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DISCURSO
DO PAPA BENTO XVI Sala Clementina [Vídeo]
Senhores Cardeais, Um momento como este que vivemos hoje reveste-se sempre de particular
intensidade. O Santo Natal já está perto e a grande família da Cúria Romana
sente-se impelida a reunir-se para trocar entre si venturosos votos que encerram
o desejo de viver, com alegria e verdadeiro fruto espiritual, a festa de Deus
que encarnou e pôs a sua tenda no meio de nós (cf. Jo 1, 14). Esta
ocasião permite-me não só apresentar-vos os meus votos pessoais, mas também
exprimir a cada um de vós o agradecimento, meu e da Igreja, pelo vosso generoso
serviço; peço-vos que o façais chegar também a todos os colaboradores que formam
a nossa grande família. Um obrigado particular ao Cardeal Decano Ângelo Sodano,
que se fez intérprete dos sentimentos dos presentes e de quantos trabalham nos
diversos Departamentos da Cúria, do Governatorado, incluindo aqueles que
realizam o seu ministério nas Representações Pontifícias espalhadas por todo o
mundo. Todos nós estamos empenhados em fazer com que o pregão que os Anjos
proclamaram na noite de Belém – «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos
homens do seu agrado» (Lc 2, 14) – ressoe por toda a terra levando
alegria e esperança. No fim deste ano, a Europa encontra-se no meio duma crise económica e financeira
que, em última análise, se fundamenta na crise ética que ameaça o Velho
Continente. Embora certos valores como a solidariedade, o serviço aos outros, a
responsabilidade pelos pobres e atribulados sejam em grande parte
compartilhados, todavia falta muitas vezes a força capaz de motivar e induzir o
indivíduo e os grandes grupos sociais a abraçarem renúncias e sacrifícios. O
conhecimento e a vontade caminham, necessariamente, lado a lado. A vontade de
preservar o lucro pessoal obscurece o conhecimento e este, enfraquecido, é
incapaz de revigorar a vontade. Por isso, desta crise surgem interrogações
fundamentais: Onde está a luz que possa iluminar o nosso conhecimento não apenas
com ideias gerais, mas também com imperativos concretos? Onde está a força que
sublime a nossa vontade? São questões às quais o nosso anúncio do Evangelho, a
nova evangelização, deve dar resposta, para que a mensagem se torne
acontecimento, o anúncio se torne vida. Com efeito, a grande temática tanto deste ano como dos anos futuros gira à volta
disto: Como anunciar hoje o Evangelho? Como pode a fé, enquanto força viva e
vital, tornar-se realidade hoje? Os acontecimentos eclesiais deste ano que está
a terminar referiam-se todos, em última análise, a este tema. Entre eles
contam-se as minhas viagens à
Croácia, a
Espanha para a
Jornada Mundial da
Juventude, à minha pátria da
Alemanha e, por fim, à
África – ao Benim – para a
entrega da
Exortação pós-sinodal sobre justiça, paz e reconciliação; documento
este, que se deve traduzir em realidade concreta nas diversas Igrejas
particulares. Não posso esquecer também as viagens a
Veneza, a
São Marino, a
Ancona para o Congresso Eucarístico e à
Calábria. E tivemos, enfim, a
significativa jornada de
Assis, com o encontro entre as religiões e entre as
pessoas em busca de verdade e de paz; jornada concebida como um novo impulso na
peregrinação para a verdade e a paz. A instituição do
Pontifício Conselho para a
Promoção da Nova Evangelização constitui, simultaneamente, um prenúncio do
Sínodo sobre o mesmo tema que terá lugar no próximo ano. E entra também neste
contexto o Ano da Fé, na
comemoração da abertura do Concílio há cinquenta anos.
