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CARTA ENCÍCLICA
FIDES ET RATIO
DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II
AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA
SOBRE AS RELAÇÕES
ENTRE FÉ E RAZÃO
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Venerados Irmãos no Episcopado,
saúde e Bênção Apostólica!
A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas
quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem
colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise,
de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à
verdade plena sobre si próprio (cf.
Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo
3, 2).
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INTRODUÇÃO - «CONHECE-TE A TI MESMO »
1. Tanto no Oriente como no Ocidente, é possível entrever um caminho que, ao
longo dos séculos, levou a humanidade a encontrar-se progressivamente com a
verdade e a confrontar-se com ela. É um caminho que se realizou — nem podia ser
de outro modo — no âmbito da autoconsciência pessoal: quanto mais o homem
conhece a realidade e o mundo, tanto mais se conhece a si mesmo na sua
unicidade, ao mesmo tempo que nele se torna cada vez mais premente a questão do
sentido das coisas e da sua própria existência. O que chega a ser objecto do
nosso conhecimento, torna-se por isso mesmo parte da nossa vida. A recomendação
conhece-te a ti mesmo estava esculpida no dintel do templo de Delfos,
para testemunhar uma verdade basilar que deve ser assumida como regra mínima de
todo o homem que deseje distinguir-se, no meio da criação inteira, pela sua
qualificação de « homem », ou seja, enquanto «conhecedor de si mesmo ».
Aliás, basta um simples olhar pela história antiga para ver com toda a
clareza como surgiram simultaneamente, em diversas partes da terra animadas por
culturas diferentes, as questões fundamentais que caracterizam o percurso da
existência humana:
Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é
que existirá depois desta vida? Estas perguntas encontram-se nos escritos
sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas e no Avestá; achamo-las tanto
nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na pregação de Tirtankara e de Buda; e
assomam ainda quer nos poemas de Homero e nas tragédias de Eurípides e Sófocles,
quer nos tratados filosóficos de Platão e Aristóteles. São questões que têm a
sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração
do homem: da resposta a tais perguntas depende efectivamente a orientação que se
imprime à existência.
2. A Igreja não é alheia, nem pode sê-lo, a este caminho de pesquisa. Desde
que recebeu, no Mistério Pascal, o dom da verdade última sobre a vida do homem,
ela fez-se peregrina pelas estradas do mundo, para anunciar que Jesus Cristo é «
o caminho, a verdade e a vida » (Jo 14, 6). De entre os vários serviços
que ela deve oferecer à humanidade, há um cuja responsabilidade lhe cabe de modo
absolutamente peculiar: é a diaconia da verdade.
1 Por um lado, esta missão torna a comunidade crente
participante do esforço comum que a humanidade realiza para alcançar a verdade,
2 e, por outro, obriga-a a empenhar-se no anúncio das certezas
adquiridas, ciente todavia de que cada verdade alcançada é apenas mais uma etapa
rumo àquela verdade plena que se há--de manifestar na última revelação de Deus:
« Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a
face. Hoje conheço de maneira imperfeita, então conhecerei exactamente » (1
Cor 13, 12).
3. Variados são os recursos que o homem possui para progredir no conhecimento
da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência. De entre eles
sobressai a filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do
sentido da vida e esboçar a resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais
nobres da humanidade. O termo filosofia significa, segundo a etimologia grega, «
amor à sabedoria ». Efectivamente a filosofia nasceu e começou a desenvolver-se
quando o homem principiou a interrogar-se sobre o porquê das coisas e o seu fim.
Ela demonstra, de diferentes modos e formas, que o desejo da verdade pertence à
própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porquê das coisas é uma
propriedade natural da sua razão, embora as respostas, que esta aos poucos vai
dando, se integrem num horizonte que evidencia a complementaridade das
diferentes culturas onde o homem vive.
A grande incidência que a filosofia teve na formação e desenvolvimento das
culturas do Ocidente não deve fazer-nos esquecer a influência que a mesma
exerceu também nos modos de conceber a existência presentes no Oriente. Na
realidade, cada povo possui a sua própria sabedoria natural, que tende, como
autêntica riqueza das culturas, a exprimir-se e a maturar em formas propriamente
filosóficas. Prova da verdade de tudo isto é a existência duma forma basilar de
conhecimento filosófico, que perdura até aos nossos dias e que se pode constatar
nos próprios postulados em que as várias legislações nacionais e internacionais
se inspiram para regular a vida social.
4. Deve-se assinalar, porém, que, por detrás dum único termo, se escondem
significados diferentes. Por isso, é necessária uma explicitação preliminar.
Impelido pelo desejo de descobrir a verdade última da existência, o homem
procura adquirir aqueles conhecimentos universais que lhe permitam uma melhor
compreensão de si mesmo e progredir na sua realização. Os conhecimentos
fundamentais nascem da maravilha que nele suscita a contemplação da
criação: o ser humano enche-se de encanto ao descobrir-se incluído no mundo e
relacionado com outros seres semelhantes, com quem partilha o destino. Parte
daqui o caminho que o levará, depois, à descoberta de horizontes de
conhecimentos sempre novos. Sem tal assombro, o homem tornar-se-ia repetitivo e,
pouco a pouco, incapaz de uma existência verdadeiramente pessoal.
A capacidade reflexiva própria do intelecto humano permite elaborar, através
da actividade filosófica, uma forma de pensamento rigoroso, e assim construir,
com coerência lógica entre as afirmações e coesão orgânica dos conteúdos, um
conhecimento sistemático. Graças a tal processo, alcançaram-se, em contextos
culturais diversos e em diferentes épocas históricas, resultados que levaram à
elaboração de verdadeiros sistemas de pensamento. Historicamente isto gerou
muitas vezes a tentação de identificar uma única corrente com o pensamento
filosófico inteiro. Mas, nestes casos, é claro que entra em jogo uma certa
«soberba filosófica », que pretende arvorar em leitura universal a própria
perspectiva e visão imperfeita. Na realidade, cada sistema filosófico,
sempre no respeito da sua integridade e livre de qualquer instrumentalização,
deve reconhecer a prioridade do pensar filosófico de que teve origem e ao
qual deve coerentemente servir.
Neste sentido, é possível, não obstante a mudança dos tempos e os progressos
do saber, reconhecer um núcleo de conhecimentos filosóficos, cuja presença é
constante na história do pensamento. Pense-se, só como exemplo, nos princípios
de não-contradição, finalidade, causalidade, e ainda na concepção da pessoa como
sujeito livre e inteligente, e na sua capacidade de conhecer Deus, a verdade, o
bem; pense-se, além disso, em algumas normas morais fundamentais que geralmente
são aceites por todos. Estes e outros temas indicam que, para além das correntes
de pensamento, existe um conjunto de conhecimentos, nos quais é possível ver uma
espécie de património espiritual da humanidade. É como se nos encontrássemos
perante uma filosofia implícita, em virtude da qual cada um sente que
possui estes princípios, embora de forma genérica e não reflectida. Estes
conhecimentos, precisamente porque partilhados em certa medida por todos,
deveriam constituir uma espécie de ponto de referência para as diversas escolas
filosóficas. Quando a razão consegue intuir e formular os princípios primeiros e
universais do ser, e deles deduzir correcta e coerentemente conclusões de ordem
lógica e deontológica, então pode-se considerar uma razão recta, ou, como era
chamada pelos antigos,
orthòs logos, recta ratio.
5. A Igreja, por sua vez, não pode deixar de apreciar o esforço da razão na
consecução de objectivos que tornem cada vez mais digna a existência pessoal. Na
verdade, ela vê, na filosofia, o caminho para conhecer verdades fundamentais
relativas à existência do homem. Ao mesmo tempo, considera a filosofia uma ajuda
indispensável para aprofundar a compreensão da fé e comunicar a verdade do
Evangelho a quantos não a conhecem ainda.
Na sequência de iniciativas análogas dos meus Predecessores, desejo também eu
debruçar-me sobre esta actividade peculiar da razão. Faço-o movido pela
constatação, sobretudo em nossos dias, de que a busca da verdade última aparece
muitas vezes ofuscada. A filosofia moderna possui, sem dúvida, o grande mérito
de ter concentrado a sua atenção sobre o homem. Partindo daí, uma razão cheia de
interrogativos levou por diante o seu desejo de conhecer sempre mais ampla e
profundamente. Desta forma, foram construídos sistemas de pensamento complexos,
que deram os seus frutos nos diversos âmbitos do conhecimento, favorecendo o
progresso da cultura e da história. A antropologia, a lógica, as ciências da
natureza, a história, a linguística, de algum modo todo o universo do saber foi
abarcado. Todavia, os resultados positivos alcançados não devem levar a
transcurar o facto de que essa mesma razão, porque ocupada a investigar de
maneira unilateral o homem como objecto, parece ter-se esquecido de que este é
sempre chamado a voltar-se também para uma realidade que o transcende. Sem
referência a esta, cada um fica ao sabor do livre arbítrio, e a sua condição de
pessoa acaba por ser avaliada com critérios pragmáticos baseados essencialmente
sobre o dado experimental, na errada convicção de que tudo deve ser dominado
pela técnica. Foi assim que a razão, sob o peso de tanto saber, em vez de
exprimir melhor a tensão para a verdade, curvou-se sobre si mesma, tornando-se
incapaz, com o passar do tempo, de levantar o olhar para o alto e de ousar
atingir a verdade do ser. A filosofia moderna, esquecendo-se de orientar a sua
pesquisa para o ser, concentrou a própria investigação sobre o conhecimento
humano. Em vez de se apoiar sobre a capacidade que o homem tem de conhecer a
verdade, preferiu sublinhar as suas limitações e condicionalismos.
Daí provieram várias formas de agnosticismo e relativismo, que levaram a
investigação filosófica a perder-se nas areias movediças dum cepticismo geral.
E, mais recentemente, ganharam relevo diversas doutrinas que tendem a
desvalorizar até mesmo aquelas verdades que o homem estava certo de ter
alcançado. A legítima pluralidade de posições cedeu o lugar a um pluralismo
indefinido, fundado no pressuposto de que todas as posições são equivalentes:
trata-se de um dos sintomas mais difusos, no contexto actual, de desconfiança na
verdade. E esta ressalva vale também para certas concepções de vida originárias
do Oriente: é que negam à verdade o seu carácter exclusivo, ao partirem do
pressuposto de que ela se manifesta de modo igual em doutrinas diversas ou mesmo
contraditórias entre si. Neste horizonte, tudo fica reduzido a mera opinião. Dá
a impressão de um movimento ondulatório: enquanto, por um lado, a razão
filosófica conseguiu avançar pela estrada que a torna cada vez mais atenta à
existência humana e às suas formas de expressão, por outro tende a desenvolver
considerações existenciais, hermenêuticas ou linguísticas, que prescindem da
questão radical relativa à verdade da vida pessoal, do ser e de Deus. Como
consequência, despontaram, não só em alguns filósofos mas no homem contemporâneo
em geral, atitudes de desconfiança generalizada quanto aos grandes recursos
cognoscitivos do ser humano. Com falsa modéstia, contentam-se de verdades
parciais e provisórias, deixando de tentar pôr as perguntas radicais sobre o
sentido e o fundamento último da vida humana, pessoal e social. Em suma,
esmoreceu a esperança de se poder receber da filosofia respostas definitivas a
tais questões.
6. Credenciada pelo facto de ser depositária da revelação de Jesus Cristo, a
Igreja deseja reafirmar a necessidade da reflexão sobre a verdade. Foi por este
motivo que decidi dirigir-me a vós, venerados Irmãos no Episcopado, com quem
partilho a missão de anunciar « abertamente a verdade » (2 Cor 4, 2), e
dirigir-me também aos teólogos e filósofos a quem compete o dever de investigar
os diversos aspectos da verdade, e ainda a quantos andam à procura duma
resposta, para comunicar algumas reflexões sobre o caminho que conduz à
verdadeira sabedoria, a fim de que todo aquele que tiver no coração o amor por
ela possa tomar a estrada certa para a alcançar, e nela encontrar repouso para a
sua fadiga e também satisfação espiritual.
Tomo esta iniciativa impelido, antes de mais, pela certeza de que os Bispos,
como assinala o Concílio Vaticano II, são « testemunhas da verdade divina e
católica » 3.
Por isso, testemunhar a verdade é um encargo que nos foi confiado a nós, os
Bispos; não podemos renunciar a ele, sem faltar ao ministério que recebemos.
Reafirmando a verdade da fé, podemos restituir ao homem de hoje uma genuína
confiança nas suas capacidades cognoscitivas e oferecer à filosofia um estímulo
para poder recuperar e promover a sua plena dignidade.
Há um segundo motivo que me induz a escrever estas reflexões Na carta
encíclica
Veritatis splendor, chamei a atenção para « algumas verdades fundamentais
da doutrina católica que, no contexto actual, correm o risco de serem deformadas
ou negadas ».
4 Com este novo documento, desejo continuar aquela reflexão,
concentrando a atenção precisamente sobre o tema da verdade e sobre o seu
fundamento em relação com a fé. De facto, não se pode negar que este
período, de mudanças rápidas e complexas, deixa sobretudo os jovens, a quem
pertence e de quem depende o futuro, na sensação de estarem privados de pontos
de referência autênticos. A necessidade de um alicerce sobre o qual construir a
existência pessoal e social faz-se sentir de maneira premente, principalmente
quando se é obrigado a constatar o carácter fragmentário de propostas que elevam
o efémero ao nível de valor, iludindo assim a possibilidade de se alcançar o
verdadeiro sentido da existência. Deste modo, muitos arrastam a sua vida quase
até à borda do precipício, sem saber o que os espera. Isto depende também do
facto de, às vezes, quem era chamado por vocação a exprimir em formas culturais
o fruto da sua reflexão, ter desviado o olhar da verdade, preferindo o sucesso
imediato ao esforço duma paciente investigação sobre aquilo que merece ser
vivido. A filosofia, que tem a grande responsabilidade de formar o pensamento e
a cultura através do apelo perene à busca da verdade, deve recuperar
vigorosamente a sua vocação originária. É por isso que senti a necessidade e o
dever de intervir sobre este tema, para que, no limiar do terceiro milénio da
era cristã, a humanidade tome consciência mais clara dos grandes recursos que
lhe foram concedidos, e se empenhe com renovada coragem no cumprimento do plano
de salvação, no qual está inserida a sua história.
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CAPÍTULO I - A REVELAÇÃO DA SABEDORIA DE DEUS
1. Jesus, revelador do Pai
7. Na base de toda a reflexão feita pela Igreja, está a consciência de ser
depositária duma mensagem, que tem a sua origem no próprio Deus (cf.
2 Cor 4, 1-2). O conhecimento que ela propõe ao homem, não provém de uma
reflexão sua, nem sequer da mais alta, mas de ter acolhido na fé a palavra de
Deus (cf. 1 Tes 2, 13). Na origem do nosso ser crentes existe um
encontro, único no seu género, que assinala a abertura de um mistério escondido
durante tantos séculos (cf. 1 Cor 2, 7; Rom 16, 25-26), mas agora
revelado: « Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e
dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef
1, 9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm
acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina ».
5
Trata-se de uma iniciativa completamente gratuita, que parte de Deus e vem ao
encontro da humanidade para a salvar. Enquanto fonte de amor, Deus deseja dar-Se
a conhecer, e o conhecimento que o homem adquire d'Ele leva à plenitude qualquer
outro conhecimento verdadeiro que a sua mente seja capaz de alcançar sobre o
sentido da própria existência.
8. Retomando quase literalmente a doutrina presente na constituição
Dei Filius do Concílio Vaticano I e tendo em conta os princípios
propostos pelo Concílio de Trento, a constituição
Dei Verbum do Vaticano II continuou aquele caminho plurissecular de
compreensão da fé, reflectindo sobre a Revelação à luz da doutrina bíblica e
de toda a tradição patrística. No primeiro Concílio do Vaticano, os Padres
tinham sublinhado o carácter sobrenatural da revelação de Deus. A crítica
racionalista que então se fazia sentir contra a fé, baseada em teses erradas mas
muito difusas, insistia sobre a negação de qualquer conhecimento que não fosse
fruto das capacidades naturais da razão. Isto obrigara o Concílio a reafirmar
vigorosamente que, além do conhecimento da razão humana, por sua natureza, capaz
de chegar ao Criador, existe um conhecimento que é peculiar da fé. Este
conhecimento exprime uma verdade que se funda precisamente no facto de Deus que
Se revela, e é uma verdade certíssima porque Deus não Se engana nem quer
enganar.
6
9. Por isso, o Concílio Vaticano I ensina que a verdade alcançada pela via da
reflexão filosófica e a verdade da Revelação não se confundem, nem uma torna a
outra supérflua: « Existem duas ordens de conhecimento, diversas não apenas pelo
seu princípio, mas também pelo objecto. Pelo seu princípio, porque, se num
conhecemos pela razão natural, no outro fazêmo-lo por meio da fé divina; pelo
objecto, porque, além das verdades que a razão natural pode compreender, é-nos
proposto ver os mistérios escondidos em Deus, que só podem ser conhecidos se nos
forem revelados do Alto ».
