pelas instituições. Sinto-me feliz por nos ter convocado esta tarde o Presidente do Município: veremos o que poderá surgir des-te encontro com a municipalidade. E, talvez, mais do que outras áreas da nossa cidade, as nossas periferias sentem verdadeiramente forte o mal-estar que a crise económica internacional começa a fazer pesar sobre as condições concretas de vida de muitas famílias. Como Cáritas paroquial, mas sobretudo também como Cáritas diocesana, damos vida a tantas iniciativas destinadas antes de tudo à escuta, mas também depois a uma ajuda material, concreta, em relação a quantos sem distinção de raça, culturas, religiões que a nós se dirigem. Apesar disto, apercebemo-nos sempre mais de que nos encontramos perante uma verdadeira emergência. Parece-me que muitas, demasiadas pessoas não só reformadas mas também quem tem um emprego regular, um contrato efectivo tenham grandes dificuldades para fazer quadrar o balanço familiar. Pacotes alimentares, como fazemos, um pouco de vestiário, por vezes ajudas económicas concretas para pagar as contas ou a renda de casa, podem ser um alívio mas penso que não são a solução. Tenho certeza de que como Igreja deveríamos interrogar-nos mais acerca do que podemos fazer, mas ainda mais acerca dos motivos que levaram a esta generalizada situação de crise. Deveríamos ter a coragem de denunciar um sistema económico e financeiro injusto nas suas raízes. E não penso que face a estas desproporções, introduzidas por este sistema, é suficiente apenas um pouco de optimismo. Serve uma palavra influente, uma palavra livre, que ajude os cristãos, como Vossa Santidade de certa forma já disse, a gerir com sabedoria evangélica e com responsabilidade os bens que Deus doou a todos e não só a poucos. Esta palavra, como já fez outras vezes porque outras vezes ouvimos a sua palavra sobre isto gostaria de a ouvir mais uma vez neste contexto. Obrigado, Santidade!

R. Antes de tudo, gostaria de agradecer ao Cardeal Vigário as expressões de confiança: Roma pode dar mais candidatos para a messe do Senhor. Devemos sobretudo rezar ao Senhor da messe, mas também fazer a nossa parte para encorajar os jovens a dizer sim ao Senhor. E, naturalmente, são os jovens sacerdotes que estão chamados a dar o exemplo à juventude de hoje, que é bom trabalhar para o Senhor. Neste sentido, estamos cheios de esperança. Rezemos ao Senhor e façamos a nossa parte.

Agora esta questão que toca o nervo dos problemas do nosso tempo. Eu distinguiria entre dois níveis. O primeiro é o nível da macroeconomia, que depois de realiza e vai até ao último cidadão, o qual sente as consequências de uma construção errada. Naturalmente, denunciar isto é um dever da Igreja. Como sabeis, há muito tempo que preparamos uma Encíclica sobre estes pontos. E no longo caminho vejo como é difícil falar com competência, porque se não for enfrentada com competência uma determinada realidade económica não pode ser credível. E, por outro lado, é preciso falar também com uma grande consciência ética, digamos criada e despertada por uma consciência formada pelo Evangelho. Portanto é preciso denunciar estes erros fundamentais que agora são evidenciados pela queda dos grandes bancos americanos, os erros na base. No final, é a avareza humana como pecado ou, como diz a Carta aos Colossenses, avareza como idolatria. Devemos denunciar esta idolatria que vai contra o verdadeiro Deus e a falsificação da imagem de Deus com outro deus "dinheiro". Devemos fazê-lo com coragem mas também concretamente. Pois os grandes moralismos não ajudam se não forem substanciados com conhecimentos da realidade, que ajudam também a compreender o que se pode fazer concretamente para mudar pouco a pouco a situação. E, naturalmente, para o poder fazer são necessários o conhecimento desta verdade e a boa vontade de todos.