Cada um destes acontecimentos revestiu-se de acentuações próprias. Na Alemanha,
país onde teve origem a Reforma, naturalmente teve uma importância particular a
questão ecuménica com todas as suas fadigas e esperanças. Indivisivelmente
associada com ela, levanta-se sempre de novo, no centro da disputa, a questão: O
que é uma reforma da Igreja? Como se realiza? Quais são os seus caminhos e os
seus objectivos? É com preocupação que fiéis crentes, e não só, notam como as
pessoas que frequentam regularmente a Igreja se vão tornando sempre mais idosas
e o seu número diminui continuamente; notam como se verifica uma estagnação nas
vocações ao sacerdócio; como crescem o cepticismo e a descrença. Então que
devemos fazer? Existem discussões sem fim a propósito do que se deve fazer para
haver uma inversão de tendência. E certamente é preciso
fazer tantas coisas; mas o fazer, por si só, não resolve o problema. O cerne da crise da
Igreja na Europa, é a crise da fé. Se não encontrarmos
uma resposta para esta crise, ou seja, se a fé não ganhar de novo vitalidade,
tornando-se um convicção profunda e uma força real graças ao encontro com Jesus
Cristo, permanecerão ineficazes todas as outras reformas. Neste sentido, o encontro com a jubilosa paixão pela fé, na
África, foi um
grande encorajamento. Lá não se sentia qualquer indício desta lassidão da fé,
tão difusa entre nós, não havia nada deste tédio de ser cristão que se constata
sempre de novo no meio de nós. Apesar de todos os problemas, de todos os
sofrimentos e penas que existem, sem dúvida, precisamente na
África, sempre se
palpava a alegria de ser cristão, o ser sustentado pela felicidade interior de
conhecer Cristo e pertencer à sua Igreja. E desta alegria nascem também as
energias para servir Cristo nas situações opressivas de sofrimento humano, para
se colocar à sua disposição em vez de acomodar-se no próprio bem-estar.
Encontrar esta fé disposta ao sacrifício e, mesmo no meio deste, jubilosa é um
grande remédio contra a lassidão de ser cristão que experimentamos na Europa. E um remédio contra a lassidão do crer foi também a magnífica experiência da
Jornada Mundial da Juventude, 1. Em primeiro lugar, há uma nova experiência da
catolicidade, da universalidade da Igreja. Foi isto que impressionou, de forma
muito viva e imediata, os jovens e todos os presentes: Vimos de todos os
continentes e, apesar de nunca nos termos visto antes, conhecemo-nos. Falamos
línguas diferentes e possuímos costumes de vida diversos e formas culturais
diversas; e no entanto sentimo-nos imediatamente unidos como uma grande família.
Separação e diversidade exteriores ficaram relativizadas. Todos somos tocados
pelo mesmo e único Senhor Jesus Cristo, no qual se nos manifestou o verdadeiro
ser do homem e, conjuntamente, o próprio Rosto de Deus. As nossas orações são as
mesmas. Em virtude do mesmo encontro interior com Jesus Cristo, recebemos no
mais íntimo de nós mesmos a mesma formação da razão, da vontade e do coração. E,
por fim, a liturgia comum constitui uma espécie de pátria do coração e une-nos
numa grande família. Aqui o facto de todos os seres humanos serem irmãos e irmãs
não é apenas uma ideia mas torna-se uma experiência comum real, que gera
alegria. E assim compreendemos também de maneira muito concreta que, apesar de
todas as fadigas e obscuridades, é bom pertencer à Igreja universal, à Igreja
Católica, que o Senhor
nos deu. 2. E disto nasce, depois, um novo modo de viver o
ser homem, o ser cristão. Para mim, uma das experiências mais importantes
daqueles dias foi o
encontro com os voluntários da Jornada Mundial da Juventude:
eram cerca de 20.000 jovens, tendo todos, sem excepção, disponibilizado semanas
ou meses da sua vida para colaborar na preparação técnica, organizativa e
temática das actividades da
Jornada Mundial da Juventude, e tornando, precisamente assim, possível o
desenvolvimento regular de tudo. Com o próprio tempo, o homem oferece sempre uma
parte da sua própria vida. No fim, estes jovens estavam, visível e
«palpavelmente», inundados duma grande sensação de felicidade: o tempo dado tinha
um sentido; precisamente no dom do seu tempo e da sua força laboral, encontraram
o tempo, a vida. E então tornou-se-me evidente uma coisa fundamental: estes
jovens ofereceram, na fé, um pedaço de vida, e não porque isso lhes fora
mandado, nem porque se ganha o céu com isso, nem mesmo porque assim se escapa ao
perigo do inferno. Não o fizeram, porque queriam ser perfeitos. Não olhavam para
trás, para si mesmos. Passou-me pela mente a imagem da mulher de Lot, que,
olhando para trás, se transformou numa estátua de sal. Quantas vezes a vida dos
cristãos se caracteriza pelo facto de olharem sobretudo para si mesmos; por
assim dizer, fazem o bem para si mesmos. E como é grande, para todos os homens,
a tentação de se preocuparem antes de mais nada consigo mesmos, de olharem para
trás para si mesmos, tornando-se assim interiormente vazios, «estátuas de sal»!