7 A fé, que se fundamenta no testemunho de Deus e conta com a
ajuda sobrenatural da graça, pertence efectivamente a uma ordem de conhecimento
diversa da do conhecimento filosófico. De facto, este assenta sobre a percepção
dos sentidos, sobre a experiência, e move-se apenas com a luz do intelecto. A
filosofia e as ciências situam-se na ordem da razão natural, enquanto a fé,
iluminada e guiada pelo Espírito, reconhece na mensagem da salvação a «
plenitude de graça e de verdade » (cf.
Jo 1, 14) que Deus quis revelar na história, de maneira definitiva, por
meio do seu Filho Jesus Cristo (cf. 1 Jo 5, 9; Jo 5, 31-32).
10. No Concílio Vaticano II, os Padres, fixando a atenção sobre Jesus
revelador, ilustraram o carácter salvífico da revelação de Deus na história e
exprimiram a sua natureza do seguinte modo: « Em virtude desta revelação, Deus
invisível (cf. Col 1, 15; 1 Tim 1, 17), na riqueza do seu amor,
fala aos homens como amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15, 14-15) e
convive com eles (cf. Bar 3, 38), para os convidar e admitir à comunhão
com Ele. Esta economia da Revelação realiza-se por meio de acções e palavras
intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por
Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades
significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e
esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a verdade profunda tanto a respeito
de Deus como a respeito da salvação dos homens manifesta-se-nos, por esta
Revelação, em Cristo, que é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a
revelação ».
8
11. Assim, a revelação de Deus entrou no tempo e na história. Mais, a
encarnação de Jesus Cristo realiza-se na « plenitude dos tempos » (Gal 4,
4). À distância de dois mil anos deste acontecimento, sinto o dever de reafirmar
intensamente que, « no cristianismo, o tempo tem uma importância fundamental ».
9 Com efeito, é nele que tem lugar toda a obra da criação e da
salvação, e sobretudo merece destaque o facto de que, com a encarnação do Filho
de Deus, vivemos e antecipamos desde já aquilo que se seguirá ao fim dos tempos
(cf. Heb 1, 2).
A verdade que Deus confiou ao homem a respeito de Si mesmo e da sua vida
insere-se, portanto, no tempo e na história. Sem dúvida, aquela foi pronunciada
uma vez por todas no mistério de Jesus de Nazaré. Afirma-o, com palavras muito
expressivas, a constituição
Dei Verbum: « Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos
profetas, falou-nos Deus nestes nossos dias, que são os últimos, através de seu
Filho (Heb 1, 1-2). Com efeito, enviou o seu Filho, isto é, o Verbo
eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e
manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cf. Jo
1, 1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado como homem para os
homens, "fala, portanto, as palavras de Deus" (Jo 3, 34) e consuma a obra
de salvação que o Pai Lhe mandou realizar (cf. Jo 5, 36; 17, 4). Por
isso, Ele — vê-l'O a Ele é ver o Pai (cf. Jo
14, 9) —, com toda a sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras
e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição,
e enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com
o testemunho divino a Revelação ».
10
Assim, a história constitui um caminho que o Povo de Deus há-de percorrer
inteiramente, de tal modo que a verdade revelada possa exprimir em plenitude os
seus conteúdos, graças à acção incessante do Espírito Santo (cf.
Jo 16, 13). Ensina-o também a constituição Dei Verbum, quando
afirma que « a Igreja, no decurso dos séculos, tende continuamente para a
plenitude da verdade divina, até que nela se realizem as palavras de Deus ».
11
12. A história torna-se, assim, o lugar onde podemos constatar a acção de
Deus em favor da humanidade. Ele vem ter connosco, servindo-Se daquilo que nos é
mais familiar e mais fácil de verificar, ou seja, o nosso contexto quotidiano,
fora do qual não conseguiríamos entender-nos.
A encarnação do Filho de Deus permite ver realizada uma síntese definitiva
que a mente humana, por si mesma, nem sequer poderia imaginar: o Eterno entra no
tempo, o Tudo esconde-se no fragmento, Deus assume o rosto do homem. Deste modo,
a verdade expressa na revelação de Cristo deixou de estar circunscrita a um
restrito âmbito territorial e cultural, abrindo-se a todo o homem e mulher que a
queira acolher como palavra definitivamente válida para dar sentido à
existência. Agora todos têm acesso ao Pai, em Cristo; de facto, com a sua morte
e ressurreição, Ele concedeu-nos a vida divina que o primeiro Adão tinha
rejeitado (cf. Rom 5, 12-15). Com esta Revelação, é oferecida ao homem a
verdade última a respeito da própria vida e do destino da história: « Na
realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece
verdadeiramente », afirma a constituição Gaudium et spes.
12
Fora desta perspectiva, o mistério da existência pessoal permanece um enigma
insolúvel. Onde poderia o homem procurar resposta para questões tão dramáticas
como a dor, o sofrimento do inocente e a morte, a não ser na luz que dimana do
mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo?
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2. A razão perante o mistério
13. Entretanto, não se pode esquecer que a Revelação permanece envolvida no
mistério. Jesus, com toda a sua vida, revela seguramente o rosto do Pai, porque
Ele veio para manifestar os segredos de Deus;
13 e contudo, o conhecimento que possuímos daquele rosto, está
marcado sempre pelo carácter parcial e limitado da nossa compreensão. Somente a
fé permite entrar dentro do mistério, proporcionando uma sua compreensão
coerente.
O Concílio ensina que, « a Deus que revela, é devida a obediência da fé ».
14 Com esta breve mas densa afirmação, é indicada uma verdade
fundamental do cristianismo. Diz-se, em primeiro lugar, que a fé é uma resposta
de obediência a Deus. Isto implica que Ele seja reconhecido na sua divindade,
transcendência e liberdade suprema. Deus que Se dá a conhecer na autoridade da
sua transcendência absoluta, traz consigo também a credibilidade dos conteúdos
que revela. Pela fé, o homem presta assentimento a esse testemunho
divino. Isto significa que reconhece plena e integralmente a verdade de tudo o
que foi revelado, porque é o próprio Deus que o garante. Esta verdade, oferecida
ao homem sem que ele a possa exigir, insere-se no horizonte da comunicação
interpessoal e impele a razão a abrir-se a esta e a acolher o seu sentido
profundo. É por isso que o acto pelo qual nos entregamos a Deus, sempre foi
considerado pela Igreja como um momento de opção fundamental, que envolve a
pessoa inteira. Inteligência e vontade põem em acção o melhor da sua natureza
espiritual, para consentir que o sujeito realize um acto no pleno exercício da
sua liberdade pessoal.
15 Na fé, portanto, não basta a liberdade estar presente,
exige-se que entre em acção. Mais, é a fé que permite a cada um exprimir, do
melhor modo, a sua própria liberdade. Por outras palavras, a liberdade não se
realiza nas opções contra Deus. Na verdade, como poderia ser considerado um uso
autêntico da liberdade, a recusa de se abrir àquilo que permite a realização de
si mesmo? No acreditar é que a pessoa realiza o acto mais significativo da sua
existência; de facto, nele a liberdade alcança a certeza da verdade e decide
viver nela.
Em auxílio da razão, que procura a compreensão do mistério, vêm também os
sinais presentes na Revelação. Estes servem para conduzir mais longe a busca da
verdade e permitir que a mente possa autonomamente investigar inclusive dentro
do mistério. De qualquer modo, se, por um lado, esses sinais dão maior força à
razão, porque lhe permitem pesquisar dentro do mistério com os seus próprios
meios, de que ela justamente se sente ciosa, por outro lado, impelem-na a
transcender a sua realidade de sinais para apreender o significado ulterior de
que eles são portadores. Portanto, já há neles uma verdade escondida, para a
qual encaminham a mente e da qual esta não pode prescindir sem destruir o
próprio sinal que lhe foi proposto.
Chega-se, assim, ao horizonte sacramental da Revelação e de forma
particular ao sinal eucarístico, onde a união indivisível entre a realidade e o
respectivo significado permite identificar a profundidade do mistério. Na
Eucaristia, Cristo está verdadeiramente presente e vivo, actua pelo seu
Espírito, mas, como justamente diz S. Tomás, « nada vês nem compreendes, mas t'o
afirma a fé mais viva, para além das leis da Terra. Sob espécies diferentes, que
não passam de sinais, é que está o dom de Deus ».
16 Temos um eco disto mesmo nas seguintes palavras do filósofo
Pascal: « Como Jesus Cristo passou despercebido no meio dos homens, assim a sua
verdade permanece, entre as opiniões comuns, sem diferença exterior. O mesmo se
dá com a Eucaristia relativamente ao pão comum ».17
Em resumo, o conhecimento da fé não anula o mistério; torna-o apenas mais
evidente e apresenta-o como um facto essencial para a vida do homem: Cristo
Senhor, « na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem
a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime »,
18 que é participar no mistério da vida trinitária de Deus.
19
14. A doutrina do primeiro e segundo Concílio do Vaticano abre um horizonte
verdadeiramente novo também ao saber filosófico. A Revelação coloca dentro da
história um ponto de referência de que o homem não pode prescindir, se quiser
chegar a compreender o mistério da sua existência; mas, por outro lado, este
conhecimento apela constantemente para o mistério de Deus que a mente não
consegue abarcar, mas apenas receber e acolher na fé. Entre estes dois momentos,
a razão possui o seu espaço peculiar que lhe permite investigar e compreender,
sem ser limitada por nada mais que a sua finitude ante o mistério infinito de
Deus.
A Revelação introduz, portanto, na nossa história uma verdade universal e
última que leva a mente do homem a nunca mais se deter; antes, impele-a a
ampliar continuamente os espaços do próprio conhecimento até sentir que realizou
tudo o que estava ao seu alcance, sem nada descurar. Ajuda-nos, nesta reflexão,
uma das inteligências mais fecundas e significativas da história da humanidade,
à qual obrigatoriamente fazem referência a filosofia e a teologia: Santo
Anselmo. Na sua obra, Proslogion, o Arcebispo de Cantuária exprime-se
assim: « Detendo-me com frequência e atenção a pensar neste problema, sucedia
umas vezes que me parecia estar para agarrar o que buscava, outras vezes, pelo
contrário, furtava-se completamente ao meu pensamento; até que finalmente,
desesperado de o poder achar, decidi deixar de procurar algo que me era
impossível encontrar. Mas, quando quis afastar de mim tal pensamento para que a
sua ocupação da minha mente não me alheasse de outros problemas de que podia
tirar algum proveito, foi então que começou a apresentar-se cada vez mais
teimoso. (...) Mas, pobre de mim, um dos pobres filhos de Eva, longe de Deus, o
que é que comecei a fazer e o que é que consegui? O que é que visava e a que
ponto cheguei? A que é que aspirava e por que é que suspiro? (...) Ó Senhor, Vós
não sois apenas algo acerca do qual não se pode pensar nada de maior (non
solum es quo maius cogitari nequit), mas sois maior de tudo o que se possa
pensar (quiddam maius quam cogitari possit) (...). Se não fôsseis o que
sois, poder-se-ia pensar algo maior do que Vós, mas isso é impossível ».
20
15. A verdade da revelação cristã, que se encontra em Jesus de Nazaré,
permite a quemquer que seja perceber o « mistério » da própria vida. Enquanto
verdade suprema, ao mesmo tempo que respeita a autonomia da criatura e a sua
liberdade, obriga-a a abrir-se à transcendência. Aqui, a relação entre liberdade
e verdade atinge o seu máximo grau, podendo-se compreender plenamente esta
palavra do Senhor: « Conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á » (Jo
8, 32).
A revelação cristã é a verdadeira estrela de orientação para o homem, que
avança por entre os condicionalismos da mentalidade imanentista e os
reducionismos duma lógica tecnocrática; é a última possibilidade oferecida por
Deus, para reencontrar em plenitude aquele projecto primordial de amor que teve
início com a criação. Ao homem ansioso de conhecer a verdade — se ainda é capaz
de ver para além de si mesmo e levantar os olhos acima dos seus próprios
projectos — é-lhe concedida a possibilidade de recuperar a genuína relação com a
sua vida, seguindo a estrada da verdade. Podem-se aplicar a esta situação as
seguintes palavras do Deuteronómio: « A lei que hoje te imponho não está acima
das tuas forças nem fora do teu alcance. Não está no céu, para que digas: "Quem
subirá por nós ao céu e no-la irá buscar?" Não está tão pouco do outro lado do
mar, para que digas: "Quem atravessará o mar para no-la buscar e no-la fazer
ouvir para que a observemos?" Não, ela está muito perto de ti: está na tua boca
e no teu coração; e tu podes cumpri-la » (30, 11-14). Temos um eco deste texto
no famoso pensamento do filósofo e teólogo Santo Agostinho: «
Noli foras ire, in te ipsum redi. In interiore homine habitat veritas ».
21
À luz destas considerações, impõe-se uma primeira conclusão: a verdade que a
Revelação nos dá a conhecer não é o fruto maduro ou o ponto culminante dum
pensamento elaborado pela razão. Pelo contrário, aquela apresenta-se com a
característica da gratuidade, obriga a pensá-la, e pede para ser acolhida, como
expressão de amor. Esta verdade revelada é a presença antecipada na nossa
história daquela visão última e definitiva de Deus, que está reservada para
quantos acreditam n'Ele ou O procuram de coração sincero. Assim, o fim último da
existência pessoal é objecto de estudo quer da filosofia, quer da teologia.
Embora com meios e conteúdos diversos, ambas apontam para aquele « caminho da
vida » (Sal 1615, 11) que, segundo nos diz a fé, tem o seu termo último
de chegada na alegria plena e duradoura da contemplação de Deus Uno e Trino.
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CAPÍTULO II - CREDO UT INTELLEGAM
1. « A sabedoria sabe e compreende todas as coisas» (Sab9,
11)
16. Quão profunda seja a ligação entre o conhecimento da fé e o da razão, já
a Sagrada Escritura no-lo indica com elementos de uma clareza surpreendente.
Comprovam-no sobretudo os Livros Sapienciais. O que impressiona na
leitura, feita sem preconceitos, dessas páginas da Sagrada Escritura é o facto
de estes textos conterem não apenas a fé de Israel, mas também o tesouro de
civilizações e culturas já desaparecidas. Como se de um desígnio particular se
tratasse, o Egipto e a Mesopotâmia fazem ouvir novamente a sua voz, e alguns
traços comuns das culturas do Antigo Oriente ressurgem nestas páginas ricas de
intuições singularmente profundas.
Não é por acaso que o autor sagrado, ao querer descrever o homem sábio, o
apresenta como aquele que ama e busca a verdade: « Feliz o homem que é constante
na sabedoria, e que discorre com a sua inteligência; que repassa no seu coração
os caminhos da sabedoria, e que penetra no conhecimento dos seus segredos; vai
atrás dela como quem lhe segue o rasto, e permanece nos seus caminhos; olha
pelas suas janelas, e escuta às suas portas; repousa junto da sua morada, e fixa
um pilar nas suas paredes; levanta a sua tenda junto dela, e estabelece ali
agradável morada; coloca os seus filhos debaixo da sua protecção, e ele mesmo
morará debaixo dos seus ramos; à sua sombra estará defendido do calor, e
repousará na sua glória » (Sir 14, 20-27).
Para o autor inspirado, como se vê, o desejo de conhecer é uma característica
comum a todos os homens. Graças à inteligência, é dada a todos, crentes e
descrentes, a possibilidade de « saciarem-se nas águas profundas » do
conhecimento (cf.
Prov 20, 5). Seguramente, no Antigo Israel, o conhecimento do mundo e dos
seus fenómenos não se realizava pela via da abstracção, como já o fazia o
filósofo jónico ou o sábio egípcio. E menos ainda podia o bom israelita conceber
o conhecimento nos parâmetros próprios da época moderna, mais propensa à
subdivisão do saber. Apesar disso, o mundo bíblico fez confluir, para o grande
mar da teoria do conhecimento, o seu contributo original.
Qual? O carácter peculiar do texto bíblico reside na convicção de que existe
uma unidade profunda e indivisível entre o conhecimento da razão e o da fé. O
mundo e o que nele acontece, assim como a história e as diversas vicissitudes da
nação são realidades observadas, analisadas e julgadas com os meios próprios da
razão, mas sem deixar a fé alheia a este processo. Esta não intervém para
humilhar a autonomia da razão, nem para reduzir o seu espaço de acção, mas
apenas para fazer compreender ao homem que, em tais acontecimentos, Se torna
visível e actua o Deus de Israel. Assim, não é possível conhecer profundamente o
mundo e os factos da história, sem ao mesmo tempo professar a fé em Deus que
neles actua. A fé aperfeiçoa o olhar interior, abrindo a mente para descobrir,
no curso dos acontecimentos, a presença operante da Providência. A tal
propósito, é significativa uma expressão do livro dos Provérbios: « A mente do
homem dispõe o seu caminho, mas é o Senhor quem dirige os seus passos » (16, 9).
É como se dissesse que o homem, pela luz da razão, pode reconhecer a sua
estrada, mas percorrê-la de maneira decidida, sem obstáculos e até ao fim, ele
só o consegue se, de ânimo recto, integrar a sua pesquisa no horizonte da fé.
Por isso, a razão e a fé não podem ser separadas, sem fazer com que o homem
perca a possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e Deus.