Chegamos aqui ao ponto forte: existe realmente um pecado original? Se não existisse poderíamos fazer apelo à razão lúcida, com argumentos acessíveis a todos e incontestáveis, e à boa vontade que existe em todos. Só assim poderíamos progredir bem e reformar a humanidade. Mas não é assim: a razão também a nossa é obscurecida, vemo-lo todos os dias. Porque o egoísmo, a raiz da avareza, consiste em querer sobretudo a si mesmo e ao mundo para si. Existe isto em todos nós. É o obscurecimento da razão: ela pode ser muito douta, com maravilhosos argumentos científicos, mas contudo está obscurecida por falsas premissas. Deste modo vai em frente com grande inteligência e com grandes passos pelo caminho errado. Também a vontade está, digamos, inclinada, dizem os Padres: não está simplesmente disponível para fazer o bem mas procura sobretudo a si mesmo ou o bem do próprio grupo. Por isso encontrar realmente o caminho da razão, da razão verdadeira, já é uma coisa não fácil e dificilmente se desenvolve num diálogo. Sem a luz da fé, que entra nas trevas do pecado original, a razão não pode desenvolver-se. Mas precisamente a fé encontra depois a resistência da nossa vontade. Esta não quer ver o caminho, que constituiria também um caminho de renúncia a si mesmo e de uma correcção da própria vontade a favor do outro e não para si mesmo.

Por isso é necessária, diria, a denúncia razoável e raciocinada dos erros, não com grandes moralismos, mas com razões concretas que se tornem compreensíveis no mundo da economia de hoje. A denúncia disto é importante, é um mandato para a Igreja desde sempre. Sabemos que na nova situação que se veio a criar com o mundo industrial, a doutrina social da Igreja, começando por Leão XIII, procura fazer estas denúncias e não as denúncias, que não são suficientes mas também mostrar os caminhos difíceis nos quais, passo a passo, se exige o consentimento da razão e da vontade, juntamente com a correcção da minha consciência, à vontade de renunciar num certo sentido a mim mesmo para poder colaborar no que é a verdadeira finalidade da vida humana, da humanidade.

Dito isto, a Igreja tem sempre a tarefa de vigiar, de procurar ela mesma com as melhores forças de que dispõe, as razões do mundo económico, de entrar neste raciocínio e iluminá-lo com a fé que nos liberta do egoísmo do pecado original. É dever da Igreja entrar neste discernimento, neste raciocínio, fazer-se ouvir, também nos diversos níveis nacionais e internacionais, para ajudar e corrigir. Este não é um trabalho fácil, porque muitos interesses pessoais e de grupos nacionais se opõem a uma correção radical. Talvez seja pessimismo, mas parece-me realismo: enquanto houver o pecado original nunca conseguiremos uma correção radical e total. Mas devemos fazer o possível para obter correcções pelo menos provisórias, suficientes para fazer viver a humanidade e para impedir o domínio do egoísmo, que se apresenta sob pretextos de ciência e de economia nacional e internacional.

Este é o primeiro nível. O outro é o sermos realistas. E ver que estas grandes finalidades da macrociência não se realizam na microciência a macro-economia na micro-economia sem a conversão dos corações. Se não existem os justos, também não existe a justiça. Devemos aceitar isto. Portanto a educação para a justiça é uma finalidade prioritária, poderíamos dizer que é a prioridade. Porque São Paulo diz que a justificação é o efeito da obra de Cristo, não é um conceito abstracto, relativo a pecados que hoje não nos interessam, mas refere-se precisamente à justiça integral. Só Deus no-la pode dar, mas no-la concede com a nossa cooperação a diversos níveis, a todos os níveis possíveis.

Não se pode criar no mundo a justiça apenas com modelos económicos bons, que são necessários. A justiça só se realiza se existem os justos. E os justos não existem se não há o trabalho humilde, quotidiano, de converter os corações. E de criar justiça nos corações. Só assim se expande também a justiça correctiva. Por isso o trabalho do pároco é muito fundamental não só para a paróquia, mas para a humanidade. Porque se não houver justos, como disse, a justiça permanece abstracta. E as estruturas boas não se realizam se se opõe o egoísmo também de pessoas competentes.

