"Utinam hodie vocem Domini audiatis: volite obdurare corda vestra"!
"Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: Não endureçais os vossos corações"! (S1
94, 8).
1. Com estas palavras do Salmo a Igreja inicia a sua quotidiana oração durante a
Quaresma. Elas contêm uma fervorosa súplica pela eficácia da palavra de Deus nos
corações humanos. Se em todos os tempos esta prece é actual e necessária, de
modo especial ao longo destes quarenta dias é recomendado particularmente que
seja escutada por todos a Voz do Deus Vivo. É uma voz penetrante se
consideramos como Deus fala durante a Quaresma não só com a excepcional riqueza
da sua Palavra na liturgia e na vida da Igreja, mas sobretudo com a eloquência
pascal da paixão e da morte do próprio Filho; fala com a sua Cruz e com o seu
sacrifício. Este é, em certo sentido, o último argumento no diálogo que dura há
séculos com o homem; o diálogo com a sua mente e com o seu coração, com a sua
consciência e com a sua conduta.
"Que outra coisa deveria ter feito e não fiz?" — parece perguntar todos os anos,
nestes dias, o Pai que "amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único"
(Jo 3, 16), e parece perguntar o próprio Filho obediente ao Pai até à
morte e morte de cruz (cf. Fip 2, 8).
2. "Não endureçais o coração"!
O coração significa o homem na sua própria interioridade espiritual, no seu
mesmo, por assim dizer, centro da sua semelhança com Deus. O homem interior.
O homem da consciência. A nossa oração, durante a Quaresma, visa despertar
as consciências, a sua sensibilização diante da voz de Deus. "Não endureçais o
coração", diz o Salmista. De facto, a necrose das consciências, a sua
indiferença em relação ao bem e ao mal, e o seu desvio são uma grande ameaça
para o homem. Indirectamente, são também uma ameaça para a sociedade,
porque, em última análise, da consciência humana depende o nível da moralidade
da sociedade.
E assim, a nossa oração quaresmal pela sensibilidade das consciências tem
múltiplo significado. O homem, que tem o coração endurecido e a consciência
degenerada, mesmo que possa gozar a plenitude das forças e das capacidades
físicas, é um doente espiritual e deve fazer-se tudo para que lhe seja
restituída a saúde da alma.
Oxalá a oração da Igreja durante a Quaresma produza os seus frutos! Ao pedir a
todos os homens de boa vontade que adiram a esta oração, peço-o particularmente
àqueles que sofrem. Tantos eles são no mundo. Há uma semana recordámos os 400
milhões de pessoas, que denominamos "deficientes". Caros Irmãos e Irmãs, vós que
sofreis, que estais fisicamente em condições de inferioridade, com a oração e
com o sacrifício dos vossos sofrimentos, da vossa difícil sorte, ajudai
os que estão enfermos na alma. Às vezes não o sabem, não percebem quanto esteja
enferma a sua alma imortal. Tornaram insensível a própria consciência e
endurecido o seu coração. Ajudai-os a despertar! Ajudai a fazer que a eles
chegue a voz do Deus Vivo, a voz que fala na Quaresma com o sacrifício da Cruz
de Cristo!
3. Nestes dias da Quaresma a Igreja costuma suplicar a Cristo pelas vocações
sacerdotais e religiosas. Oxalá esta oração se intensifique, particularmente
naquelas Regiões, onde se sente a falta de sacerdotes, de religiosos, de
religiosas e de seminaristas.
O Senhor da messe quer enviar operários para a sua messe (cf. Mt 9, 38).
É preciso somente suplicar-Lhe; não descuidar aquele serviço fundamental que é a
oração: serviço da confiança da Igreja para com o seu Esposo e Pastor das almas.