17. Não há motivo para existir concorrência entre a razão e a fé: uma implica
a outra, e cada qual tem o seu espaço próprio de realização. Aponta nesta
direcção o livro dos Provérbios, quando exclama: « A glória de Deus é encobrir
as coisas, e a glória dos reis é investigá-las » (25, 2). Deus e o homem estão
colocados, em seu respectivo mundo, numa relação única. Em Deus reside a origem
de tudo, n'Ele se encerra a plenitude do mistério, e isto constitui a sua
glória; ao homem, pelo contrário, compete o dever de investigar a verdade com a
razão, e nisto está a sua nobreza. Um novo ladrilho é colocado neste mosaico
pelo Salmista, quando diz: « Quão insondáveis para mim, ó Deus, vossos
pensamentos! Quão imenso o seu número! Quisera contá-los, são mais que as
areias; se pudesse chegar ao fim, estaria ainda convosco » (139/ 138, 17-18). O
desejo de conhecer é tão grande e comporta tal dinamismo que o coração do homem,
ao tocar o limite intransponível, suspira pela riqueza infinita que se encontra
para além deste, por intuir que nela está contida a resposta cabal para toda a
questão ainda sem resposta.
18. Podemos, pois, dizer que Israel, com a sua reflexão, soube abrir à razão
o caminho para o mistério. Na revelação de Deus, pôde sondar em profundidade
aquilo que a razão estava procurando alcançar sem o conseguir. A partir desta
forma mais profunda de conhecimento, o Povo Eleito compreendeu que a razão deve
respeitar algumas regras fundamentais, para manifestar do melhor modo possível a
própria natureza. A primeira regra é ter em conta que o conhecimento do homem é
um caminho que não permite descanso; a segunda nasce da consciência de que não
se pode percorrer tal caminho com o orgulho de quem pensa que tudo seja fruto de
conquista pessoal; a terceira regra funda-se no « temor de Deus », de quem a
razão deve reconhecer tanto a transcendência soberana como o amor solícito no
governo do mundo.
Quando o homem se afasta destas regras, corre o risco de falimento e acaba
por encontrar-se na condição do « insensato ». Segundo a Bíblia, nesta
insensatez encerra-se uma ameaça à vida. É que o insensato ilude-se pensando que
conhece muitas coisas, mas, de facto, não é capaz de fixar o olhar nas
realidades essenciais. E isto impede-lhe de pôr ordem na sua mente (cf.
Prov 1, 7) e de assumir uma atitude correcta para consigo mesmo e o
ambiente circundante. Quando, depois, chega a afirmar que « Deus não existe »
(cf. Sal 1413, 1), isso revela, com absoluta clareza, quanto seja
deficiente o seu conhecimento e quão distante esteja ele da verdade plena a
respeito das coisas, da sua origem e do seu destino.
19. Encontramos, no livro da Sabedoria, alguns textos importantes, que
iluminam ainda melhor este assunto. Lá, o autor sagrado fala de Deus que Se dá a
conhecer também através da natureza. Para os antigos, o estudo das ciências
naturais coincidia, em grande parte, com o saber filosófico. Depois de ter
afirmado que o homem, com a sua inteligência, é capaz de « conhecer a
constituição do universo e a força dos elementos (...), o ciclo dos anos e a
posição dos astros, a natureza dos animais mansos e os instintos dos animais
ferozes » (Sab 7, 17.19-20), por outras palavras, que o homem é capaz de
filosofar, o texto sagrado dá um passo em frente muito significativo. Retomando
o pensamento da filosofia grega, à qual parece referir-se neste contexto, o
autor afirma que, raciocinando precisamente sobre a natureza, pode-se chegar ao
Criador: « Pela grandeza e beleza das criaturas, pode-se, por analogia, chegar
ao conhecimento do seu Autor » (Sab 13, 5). Reconhece-se, assim, um
primeiro nível da revelação divina, constituído pelo maravilhoso « livro da
natureza »; lendo-o com os meios próprios da razão humana, pode-se chegar ao
conhecimento do Criador. Se o homem, com a sua inteligência, não chega a
reconhecer Deus como criador de tudo, isso fica-se a dever não tanto à falta de
um meio adequado, como sobretudo ao obstáculo interposto pela sua vontade livre
e pelo seu pecado.
20. Nesta perspectiva, a razão é valorizada, mas não superexaltada. O que ela
alcança pode ser verdade, mas só adquire pleno significado se o seu conteúdo for
situado num horizonte mais amplo, o da fé: « O Senhor é quem dirige os passos do
homem; como poderá o homem compreender o seu próprio destino? » (Prov 20,
24). A fé, segundo o Antigo Testamento, liberta a razão, na medida em que lhe
permite alcançar coerentemente o seu objecto de conhecimento e situá-lo naquela
ordem suprema onde tudo adquire sentido. Em resumo, pela razão o homem alcança a
verdade, porque, iluminado pela fé, descobre o sentido profundo de tudo e,
particularmente, da própria existência. Justamente, pois, o autor sagrado coloca
o início do verdadeiro conhecimento no temor de Deus: « O temor do Senhor é o
princípio da sabedoria » (Prov
1, 7; cf. Sir 1, 14).
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2. « Adquire a sabedoria, adquire a inteligência » (Prov
4, 5)
21. Segundo o Antigo Testamento, o conhecimento não se baseia apenas numa
atenta observação do homem, do mundo e da história, mas supõe como indispensável
também uma relação com a fé e os conteúdos da Revelação. Aqui se concentram os
desafios que o Povo Eleito teve de enfrentar e a que deu resposta. Ao reflectir
sobre esta sua condição, o homem bíblico descobriu que não se podia compreender
senão como « ser em relação »: relação consigo mesmo, com o povo, com o mundo e
com Deus. Esta abertura ao mistério, que provinha da Revelação, acabou por ser,
para ele, a fonte dum verdadeiro conhecimento, que permitiu à sua razão
aventurar-se em espaços infinitos, recebendo inesperadas possibilidades de
compreensão.
Segundo o autor sagrado, o esforço da investigação não estava isento da
fadiga causada pelo embate nas limitações da razão. Sente-se isso mesmo, por
exemplo, nas palavras com que o livro dos Provérbios denuncia o cansaço provado
ao tentar compreender os misteriosos desígnios de Deus (cf. 30, 1-6). Todavia,
apesar da fadiga, o crente não desiste. E a força para continuar o seu caminho
rumo à verdade provém da certeza de que Deus o criou como um « explorador » (cf.
Coel 1, 13), cuja missão é não deixar nada sem tentar, não obstante a
contínua chantagem da dúvida. Apoiando-se em Deus, o crente permanece, em todo o
lado e sempre, inclinado para o que é belo, bom e verdadeiro.
22. S. Paulo, no primeiro capítulo da carta aos Romanos, ajuda-nos a avaliar
melhor quanto seja incisiva a reflexão dos Livros Sapienciais. Desenvolvendo com
linguagem popular uma argumentação filosófica, o Apóstolo exprime uma verdade
profunda: através da criação, os « olhos da mente » podem chegar ao conhecimento
de Deus. Efectivamente, através das criaturas, Ele faz intuir à razão o seu «
poder » e a sua « divindade » (cf.
Rom 1, 20). Deste modo, é atribuída à razão humana uma capacidade tal que
parece quase superar os seus próprios limites naturais: não só ultrapassa o
âmbito do conhecimento sensorial, visto que lhe é possível reflectir
criticamente sobre o mesmo, mas, raciocinando a partir dos dados dos sentidos,
pode chegar também à causa que está na origem de toda a realidade sensível. Em
terminologia filosófica, podemos dizer que, neste significativo texto paulino,
está afirmada a capacidade metafísica do homem.
Segundo o Apóstolo, no projecto originário da criação estava prevista a
capacidade de a razão ultrapassar comodamente o dado sensível para alcançar a
origem mesma de tudo: o Criador. Como resultado da desobediência com que o homem
escolheu colocar-se em plena e absoluta autonomia relativamente Àquele que o
tinha criado, perdeu tal facilidade de acesso a Deus criador.
O livro do Génesis descreve de maneira figurada esta condição do homem,
quando narra que Deus o colocou no jardim do Éden, tendo no centro « a árvore da
ciência do bem e do mal » (2, 17). O símbolo é claro: o homem não era capaz de
discernir e decidir, por si só, aquilo que era bem e o que era mal, mas devia
apelar-se a um princípio superior. A cegueira do orgulho iludiu os nossos
primeiros pais de que eram soberanos e autónomos, podendo prescindir do
conhecimento vindo de Deus. Nesta desobediência original, eles implicaram todo o
homem e mulher, causando à razão traumas sérios que haveriam de dificultar-lhe,
daí em diante, o caminho para a verdade plena. Agora a capacidade humana de
conhecer a verdade aparece ofuscada pela aversão contra Aquele que é fonte e
origem da verdade. O próprio apóstolo S. Paulo nos revela como, por causa do
pecado, os pensamentos dos homens se tornaram « vãos » e os seus arrazoados
tortuosos e falsos (cf.
Rom 1, 21-22). Os olhos da mente deixaram de ser capazes de ver
claramente: a razão foi progressivamente ficando prisioneira de si mesma. A
vinda de Cristo foi o acontecimento de salvação que redimiu a razão da sua
fraqueza, libertando-a dos grilhões onde ela mesma se tinha algemado.
23. Deste modo, a relação do cristão com a filosofia requer um discernimento
radical. No Novo Testamento, especialmente nas cartas de S. Paulo, aparece
claramente este dado: a contraposição entre « a sabedoria deste mundo » e a
sabedoria de Deus revelada em Jesus Cristo. A profundidade da sabedoria revelada
rompe o círculo dos nossos esquemas de reflexão habituais, que não são
minimamente capazes de exprimi-la de forma adequada.
O início da primeira carta aos Coríntios apresenta radicalmente este dilema.
O Filho de Deus crucificado é o acontecimento histórico contra o qual se desfaz
toda a tentativa da mente para construir, sobre razões puramente humanas, uma
justificação suficiente do sentido da existência. O verdadeiro ponto nodal, que
desafia qualquer filosofia, é a morte de Jesus Cristo na cruz. Aqui, de facto,
qualquer tentativa de reduzir o plano salvífico do Pai a mera lógica humana está
destinada à falência. « Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o
investigador deste século? Porventura, Deus não considerou louca a sabedoria
deste mundo? » (1 Cor 1, 20) — interroga-se enfaticamente o Apóstolo.
Para aquilo que Deus quer realizar, não basta a simples sabedoria do homem
sábio, requer-se um passo decisivo que leve ao acolhimento duma novidade
radical: « O que é louco segundo o mundo é que Deus escolheu para confundir os
sábios (...). O que é vil e desprezível no mundo, é que Deus escolheu, como
também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são » (1 Cor 1,
27-28). A sabedoria do homem recusa ver na própria fragilidade o pressuposto da
sua força; mas S. Paulo não hesita em afirmar: « Quando me sinto fraco, então é
que sou forte » (2 Cor 12, 10). O homem não consegue compreender como
possa a morte ser fonte de vida e de amor, mas Deus, para revelar o mistério do
seu desígnio salvador, escolheu precisamente o que a razão considera « loucura »
e « escândalo ». Usando a linguagem dos filósofos do seu tempo, Paulo chega ao
clímax da sua doutrina e do paradoxo que quer exprimir: « Deus escolheu, no
mundo, aquelas coisas que nada são, para destruir as que são » (cf. 1 Cor
1, 28). Para exprimir o carácter gratuito do amor revelado na cruz de Cristo, o
Apóstolo não tem medo de usar a linguagem mais radical que os filósofos
empregavam nas suas reflexões a respeito de Deus. A razão não pode esgotar o
mistério de amor que a Cruz representa, mas a Cruz pode dar à razão a resposta
última que esta procura. S. Paulo coloca, não a sabedoria das palavras, mas a
Palavra da Sabedoria como critério, simultaneamente, de verdade e de salvação.
Por conseguinte, a sabedoria da Cruz supera qualquer limite cultural que se
lhe queira impor, obrigando a abrir-se à universalidade da verdade de que é
portadora. Como é grande o desafio lançado à nossa razão e como são enormes as
vantagens que terá, se ela se render! A filosofia, que por si mesma já é capaz
de reconhecer a necessidade do homem se transcender continuamente na busca da
verdade, pode, ajudada pela fé, abrir-se para, na « loucura » da Cruz, acolher
como genuína a crítica a quantos se iludem de possuir a verdade, encalhando-a
nas sirtes dum sistema próprio. A relação entre a fé e a filosofia encontra, na
pregação de Cristo crucificado e ressuscitado, o escolho contra o qual pode
naufragar, mas também para além do qual pode desembocar no oceano ilimitado da
verdade. Aqui é evidente a fronteira entre a razão e a fé, mas torna-se claro
também o espaço onde as duas se podem encontrar.
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CAPÍTULO III - INTELLEGO UT CREDAM
1. Caminhar à procura da verdade
24. Nos Actos dos Apóstolos, o evangelista Lucas narra a chegada de Paulo a
Atenas, numa das suas viagens missionárias. A cidade dos filósofos estava cheia
de estátuas, que representavam vários ídolos; e chamou-lhe a atenção um altar,
que Paulo prontamente aproveitou como motivo e base comum para iniciar o anúncio
do querigma: « Atenienses — disse ele —, vejo que sois, em tudo, os mais
religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos
monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: "Ao Deus
desconhecido". Pois bem! O que venerais sem conhecer, é que eu vos anuncio » (Act
17, 22-23). Partindo daqui, S. Paulo fala-lhes de Deus enquanto criador, como
Aquele que tudo transcende e a tudo dá vida. Depois continua o seu discurso,
dizendo: « Fez a partir de um só homem, todo o género humano, para habitar em
toda a face da Terra; e fixou a sequência dos tempos e os limites para a sua
habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e se esforcem por encontrá-Lo,
mesmo tacteando, embora não Se encontre longe de cada um de nós » (Act
17, 26-27).
O Apóstolo põe em destaque uma verdade que a Igreja sempre guardou no seu
tesouro: no mais fundo do coração do homem, foi semeado o desejo e a nostalgia
de Deus. Recorda-o a liturgia de Sexta-feira Santa, quando, convidando a rezar
pelos que não crêem, diz: « Deus eterno e omnipotente, criastes os homens para
que Vos procurem, de modo que só em Vós descansa o seu coração ».
22 Existe, portanto, um caminho que o homem, se quiser, pode
percorrer; o seu ponto de partida está na capacidade de a razão superar o
contingente para se estender até ao infinito.
De vários modos e em tempos diversos, o homem demonstrou que conseguia dar
voz a este seu desejo íntimo. A literatura, a música, a pintura, a escultura, a
arquitectura e outras realizações da sua inteligência criadora tornaram-se
canais de que ele se serviu para exprimir esta sua ansiosa procura. Mas foi
sobretudo a filosofia que, de modo peculiar, recolheu este movimento,
exprimindo, com os meios e segundo as modalidades científicas que lhe são
próprias, este desejo universal do homem.
25. « Todos os homens desejam saber »,
23 e o objecto próprio deste desejo é a verdade. A própria vida
quotidiana demonstra o interesse que tem cada um em descobrir, para além do que
ouve, a realidade das coisas. Em toda a criação visível, o homem é o único ser
que é capaz não só de saber, mas também de saber que sabe, e por isso se
interessa pela verdade real daquilo que vê. Ninguém pode sinceramente ficar
indiferente quanto à verdade do seu saber. Se descobre que é falso, rejeita-o;
se, pelo contrário, consegue certificar-se da sua verdade, sente-se satisfeito.
É a lição que nos dá Santo Agostinho, quando escreve: « Encontrei muitos com
desejos de enganar outros, mas não encontrei ninguém que quisesse ser enganado
». 24
Considera-se, justamente, que uma pessoa alcançou a idade adulta, quando
consegue discernir, por seus próprios meios, entre aquilo que é verdadeiro e o
que é falso, formando um juízo pessoal sobre a realidade objectiva das coisas.
Está aqui o motivo de muitas pesquisas, particularmente no campo das ciências,
que levaram, nos últimos séculos, a resultados tão significativos, favorecendo
realmente o progresso da humanidade inteira.
E a pesquisa é tão importante no campo teórico, como no âmbito prático: ao
referir-me a este, desejo aludir à procura da verdade a respeito do bem que se
deve realizar. Com efeito, graças precisamente ao agir ético, a pessoa, se
actuar segundo a sua livre e recta vontade, entra pela estrada da felicidade e
encaminha-se para a perfeição. Também neste caso, está em questão a verdade.
Reafirmei esta convicção na carta encíclica Veritatis splendor: « Não há
moral sem liberdade (...). Se existe o direito de ser respeitado no próprio
caminho em busca da verdade, há ainda antes a obrigação moral grave para cada um
de procurar a verdade e de aderir a ela, uma vez conhecida ».
25
Por isso, é necessário que os valores escolhidos e procurados na vida sejam
verdadeiros, porque só estes é que podem aperfeiçoar a pessoa, realizando a sua
natureza. Não é fechando-se em si mesmo que o homem encontra esta verdade dos
valores, mas abrindo-se para a receber mesmo de dimensões que o transcendem.