Este nosso trabalho, humilde, quotidiano, é fundamental para alcançar as grandes finalidades da humanidade. E devemos trabalhar juntos a todos os níveis. A Igreja universal deve denunciar, mas também anunciar o que se pode fazer e como se pode fazer. As conferências episcopais e os bispos devem agir. Mas todos devemos educar para a justiça. Parece-me que ainda hoje é verdadeiro e realista o diálogo de Abraão com Deus (cf. Gn 18, 22-33), quando o primeiro diz: deveras destruirás a cidade? Talvez haja nela cinquenta justos, talvez dez. E dez justos são suficientes para fazer sobreviver a cidade. Mas, se faltam dez justos, com toda a doutrina económica, a sociedade não sobrevive. Por isso devemos fazer o necessário para educar e garantir pelo menos dez justos, mas se for possível, muitos mais. Precisamente com o nosso anúncio fazemos com que haja muitos justos, com que esteja realmente presente a justiça no mundo.

Como efeito, os dois níveis são inseparáveis. Se, por um lado, não anunciamos a macrojustiça a micro não cresce. Mas, por outro lado, se não fizermos o trabalho muito humilde da micro-justiça também a macro não cresce. E sempre, como disse na minha primeira Encíclica, com todos os sistemas que podem crescer no mundo, além da justiça que procuramos permanece necessária a caridade. Abrir os corações à justiça e à caridade é educar na fé, é guiar para Deus.

P. Santo Padre, sou Padre Marco Valentini, vigário na paróquia de Santo Ambrósio. Quando estava em formação não me apercebia, como agora, da importância da liturgia. Certamente as celebrações não faltavam, mas não compreendia muito como ela fosse o "ápice para o qual tende a acção da Igreja e a fonte da qual promana toda a sua energia" (Sacrosanctum Concilium, 10). Considerava-a mais um facto técnico para o bom êxito de uma celebração ou uma prática piedosa e não um contacto com o mistério que salva, um deixar-se conformar com Cristo para ser luz do mundo, uma fonte de teologia, um meio para realizar a tão desejada integração entre o que se estuda e a vida espiritual. Por outro lado, pensava que a liturgia não era estritamente necessária para ser cristão ou salvo e que fosse suficiente esforçar-se para pôr em prática as Bem-Aventuranças. Agora pergunto-me o que seria da caridade sem a liturgia e se, sem ela, a nossa fé não se reduziria a uma moral, a uma ideia, a uma doutrina, a um facto do passado e nós, sacerdotes, não nos pareceríamos mais professores ou conselheiros do que mistagogos que introduzem as pessoas no mistério. A própria Palavra de Deus é um anúncio que se realiza na liturgia e que com ela tem uma relação surpreendente: Sacrosanctum Concilium, 6; Praenotanda do Leccionário, 4 e 10. E pensamos também no trecho de Emaús ou do funcionário etíope (Act 8). Faço a pergunta. Sem nada tirar à formação humana, filosófica, psicológica, nas universidades e nos seminários, gostaria de compreender se a nossa especificidade não exige uma maior formação litúrgica, ou se a actual prática e estrutura dos estudos já satisfazem suficientemente a Constituição Sacrosanctum Concilium, 16, onde se diz que a liturgia deve ser incluída entre as matérias necessárias e mais importantes, principais, e ensinada sob os aspectos teológico, histórico, espiritual, pastoral e jurídico e que os professores das outras matérias tenham a preocupação de que a relação com a liturgia seja clara. Fiz esta pergunta porque, inspirando-me no prefácio do decreto Optatam totius, parece-me que as multíplices acções da Igreja no mundo e a nossa própria eficiência pastoral, dependem muito da autoconsciência que temos do mistério inexaurível do nosso ser baptizados, crismados e sacerdotes.

