1. "Christum Dominum pro nobis tentatum et passum, venite adoremus!".
A liturgia da Quaresma chama-nos dia após dia à adoração de Cristo, d'Aquele que
quis ser submetido à tentação e aceitou o sofrimento, "fazendo-se pecado por
nós" (2 Cor 5, 21) para a nossa redenção.
Devemos encontrar este Cristo nos inescrutáveis mistérios da Sua vida e da Sua
morte e, igualmente, no nosso próximo. Em todo o próximo, sem excepção, mas de
modo particular naqueles em que, de igual maneira, se repetem e se realizam a
tentação e o sofrimento do nosso Redentor.
2. Seja-me permitido, portanto, já desde o primeiro domingo da Quaresma, chamar
a atenção para aquele grande número dos nossos irmãos e irmãs que são definidos
com a comum denominação de pessoas "deficientes ". As estatísticas dizem existir
no mundo mais de 400 milhões destas pessoas e isto significa quase a décima
parte da humanidade. É preciso saudar com reconhecimento a iniciativa da
Organização das Nações Unidas, que propõe seja dedicado o ano em curso
precisamente a estes nossos irmãos e irmãs, cuja vida decorre sob o peso de uma
deficiência congénita ou mesmo adquirida como consequência de um infortúnio. A
iniciativa da ONU traz em si uma profunda característica de sensibilidade e de
fraternidade humana.
O Cristo da nossa Quaresma, o Cristo provado e crucificado, encontra-se no
centro mesmo desta fraternidade. Ele convida-nos de modo especial a encontrá-l'O
em cada um dos nossos irmãos que sofrem. O Amor que lhes manifestamos e o
serviço prestado em favor deles, são uma demonstração de amor para com Ele mesmo
e um serviço feito a Ele (cf. Mt 25, 40).
3. A Quaresma exige de cada um de nós uma conversão; e — como nos ensina, desde
os primeiros dias, a liturgia deste período — esta conversão torna-se presente e
realiza-se sem dúvida mediante o que fazemos pelos nossos irmãos, essencialmente
por aqueles que sofrem e de algum modo são deficientes. Eles têm particular
direito ao nosso respeito, à estima e ao amor.
De facto, em Deus descobrimos a dignidade da pessoa humana, de cada uma delas. O
grau de saúde física ou mental não acrescenta nem diminui nada à dignidade da
pessoa; antes, em confronto connosco o sofrimento pode dar-lhe direitos
especiais.
4. "Christum Dominum pro nobis tentatum, et passum, venite adoremus!"
Unimo-nos espiritualmente a cada um e a todos aqueles que sofrem, acometidos por
uma incurável deficiência. Entre todas as coisas que lhes podemos oferecer, está
a nossa fé também, e isto significa a convicção da particular semelhança que
eles têm com Cristo que sofre.
E se às vezes o sofrimento interior — maior que a própria deficiência — pode
tornar-se motivo para que eles considerem a vida absurda e vã, então nós, do
mais íntimo desta fé, desejamos dizer-lhes e testemunhar com convicção que,
mediante o seu sofrimento, participam de modo singular no mistério da redenção
do mundo, o qual foi realizado por Cristo mediante a cruz.
5. Por fim, dado que hoje, juntamente com os Colaboradores da Cúria Romana,
inicio os exercícios espirituais, desejo recomendar às orações de todos os
homens de boa vontade o trabalho do pregador desses exercícios e de todos os que
participam neste retiro espiritual.