Esta é uma condição necessária para que cada um se torne ele mesmo e cresça como
pessoa adulta e madura.
26. Ao princípio, a verdade apresenta-se ao homem sob forma interrogativa:
A vida tem um sentido? Para onde se dirige? À primeira vista, a
existência pessoal poderia aparecer radicalmente sem sentido. Não é preciso
recorrer aos filósofos do absurdo, nem às perguntas provocatórias que se
encontram no livro de Job para duvidar do sentido da vida. A experiência
quotidiana do sofrimento, pessoal e alheio, e a observação de muitos factos, que
à luz da razão se revelam inexplicáveis, bastam para tornar iniludível um
problema tão dramático como é a questão do sentido da vida.
26 A isto se deve acrescentar que a primeira verdade
absolutamente certa da nossa existência, para além do facto de existirmos, é a
inevitabilidade da morte. Perante um dado tão desconcertante como este, impõe-se
a busca de uma resposta exaustiva. Cada um quer, e deve, conhecer a verdade
sobre o seu fim. Quer saber se a morte será o termo definitivo da sua
existência, ou se algo permanece para além da morte; se pode esperar uma vida
posterior, ou não. É significativo que o pensamento filosófico tenha recebido,
da morte de Sócrates, uma orientação decisiva que o marcou durante mais de dois
milénios. Certamente não é por acaso que os filósofos, perante a realidade da
morte, sempre voltam a pôr-se este problema, associado à questão do sentido da
vida e da imortalidade.
27. A tais questões, não pode esquivar-se ninguém — nem o filósofo, nem o
homem comum. E, da resposta que se lhes der, deriva uma orientação decisiva da
investigação: a possibilidade, ou não, de alcançar uma verdade universal. Por si
mesma qualquer verdade, mesmo parcial, se realmente é verdade, apresenta-se como
universal e absoluta. Aquilo que é verdadeiro deve ser verdadeiro sempre e para
todos. Contudo, para além desta universalidade, o homem procura um absoluto que
seja capaz de dar resposta e sentido a toda a sua pesquisa: algo de definitivo,
que sirva de fundamento a tudo o mais. Por outras palavras, procura uma
explicação definitiva, um valor supremo, para além do qual não existam, nem
possam existir, ulteriores perguntas ou apelos. As hipóteses podem seduzir, mas
não saciam. Para todos, chega o momento em que, admitam-no ou não, há
necessidade de ancorar a existência a uma verdade reconhecida como definitiva,
que forneça uma certeza livre de qualquer dúvida.
Os filósofos procuraram, ao longo dos séculos, descobrir e exprimir tal
verdade, criando um sistema ou uma escola de pensamento. Mas, para além dos
sistemas filosóficos, existem outras expressões nas quais o homem procura
formular a sua « filosofia »: trata-se de convicções ou experiências pessoais,
tradições familiares e culturais, ou itinerários existenciais vividos sob a
autoridade de um mestre. A cada uma destas manifestações, subjaz sempre vivo o
desejo de alcançar a certeza da verdade e do seu valor absoluto.
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2. Os diferentes rostos da verdade do homem
28. Há que reconhecer que a busca da verdade nem sempre se desenrola com a
referida transparência e coerência de raciocínio. Muitas vezes, as limitações
naturais da razão e a inconstância do coração ofuscam e desviam a pesquisa
pessoal. Outros interesses de vária ordem podem sobrepor-se à verdade. Acontece
também que o próprio homem a evite, quando começa a entrevê-la, porque teme as
suas exigências. Apesar disto, mesmo quando a evita, é sempre a verdade que
preside à sua existência. Com efeito, nunca poderia fundar a sua vida sobre a
dúvida, a incerteza ou a mentira; tal existência estaria constantemente ameaçada
pelo medo e a angústia. Assim, pode-se definir o homem como
aquele que procura a verdade.
29. É impensável que uma busca, tão profundamente radicada na natureza
humana, possa ser completamente inútil e vã. A própria capacidade de procurar a
verdade e fazer perguntas implica já uma primeira resposta. O homem não
começaria a procurar uma coisa que ignorasse totalmente ou considerasse
absolutamente inatingível. Só a previsão de poder chegar a uma resposta é que
consegue induzi-lo a dar o primeiro passo. De facto, assim sucede normalmente na
pesquisa científica. Quando o cientista, depois de ter uma intuição, se lança à
procura da explicação lógica e empírica dum certo fenómeno, fá-lo porque tem a
esperança, desde o início, de encontrar uma resposta, e não se dá por vencido
com os insucessos. Nem considera inútil a intuição inicial, só porque não
alcançou o seu objectivo; dirá antes, e justamente, que não encontrou ainda a
resposta adequada.
O mesmo deve valer também para a busca da verdade no âmbito das questões
últimas. A sede de verdade está tão radicada no coração do homem que, se tivesse
de prescindir dela, a sua existência ficaria comprometida. Basta observar a vida
de todos os dias para constatar como dentro de cada um de nós se sente o
tormento de algumas questões essenciais e, ao mesmo tempo, se guarda na alma,
pelo menos, o esboço das respectivas respostas. São respostas de cuja verdade
estamos convencidos, até porque notamos que não diferem substancialmente das
respostas a que muitos outros chegaram. Por certo, nem toda a verdade adquirida
possui o mesmo valor; todavia, o conjunto dos resultados alcançados confirma a
capacidade que o ser humano, em princípio, tem de chegar à verdade.
30. Convém, agora, fazer uma rápida menção das diversas formas de verdade. As
mais numerosas são as verdades que assentam em evidências imediatas ou recebem
confirmação da experiência: esta é a ordem própria da vida quotidiana e da
pesquisa científica. Nível diverso ocupam as verdades de carácter filosófico,
que o homem alcança através da capacidade especulativa do seu intelecto. Por
último, existem as verdades religiosas, que de algum modo têm as suas raízes
também na filosofia; estão contidas nas respostas que as diversas religiões
oferecem, nas suas tradições, às questões últimas.
27
Quanto às verdades filosóficas, é necessário especificar que não se limitam
só às doutrinas, por vezes efémeras, dos filósofos profissionais. Como já disse,
todo o homem é, de certa forma, um filósofo e possui as suas próprias concepções
filosóficas, pelas quais orienta a sua vida. De diversos modos, consegue formar
uma visão global e uma resposta sobre o sentido da própria existência: e, à luz
disso, interpreta a própria vida pessoal e regula o seu comportamento. É aqui
que deveria colocar-se a questão da relação entre as verdades
filosófico-religiosas e a verdade revelada em Jesus Cristo. Antes de responder a
tal questão, é preciso ter em conta outro dado da filosofia.
31. O homem não foi criado para viver sozinho. Nasce e cresce numa família,
para depois se inserir, pelo seu trabalho, na sociedade. Assim a pessoa aparece
integrada, desde o seu nascimento, em várias tradições; delas recebe não apenas
a linguagem e a formação cultural, mas também muitas verdades nas quais acredita
quase instintivamente. Entretanto, o crescimento e a maturação pessoal implicam
que tais verdades possam ser postas em dúvida e avaliadas através da actividade
crítica própria do pensamento. Isto não impede que, uma vez passada esta fase,
aquelas mesmas verdades sejam « recuperadas » com base na experiência feita ou
em virtude de sucessiva ponderação. Apesar disso, na vida duma pessoa, são muito
mais numerosas as verdades simplesmente acreditadas que aquelas adquiridas por
verificação pessoal. Na realidade, quem seria capaz de avaliar criticamente os
inumeráveis resultados das ciências, sobre os quais se fundamenta a vida
moderna? Quem poderia, por conta própria, controlar o fluxo de informações,
recebidas diariamente de todas as partes do mundo e que, por princípio, são
aceites como verdadeiras? Enfim, quem poderia percorrer novamente todos os
caminhos de experiência e pensamento, pelos quais se foram acumulando os
tesouros de sabedoria e religiosidade da humanidade? Portanto, o homem, ser que
busca a verdade, é também aquele que vive de crenças.
32. Cada um, quando crê, confia nos conhecimentos adquiridos por outras
pessoas. Neste acto, pode-se individuar uma significativa tensão: por um lado, o
conhecimento por crença apresenta-se como uma forma imperfeita de conhecimento,
que precisa de se aperfeiçoar progressivamente por meio da evidência alcançada
pela própria pessoa; por outro lado, a crença é muitas vezes mais rica,
humanamente, do que a simples evidência, porque inclui a relação interpessoal,
pondo em jogo não apenas as capacidades cognoscitivas do próprio sujeito, mas
também a sua capacidade mais radical de confiar noutras pessoas, iniciando com
elas um relacionamento mais estável e íntimo.
Importa sublinhar que as verdades procuradas nesta relação interpessoal não
são primariamente de ordem empírica ou de ordem filosófica. O que se busca é
sobretudo a verdade da própria pessoa: aquilo que ela é e o que manifesta do seu
próprio íntimo. De facto, a perfeição do homem não se reduz apenas à aquisição
do conhecimento abstracto da verdade, mas consiste também numa relação viva de
doação e fidelidade ao outro. Nesta fidelidade que leva à doação, o homem
encontra plena certeza e segurança. Ao mesmo tempo, porém, o conhecimento por
crença, que se fundamenta na confiança interpessoal, tem a ver também com a
verdade: de facto, acreditando, o homem confia na verdade que o outro lhe
manifesta.
Quantos exemplos se poderiam aduzir para ilustrar este dado! O primeiro que
me vem ao pensamento é o testemunho dos mártires. Com efeito, o mártir é a
testemunha mais genuína da verdade da existência. Ele sabe que, no seu encontro
com Jesus Cristo, alcançou a verdade a respeito da sua vida, e nada nem ninguém
poderá jamais arrancar-lhe esta certeza. Nem o sofrimento, nem a morte violenta
poderão fazê-lo retroceder da adesão à verdade que descobriu no encontro com
Cristo. Por isso mesmo é que, até agora, o testemunho dos mártires atrai, gera
consenso, é escutado e seguido. Esta é a razão pela qual se tem confiança na sua
palavra: descobre-se neles a evidência dum amor que não precisa de longas
demonstrações para ser convincente, porque fala daquilo que cada um, no mais
fundo de si mesmo, já sente como verdadeiro e que há tanto tempo procurava. Em
resumo, o mártir provoca em nós uma profunda confiança, porque diz aquilo que já
sentimos e torna evidente aquilo que nós mesmos queríamos ter a força de dizer.
33. Deste modo, foi possível completar progressivamente os dados do problema.
O homem, por sua natureza, procura a verdade. Esta busca não se destina apenas à
conquista de verdades parciais, físicas ou científicas; não busca só o
verdadeiro bem em cada um das suas decisões. Mas a sua pesquisa aponta para uma
verdade superior, que seja capaz de explicar o sentido da vida; trata-se, por
conseguinte, de algo que não pode desembocar senão no absoluto.
28
Graças às capacidades de que está dotado o seu pensamento, o homem pode
encontrar e reconhecer uma tal verdade. Sendo esta vital e essencial para a sua
existência, chega-se a ela não só por via racional, mas também através de um
abandono fiducial a outras pessoas que possam garantir a certeza e autenticidade
da verdade. A capacidade e a decisão de confiar o próprio ser e existência a
outra pessoa constituem, sem dúvida, um dos actos antropologicamente mais
significativos e expressivos.
É bom não esquecer que também a razão, na sua busca, tem necessidade de ser
apoiada por um diálogo confiante e uma amizade sincera. O clima de suspeita e
desconfiança, que por vezes envolve a pesquisa especulativa, ignora o
ensinamento dos filósofos antigos, que punham a amizade como um dos contextos
mais adequados para o recto filosofar.
Do que ficou dito conclui-se que o homem se encontra num caminho de busca,
humanamente infindável: busca da verdade e busca duma pessoa em quem poder
confiar. A fé cristã vem em sua ajuda, dando-lhe a possibilidade concreta de ver
realizado o objectivo dessa busca. De facto, superando o nível da simples
crença, ela introduz o homem naquela ordem da graça que lhe consente participar
no mistério de Cristo, onde lhe é oferecido o conhecimento verdadeiro e coerente
de Deus Uno e Trino. Deste modo, em Jesus Cristo, que é a Verdade, a fé
reconhece o apelo último dirigido à humanidade, para que possa tornar realidade
o que experimenta como desejo e nostalgia.
34. Esta verdade, que Deus nos revela em Jesus Cristo, não está em contraste
com as verdades que se alcançam filosofando. Pelo contrário, as duas ordens de
conhecimento conduzem à verdade na sua plenitude. A unidade da verdade já é um
postulado fundamental da razão humana, expresso no princípio de não-contradição.
A Revelação dá a certeza desta unidade, ao mostrar que Deus criador é também o
Deus da história da salvação. Deus que fundamenta e garante o carácter
inteligível e racional da ordem natural das coisas, sobre o qual os cientistas
se apoiam confiadamente,
29 é o mesmo que Se revela como Pai de nosso Senhor Jesus
Cristo. Esta unidade da verdade, natural e revelada, encontra a sua
identificação viva e pessoal em Cristo, como recorda o apóstolo Paulo: « A
verdade que existe em Jesus » (Ef
4, 21; cf. Col 1, 15-20). Ele é a
Palavra eterna, na qual tudo foi criado, e ao mesmo tempo é a Palavra
encarnada que, com toda a sua pessoa,30
revela o Pai (cf.
Jo 1, 14.18). Aquilo que a razão humana procura « sem o conhecer » (cf.
Act 17, 23), só pode ser encontrado por meio de Cristo: de facto, o que
n'Ele se revela é a « verdade plena » (cf. Jo 1, 14-16) de todo o ser
que, n'Ele e por Ele, foi criado e, por isso mesmo, n'Ele encontra a sua
realização (cf. Col 1, 17).
35. Tendo estas considerações gerais como pano de fundo, é necessário agora
examinar, de maneira mais directa, a relação entre a verdade revelada e a
filosofia. Tal relação requer uma dupla consideração, visto que a verdade que
nos vem da Revelação tem de ser, simultaneamente, compreendida pela luz da
razão. Só nesta dupla acepção é que será possível especificar a justa relação da
verdade revelada com o saber filosófico. Por isso, vamos considerar, em primeiro
lugar, as relações entre a fé e a filosofia ao longo da história, donde será
possível individuar alguns princípios, que constituem os pontos de referência
aos quais recorrer para estabelecer a correcta relação entre as duas ordens de
conhecimento.
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CAPÍTULO IV - A RELAÇÃO ENTRE A FÉ E A RAZÃO
1. As etapas significativas do encontro entre a fé e a razão
36. Os Actos dos Apóstolos testemunham que o anúncio cristão se encontrou,
desde os seus primórdios, com as correntes filosóficas do tempo. Lá se refere a
discussão que S. Paulo teve com « alguns filósofos epicuristas e estóicos » (17,
18). A análise exegética do discurso no Areópago evidenciou repetidas alusões a
ideias populares, predominantemente de origem estóica. Certamente isso não se
deu por acaso; os primeiros cristãos, para se fazerem compreender pelos pagãos,
não podiam citar apenas « Moisés e os profetas » nos seus discursos, mas tinham
de servir-se também do conhecimento natural de Deus e da voz da consciência
moral de cada homem (cf. Rom 1, 19-21; 2, 14-15; Act 14, 16-17). Como,
porém, na religião pagã, esse conhecimento natural tinha degenerado em idolatria
(cf. Rom 1, 21-32), o Apóstolo considerou mais prudente ligar o seu
discurso ao pensamento dos filósofos, que desde o início tinham contraposto, aos
mitos e cultos mistéricos, conceitos mais respeitosos da transcendência divina.
De facto, um dos cuidados que mais a peito tiveram os filósofos do pensamento
clássico, foi purificar de formas mitológicas a concepção que os homens tinham
de Deus. Bem sabemos que a religião grega, como grande parte das religiões
cósmicas, era politeísta, chegando a divinizar até coisas e fenómenos da
natureza. As tentativas do homem para compreender a origem dos deuses e, nestes,
a do universo tiveram a sua primeira expressão na poesia. As teogonias
permanecem, até hoje, o primeiro testemunho desta investigação do homem. Os pais
da filosofia tiveram por missão mostrar a ligação entre a razão e a religião.
Estendendo o olhar para os princípios universais, deixaram de contentar-se com
os mitos antigos e procuraram dar fundamento racional à sua crença na divindade.
Embocou-se assim uma estrada que, saindo das antigas tradições particulares,
levava a um desenvolvimento que correspondia às exigências da razão universal. O
fim que tal desenvolvimento tinha em vista era a verificação crítica daquilo em
que se acreditava. A primeira a ganhar com esse caminho feito foi a concepção da
divindade. As superstições acabaram por ser reconhecidas como tais, e a
religião, pelo menos em parte, foi purificada pela análise racional. Foi nesta
base que os Padres da Igreja instituíram um diálogo fecundo com os filósofos
antigos, abrindo a estrada ao anúncio e à compreensão do Deus de Jesus Cristo.