R. Portanto, se compreendi bem, trata-se da questão: qual é, no conjunto do nosso trabalho pastoral, multíplice e com tantas dimensões, o espaço e o lugar da educação litúrgica e da realidade do celebrar o mistério. Neste sentido, parece-me, é também uma questão sobre a unidade do nosso anúncio e do nosso trabalho pastoral, que tem tantas dimensões. Devemos procurar o ponto unificador, para que estas numerosas ocupações que desempenhamos sejam todas juntas um trabalho do pastor. Se compreendi bem, o senhor é do parecer que o ponto unificador, que cria a síntese de todas as dimensões do nosso trabalho e da nossa fé, poderia ser precisamente a celebração dos mistérios. E, portanto, a mistagogia, que nos ensina a celebrar.

Para mim é realmente importante que os sacramentos, a celebração eucarística dos sacramentos, não seja uma coisa um pouco estranha, ao lado dos trabalhos mais contemporâneos como a educação moral, económica, todas as coisas que já dissemos. Pode acontecer facilmente que o sacramento permaneça um pouco isolado num contexto mais pragmático e se torne uma realidade não totalmente inserida na totalidade do nosso ser humano. Obrigado pela pergunta, porque realmente nós devemos ensinar a ser homens. Devemos ensinar esta grande arte: como ser homem. Isto exige, como vimos, tantas coisas: da grande denúncia do pecado original nas raízes da nossa economia e nos numerosos ramos da nossa vida, até guias concretos da justiça, até ao anúncio aos não-crentes. Mas os mistérios não são uma coisa exótica no cosmos das realidades mais práticas. O mistério é o coração do qual provém a nossa força e para o qual voltamos para encontrar este centro. E por isso penso que a catequese, digamos mistagógica, é realmente importante. Mistagógica significa também realista, referida à nossa vida de homens hoje. Se é verdade que o homem em si não tem a sua medida o que é justo e o que não é mas encontra a sua medida fora de si, em Deus, é importante que este Deus não esteja distante mas seja reconhecível, concreto, entre na nossa vida e seja realmente um amigo com o qual podemos falar e que fala connosco. Devemos aprender a celebrar a Eucaristia, aprender a conhecer Jesus Cristo, o Deus com o rosto humano, de perto, entrar realmente em contacto com Ele, aprender a ouvi-lo e aprender a deixá-lo entrar em nós. Porque a comunhão sacramental é precisamente esta intercomunhão entre duas pessoas. Não tomo um bocado de pão ou de carne, tomo ou abro o meu coração para que o Ressuscitado entre no contexto do meu ser, para que esteja dentro de mim e não só fora de mim, e assim fale dentro de mim e transforme o meu ser, me dê o sentido da justiça, o dinamismo da justiça, o zelo pelo Evangelho.

Esta celebração, na qual Deus se torna não só próximo de nós, mas entra no tecido da nossa existência, é fundamental para poder viver realmente com Deus e para Deus e levar a luz de Deus a este mundo. Não entremos agora em demasiados pormenores. Mas é sempre importante que a catequese sacramental seja uma catequese existencial. Naturalmente, mesmo aceitando e aprendendo sempre o aspecto mistérico onde terminam as palavras e os raciocínios ela é totalmente realista, porque me conduz a Deus e Deus a mim. Conduz-me ao outro porque o outro recebe o mesmo Cristo comigo. Portanto, se nele e em mim há o mesmo Cristo, também nós já não somos indivíduos separados. Nasce aqui a doutrina do Corpo de Cristo, porque somos todos incorporados se recebermos bem a Eucaristia no mesmo Cristo. Portanto o próximo é realmente próximo: não somos dois "eus" separados, mas estamos unidos no mesmo "eu" de Cristo. Por outras palavras, a catequese eucarística e sacramental deve realmente alcançar o âmago da minha existência, ser precisamente educação a abrir-me à voz de Deus, a deixar-me abrir para que interrompa este pecado original do egoísmo e seja abertura da minha existência em profundidade, de modo que possa tornar-se um verdadeiro justo. Neste sentido, parece-me que todos devemos aprender sempre melhor a liturgia, não como uma coisa exótica, mas como o coração do nosso ser cristãos, que não se abre facilmente a um homem distante, mas é precisamente, por outro lado, a abertura ao outro, ao mundo. Todos devemos colaborar para celebrar cada vez mais profundamente a Eucaristia: não só como rito, mas como processo existencial que me toca na minha intimidade, mais do que qualquer outra coisa, e me muda, me transforma. E transformando a mim, dá início também à transformação do mundo que o Senhor deseja e para a qual quer fazer-nos seus instrumentos.

