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VIAGEM APOSTÓLICA À ALEMANHA
22-25 DE SETEMBRO DE 2011

ENCONTRO COM OS SEMINARISTAS

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Capela de São Carlos Borromeu do Seminário de Friburgo
Sábado, 24 de Setembro de 2011

(Vídeo)

 

Queridos Seminaristas,
Amados Irmãos e Irmãs!

É com imensa alegria que me encontro aqui com jovens que se encaminham para servir o Senhor, que escutam o seu chamamento e desejam segui-Lo. Quero agradecer de modo particularmente caloroso a linda carta que o Reitor do Seminário e os Seminaristas me escreveram. Sensibilizou-me verdadeiramente o modo como reflectistes sobre a minha carta e, a partir dela, desenvolvestes as vossas perguntas e respostas; sensibilizou-me a seriedade com que acolhestes aquilo que tentei propor e, com base nisso, traçastes o vosso próprio caminho.

O melhor agora seria, por certo, podermos juntos estabelecer um diálogo, mas o horário da viagem – a que estou sujeito e devo obedecer – infelizmente não o permite. Por isso posso apenas procurar sublinhar uma vez mais alguns pensamentos à luz daquilo que escrevestes e do que eu tinha escrito.

 No âmbito da pergunta: «Onde se integra o Seminário? Que significado tem o período nele transcorrido?», fundamentalmente o que mais me impressiona é o modo como São Marcos, no terceiro capítulo do seu Evangelho, descreve a constituição da comunidade dos Apóstolos: «O Senhor fez os Doze». Ele cria algo, faz algo, trata-se de um acto criativo. E fê-los, «para que estivessem com Ele e para os enviar» (cf. Mc 3, 14): vemos aqui uma dupla intenção, que parece, sob certos aspectos, contraditória. «Para que estivessem com Ele»: devem estar com Ele, para chegar a conhecê-Lo, para O escutar, para deixar-se plasmar por Ele; devem andar com Ele, caminhar com Ele, aos pés d’Ele e seguindo os seus passos. Mas, ao mesmo tempo, devem ser enviados que partem, que levam para fora o que aprenderam, levam-no aos outros homens que estão a caminho; partem rumo à periferia, ao ambiente mais amplo, e rumo mesmo até ao que está muito distante d’Ele. E, no entanto, estes aspectos paradoxais andam juntos: se estão verdadeiramente com Ele, então estão sempre a caminho também rumo aos outros, então vão à procura da ovelha perdida. Então saem, devem transmitir aquilo que encontraram; então devem dá-Lo a conhecer, tornar-se enviados. E vice-versa: se quiserem ser verdadeiros enviados, devem estar sempre com Ele. Uma vez São Boaventura disse que os Anjos, para onde quer que vão, por mais longe que seja, movem-se sempre no seio de Deus. O mesmo sucede aqui. Como sacerdotes, devemos sair pelas inúmeras estradas onde se encontram os homens, a fim de os convidar para o banquete nupcial do Filho. Mas só o poderemos fazer, continuando sempre junto d’Ele. Ora, aprender este sair, o ser mandados, e conjuntamente estar com Ele, o permanecer junto d’Ele é precisamente – segundo creio – aquilo que devemos aprender no Seminário: o modo justo de permanecer com Ele, o ficar profundamente enraizados n’Ele – estar sempre mais com Ele, conhecê-Lo cada vez mais, conseguir cada vez mais não separar-se d’Ele – e, ao mesmo tempo, sair cada vez mais, levar a mensagem, transmiti-la, não conservá-la para si, mas levar a Palavra àqueles que estão longe e que todavia, enquanto criaturas de Deus e seres amados por Cristo, trazem no coração o desejo d’Ele.

Portanto o Seminário é um tempo de exercitação; e certamente também de discernimento e de aprendizagem: É para isto que Ele me quer? A vocação deve ser verificada, concorrendo para isto a vida comunitária e, naturalmente, o diálogo com os directores espirituais que tendes, para aprender a discernir qual é a sua vontade. E, depois, aprender a confiança: se verdadeiramente Ele o quer, então posso entregar-me a Ele. No mundo actual, que se transforma de maneira incrível e onde tudo muda continuamente, onde os vínculos humanos se rompem porque dão-se novos encontros, torna-se sempre mais difícil acreditar nisto: eu resistirei por toda a vida. No meu tempo, já não era muito fácil imaginar quantos decénios Deus pensava dar-nos, quanto mudaria o mundo. Perseverarei com Ele como Lhe prometi?... Trata-se de uma pergunta que exige a verificação concreta da vocação e depois – quando já reconheço que sim, que Ele me quer – também a confiança: Se Ele me quer, então também se sustentará; na hora da tentação, na hora do perigo, estará presente e enviar-me-á pessoas, mostrar-me-á estradas, sustentar-me-á. E a fidelidade é possível, porque Ele está sempre presente. É que Ele existe ontem, hoje e amanhã; Ele não pertence apenas a este tempo, mas é futuro e pode sustentar-nos em cada momento.