37. Quando se menciona este movimento de aproximação dos cristãos à
filosofia, é obrigatório recordar também a cautela com que eles olhavam outros
elementos do mundo cultural pagão, como, por exemplo, a gnose. A filosofia,
enquanto sabedoria prática e escola de vida, podia facilmente ser confundida com
um conhecimento de tipo superior, esotérico, reservado a poucos iluminados. É,
sem dúvida, a especulações esotéricas deste género que pensa S. Paulo, quando
adverte os Colossenses: « Vede que ninguém vos engane com falsas e vãs
filosofias, fundadas nas tradições humanas, nos elementos do mundo, e não em
Cristo » (2, 8). Como são actuais estas palavras do Apóstolo, quando as
referimos às diversas formas de esoterismo que hoje se difundem mesmo entre
alguns crentes, privados do necessário sentido crítico! Seguindo as pegadas de
S. Paulo, outros escritores dos primeiros séculos, particularmente Santo Ireneu
e Tertuliano, puseram reservas a uma orientação cultural que pretendia
subordinar a verdade da Revelação à interpretação dos filósofos.
38. Como vemos, o encontro do cristianismo com a filosofia não foi fácil nem
imediato. A exercitação desta e a frequência das respectivas escolas foi vista
mais vezes pelos primeiros cristãos como transtorno, do que como uma
oportunidade. Para eles, a primeira e mais urgente missão era o anúncio de
Cristo ressuscitado, que havia de ser proposto num encontro pessoal, capaz de
levar o interlocutor à conversão do coração e ao pedido do Baptismo. De qualquer
modo, isso não significa que ignorassem a obrigação de aprofundar a compreensão
da fé e suas motivações; antes pelo contrário. É injusta e pretextuosa a crítica
de Celso, quando acusa os cristãos de serem gente « iletrada e rude ».
31 A explicação deste seu desinteresse inicial tem de ser
procurada noutro lado. Na realidade, o encontro com o Evangelho oferecia uma
resposta tão satisfatória à questão do sentido da vida, até então insolúvel, que
frequentar os filósofos parecia-lhes uma coisa sem interesse e, em certos
aspectos, superada.
Isto é, hoje, ainda mais claro, se se pensa ao contributo dado pelo
cristianismo, quando defende o acesso à verdade como um direito universal.
Derrubadas as barreiras raciais, sociais e sexuais, o cristianismo tinha
anunciado, desde as suas origens, a igualdade de todos os homens diante de Deus.
A primeira consequência deste conceito registou-se no tema da verdade, ficando
decididamente superado o carácter elitista que a sua busca tinha no pensamento
dos antigos: se o acesso à verdade é um bem que permite chegar a Deus, todos
devem estar em condições de poder percorrer esta estrada. As vias para chegar à
verdade continuam a ser muitas; mas, dado que a verdade cristã tem valor
salvífico, cada uma delas só pode ser percorrida se conduzir à meta final, ou
seja, à revelação de Jesus Cristo.
Como pioneiro dum encontro positivo com o pensamento filosófico, sempre
marcado por um prudente discernimento, há que recordar S. Justino. Apesar da
grande estima que continuava a ter pela filosofia grega depois da sua conversão,
afirmava decidida e claramente que tinha encontrado, no cristianismo, « a única
filosofia segura e vantajosa ».
32 De forma semelhante, Clemente de Alexandria chamava ao
Evangelho « a verdadeira filosofia »,
33 e, em analogia com a lei mosaica, via a filosofia como uma
instrução propedêutica à fé cristã
34 e uma preparação ao Evangelho.
35 Uma vez que « a filosofia anela por aquela sabedoria que
consiste na rectidão da alma e da palavra e na pureza da vida, está aberta à
sabedoria e tudo faz para a alcançar. No nosso meio, designam-se por filósofos
os que amam a sabedoria que é criadora e mestra de tudo, isto é, o conhecimento
do Filho de Deus ».36
Segundo este pensador alexandrino, a filosofia grega não tem como primeiro
objectivo completar ou corroborar a verdade cristã; a sua função é, sobretudo, a
defesa da fé: « A doutrina do Salvador é perfeita em si mesma e não precisa de
apoio, porque é a força e a sabedoria de Deus. A filosofia grega não torna mais
forte a verdade com o seu contributo, mas, porque torna impotente o ataque da
sofística e desarma os assaltos traiçoeiros contra a verdade, foi justamente
chamada sebe e muro de vedação da vinha ».37
39. Entretanto, na história deste desenvolvimento, é possível constatar a
assunção crítica do pensamento filosófico por parte dos pensadores cristãos. No
meio dos primeiros exemplos encontrados, sobressai, sem dúvida, Orígenes. Contra
os ataques lançados pelo filósofo Celso, ele recorre à filosofia platónica para
argumentar e responder-lhe. Citando vários elementos do pensamento platónico,
começa a elaborar uma primeira forma de teologia cristã. Naquele tempo, a
designação mesma de teologia e a sua concepção como discurso racional sobre Deus
ainda estavam ligadas à sua origem grega. Na filosofia aristotélica, por
exemplo, o termo designava a parte mais nobre e o verdadeiro apogeu do discurso
filosófico. Mas, à luz da revelação cristã, o que anteriormente indicava uma
doutrina genérica sobre a divindade, passou a assumir um significado totalmente
novo, ou seja, a reflexão que o crente realiza para exprimir a verdadeira
doutrina acerca de Deus. Este pensamento cristão novo, que estava a
desenvolver-se, servia-se da filosofia, mas ao mesmo tempo tendia a
distinguir-se nitidamente dela. A história revela que o próprio pensamento
platónico, quando foi assumido pela teologia, sofreu profundas transformações,
especialmente em conceitos como a imortalidade da alma, a divinização do homem e
a origem do mal.
40. Nesta obra de cristianização do pensamento platónico e neoplatónico,
merecem menção particular os Padres Capadócios, Dionísio chamado o Areopagita e
sobretudo Santo Agostinho. O grande Doutor ocidental contactara diversas escolas
filosóficas, mas todas o tinham desiludido. Quando se lhe deparou a verdade da
fé cristã, então teve a força de realizar aquela conversão radical a que os
filósofos anteriormente contactados não tinham conseguido induzi-lo. Ele mesmo
refere o motivo: « Preferindo a doutrina católica, já sentia, então, que era
mais razoável e menos enganoso sermos obrigados a crer o que não demonstrava,
quer houvesse prova, mesmo que esta não estivesse ao alcance de qualquer pessoa,
quer a não houvesse. Seria isto mais sensato do que zombarem da crença os
maniqueístas, apoiados em temerária promessa de ciência, para depois nos
mandarem acreditar em inúmeras fábulas tão absurdas que as não podiam provar ».
38
Quanto aos platónicos, que ocupavam lugar privilegiado nos pontos de referimento
de Agostinho, este censurava-os porque, embora conhecessem o fim para onde se
devia tender, tinham, porém, ignorado o caminho que lá conduzia: o Verbo
encarnado.
39 O Bispo de Hipona conseguiu elaborar a primeira grande
síntese do pensamento filosófico e teológico, nela confluindo correntes do
pensamento grego e latino. Também nele a grande unidade do saber, que tinha o
seu fundamento no pensamento bíblico, acabou por ser confirmada e sustentada
pela profundidade do pensamento especulativo. A síntese feita por Santo
Agostinho permanecerá como a forma mais elevada de reflexão filosófica e
teológica que o Ocidente, durante séculos, conheceu. Com uma história pessoal
intensa e ajudado por uma admirável santidade de vida, ele foi capaz de
introduzir, nas suas obras, muitos dados que, apelando-se à experiência,
antecipavam já futuros desenvolvimentos de algumas correntes filosóficas.
41. De diversas formas, pois, os Padres do Oriente e do Ocidente entraram em
relação com as escolas filosóficas. Isto não significa que tenham identificado o
conteúdo da sua mensagem com os sistemas a que faziam referência. A pergunta de
Tertuliano: « Que têm em comum Atenas e Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja? »,
40 é um sintoma claro da consciência crítica com que os
pensadores cristãos encararam, desde as origens, o problema da relação entre a
fé e a filosofia, vendo-o globalmente, tanto nos seus aspectos positivos como
nas suas limitações. Não eram pensadores ingénuos. Precisamente porque viviam de
forma intensa o conteúdo da fé, eles conseguiam chegar às formas mais profundas
da reflexão. Por isso, é injusto e redutivo limitar o seu trabalho a mera
transposição das verdades de fé para categorias filosóficas. Eles fizeram muito
mais; conseguiram explicitar plenamente aquilo que resultava ainda implícito e
preliminar no pensamento dos grandes filósofos antigos.
41
Estes, conforme já disse, tiveram a função de mostrar o modo como a razão, livre
dos vínculos externos, podia escapar do beco sem saída dos mitos, para melhor se
abrir à transcendência. Uma razão purificada e recta era capaz de se elevar aos
níveis mais elevados da reflexão, dando fundamento sólido à percepção do ser, do
transcendente e do absoluto.
Aqui mesmo se insere a novidade operada pelos Padres. Acolheram a razão na
sua plena abertura ao absoluto e, nela, enxertaram a riqueza vinda da Revelação.
O encontro não foi apenas questão de culturas, uma das quais talvez seduzida
pelo fascínio da outra; mas verificou-se no íntimo da alma, e foi um encontro
entre a criatura e o seu Criador. Ultrapassando o fim mesmo para o qual
inconscientemente tendia por força da sua natureza, a razão pôde alcançar o sumo
bem e a suma verdade na pessoa do Verbo encarnado. Ao encararem as filosofias,
os Padres não tiveram medo de reconhecer tanto os elementos comuns como as
diferenças que aquelas apresentavam relativamente à Revelação. A percepção das
convergências não ofuscava neles o reconhecimento das diferenças.
42. Na teologia escolástica, o papel da razão educada filosoficamente
torna-se ainda mais notável sob o impulso da interpretação anselmiana do
intelectus fidei. Segundo o santo Arcebispo de Cantuária, a prioridade da
fé não faz concorrência à investigação própria da razão. De facto, esta não é
chamada a exprimir um juízo sobre os conteúdos da fé; seria incapaz disso,
porque não é idónea. A sua tarefa é, antes, saber encontrar um sentido,
descobrir razões que a todos permitam alcançar algum entendimento dos conteúdos
da fé. Santo Anselmo sublinha o facto de que o intelecto deve pôr-se à procura
daquilo que ama: quanto mais ama, mais deseja conhecer. Quem vive para a
verdade, tende para uma forma de conhecimento que se inflama num amor sempre
maior por aquilo que conhece, embora admita que ainda não fizera tudo aquilo que
estaria no seu desejo: « Ad te videndum factus sum; et nondum feci propter
quod factus sum
». 42
Assim, o desejo da verdade impele a razão a ir sempre mais além; esta fica como
que embevecida pela constatação de que a sua capacidade é sempre maior do que
aquilo que alcança. Chegada aqui, porém, a razão é capaz de descobrir onde está
o termo do seu caminho: « Penso efectivamente que, quem investiga uma coisa
incompreensível, se deve contentar de chegar, pela razão, a reconhecer com a
máxima certeza a sua existência real, embora não seja capaz de penetrar, pela
inteligência, o seu modo de ser (...). Aliás, que há de tão incompreensível e
inefável como aquilo que está acima de tudo? Portanto, se aquilo de cuja
essência suprema discutimos até agora, ficou estabelecido sobre razões
necessárias, ainda que a inteligência não o possa penetrar de forma a conseguir
traduzi-lo em palavras claras, nem por isso vacila minimamente o fundamento da
sua certeza. Com efeito, se uma reflexão anterior compreendeu de maneira
racional que é incompreensível (rationabiliter comprehendit incomprehensibile
esse) o modo como a sabedoria suprema sabe aquilo que fez (...) , quem
explicará como ela mesma se conhece e exprime, dado que sobre ela o homem nada
ou quase nada pode saber? ».
43
Confirma-se assim, uma vez mais, a harmonia fundamental entre o conhecimento
filosófico e o conhecimento da fé: a fé requer que o seu objecto seja
compreendido com a ajuda da razão; por sua vez a razão, no apogeu da sua
indagação, admite como necessário aquilo que a fé apresenta.
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2. A novidade perene do pensamento de S. Tomás de Aquino
43. Neste longo caminho, ocupa um lugar absolutamente especial S. Tomás, não
só pelo conteúdo da sua doutrina, mas também pelo diálogo que soube instaurar
com o pensamento árabe e hebreu do seu tempo. Numa época em que os pensadores
cristãos voltavam a descobrir os tesouros da filosofia antiga, e mais
directamente da filosofia aristotélica, ele teve o grande mérito de colocar em
primeiro lugar a harmonia que existe entre a razão e a fé. A luz da razão e a
luz da fé provêm ambas de Deus: argumentava ele; por isso, não se podem
contradizer entre si.
44
Indo mais longe, S. Tomás reconhece que a natureza, objecto próprio da
filosofia, pode contribuir para a compreensão da revelação divina. Deste modo, a
fé não teme a razão, mas solicita-a e confia nela. Como a graça supõe a natureza
e leva-a à perfeição,
45 assim também a fé supõe e aperfeiçoa a razão. Esta,
iluminada pela fé, fica liberta das fraquezas e limitações causadas pela
desobediência do pecado, e recebe a força necessária para elevar-se até ao
conhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. Embora sublinhando o carácter
sobrenatural da fé, o Doutor Angélico não esqueceu o valor da racionabilidade da
mesma; antes, conseguiu penetrar profundamente e especificar o sentido de tal
racionabilidade. Efectivamente, a fé é de algum modo « exercitação do pensamento
»; a razão do homem não é anulada nem humilhada, quando presta assentimento aos
conteúdos de fé; é que estes são alcançados por decisão livre e consciente.
46
Precisamente por este motivo é que S. Tomás foi sempre proposto pela Igreja
como mestre de pensamento e modelo quanto ao recto modo de fazer teologia. Neste
contexto, apraz-me recordar o que escreveu o meu Predecessor, o Servo de Deus
Paulo VI, por ocasião do sétimo centenário da morte do Doutor Angélico: « Sem
dúvida, S. Tomás possuiu, no máximo grau, a coragem da verdade, a liberdade de
espírito quando enfrentava os novos problemas, a honestidade intelectual de quem
não admite a contaminação do cristianismo pela filosofia profana, mas tão pouco
defende a rejeição apriorística desta. Por isso, passou à história do pensamento
cristão como um pioneiro no novo caminho da filosofia e da cultura universal. O
ponto central e como que a essência da solução que ele deu ao problema novamente
posto da contraposição entre razão e fé, com a genialidade do seu intuito
profético, foi o da conciliação entre a secularidade do mundo e a radicalidade
do Evangelho, evitando, por um lado, aquela tendência anti-natural que nega o
mundo e seus valores, mas, por outro, sem faltar às exigências supremas e
inabaláveis da ordem sobrenatural ».
47
44. Entre as grandes intuições de S. Tomás, conta-se a de atribuir ao
Espírito Santo o papel de fazer amadurecer, como sapiência, a ciência humana.
Desde as primeiras páginas da Summa theologiæ,
48 o Aquinate quis mostrar o primado daquela sapiência que é
dom do Espírito Santo e que introduz no conhecimento das realidades divinas. A
sua teologia permite compreender a peculiaridade da sapiência na sua ligação
íntima com a fé e o conhecimento de Deus: conhece por conaturalidade, pressupõe
a fé e chega a formular rectamente o seu juízo a partir da verdade da própria
fé: « A sapiência elencada entre os dons do Espírito Santo é distinta da
mencionada entre as virtudes intelectuais. De facto, esta segunda adquire-se
pelo estudo; aquela, pelo contrário, "provém do alto", como diz S. Tiago. Mas é
também distinta da fé, porque esta aceita a verdade divina tal como é, enquanto
é próprio do dom da sapiência julgar segundo a verdade divina ».
49
Mas, ao reconhecer a prioridade desta sapiência, o Doutor Angélico não
esquece a existência de mais duas formas complementares de sabedoria: a
filosófica, que se baseia sobre a capacidade que tem o intelecto, dentro dos
próprios limites naturais, de investigar a realidade; e a sabedoria teológica,
que se fundamenta na Revelação e examina os conteúdos da fé, alcançando o
próprio mistério de Deus.
Intimamente convencido de que « omne verum a quocumque dicatur a Spiritu
Sancto est »,
50 S. Tomás amou desinteressadamente a verdade. Procurou-a por
todo o lado onde pudesse manifestar-se, colocando em relevo a sua
universalidade. Nele, o Magistério da Igreja viu e apreciou a paixão pela
verdade; o seu pensamento, precisamente porque se mantém sempre no horizonte da
verdade universal, objectiva e transcendente, atingiu « alturas que a
inteligência humana jamais poderia ter pensado ».51
É, pois, com razão que S. Tomás pode ser definido « apóstolo da verdade ».52
Porque se consagrou sem reservas à verdade, no seu realismo soube reconhecer a
sua objectividade. A sua filosofia é verdadeiramente uma filosofia do ser, e não
do simples aparecer.