P. Beatíssimo Padre, sou padre Lucio Maria Zappatore, carmelita, pároco da paróquia de Santa Maria "Regina Mundi", em Torrespaccata.

Para justificar a minha intervenção, refiro-me a quanto Vossa Santidade disse no domingo passado, durante a oração do Angelus, a propósito do ministério petrino. Falou do ministério singular e específico do Bispo de Roma, o qual preside à comunhão universal da caridade. Peço-lhe que continue esta reflexão alargando-a à Igreja universal: qual é o carisma singular da Igreja de Roma e quais são as características que a tornam, por um dom misterioso da Providência, única no mundo? Ter como Bispo o Papa da Igreja universal, a que obriga na sua missão, hoje em particular? Não queremos conhecer os nossos privilégios: outrora dizia-se: Parochus in urbe, episcopus in orbe; mas queremos saber como viver este carisma, este dom de viver como sacerdotes em Roma e o que espera Vossa Santidade de nós, párocos romanos.

Daqui a poucos dias Vossa Santidade irá ao Capitólio para encontrar as autoridades civis de Roma e falará dos problemas materiais da nossa cidade: hoje pedimos-lhe que nos fale dos problemas espirituais de Roma e da sua Igreja. E, a propósito da sua visita ao Capitólio, tomei a liberdade de lhe dedicar um soneto em dialecto romano, pedindo-lhe a bondade de o ouvir.

"Er Papa che salisce al Campidoglio / è un fatto che te lassa senza fiato / perché 'sta vorta sòrte for dar sojo, / pe creanza che tiè 'n bon vicinato. / Er sindaco e la giunta con orgojo / jànno fatto 'n invito, er più accorato, / perché Roma, se sa, vojo o nun vojo / nun po' fa' proprio a meno der papato. / Roma, tu ciài avuto dentro ar petto / la forza pè portà la civiltà. / Quanno Pietro t'ha messo lo zicchetto / eterna Dio t'ha fatto addiventà. / Accoji allora er Papa Benedetto / che sale a beneditte e a ringrazià!"

R. Obrigado. Ouvimos falar o coração romano, que é um coração de poesia. É muito belo ouvir falar um pouco de dialecto romano e sentir que a poesia está profundamente arraigada no coração romano. Talvez isto seja um privilégio natural que o Senhor deu aos romanos. É um carisma natural que precede os eclesiais.

A sua pergunta, se compreendi bem, compõe-se de duas partes. Antes de tudo, o que é a responsabilidade concreta do Bispo de Roma hoje. Mas depois o senhor alarga justamente o privilégio petrino a toda a Igreja de Roma assim era considerado também na Igreja antiga e pergunta quais são as obrigações da Igreja de Roma para responder a esta sua vocação.

Não é necessário desenvolver aqui a doutrina da primazia, todos a conheceis muito bem. É importante deter-nos sobre o facto de que realmente o Sucessor de Pedro, o ministério de Pedro, garante a universalidade da Igreja, esta transcendência de nacionalismos e de outras fronteiras que existem na humanidade de hoje, para ser realmente uma Igreja na diversidade e na riqueza das muitas culturas.