Em
Madrid, ao contrário, não se tratava de aperfeiçoar-se a si mesmo ou de
querer conservar a própria vida para si mesmo. Estes jovens fizeram o bem – sem
olhar ao peso e aos sacrifícios que o mesmo exigia – simplesmente porque é bom
fazer o bem, é bom servir os outros. É preciso apenas ousar o salto. Tudo isto é
antecedido pelo encontro com Jesus Cristo, um encontro que acende em nós o
amor a Deus e aos outros e nos liberta da busca do nosso próprio «eu». Assim
recita uma oração atribuída a São Francisco Xavier: Faço o bem, não porque em
troca entrarei no céu, nem porque de contrário me poderíeis mandar para o
inferno. Faço-o por Vós, que sois o meu Rei e meu Senhor. Este mesmo
comportamento fui encontrá-lo também na
África, por exemplo nas Irmãs de Madre
Teresa que se prodigalizam pelas crianças abandonadas, doentes, pobres e
atribuladas, sem se importarem consigo mesmas, tornando-se, precisamente assim,
interiormente ricas e livres. Tal é o comportamento propriamente cristão. Para
mim, ficou memorável também o encontro com os jovens deficientes na fundação de
São José, em Madrid, onde voltei a encontrar a mesma generosidade de colocar-se
à disposição dos outros; uma generosidade de se dar, que, em última análise, nasce do
encontro com Cristo que Se deu a Si mesmo por nós. 3. Um terceiro elemento que vai, de forma cada vez
mais natural e central, fazendo parte das
Jornadas Mundiais da Juventude
e da
espiritualidade que delas deriva, é a adoração. Restam inesquecíveis em mim
aqueles
momentos no Hydepark, durante a minha viagem à Inglaterra, quando
dezenas de milhares de pessoas, na sua maioria jovens, responderam à presença do
Senhor no Santíssimo Sacramento com um profundo silêncio, adorando-O. E sucedeu
o mesmo, embora em medida menor, em
Zagreb e de novo em
Madrid depois do
temporal que ameaçava arruinar todo o encontro nocturno por causa dos microfones
que não funcionavam. Deus é, sem dúvida, omnipresente; mas a presença corpórea
de Cristo ressuscitado constitui algo mais, constitui algo de novo. O
Ressuscitado entra no meio de nós. E então não podemos senão dizer como o
apóstolo Tomé: Meu Senhor e meu Deus! A adoração é, antes de mais nada, um acto
de fé; o acto de fé como tal. Deus não é uma hipótese qualquer, possível ou
impossível, sobre a origem do universo. Ele está ali. E se Ele está presente,
prostro-me diante d’Ele. Então a razão, a vontade e o coração abrem-se para Ele, a partir d’Ele. Em Cristo ressuscitado, está presente Deus feito homem, que
sofreu por nós porque nos ama. Entramos nesta certeza do amor corpóreo de Deus
por nós, e fazemo-lo amando com Ele. Isto é adoração, e isto confere depois um
cunho próprio à minha vida. E só assim posso celebrar convenientemente a
Eucaristia e receber devidamente o Corpo do Senhor. 4. Outro elemento importante das
Jornadas Mundiais
da Juventude é a presença do sacramento da Penitência, que tem vindo, com
naturalidade sempre maior, a fazer parte do conjunto. Deste modo, reconhecemos
que necessitamos continuamente de perdão e que perdão significa
responsabilidade. Proveniente do Criador, existe no homem a disponibilidade para
amar e a capacidade de responder a Deus na fé. Mas, proveniente da história