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3. O drama da separação da fé e da razão
45. Quando surgiram as primeiras universidades, a teologia começou a
relacionar-se mais directamente com outras formas da pesquisa e do saber
científico. Santo Alberto Magno e S. Tomás, embora admitindo uma ligação
orgânica entre a filosofia e a teologia, foram os primeiros a reconhecer à
filosofia e às ciências a autonomia de que precisavam para se debruçar
eficazmente sobre os respectivos campos de investigação. Todavia, a partir da
baixa Idade Média, essa distinção legítima entre os dois conhecimentos
transformou-se progressivamente em nefasta separação. Devido ao espírito
excessivamente racionalista de alguns pensadores, radicalizaram-se as posições,
chegando-se, de facto, a uma filosofia separada e absolutamente autónoma dos
conteúdos da fé. Entre as várias consequências de tal separação, sobressai a
difidência cada vez mais forte contra a própria razão. Alguns começaram a
professar uma desconfiança geral, céptica ou agnóstica, quer para reservar mais
espaço à fé, quer para desacreditar qualquer possível referência racional à
mesma.
Em resumo, tudo o que o pensamento patrístico e medieval tinha concebido e
actuado como uma unidade profunda, geradora dum conhecimento capaz de chegar às
formas mais altas da especulação, foi realmente destruído pelos sistemas que
abraçaram a causa de um conhecimento racional, separado e alternativo da fé.
46. As radicalizações mais influentes são bem conhecidas e visíveis,
sobretudo na história do Ocidente. Não é exagerado afirmar que boa parte do
pensamento filosófico moderno se desenvolveu num progressivo afastamento da
revelação cristã até chegar explicitamente à contraposição. No século passado,
este movimento tocou o seu apogeu. Alguns representantes do idealismo
procuraram, de diversos modos, transformar a fé e os seus conteúdos, inclusive o
mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, em estruturas dialécticas
racionalmente compreensíveis. Mas a esta concepção, opuseram-se diversas formas
de humanismo ateu, elaboradas filosoficamente, que apontaram a fé como
prejudicial e alienante para o desenvolvimento pleno do uso da razão. Não
tiveram medo de se apresentar como novas religiões, dando base a projectos que
desembocaram, no plano político e social, em sistemas totalitários traumáticos
para a humanidade.
No âmbito da investigação científica, foi-se impondo uma mentalidade
positivista, que não apenas se afastou de toda a referência à visão cristã do
mundo, mas sobretudo deixou cair qualquer alusão à visão metafísica e moral. Por
causa disso, certos cientistas, privados de qualquer referimento ético, correm o
risco de não manterem, ao centro do seu interesse, a pessoa e a globalidade da
sua vida. Mais, alguns deles, cientes das potencialidades contidas no progresso
tecnológico, parecem ceder à lógica do mercado e ainda à tentação dum poder
demiúrgico sobre a natureza e o próprio ser humano.
Como consequência da crise do racionalismo, apareceu o niilismo. Enquanto
filosofia do nada, consegue exercer um certo fascínio sobre os nossos
contemporâneos. Os seus seguidores defendem a pesquisa como fim em si mesma, sem
esperança nem possibilidade alguma de alcançar a meta da verdade. Na
interpretação niilista, a existência é somente uma oportunidade para sensações e
experiências onde o efémero detém o primado. O niilismo está na origem duma
mentalidade difusa, segundo a qual não se deve assumir qualquer compromisso
definitivo, porque tudo é fugaz e provisório.
47. Por outro lado, é preciso não esquecer que, na cultura moderna, foi
alterada a própria função da filosofia. De sabedoria e saber universal que era,
foi-se progressivamente reduzindo a uma das muitas áreas do saber humano; mais,
sob alguns dos seus aspectos, ficou reduzida a um papel completamente marginal.
Entretanto, foram-se consolidando sempre mais outras formas de racionalidade,
pondo assim em evidência o carácter marginal do saber filosófico. Em vez de
apontarem para a contemplação da verdade e a busca do fim último e do sentido da
vida, essas formas de racionalidade são orientadas, ou pelo menos orientáveis,
como « razão instrumental » ao serviço de fins utilitaristas, de prazer ou de
poder.
Quanto seja perigoso absolutizar esta estrada, fi-lo notar já na minha
primeira carta encíclica, ao escrever: « O homem de hoje parece estar sempre
ameaçado por aquilo mesmo que produz, ou seja, pelo resultado do trabalho das
suas mãos e, ainda mais, pelo resultado do trabalho da sua inteligência e das
tendências da sua vontade. Os frutos desta multiforme actividade do homem, com
grande rapidez e de modo muitas vezes imprevisível, passam a ser não tanto
objecto de "alienação", no sentido de que são simplesmente tirados àqueles que
os produzem, como sobretudo, pelo menos parcialmente, num círculo consequente e
indirecto dos seus efeitos, tais frutos voltam-se contra o próprio homem. Eles
são de facto dirigidos, ou podem sê-lo, contra o homem. Nisto parece consistir o
acto principal do drama da existência humana contemporânea, na sua dimensão mais
ampla e universal. Assim, o homem vive mergulhado cada vez mais no medo. Teme
que os seus produtos, naturalmente não todos nem a maior parte, mas alguns e
precisamente aqueles que encerram uma especial porção da sua genialidade e da
sua iniciativa, possam ser voltados de maneira radical contra si mesmo ».
53
Na sequência destas transformações culturais, alguns filósofos, abandonando a
busca da verdade por si mesma, assumiram como único objectivo a obtenção da
certeza subjectiva ou da utilidade prática. Em consequência, deu-se o
obscurecimento da verdadeira dignidade da razão, impossibilitada de conhecer a
verdade e de procurar o absoluto.
48. Assim, o dado saliente desta última parte da história da filosofia é a
constatação duma progressiva separação entre a fé e a razão filosófica. É
verdade que, observando bem, mesmo na reflexão filosófica daqueles que
contribuíram para ampliar a distância entre fé e razão, se manifestam às vezes
gérmenes preciosos de pensamento que, se aprofundados e desenvolvidos com mente
e coração recto, podem fazer descobrir o caminho da verdade. Estes gérmenes de
pensamento podem-se encontrar, por exemplo, nas profundas análises sobre a
percepção e a experiência, a imaginação e o inconsciente, sobre a personalidade
e a intersubjectividade, a liberdade e os valores, o tempo e a história.
Inclusive o tema da morte pode tornar-se, para todo o pensador, um severo apelo
a procurar dentro de si mesmo o sentido autêntico da própria existência. Todavia
isto não pode fazer esquecer a necessidade que a actual relação entre fé e razão
tem de um cuidadoso esforço de discernimento, porque tanto a razão como a fé
ficaram reciprocamente mais pobres e débeis. A razão, privada do contributo da
Revelação, percorreu sendas marginais com o risco de perder de vista a sua meta
final. A fé, privada da razão, pôs em maior evidência o sentimento e a
experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal. É
ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé goze de maior
incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou
superstição. Da mesma maneira, uma razão que não tenha pela frente uma fé adulta
não é estimulada a fixar o olhar sobre a novidade e radicalidade do ser.
À luz disto, creio justificado o meu apelo veemente e incisivo para que a fé
e a filosofia recuperem aquela unidade profunda que as torna capazes de serem
coerentes com a sua natureza, no respeito da recíproca autonomia. Ao desassombro
(parresia) da fé deve corresponder a audácia da razão.
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CAPÍTULO V - INTERVENÇÕES DO MAGISTÉRIO EM MATÉRIA FILOSÓFICA
1. O discernimento do Magistério como diaconia da verdade
49. A Igreja não propõe uma filosofia própria, nem canoniza uma das correntes
filosóficas em detrimento de outras.
54 A razão profunda desta reserva está no facto de que a
filosofia, mesmo quando entra em relação com a teologia, deve proceder segundo
os seus métodos e regras; caso contrário, não haveria garantia de permanecer
orientada para a verdade, tendendo para a mesma através dum processo
racionalmente controlável. Pouca ajuda daria uma filosofia que não agisse à luz
da razão, segundo princípios próprios e específicas metodologias.
Fundamentalmente, a raiz da autonomia de que goza a filosofia, há que
individuá-la no facto de a razão estar orientada, por sua natureza, para a
verdade e dotada em si mesma dos meios necessários para a alcançar. Uma
filosofia, ciente deste seu « estatuto constitutivo », não pode deixar de
respeitar as exigências e evidências próprias da verdade revelada.
E, todavia, vimos, na história, os extravios e erros em que várias vezes
incorreu o pensamento filosófico, sobretudo moderno. Não é função nem
competência do Magistério intervir para colmar as lacunas dum discurso
filosófico carente. Mas, já é sua obrigação reagir, de forma clara e vigorosa,
quando teses filosóficas discutíveis ameaçam a recta compreensão do dado
revelado e quando se difundem teorias falsas e sectárias que semeiam erros
graves, perturbando a simplicidade e a pureza da fé do povo de Deus.
50. Por conseguinte, o Magistério eclesiástico pode, e deve, exercer com
autoridade, à luz da fé, o discernimento crítico sobre filosofias e afirmações
que contradigam a doutrina cristã.
55 Ao Magistério compete, antes de mais, indicar os
pressupostos e as conclusões filosóficas que são incompatíveis com a verdade
revelada, formulando assim as exigências que, do ponto de vista da fé, se impõem
à filosofia. Além disso, no desenvolvimento do saber filosófico, surgiram
diversas escolas de pensamento; ora, este pluralismo impõe ao Magistério a
responsabilidade de exprimir o seu juízo sobre a compatibilidade ou
incompatibilidade das concepções de base, defendidas por essas escolas, com as
exigências próprias da palavra de Deus e da reflexão teológica.
A Igreja tem o dever de indicar aquilo que pode existir, num sistema
filosófico, de incompatível com a sua fé. Na verdade, muitos conteúdos
filosóficos — relativos, por exemplo, a Deus, ao homem, à sua liberdade e ao seu
comportamento ético —, têm a ver directamente com a Igreja, porque tocam na
verdade revelada que ela guarda. Quando nós, Bispos, realizamos o referido
discernimento, temos a obrigação de ser « testemunhas da verdade », no
cumprimento dum serviço humilde, mas firme, que todo o filósofo devia prezar, em
benefício da recta ratio, ou seja, da razão que reflecte correctamente sobre a
verdade.
51. Em todo o caso, tal discernimento não deve ser visto primariamente de
forma negativa, como se a intenção do Magistério fosse eliminar ou reduzir
qualquer possibilidade de mediação; ao contrário, as suas intervenções visam em
primeiro lugar suscitar, promover e encorajar o pensamento filosófico. Os
filósofos são, aliás, os primeiros a compreender a exigência de autocrítica, de
correcção de eventuais erros, e a necessidade de ultrapassar os limites
demasiado estreitos em que a sua reflexão foi concebida. De modo particular,
deve-se considerar que a verdade é uma só, embora as suas expressões acusem os
vestígios da história e sejam, além disso, obra duma razão humana ferida e
enfraquecida pelo pecado. Daqui se conclui que nenhuma forma histórica da
filosofia pode, legitimamente, ter a pretensão de abraçar a totalidade da
verdade ou de possuir a explicação cabal do ser humano, do mundo e da relação do
homem com Deus.
E hoje, com esta multiplicação de sistemas, métodos, conceitos e argumentos
filosóficos, muitas vezes extremamente fragmentários, impõe-se ainda com maior
urgência um discernimento crítico à luz da fé. Este discernimento não é fácil,
porque, se já é custoso reconhecer as capacidades naturais e inalienáveis da
razão com as suas limitações constitutivas e históricas, mais problemático ainda
se pode tornar às vezes o discernimento de cada uma das propostas filosóficas
para verificar, do ponto de vista da fé, o que apresentam de válido e fecundo e
o que existe nelas de errado ou perigoso. De qualquer modo, a Igreja sabe que os
« tesouros da sabedoria e da ciência » estão escondidos em Cristo (Col 2,
3); por isso, ela intervém, estimulando a reflexão filosófica, para que não se
obstrua a estrada que leva ao conhecimento do mistério.
52. Não foi só recentemente que o Magistério da Igreja interveio para
manifestar o seu pensamento a respeito de determinadas doutrinas filosóficas. A
título de exemplo, basta recordar, no decurso dos séculos, as tomadas de posição
acerca das teorias que defendiam a preexistência das almas,
56 e ainda sobre as diversas formas de idolatria e esoterismo
supersticioso, contidas em teses astrológicas;
57 sem esquecer os textos mais sistemáticos contra algumas
teses do averroísmo latino, incompatíveis com a fé cristã.
58
Se a palavra do Magistério se fez ouvir mais frequentemente a partir da
segunda metade do século passado, foi porque, naquele período, numerosos
católicos sentiram o dever de contrapor uma filosofia própria às várias
correntes do pensamento moderno. Daqui resultou, para o Magistério da Igreja, a
obrigação de vigiar a fim de que tais filosofias não degenerassem, por sua vez,
em formas erróneas e negativas. Acabaram assim censurados os dois extremos: dum
lado, o fideísmo
59 e o
tradicionalismo radical,60
pela sua falta de confiança nas capacidades naturais da razão; e, do outro, o
racionalismo
61 e o
ontologismo,
62 porque atribuíam à razão natural aquilo que apenas se pode
conhecer pela luz da fé. Os conteúdos positivos deste debate foram formalizados
na constituição dogmática
Dei Filius, por meio da qual um concílio ecuménico — o Vaticano I —
intervinha, pela primeira vez e de forma solene, sobre as relações entre razão e
fé. A doutrina contida neste texto marcou, intensa e positivamente, a
investigação filosófica de muitos crentes e constitui ainda hoje um ponto
normativo de referência para uma correcta e coerente reflexão cristã neste
âmbito particular.
53. Mais do que teses filosóficas isoladas, as tomadas de posição do
Magistério ocuparam-se da necessidade do conhecimento racional — e por
conseguinte, em última análise, do conhecimento filosófico — para a compreensão
da fé. O Concílio Vaticano I, sintetizando e confirmando solenemente os
ensinamentos que o Magistério pontifício tinha proposto aos fiéis de maneira
ordinária e constante, pôs em evidência como são inseparáveis e ao mesmo tempo
irredutíveis entre si o conhecimento natural de Deus e a Revelação, a razão e a
fé. O Concílio partia da exigência fundamental — pressuposta também pela
Revelação — da cognoscibilidade natural da existência de Deus, princípio e fim
de todas as coisas,
63 para concluir com a solene afirmação já citada: « Existem
duas ordens de conhecimento, distintas não apenas pelo seu princípio, mas também
pelo seu objecto ».
64 É que era preciso afirmar, contra qualquer forma de
racionalismo, a distinção entre os mistérios da fé e as conclusões filosóficas,
e ainda a transcendência e precedência daqueles sobre estas; por outro lado,
contra as tentações fideístas, tornava-se necessário corroborar a unidade da
verdade e também o contributo positivo que o conhecimento racional pode, e deve,
dar para o conhecimento da fé: « Mas, embora a fé esteja acima da razão, não
poderá existir nunca uma verdadeira divergência entre fé e razão, porque o mesmo
Deus que revela os mistérios e comunica a fé, foi quem colocou também, no
espírito humano, a luz da razão. E Deus não poderia negar-Se a Si mesmo, pondo a
verdade em contradição com a verdade ».65
54. Neste século, o Magistério voltou várias vezes ao mesmo assunto,
alertando contra a tentação racionalista. É neste horizonte que se devem colocar
as intervenções do Papa S. Pio X, pondo em relevo como, na base do modernismo,
havia posições filosóficas de linha fenomenista, agnóstica e imanentista.66
E não se pode esquecer a importância que teve a rejeição católica da filosofia
marxista e do comunismo ateu.67
Sucessivamente, o Papa Pio XII fez ouvir a sua voz quando, na carta encíclica
Humani generis, preveniu contra interpretações erróneas que andavam ligadas
com as teses do evolucionismo, do existencialismo e do historicismo. Explicava
ele que estas teses não foram elaboradas nem eram propostas por teólogos, mas
tinham a sua origem « fora do redil de Cristo »;
68 acrescentava, porém, que tais extravios não deviam ser
liminarmente rejeitados, mas examinados criticamente: « Ora, estas tendências,
que se afastam em medida desigual da recta via, não podem ser ignoradas ou
transcuradas pelos filósofos e teólogos católicos, que têm o grave dever de
defender a verdade divina e humana, e de fazê-la penetrar na mente dos homens.
Pelo contrário, devem conhecer bem estas opiniões, quer porque as doenças não
podem ser curadas, se primeiro não são bem conhecidas, quer porque algumas vezes
mesmo nas afirmações falsas se esconde um pouco de verdade, quer finalmente
porque os próprios erros forçam a nossa mente a investigar e a perscrutar, com
maior diligência, certas verdades filosóficas e teológicas ».69
Por último, também a Congregação da Doutrina da Fé, no cumprimento do seu
múnus específico ao serviço do magistério universal do Romano Pontífice,
70 teve de intervir para sublinhar o perigo que comportava a
assunção acrítica, feita por alguns teólogos da libertação, de teses e
metodologias provenientes do marxismo.
71
Vemos assim que, no passado, o Magistério exerceu reiteradamente e sob
diversas modalidades o discernimento em matéria filosófica. Aquilo que os meus
Venerados Predecessores enunciaram, constitui um contributo precioso que não
pode ser esquecido.
