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VIAGEM APOSTÓLICA À ALEMANHA
22-25 DE SETEMBRO DE 2011

VÉSPERAS MARIANAS

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Wallfahrtskapelle de Etzelsbach
Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

(Vídeo)

 

Queridos irmãos e irmãs,

De coração sincero, queria agradecer a todos vós que viestes aqui, a Etzelsbach, para este momento de oração. Desde a minha juventude, ouvi tanto falar-se de Eichsfeld que pensei: deveras, devo vê-lo por uma vez e rezar convosco. Agradeço cordialmente o Bispo Wanke, que já durante o voo me apresentou a vossa região. E agradeço os vossos porta-vozes e representantes que me entregaram dons simbólicos da vossa terra, e ao mesmo tempo, puderam dar-me pelo menos uma ideia da variedade desta região.

Assim que estou muito feliz por ter-se realizado o meu desejo de visitar Eichsfeld e de agradecer, juntamente convosco, à Virgem Maria aqui em Etzelsbach. «Aqui, no amado vale tranquilo» – diz um cântico de peregrinos – e «sob as velhas tílias», Maria dá-nos segurança e nova força. Em duas ímpias ditaduras que se propuseram tirar aos homens a sua fé tradicional, a gente de Eichsfeld estava segura de encontrar aqui, no santuário de Etzelsbach, uma porta aberta e um lugar de paz interior. Esta amizade particular com Maria, uma amizade que cresceu com tudo isso, queremo-la continuar inclusive com esta celebração das Vésperas Marianas de hoje.

Em todos os tempos e lugares, quando os cristãos se dirigem a Maria, deixam-se espontaneamente guiar pela certeza de que Jesus não pode recusar os pedidos que Lhe apresenta sua Mãe; e apoiam-se na confiança inabalável de que Maria é ao mesmo tempo também nossa Mãe: uma Mãe que experimentou o maior sofrimento de todos, que conhece juntamente connosco todas as nossas dificuldades e pensa, de modo maternal, à superação das mesmas. No decorrer dos séculos, quantas pessoas foram em peregrinação a Maria, para encontrar – como aqui em Etzelsbach, diante da imagem de Nossa Senhora das Dores – consolação e conforto!

Contemplemos a sua imagem! Uma mulher de meia-idade, com as pálpebras pesadas pelo longo pranto e, ao mesmo tempo, o olhar sonhador perdido lá longe, como se estivesse a meditar em seu coração tudo o que acontecera. Nos seus joelhos, repousa o corpo sem vida do Filho; Ela abraça-o, delicadamente e com amor, como um precioso dom. No corpo nu do Filho, vemos os sinais da crucifixão. O braço esquerdo do Crucificado pende verticalmente para baixo. Quiçá esta escultura da Pietà estivesse originariamente posta sobre um altar, como muitas vezes acontecia. Assim, o Crucificado apontaria, com o seu braço estendido, para o que sucede no altar, onde o santo sacrifício por Ele realizado se faz presente na Eucaristia.

Uma particularidade da imagem miraculosa de Etzelsbach é a posição do Crucificado. Na maior parte das representações da Pietà, Jesus morto jaz com a cabeça virada para a esquerda. Deste modo, o observador pode ver a ferida no lado do Crucificado; aqui em Etzelsbach, ao contrário, a ferida está escondida, justamente porque o cadáver está virado para o outro lado. Parece-me que, em tal representação, se esconde um profundo significado, que só se desvenda numa atenta contemplação: na imagem miraculosa de Etzelsbach, os corações de Jesus e da sua Mãe estão voltados um para o outro; estão junto um do outro. Trocam entre si o seu amor. Sabemos que o coração é também o órgão de uma sensibilidade mais delicada pelo outro, bem como o órgão da compaixão íntima. No coração de Maria, há o espaço para o amor que o seu divino Filho quer dar ao mundo.

A devoção mariana concentra-se na contemplação da relação entre a Mãe e o seu Filho divino. Os fiéis , na oração, no sofrimento, no agradecimento e na alegria, encontraram sempre novos aspectos e títulos que são capazes de nos descerrar mais profundamente este mistério, como, por exemplo, a imagem do Coração Imaculado de Maria como símbolo da unidade profunda e sem reservas com Cristo no amor. Não é a auto-realização, o querer possuir e construir-se a si mesmo, que opera o verdadeiro desenvolvimento da pessoa – um dado que hoje é proposto como modelo da vida moderna, mas que facilmente se muda numa forma de refinado egoísmo –, mas sim a atitude do dom de si, a renuncia de si mesmo, que se orienta para o coração de Maria e, deste modo, também para o coração de Cristo, como também para o próximo, e só desde modo nos faz encontrarmos a nós mesmos.

«Nós sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio» (Rm 8, 28): ouvimo-lo há pouco na leitura, retirada da Carta aos Romanos. Em Maria, Deus fez concorrer tudo para o bem, e não cessa de fazer com que, por meio de Maria, o bem se espalhe ainda mais no mundo. Da Cruz, do trono da graça e da redenção, Jesus deu aos homens como Mãe a sua própria Mãe, Maria. No momento do seu sacrifício pela humanidade, Ele, de certo modo, torna Maria medianeira do fluxo de graça que provém da Cruz. Junto da Cruz, Maria torna-se companheira e protectora dos homens ao longo do caminho da sua vida. «Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada» (Lumen gentium, 62), como o exprimiu o Concílio Vaticano II. É verdade! Na vida, atravessamos vicissitudes várias, mas Maria intercede por nós junto de seu Filho e nos ajuda encontrar a força do amor divino do Filho e nos abrirmos a ela.

A nossa confiança na eficaz intercessão da Mãe de Deus e a nossa gratidão pela ajuda incessantemente experimentada encerram em si mesmas, de algum modo, o impulso para levar a reflexão mais além das necessidades de momento. Verdadeiramente que quer dizer-nos Maria, quando nos salva de um perigo? Quer ajudar-nos a compreender a grandeza e a profundidade da nossa vocação cristã. Com delicadeza materna, quer-nos fazer compreender que toda a nossa vida deve ser uma resposta ao amor rico de misericórdia do nosso Deus. Como se nos dissesse: Compreende que Deus, o Qual é a fonte de todo o bem e nada mais quer senão a tua felicidade, tem o direito de exigir de ti uma vida que se abandone, totalmente e com alegria, à sua vontade e se esforce por que os outros façam o mesmo também. «Onde há Deus, há futuro». Com efeito, onde deixarmos que o amor de Deus actue plenamente sobre a nossa vida e na nossa vida, aí se abre o céu. Aí é possível plasmar o presente de forma tal que corresponda sempre mais à Boa Nova de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aí as pequenas coisas da vida diária têm o seu sentido, e os grandes problemas encontram aí a sua solução.

Com esta certeza, rezemos a Maria, com esta certeza, acreditemos em Jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus. Amen.

 

© Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana

   

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