Vemos como também as outras comunidades eclesiais, as outras Igrejas sentem a necessidadde de um ponto unificador para não cair no nacionalismo, na identificação com uma determinada cultura, para sermos realmente abertos, todos para todos e para sermos quase obrigados a abrirmo-nos sempre aos outros. Parece-me que é este o ministério fundamental do Sucessor de Pedro: garantir esta catolicidade que implica multiplicidade, diversidade, riqueza de culturas, respeito pelas diversidades e que, ao mesmo tempo, exclui a absolutização e une todos, obriga-os a abrir-se, a sair da absolutização do próprio ser para se encontrar na unidade da família de Deus que o Senhor quis e para a qual garante o Sucessor de Pedro, como unidade na diversidade.

Naturalmente a Igreja do Sucessor de Pedro deve carregar, com o seu Bispo, este peso, esta alegria do dom da sua responsabilidade. No Apocalipse o bispo aparece de facto como anjo da sua Igreja, ou seja, um pouco como a incorporação da sua Igreja, à qual deve responder o ser da própria Igreja. Portanto, a Igreja de Roma, juntamente com o Sucessor de Pedro e como sua Igreja particular, deve garantir precisamente esta universalidade, esta abertura, esta responsabilidade pela transcendência do amor, este presidir no amor que exclui particularismos. Deve garantir também a fidelidade à Palavra do Senhor, ao dom da fé, que não inventamos nós mas que é realmente o dom que só pode vir do próprio Deus. Este é e será sempre o dever, mas também o privilégio, da Igreja de Roma, contra as modas, contra os particularismos, contra a absolutização de alguns aspectos, contra heresias que são sempre absolutizações de um aspecto. Também o dever de garantir a universalidade e a fidelidade à integridade, à riqueza da sua fé, do seu caminho na história que se abre sempre ao futuro. E juntamente com este testemunho da fé e da universalidade, naturalmente deve dar o exemplo da caridade.

Assim nos diz Santo Inácio, identificando nesta palavra um pouco enigmática, o sacramento da Eucaristia, a acção do amar os outros. E isto, voltando ao ponto precedente, é muito importante: ou seja, esta identificação com a Eucaristia que é ágape, é caridade, é a presença da caridade que se doou em Cristo. Deve ser sempre caridade, sinal e causa de caridade no abrir-se aos outros, deste doar-se aos outros, desta responsabilidade em relação aos necessitados, aos pobres, aos esquecidos. Esta é uma grande responsabilidade.

Ao presidir na Eucaristia segue-se o presidir na caridade, que só pode ser testemunhada pela própria comunidade. Esta parece-me que é a grande tarefa, a grande pergunta para a Igreja de Roma: ser realmente exemplo e ponto de partida da caridade. Neste sentido é defesa da caridade.

No presbitério de Roma somos de todos os continentes, de todas as raças, de todas as filosofias e culturas. Sinto-me feliz porque precisamente o presbitério de Roma exprime a universalidade, na unidade da pequena Igreja local, a presença da Igreja universal. Mais difícil e exigente é ser também e realmente portadores do testemunho, da caridade, do estar entre os outros com nosso Senhor. Podemos apenas pedir ao Senhor que nos ajude em cada uma das paróquias, comunidades, e que todos juntos possamos ser realmente fiéis a este dom, a este mandato: presidir à caridade.

P. Santo Padre, sou Padre Guillermo M. Cassone, da comunidade dos Padres de Schoenstatt em Roma, vigário paroquial na paróquia dos Santos Padroeiros da Itália, São Francisco e Santa Catarina, em "Trastevere".