55. Se observarmos a situação actual, constatamos que os problemas retornam,
mas com peculiaridades novas. Já não se trata de questões que interessam apenas
a indivíduos ou grupos, mas de convicções tão generalizadas no ambiente que se
tornam, em certa medida, mentalidade comum. Tal é, por exemplo, a desconfiança
radical na razão, que evidenciam as conclusões mais recentes de muitos estudos
filosóficos. De várias partes ouviu-se falar, a este respeito, de « fim da
metafísica »: querem que a filosofia se contente com tarefas mais modestas, tais
como a mera interpretação dos factos ou apenas a investigação sobre determinados
campos do saber humano ou das suas estruturas.
Também, na teologia, voltam a assomar as tentações de outrora. Por exemplo,
em algumas teologias contemporâneas comparece novamente um certo racionalismo,
principalmente quando asserções, consideradas filosoficamente fundadas, são
tomadas como normativas para a investigação teológica. Isto sucede sobretudo
quando o teólogo, por falta de competência filosófica, se deixa condicionar de
modo acrítico por afirmações que já entraram na linguagem e cultura corrente,
mas carecem de suficiente base racional.
72
Não faltam também perigosas recaídas no fideísmo, que não reconhece a
importância do conhecimento racional e do discurso filosófico para a compreensão
da fé, melhor, para a própria possibilidade de acreditar em Deus. Uma expressão,
hoje generalizada, desta tendência fideísta é o « biblicismo », que tende a
fazer da leitura da Sagrada Escritura, ou da sua exegese, o único referencial da
verdade. Assim, acaba-se por identificar a palavra de Deus só com a Sagrada
Escritura, anulando deste modo a doutrina da Igreja que o Concílio Ecuménico
Vaticano II expressamente reafirmou. Com efeito, a constituição Dei Verbum,
depois de recordar que a palavra de Deus está presente tanto nos textos sagrados
como na Tradição,
73 afirma sem rodeios: « A Sagrada Tradição e a Sagrada
Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à
Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera unido aos seus Pastores na
doutrina dos Apóstolos ».74
Portanto, a Sagrada Escritura não constitui, para a Igreja, a sua única
referência; a « regra suprema da sua fé »
75 provém efectivamente da unidade que o Espírito estabeleceu
entre a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, numa
reciprocidade tal que os três não podem subsistir de maneira independente.76
Além disso, não se deve subestimar o perigo que existe quando se quer
individuar a verdade da Sagrada Escritura com a aplicação de uma única
metodologia, esquecendo a necessidade de uma exegese mais ampla que permita o
acesso, em união com toda a Igreja, ao sentido pleno dos textos. Os que se
dedicam ao estudo da Sagrada Escritura nunca devem esquecer que as diversas
metodologias hermenêuticas têm também na sua base uma concepção filosófica: é
preciso examiná-las com grande discernimento, antes de as aplicar aos textos
sagrados.
Outras formas de fideísmo latente podem-se identificar na pouca consideração
que é reservada à teologia especulativa, e ainda no desprezo pela filosofia
clássica, de cujas noções provieram os termos para exprimir tanto a compreensão
da fé como as próprias formulações dogmáticas. O Papa Pio XII, de veneranda
memória, alertou contra este esquecimento da tradição filosófica e abandono das
terminologias tradicionais.
77
56. Constata-se, enfim, uma generalizada desconfiança relativamente a
asserções globais e absolutas sobretudo da parte de quem pensa que a verdade
resulte do consenso, e não da conformidade do intelecto com a realidade
objectiva. Compreende-se que, num mundo subdividido em tantos campos de
especializações, se torne difícil reconhecer aquele sentido total e último da
vida que tradicionalmente a filosofia procurava. Mas nem por isso posso, à luz
da fé que reconhece em Jesus Cristo tal sentido último, deixar de encorajar os
filósofos, cristãos ou não, a terem confiança nas capacidades da razão humana e
a não prefixarem metas demasiado modestas à sua investigação filosófica. A lição
da história deste milénio, quase a terminar, testemunha que a estrada a seguir é
esta: não perder a paixão pela verdade última, nem o anseio de pesquisa, unidos
à audácia de descobrir novos percursos. É a fé que incita a razão a sair de
qualquer isolamento e a abraçar de bom grado qualquer risco por tudo o que é
belo, bom e verdadeiro. Deste modo, a fé torna-se advogada convicta e
convincente da razão.
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2. Solicitude da Igreja pela filosofia
57. O Magistério, porém, não se limitou a pôr em destaque os erros e desvios
das doutrinas filosóficas. Mas, com igual cuidado, quis confirmar os princípios
fundamentais para uma genuína renovação do pensamento filosófico, indicando
mesmo percursos concretos a seguir. Nesta linha, o Papa Leão XIII, com a carta
encíclica Æterni Patris, realizou um passo de alcance verdadeiramente
histórico na vida da Igreja. Efectivamente aquela constitui, até ao dia de hoje,
o único documento pontifício dedicado, a esse nível, inteiramente à filosofia. O
grande Pontífice retomou e desenvolveu a doutrina do Concílio Vaticano I sobre a
relação entre fé e razão, mostrando como o pensamento filosófico é um contributo
fundamental para a fé e para a ciência teológica.
78 Passado mais de um século, muitas indicações, lá contidas,
nada perderam do seu interesse tanto do ponto de vista prático como pedagógico;
a primeira de todas é a que diz respeito ao valor incomparável da filosofia de
S. Tomás. A reposição do pensamento do Doutor Angélico era vista pelo Papa Leão
XIII como a melhor estrada para se recuperar um uso da filosofia conforme às
exigências da fé. S. Tomás, escrevia ele, « ao mesmo tempo que, como é devido,
distingue perfeitamente a fé da razão, une-as a ambas com laços de amizade
recíproca: conserva os direitos próprios de cada uma e salvaguarda a sua
dignidade ».79
58. São conhecidas as felizes consequências que teve este convite pontifício.
Os estudos sobre o pensamento de S. Tomás e doutros autores escolásticos
receberam novo incentivo. Foi dado um forte impulso aos estudos históricos, de
que resultou uma nova descoberta das riquezas do pensamento medieval, até então
amplamente desconhecidas, e constituíram-se novas escolas tomistas. Com a
aplicação da metodologia histórica, fizeram-se grandes progressos no
conhecimento da obra de S. Tomás, e muitos foram os estudiosos que corajosamente
introduziram a tradição tomista nas discussões dos problemas filosóficos e
teológicos daquele tempo. Os teólogos católicos mais influentes deste século, a
cuja reflexão e pesquisa muito deve o Concílio Vaticano II, são filhos de tal
renovação da filosofia tomista. E assim a Igreja pôde, no decurso do século XX,
dispor dum vigoroso grupo de pensadores, formados na escola do Doutor Angélico.
59. Contudo, a renovação tomista e neotomista não foi o único sinal de retoma
do pensamento filosófico na cultura de inspiração cristã. Já antes, e
contemporâneamente ao convite do Papa Leão XIII, tinham surgido vários filósofos
católicos que, valendo-se de correntes de pensamento mais recentes e com uma
metodologia própria, geraram obras filosóficas de grande influência e valor
duradouro. Houve quem tivesse organizado sínteses de nível tão alto que nada
tinham a invejar aos grandes sistemas do idealismo, e quem pusesse as bases
epistemológicas para uma nova exposição da fé, à luz de uma renovada compreensão
da consciência moral; houve quem tivesse elaborado uma filosofia que, partindo
da análise da imanência, abria o caminho para o transcendente, e quem tentasse
traduzir as exigências da fé no horizonte da metodologia fenomenológica. Em
suma, partindo de diversas perspectivas, continuou-se a elaborar formas de
reflexão filosófica, que visavam manter viva a grande tradição do pensamento
cristão na unidade de fé e razão.
60. O Concílio Ecuménico Vaticano II, por sua vez, apresenta uma doutrina
muito rica e fecunda a propósito da filosofia. Não posso esquecer, sobretudo no
contexto desta carta encíclica, que um capítulo inteiro da constituição
Gaudium et spes constitui uma espécie de compêndio de antropologia
bíblica, fonte de inspiração também para a filosofia. Naquelas páginas, trata-se
do valor da pessoa humana criada à imagem de Deus, indicam-se os motivos da sua
dignidade e superioridade relativamente ao resto da criação, e mostra-se a
capacidade transcendente da sua razão.
80 Na referida Constituição conciliar, considera-se também o
problema do ateísmo e denunciam-se, juntamente com suas causas, os erros desta
visão filosófica, sobretudo no que diz respeito à dignidade inalienável da
pessoa e da sua liberdade.
81 E um profundo significado filosófico reveste também o ponto
culminante daquelas páginas, que transcrevia já na minha primeira carta
encíclica, a Redemptor hominis, e mantive como um dos pontos de
referência constante no meu magistério: « Na realidade, o mistério do homem só
no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro
homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo,
novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem
a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime ».
82
O Concílio ocupou-se também do estudo da filosofia, ao qual se devem dedicar
os candidatos ao sacerdócio; são recomendações que se podem generalizar a todo o
ensino cristão. Afirma-se num dos documentos conciliares: « As disciplinas
filosóficas sejam ensinadas de forma que os alunos possam adquirir, antes de
mais, um conhecimento sólido e coerente do homem, do mundo e de Deus, apoiados
num património filosófico perenemente válido, tendo em conta as investigações
filosóficas dos tempos actuais »83
Estas directrizes foram depois retomadas e especificadas noutros documentos
do Magistério, com o intuito de garantir uma sólida formação filosófica
sobretudo àqueles que se preparam para os estudos teológicos. Também eu
sublinhei, em várias ocasiões, a importância desta formação filosófica para
todos os que, um dia, terão de enfrentar, na vida pastoral, as questões do mundo
actual e individuar as causas de determinados comportamentos, a fim de lhes dar
pronta resposta.
84
61. Se foi necessário intervir, em diversas circunstâncias, sobre este tema,
reiterando o valor das intuições do Doutor Angélico e insistindo a favor da
aquisição do seu pensamento, isso ficou a dever-se também ao facto de não terem
sido sempre observadas as directrizes do Magistério, com a solicitude desejada.
De facto, nos anos posteriores ao Concílio Vaticano II, pôde observar-se, em
muitas escolas católicas, um certo declínio nesta matéria, devido à menor estima
sentida não apenas pela filosofia escolástica, mas pelo estudo da filosofia em
geral. Com surpresa e mágoa, tenho de constatar que vários teólogos compartilham
este desinteresse pelo estudo da filosofia.
Na base desta indiferença, há diversas razões. Em primeiro lugar, aquela
falta de confiança na razão que se manifesta em grande parte da filosofia
contemporânea, abandonando em larga escala a investigação metafísica das
questões últimas do homem para concentrar a sua atenção sobre problemas
particulares e regionais, às vezes puramente formais. Depois, há que acrescentar
o equívoco que se gerou sobretudo a respeito das « ciências humanas ». O
Concílio Vaticano II afirmou, várias vezes, o valor positivo da pesquisa
científica para um conhecimento mais profundo do mistério do homem.
85 Mas, o convite dirigido aos teólogos para conhecerem estas
ciências e, se vier a propósito, aplicá-las correctamente nos seus estudos, não
deve ser interpretado como uma implícita autorização para marginalizar a
filosofia, pondo-a de parte na formação pastoral e na
præparatio fidei. E, finalmente, não se pode esquecer o interesse
novamente sentido pela inculturação da fé. Em particular, a vida das jovens
Igrejas permitiu descobrir, ao lado de formas elevadas de pensamento, a presença
de múltiplas expressões de sabedoria popular. Isto constitui um autêntico
património de cultura e de tradições. Todavia, o estudo dos costumes
tradicionais deve ser acompanhado simultaneamente pela pesquisa filosófica. Será
esta que possibilitará fazer sobressair os traços positivos da sabedoria
popular, criando a necessária ligação com o anúncio do Evangelho.86
62. Desejo insistir novamente que o estudo da filosofia reveste um carácter
fundamental e indispensável na estrutura dos estudos teológicos e na formação
dos candidatos ao sacerdócio. Não é por acaso que o currículo dos estudos
teológicos é antecedido por um período de tempo especialmente consagrado ao
estudo da filosofia. Esta decisão, confirmada pelo Concílio Ecuménico
Lateranense V,
87 tem as suas raízes na experiência maturada durante a Idade
Média, quando foi posta em relevo a importância de uma harmonia construtiva
entre o saber filosófico e o teológico. Esta organização dos estudos
influenciou, facilitou e promoveu, embora de forma indirecta, uma boa parte do
progresso da filosofia moderna. Temos um exemplo significativo na influência
exercida pelas Disputationes metaphysicæ de Francisco Suárez, que eram
seguidas até mesmo nas universidades luteranas da Alemanha. Pelo contrário, o
abandono desta metodologia foi causa de graves carências, tanto na formação
sacerdotal como na investigação teológica. Basta considerar, por exemplo, como a
sua negligência no âmbito do pensamento e da cultura moderna levou ao
encerramento de toda a forma de diálogo ou à recepção indiscriminada de qualquer
filosofia.
Nutro profunda esperança de que estas dificuldades serão superadas mercê de
uma sábia formação filosófica e teológica, que nunca deve faltar na Igreja.
63. Em virtude das razões aduzidas, senti a urgência de confirmar, por meio
desta carta encíclica, o grande interesse que a Igreja tem pela filosofia; ou
melhor, a ligação íntima do trabalho teológico com a investigação filosófica da
verdade. Daqui nasce o dever que o Magistério tem de discernir e estimular um
pensamento filosófico que não esteja em dissonância com a fé. A minha missão é
propor alguns princípios e pontos de referência, que considero necessários para
se poder instaurar uma relação harmoniosa e eficaz entre a teologia e a
filosofia. À luz deles, será possível discernir com maior clareza se e como deve
a teologia relacionar-se com os diversos sistemas ou asserções filosóficas que o
mundo actual apresenta.
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CAPÍTULO VI - INTERACÇÃO DA TEOLOGIA COM A FILOSOFIA
1. A ciência da fé e as exigências da razão filosófica
64. A palavra de Deus destina-se a todo o homem, de qualquer época e lugar da
terra; e o homem, por natureza, é filósofo. Por sua vez, a teologia, enquanto
elaboração reflexiva e científica da compreensão da palavra divina à luz da fé,
não pode deixar de recorrer às filosofias que vão surgindo ao longo da história,
tanto para algumas das suas formas de proceder como para realizar funções mais
específicas. Sem pretender indicar aos teólogos metodologias particulares —
porque tal não compete ao Magistério —, desejo, porém, lembrar algumas funções
próprias da teologia, onde, por causa da própria natureza da Palavra revelada,
se exige o recurso ao pensamento filosófico.
65. A teologia está organizada, enquanto ciência da fé, à luz dum duplo
princípio metodológico: auditus fidei e intellectus fidei. Com o
primeiro, recolhe os conteúdos da Revelação tal como se foram explicitando
progressivamente na Sagrada Tradição, na Sagrada Escritura e no Magistério vivo
da Igreja.
88 Pelo segundo, a teologia quer responder às exigências
próprias do pensamento, através da reflexão especulativa.
Quanto à preparação para um correcto auditus fidei, a filosofia
proporciona à teologia a sua ajuda peculiar, quando examina a estrutura do
conhecimento e da comunicação pessoal, e sobretudo as várias formas e funções da
linguagem. Igualmente importante é a contribuição da filosofia para uma
compreensão mais coerente da Tradição eclesial, das intervenções do Magistério e
das sentenças dos grandes mestres da teologia: estes, de facto, exprimem-se
frequentemente por conceitos e formas de pensamento conotados com determinada
tradição filosófica. Neste caso, pede-se ao teólogo não só que exponha conceitos
e termos através dos quais a Igreja possa reflectir e elaborar a sua doutrina,
mas que conheça profundamente também os sistemas filosóficos que tenham,
porventura, influenciado as noções e a terminologia, a fim de se chegar a
interpretações correctas e coerentes.
66. Relativamente ao intellectus fidei, importa considerar, antes de
mais, que a Verdade divina, « que nos é proposta nas Sagradas Escrituras,
interpretadas correctamente pela doutrina da Igreja »,
89
goza de uma inteligibilidade própria, logicamente tão coerente que se deve
propor como um autêntico saber. O intellectus fidei explicita esta
verdade, não só quando investiga as estruturas lógicas e conceptuais das
proposições em que se articula a doutrina da Igreja, mas também e sobretudo
quando põe em realce o significado salvífico de tais proposições para o
indivíduo e para a humanidade. É pelo conjunto destas proposições que o crente
chega a conhecer a história da salvação, que culmina na pessoa de Jesus Cristo e
no seu mistério pascal; ele participa deste mistério, com a sua adesão de fé.
A teologia dogmática deve ser capaz de articular o sentido universal
do mistério de Deus, Uno e Trino, e da economia da salvação, quer de modo
narrativo, quer sobretudo de forma argumentativa. Por outras palavras, deve
fazê-lo mediante expressões conceptuais, formuladas de modo crítico e
universalmente acessível. De facto, sem o contributo da filosofia não seria
possível ilustrar certos conteúdos teológicos como, por exemplo, a linguagem
sobre Deus, as relações pessoais no seio da Santíssima Trindade, a acção
criadora de Deus no mundo, a relação entre Deus e o homem, a identidade de
Cristo que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. E o mesmo se diga de diversos
temas da teologia moral, onde é preciso recorrer, de imediato, a conceitos como
lei moral, consciência, liberdade, responsabilidade pessoal, culpa, etc., cuja
definição provém da ética filosófica.