  Um tempo de discernimento, de aprendizagem, de vocação… E depois, enquanto tempo de estar com Ele, naturalmente tempo de oração, de escuta d’Ele. Ouvir, aprender verdadeiramente a escutá-Lo – na Palavra da Sagrada Escritura, na fé da Igreja, na liturgia da Igreja – e intuir o hoje na sua Palavra. Na exegese, aprendemos muitas coisas sobre o ontem: tudo o que havia então, as fontes que há, as comunidades que existiam, e assim por diante. Também isto é importante. Mas, mais importante é que, neste ontem, percebamos o hoje; que Ele, com estas palavras, fala agora e que todas elas encerram em si o seu hoje e que, para além do seu início histórico, contêm em si uma plenitude que fala a todos os tempos. E é importante aprender esta actualidade do seu falar – aprender a escutar – e assim poder dizê-lo aos outros homens. É verdade que, ao preparar a homilia para o Domingo, este falar – ó Deus! – muitas vezes está tão longe! Mas, se eu vivo com a Palavra, então vejo que de facto não está distante, é actualíssima, está presente agora, tem a ver comigo e diz respeito aos outros. E então aprendo também a explicá-la. Mas para isso é preciso caminhar de modo constante com a Palavra de Deus.

Uma coisa é estar pessoalmente com Cristo, com o Deus vivo; a outra é que temos possibilidade de acreditar sempre e só no «nós». Às vezes, digo que São Paulo escreveu: «A fé vem da escuta», não da leitura. Há necessidade também de ler, mas a fé vem da escuta, isto é, da palavra viva, das palavras que os outros me dirigem a mim e que posso ouvir; das palavras da Igreja através de todos os tempos, da palavra que actualmente me dirige por meio dos sacerdotes, dos bispos e dos irmãos e das irmãs. Faz parte da fé o «tu» do próximo, e faz parte da fé o «nós». E precisamente a exercitação no suportar-se mutuamente é muito importante; aprender a acolher o outro enquanto tal na sua diferença, e aprender que ele também deve suportar-me a mim na minha diferença, para nos tornarmos um «nós», a fim de podermos um dia também na paróquia formar uma comunidade, chamar as pessoas para entrarem na comunhão da Palavra e caminharem juntas para o Deus vivo. Faz parte disto o «nós» muito concreto que é o Seminário, como o será a paróquia, mas sempre também o olhar para mais além do «nós» concreto e limitado, ou seja, para o grande «nós da Igreja de todo o lugar e de todo o tempo, a fim de não fazermos de nós mesmos o critério absoluto. Quando dizemos «nós somos Igreja», dizemos certamente a verdade: somos nós, não uma pessoa qualquer. Mas o «nós» é mais amplo do que o grupo que o está dizendo. O «nós» é a comunidade inteira dos fiéis: os de hoje e os de todos os lugares e de todos os tempos. E não me canso de repetir ainda: é verdade que, na comunidade dos fiéis, existe por assim dizer o juízo da maioria efectiva, mas não pode jamais haver uma maioria contra os Apóstolos e contra os Santos: isso seria uma maioria falsa. Nós somos Igreja. Pois bem, sejamo-lo! Sejamo-lo precisamente no abrirmo-nos ultrapassando-nos a nós mesmos e no estarmos juntos com os outros.

Creio que, atendendo ao horário, deveria talvez concluir. Queria apenas dizer-vos mais uma coisa. A preparação para o sacerdócio, o caminho para ele requer, antes de mais, também o estudo. Não se trata de uma eventualidade académica que se deu na Igreja ocidental, mas é algo de essencial. Todos conhecemos estas palavras de São Pedro: «Estai sempre prontos a dar, em resposta a todo aquele que vo-lo peça, o logos da vossa fé» (cf. 1 Ped 3, 15). Hoje, o nosso mundo é um mundo racionalista e condicionado pelo carácter científico, embora este seja muitas vezes só aparente. Mas este espírito científico de querer compreender, explicar, de poder saber, da rejeição de tudo o que não seja racional é predominante no nosso tempo. Nisto há também algo de grande, apesar de frequentemente se esconder por detrás muita presunção e insensatez. A fé não é um mundo paralelo do sentimento, que possamos permitir-nos como um extra, mas é aquilo que abraça o todo, que lhe dá sentido, interpreta-o e lhe dá também as orientações éticas interiores, para que seja compreendido e vivido apontando para Deus e a partir de Deus. Por isso é importante estar informados, compreender, manter a mente aberta, aprender. Naturalmente, daqui a vinte anos, estarão na moda teorias filosóficas totalmente diversas das de hoje: quando penso como aquilo que era, entre nós, a moda filosófica mais alta e mais moderna, hoje já esteja completamente esquecido! Contudo não é inútil aprender estas coisas, porque há nelas também elementos duradouros. E sobretudo com isso aprendemos a julgar, a seguir mentalmente um pensamento – e a fazê-lo de modo crítico – e aprendemos a fazer com que, ao pensar, a luz de Deus nos ilumine e não se apague. Estudar é essencial: só assim poderemos enfrentar o nosso tempo e anunciar-lhe o logos da nossa fé. Estudar de modo crítico também – na certeza precisamente de que amanhã qualquer outro dirá algo de diverso –, mas ser estudantes atentos, abertos e humildes para estudar sempre com o Senhor, na presença do Senhor e para Ele.

Poderia, é verdade, dizer ainda muitas coisas e deveria talvez fazê-lo… Mas agradeço por me terdes escutado. E, na oração, tenho presente no meu coração todos os seminaristas do mundo – não tão bem, com os respectivos nomes, como os recebi aqui, mas encaminho-os interiormente para o Senhor: Que Ele a todos abençoe, a todos ilumine e indique a estrada justa e nos dê muitos e bons sacerdotes. De coração, muito obrigado! 

 

 

© Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana

   

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