Depois do Sínodo sobre a Palavra de Deus, reflectindo sobre a Proposição 55, "Maria Mater Dei et Mater fidei", perguntei-me como melhorar a relação entre a Palavra de Deus e a piedade mariana, quer na vida espiritual sacerdotal quer na acção pastoral. Ajudam-me duas imagens: a anunciação para a escuta, e a visitação para o anúncio. Santidade, gostaria de lhe pedir que nos ilumine com o seu ensinamento sobre este tema. Agradeço-lhe este dom.

R. Parece-me que o senhor deu também a resposta à sua pergunta. Realmente Maria é a mulher da escuta: vemo-lo no encontro com o Anjo e vemo-lo de novo em todas as cenas da sua vida, desde as bodas de Caná, até à cruz e até ao dia do Pentecostes, quando está entre os apóstolos precisamente para acolher o Espírito. É o símbolo da abertura, da Igreja que espera a vinda do Espírito Santo.

Já no momento do anúncio podemos captar a atitude da escuta uma escuta verdadeira, uma escuta que se deve interiorizar, que não diz simplesmente sim, mas assimila a Palavra, toma a Palavra e depois fazer seguir a verdadeira obediência, como se fosse uma Palavra interiorizada, isto é, que se tornou Palavra em mim e para mim, quase forma da minha vida. Isto parece-me muito bonito: ver esta escuta activa, isto é, uma escuta que atrai a Palavra de modo que entre e se torne em mim Palavra, reflectindo-a e aceitando-a até ao íntimo do coração. Assim a Palavra torna-se encarnação.

Vemos o mesmo no Magnificat. Sabemos que é um tecido feito de palavras do Antigo Testamento. Vemos que Maria é realmente uma mulher da escuta, que conhecia no coração a Escritura. Não conhecia só alguns textos, mas identificava-se a tal ponto com a Palavra que as palavras do Antigo Testamento se tornaram, sintetizadas, um cântico no seu coração e nos seus lábios. Vemos que a sua vida estava realmente imbuída da Palavra; tinha entrado na Palavra, tinha-a assimilado e tinha-se tornado vida nela, transformando-se depois de novo em Palavra de louvor e de anúncio da grandeza de Deus.

Parece-me que São Lucas, referindo-se a Maria, diz pelo menos três vezes, talvez quatro, que assimilou e conservou no seu coração as Palavras. Era, para os Padres, o modelo da Igreja, o modelo do crente que conserva a Palavra, traz em si a Palavra; não só a lê, a interpreta com o intelecto para saber o que ela foi naquele tempo, quais são problemas filológicos. Tudo isto é interessante, importante, mas é mais importante ouvir a Palavra que deve ser conservada e que se torna Palavra em mim, vida em mim e presença do Senhor. Por isso, parece-me importante o nexo entre mariologia e teologia da Palavra, do qual falaram os Padres sinodais e do qual falaremos no documento pós-sinodal.

É óbvio: Nossa Senhora é palavra de escuta, palavra silenciosa, mas também palavra do louvor, do anúncio, porque a Palavra na escuta se torna de novo carne e assim torna-se presença da grandeza de Deus.

P. Santo Padre, sou Pietro Riggi, salesiano que trabalha no "Borgo ragazzi Don Bosco", e desejo perguntar-lhe: o Concílio Vaticano II trouxe tantas novidades importantíssimas à Igreja, mas não aboliu as coisas que já existiam. Parece-me que diversos sacerdotes ou teólogos gostariam de fazer passar como espírito do Concílio o que ao contrário nada tem a ver com o próprio Concílio. Por exemplo as indulgências. Existe o Manual das indulgências da Penitenciaria Apostólica, através das indulgências haure-se do tesouro da Igreja e podem-se sufragar as almas do Purgatório. Existe um calendário litúrgico no qual se diz quando e como se podem lucrar as indulgências plenárias, mas muitos sacerdotes já não falam mais disso, impedindo que se faça chegar sufrágios importantíssimos às almas do Purgatório. As bênçãos. Existe o Manual das bênçãos no qual se prevê a benção a pessoas, ambientes, objectos e até alimentos. Mas muitos sacerdotes desconhecem estas coisas, outros consideram-nas pré-conciliares, e assim mandam embora os fiéis que pedem aquilo que por direito deveriam obter.