pecaminosa do homem (a doutrina da Igreja fala do pecado original), existe
também a tendência contrária ao amor: a tendência para o egoísmo, para se fechar
em si mesmo, ou melhor, no mal. Incessantemente a minha alma fica manchada por
esta força de gravidade em mim, que me atrai para baixo. Por isso, temos
necessidade da humildade que sempre de novo pede perdão a Deus, que se deixa
purificar e que desperta em nós a força contrária, a força positiva do Criador,
que nos atrai para o alto. 5. Por fim, como última característica, que não se
deve descurar na espiritualidade das Jornadas Mundiais da
Juventude, quero
mencionar a alegria. Donde brota? Como se explica? Seguramente são muitos os factores que interagem; mas, a meu ver, o factor decisivo é esta certeza que
deriva da fé: Eu sou desejado; tenho uma missão na história; sou aceite, sou amado. Josef
Pieper mostrou, no seu livro sobre o amor, que o homem só se pode aceitar a si
mesmo, se for aceite por outra pessoa qualquer. Precisa que haja outra pessoa
que lhe diga, e não só por palavras: É bom que tu existas. Somente a partir de
um «tu» é que o «eu» pode encontrar-se si mesmo. Só se for aceite, é que o «eu»
se pode aceitar a si mesmo. Quem não é amado, também não se pode amar a si
mesmo. Este saber-se acolhido provém, antes de tudo, doutra pessoa. Entretanto
todo o acolhimento humano é frágil; no fim de contas, precisamos de um
acolhimento incondicional; somente se Deus me acolher e eu estiver seguro disso
mesmo é que sei definitivamente: É bom que eu exista; é bom ser uma pessoa
humana. Quando falta ao homem a percepção de ser acolhido por Deus, de ser amado
por Ele, a pergunta sobre se existir como pessoa humana seja verdadeiramente
coisa boa, deixa de encontrar qualquer resposta; torna-se cada vez mais
insuperável a dúvida acerca da existência humana. Onde se torna predominante a
dúvida sobre Deus, acaba inevitavelmente por seguir-se a dúvida acerca do meu
ser homem. Hoje vemos quão difusa é esta dúvida! Vemo-lo na falta de alegria, na
tristeza interior que se pode ler em muitos rostos humanos. Só a fé me dá esta
certeza: É bom que eu exista; é bom existir como pessoa humana, mesmo em tempos
difíceis. A fé faz-nos felizes a partir de dentro. Esta é uma das maravilhosas
experiências das Jornadas Mundiais da
Juventude. Alongaria demasiado o nosso
encontro falar agora também, de modo detalhado, do encontro de
Assis, como a
importância do acontecimento mereceria. Limitamo-nos a agradecer a Deus, porque
nós – os representantes das religiões do mundo e também os representantes do
pensamento em busca da verdade – pudemos, naquele dia, encontrar-nos num clima
de amizade e de respeito mútuo, no amor à verdade e na responsabilidade comum
pela paz. Por isso podemos esperar que, daquele encontro, tenha nascido uma
disponibilidade nova para servir a paz, a reconciliação e a justiça. Queria enfim agradecer do íntimo do coração a todos vós pelo apoio que prestais para levar por diante a missão que o Senhor nos confiou como testemunhas da sua verdade, e desejo a todos vós a alegria que Deus nos quis dar na encarnação do seu Filho. Um santo Natal para todos vós! Obrigado!
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