As práticas de piedade mais conhecidas. As primeiras sextas-feiras do mês não foram abolidas pelo Concílio Vaticano II, mas muitos sacerdotes não falam mais acerca delas, ou até falam negativamente. Hoje verifica-se um sentido de rejeição de tudo isto, porque é considerado antigo e prejudicial, como coisas velhas e pré-conciliares, enquanto eu considero que todas estas orações e práticas cristãs são muito actuais e importantes, que devem ser retomadas e explicadas adequadamente ao Povo de Deus, no equilíbrio sadio e na verdade como plenitude do Vaticano II.

Queria perguntar também: certa vez, Vossa Santidade, falando de Fátima disse que existe um vínculo entre Fátima e Akita, as lacrimações de Nossa Senhora do Japão. Quer Paulo VI quer João Paulo II celebraram em Fátima uma missa solene e usaram o mesmo trecho da Sagrada Escritura, Apocalipse 12, a mulher revestida de sol que combate uma batalha decisiva contra a serpente antiga, o demónio, satanás. Há afinidade entre Fátima e Apocalipse 12?

Concluo: no ano passado um sacerdote ofereceu-lhe um quadro, eu não sei pintar, mas gostaria também eu de lhe oferecer uma prenda, e assim pensei em doar-lhe três livros que escrevi recentemente, espero que os aprecie.

R. São realidades das quais o Concílio não falou, mas que supõe como realidades na Igreja. Elas vivem e desenvolvem-se na Igreja. Agora não é o momento para entrar no grande tema das indulgências. Paulo VI reorganizou este tema e indica-nos o fio condutor para o compreender. Diria que se trata simplesmente de um intercâmbio de dons, ou seja, quanto na Igreja existe de bem, existe para todos. Com esta chave da indulgência podemos entrar nesta comunhão dos bens da Igreja. Os protestantes opõem-se, afirmando que o único tesouro é Cristo. Mas para mim a coisa maravilhosa é que Cristo o qual é realmente mais do que suficiente no seu amor infinito, na sua divindade e humanidade queria acrescentar, a quanto ele fez, também a nossa pobreza. Não nos considera só como objectos da sua misericórdia, mas torna-nos sujeitos da misericórdia e do amor juntamente com Ele, como se mesmo se não quantitativamente, pelo menos em sentido mistérico nos quisesse acrescentar ao grande tesouro do corpo de Cristo. Queria ser a Cabeça com o corpo. E queria que com o corpo fosse completado o mistério da sua redenção. Jesus não queria ter a Igreja como seu corpo, no qual se realiza toda a riqueza de quanto fez. Deste mistério resulta precisamente que existe um thesaurus ecclesiae, que o corpo, como a cabeça, doa tanto e nós podemos receber um do outro e podemos doar um do outro.

E isto é válido também para as outras coisas. Por exemplo, a sexta-feira do Sagrado Coração: é uma coisa muito bela na Igreja. Não são coisas necessárias, mas que cresceram na riqueza da meditação do mistério. Assim o Senhor oferece-nos na Igreja estas possibilidades. Não me parece agora o momento para entrar em todos os pormenores. Cada um pode um pouco compreender o que é menos importante; mas ninguém deveria desprezar esta riqueza, que cresceu nos séculos como oferta e como multiplicação das luzes na Igreja. Única é a luz de Cristo. Aparece em todas as suas cores e oferece o conhecimento da riqueza do seu dom, a interacção entre cabeça e corpo, a interacção entre os membros, de modo que possamos ser verdadeiramente juntos um organismo vivente, no qual cada um doa a todos, e todos doam o Senhor, o qual se doou a si totalmente.

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