Por isso, é necessário que a razão do crente tenha um conhecimento natural,
verdadeiro e coerente das coisas criadas, do mundo e do homem, que são também
objecto da revelação divina; mais ainda, ela deve ser capaz de articular este
conhecimento de maneira conceptual e argumentativa. Assim, a teologia dogmática
especulativa pressupõe e implica uma filosofia do homem, do mundo e, mais
radicalmente, do próprio ser, fundada sobre a verdade objectiva.
67. A teologia fundamental, pelo seu próprio carácter de disciplina
que tem por função dar razão da fé (cf.
1 Ped 3, 15), deverá procurar justificar e explicitar a relação entre a
fé e a reflexão filosófica. Já o Concílio Vaticano I, reafirmando o ensinamento
paulino (cf. Rom 1, 19-20), chamara a atenção para o facto de existirem
verdades que se podem conhecer de modo natural e, consequentemente, filosófico.
O seu conhecimento constitui um pressuposto necessário para acolher a revelação
de Deus. Quando a teologia fundamental estuda a Revelação e a sua credibilidade
com o relativo acto de fé, deverá mostrar como emergem, à luz do conhecimento
pela fé, algumas verdades que a razão, autonomamente, já encontra ao longo do
seu caminho de pesquisa. A essas verdades, a Revelação confere-lhes plenitude de
sentido, orientando-as para a riqueza do mistério revelado, onde encontram o seu
fim último. Basta pensar, por exemplo, ao conhecimento natural de Deus, à
possibilidade de distinguir a revelação divina de outros fenómenos, ou ao
conhecimento da sua credibilidade, à capacidade que tem a linguagem humana de
falar, de modo significativo e verdadeiro, mesmo do que ultrapassa a experiência
humana. Por todas estas verdades, a mente é levada a reconhecer a existência
duma via realmente propedêutica à fé, que pode desembocar no acolhimento da
Revelação, sem faltar minimamente aos seus próprios princípios e autonomia.
90
Da mesma forma, a teologia fundamental deverá manifestar a compatibilidade
intrínseca entre a fé e a sua exigência essencial de se explicitar através de
uma razão capaz de dar com plena liberdade o seu consentimento. Assim, a fé
saberá « mostrar plenamente o caminho a uma razão em busca sincera da verdade.
Deste modo a fé, dom de Deus, apesar de não se basear na razão, decerto não pode
existir sem ela; ao mesmo tempo, surge a necessidade de que a razão se
fortifique na fé, para descobrir os horizontes aos quais, sozinha, não poderia
chegar ».
91
68. A teologia moral tem, possivelmente, uma necessidade ainda maior
do contributo filosófico. Na Nova Aliança, a vida humana está efectivamente
muito menos regulada por prescrições do que na Antiga. A vida no Espírito conduz
os crentes a uma liberdade e responsabilidade que ultrapassam a própria Lei. No
entanto, o Evangelho e os escritos apostólicos não deixam de propor ora
princípios gerais de conduta cristã, ora ensinamentos e preceitos específicos;
para aplicá-los às circunstâncias concretas da vida individual e social, o
cristão tem necessidade de valer-se plenamente da sua consciência e da força do
seu raciocínio. Por outras palavras, a teologia moral deve recorrer a uma visão
filosófica correcta tanto da natureza humana e da sociedade, como dos princípios
gerais duma decisão ética.
69. Talvez se possa objectar que, na situação actual, o teólogo, mais do que
à filosofia, deveria recorrer à ajuda de outras formas do saber humano,
concretamente à história e sobretudo às ciências, de que todos admiram os
progressos extraordinários recentemente alcançados. Outros, impelidos por uma
maior sensibilidade à relação entre fé e culturas, defendem que a teologia
deveria dar preferência às sabedorias tradicionais, em vez de uma filosofia de
origem grega e eurocêntrica. Outros ainda, partindo duma concepção errada do
pluralismo de culturas, negam simplesmente o valor universal do património
filosófico abraçado pela Igreja.
Os aspectos sublinhados, já presentes aliás na doutrina conciliar,
92 contêm uma parte de verdade. O referimento às ciências, útil
em muitos casos porque permite um conhecimento mais completo do objecto de
estudo, não deve, porém, fazer esquecer a necessidade que há da mediação duma
reflexão tipicamente filosófica, crítica e aberta ao universal, solicitada
também por um fecundo intercâmbio entre as culturas. A minha preocupação é pôr
em destaque o dever de não se ficar pelo caso isolado e concreto, descuidando
assim a tarefa primária que é manifestar o carácter universal do conteúdo de fé.
Além disso, não se deve esquecer que a peculiar contribuição do pensamento
filosófico permite discernir, tanto nas diversas concepções da vida como nas
culturas, « não o que os homens pensam, mas qual é a verdade objectiva ».
93 Não as diversas opiniões humanas, mas somente a verdade pode
servir de ajuda à filosofia.
70. Além do mais, o tema da relação com as culturas merece uma reflexão
específica, apesar de necessariamente não exaustiva, pelas implicações que daí
derivam para as vertentes filosófica e teológica. O processo de encontro e
comparação com as culturas é uma experiência que a Igreja viveu desde os começos
da pregação do Evangelho. O mandato de Cristo aos discípulos para irem, a toda a
parte « até aos confins do mundo » (Act 1, 8), transmitir a verdade
revelada por Ele, fez com que a comunidade cristã pudesse bem cedo dar-se conta
da universalidade do anúncio e dos obstáculos resultantes da diversidade das
culturas. Um trecho da carta de S. Paulo aos cristãos de Éfeso oferece uma
válida ajuda para compreender como a Comunidade Primitiva enfrentou este
problema. Escreve o Apóstolo: « Agora porém, vós, que outrora estáveis longe,
pelo Sangue de Cristo vos aproximastes. Ele é a nossa paz, Ele que de dois povos
fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava » (2, 13-14).
Iluminada por este texto, a nossa reflexão pode debruçar-se sobre a
transformação que se operou nos gentios quando abraçaram a fé. As barreiras que
separam as diversas culturas caem diante da riqueza da salvação, realizada por
Cristo. Agora, em Cristo, a promessa de Deus torna-se uma oferta universal: não
limitada já à dimensão particular de um povo, da sua língua ou dos seus
costumes, mas alargada a todos, como um património ao qual cada um pode
livremente ter acesso. Dos mais diversos lugares e tradições, todos são
chamados, em Cristo, a participar na unidade da família dos filhos de Deus.
Cristo faz com que dois povos se tornem « um só ». Os que « estavam longe »
ficaram « próximo », graças à novidade gerada pelo mistério pascal. Jesus abate
os muros de divisão e realiza a unificação, de um modo original e supremo, por
meio da participação no seu mistério. Esta unidade é tão profunda que a Igreja
pode dizer com S. Paulo: « Já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois
concidadãos dos santos e membros da família de Deus » (Ef 2, 19).
Nesta asserção tão simples, está contida uma grande verdade: o encontro da fé
com as diversas culturas deu vida a uma nova realidade. Na verdade, quando as
culturas estão profundamente radicadas na natureza humana, contêm em si mesmas o
testemunho da abertura, própria do homem, ao universal e à transcendência. É por
isso que elas apresentam perspectivas distintas da verdade, que são de evidente
utilidade para o homem, porque lhe fazem vislumbrar valores capazes de tornar a
sua existência sempre mais humana.
94 Por outro lado, na medida em que evocam os valores das
tradições antigas, as culturas trazem consigo — embora de modo implícito, mas
nem por isso menos real — a referência à manifestação de Deus na natureza, como
se viu antes nos textos sapienciais e no ensinamento de S. Paulo.
71. Uma vez que as culturas estão intimamente relacionadas com os homens e a
sua história, partilham das mesmas dinâmicas do tempo humano. E,
consequentemente, registam transformações e progressos com os encontros que os
homens promovem e com as recíprocas transmissões dos seus modelos de vida. As
culturas alimentam-se com a comunicação de valores, e a sua vitalidade e
subsistência dependem da sua capacidade de permanecerem abertas para acolher a
novidade. Como se explicam tais dinâmicas? Todo o homem está integrado numa
cultura; depende dela, e sobre ela influi. É simultaneamente filho e pai da
cultura onde está inserido. Em cada manifestação da sua vida, o homem traz
consigo algo que o caracteriza no meio da criação: a sua constante abertura ao
mistério e o seu desejo inexaurível de conhecimento. Em consequência, cada
cultura traz gravada em si mesma e deixa transparecer a tensão para uma
plenitude. Pode-se, portanto, dizer que a cultura contém em si própria a
possibilidade de acolher a revelação divina.
Também o modo como os cristãos vivem a fé, está imbuído da cultura do
ambiente circundante, e vai progressivamente contribuindo, por sua vez, para
modelar as características do mesmo. Os cristãos transmitem, a cada cultura, a
verdade imutável que Deus revelou na história e na cultura dum povo. Ao longo
dos séculos, continua a reproduzir-se o mesmo fenómeno testemunhado pelos
peregrinos presentes em Jerusalém, no dia de Pentecostes. Ao escutarem os
Apóstolos, perguntavam-se: « Mas quê! Essa gente que está a falar não é da
Galileia? Que se passa, então, para que cada um de nós os oiça falar na nossa
língua materna? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e
da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das
regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, judeus e prosélitos,
cretenses e árabes, ouvimo-los anunciar nas nossas línguas as maravilhas de
Deus! » (Act 2, 7-11). O anúncio do Evangelho nas diversas culturas, ao
exigir de cada um dos destinatários a adesão da fé, não os impede de conservar a
própria identidade cultural. Isto não provoca qualquer divisão, pois o povo dos
baptizados distingue-se por uma universalidade que é capaz de acolher todas as
culturas, fazendo com que aquilo que nelas está implícito se desenvolva até à
sua explanação plena na verdade.
Em consequência disto, uma cultura nunca pode servir de critério de juízo e,
menos ainda, de critério último de verdade a respeito da revelação de Deus. O
Evangelho não é contrário a esta ou àquela cultura, como se quisesse, ao
encontrar-se com ela, privá-la daquilo que lhe pertence, e a obrigasse a assumir
formas extrínsecas que lhe são estranhas. Pelo contrário, o anúncio que o crente
leva ao mundo e às culturas é uma forma real de libertação de toda a desordem
introduzida pelo pecado e, simultaneamente, uma chamada à verdade plena. Neste
encontro, as culturas não são privadas de nada, antes são estimuladas a
abrirem-se à novidade da verdade evangélica, de que recebem impulso para novos
progressos.
72. O facto da missão evangelizadora ter encontrado em primeiro lugar no seu
caminho a filosofia grega, não constitui de forma alguma impedimento para outros
relacionamentos. Hoje, à medida que o Evangelho entra em contacto com áreas
culturais que estiveram até agora fora do âmbito de irradiação do cristianismo,
novas tarefas se abrem à inculturação. Colocam-se à nossa geração problemas
análogos aos que a Igreja teve de enfrentar nos primeiros séculos.
O meu pensamento vai espontaneamente até às terras do Oriente, tão ricas de
tradições religiosas e filosóficas muito antigas. Entre elas, ocupa um lugar
especial a Índia. Um grande ímpeto espiritual leva o pensamento indiano a
procurar uma experiência que, libertando o espírito dos condicionamentos de
tempo e espaço, tenha valor de absoluto. No dinamismo desta busca de libertação,
situam-se grandes sistemas metafísicos.
Compete aos cristãos de hoje, sobretudo aos da Índia, a tarefa de extrair
deste rico património os elementos compatíveis com a sua fé, para se obter um
enriquecimento do pensamento cristão. Nesta obra de discernimento, que tem a sua
fonte de inspiração na declaração conciliar Nostra aetate, deverão ter em
consideração um certo número de critérios. O primeiro é a universalidade do
espírito humano, cujas exigências fundamentais são idênticas nas mais distintas
culturas. O segundo, derivado do anterior, consiste no seguinte: quando a Igreja
entra em contacto com grandes culturas que nunca tinha encontrado antes, não
pode pôr de parte o que adquiriu pela inculturação no pensamento greco-latino.
Rejeitar uma tal herança seria contrariar o desígnio providencial de Deus, que
conduz a sua Igreja pelos caminhos do tempo e da história. Aliás, este critério
é válido para a Igreja de todos os tempos — também para a Igreja de amanhã, que
se sentirá enriquecida com as aquisições resultantes do encontro em nossos dias
com as culturas orientais, e desta herança há-de tirar, por sua vez, indicações
novas para entrar frutuosamente em diálogo com as culturas que a humanidade
fizer florir no seu caminho rumo ao futuro. Em terceiro lugar, há-de precaver-se
por não confundir a legítima reivindicação de especificidade e originalidade do
pensamento indiano, com a ideia de que uma tradição cultural deve enclausurar-se
na sua diferença e afirmar-se pela sua oposição às outras tradições — ideia essa
que seria contrária precisamente à natureza do espírito humano.
O que fica dito para a Índia, vale também para a herança das grandes culturas
da China, do Japão e demais países da Ásia, bem como das riquezas das culturas
tradicionais da África, transmitidas sobretudo por via oral.
73. À luz destas considerações, a justa relação que se deve instaurar entre a
teologia e a filosofia há-de ser pautada por uma reciprocidade circular. Quanto
à teologia, o seu ponto de partida e fonte primeira terá de ser sempre a palavra
de Deus revelada na história, ao passo que o objectivo final só poderá ser uma
compreensão cada vez mais profunda dessa mesma palavra por parte das sucessivas
gerações. Visto que a palavra de Deus é Verdade (cf.
Jo 17, 17), uma melhor compreensão dela só tem a beneficiar com a busca
humana da verdade, ou seja, o filosofar, no respeito das leis que lhe são
próprias. Não se trata simplesmente de utilizar, no raciocínio teológico,
qualquer conceito ou parcela dum sistema filosófico; o facto decisivo é que a
razão do crente exerce as suas capacidades de reflexão na busca da verdade,
dentro dum movimento que, partindo da palavra de Deus, procura alcançar uma
melhor compreensão da mesma. É claro, de resto, que a razão, movendo-se dentro
destes dois pólos — palavra de Deus e melhor conhecimento desta —, encontra-se
prevenida, e de algum modo guiada, para evitar percursos que poderiam conduzi-la
fora da Verdade revelada e, em última análise, fora pura e simplesmente da
verdade; mais ainda, ela sente-se estimulada a explorar caminhos que, sozinha,
nem sequer suspeitaria de poder percorrer. Esta relação de reciprocidade
circular com a Palavra de Deus enriquece a filosofia, porque a razão descobre
horizontes novos e inesperados.
74. A prova da fecundidade de tal relação é oferecida pela própria vida de
grandes teólogos cristãos que se distinguiram também como grandes filósofos,
deixando escritos de tamanho valor especulativo que justificam ser colocados ao
lado dos grandes mestres da filosofia antiga. Isto é válido tanto para os Padres
da Igreja, de entre os quais há que citar pelo menos os nomes de S. Gregório
Nazianzeno e S. Agostinho, como para os Doutores medievais entre os quais
sobressai a grande tríade formada por S. Anselmo, S. Boaventura e S. Tomás de
Aquino. A relação entre a filosofia e a palavra de Deus manifesta-se fecunda
também na investigação corajosa realizada por pensadores mais recentes, de entre
os quais me apraz mencionar, no âmbito ocidental, personagens como John Henry
Newman, António Rosmini, Jacques Maritain, Étienne Gilson, Edith Stein, e, no
âmbito oriental, estudiosos com a estatura de Vladimir S. Solov'ev, Pavel A.
Florenskij, Petr J. Caadaev, Vladimir N. Losskij. Ao referir estes autores, ao
lado dos quais outros nomes poderiam ser citados, não tenciono obviamente dar
aval a todos os aspectos do seu pensamento, mas apenas propô-los como exemplos
significativos dum caminho de pesquisa filosófica que tirou notáveis vantagens
da sua confrontação com os dados da fé. Uma coisa é certa: a consideração do
itinerário espiritual destes mestres não poderá deixar de contribuir para o
avanço na busca da verdade e na utilização dos resultados conseguidos para o
serviço do homem. Espera-se que esta grande tradição filosófico-teológica
encontre, hoje e no futuro, os seus continuadores e estudiosos para bem da
Igreja e da humanidade.
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2. Diferentes estádios da filosofia
75. Como consta da história das relações entre a fé e a filosofia, apontada
acima brevemente, podem distinguir-se diversos estádios da filosofia
relativamente à fé cristã. O primeiro é a filosofia totalmente independente
da revelação evangélica: é o estádio da filosofia, existente historicamente
nas épocas que precederam o nascimento do Redentor, e, mesmo depois dele, nas
regiões onde o Evangelho ainda não chegou. Nesta situação, a filosofia apresenta
a legítima aspiração de ser um empreendimento
autónomo, ou seja, que procede segundo as suas próprias leis, valendo-se
simplesmente das forças da razão. Embora cientes dos graves limites devidos à
debilidade congénita da razão humana, uma tal aspiração deve ser apoiada e
fortalecida. De facto, o trabalho filosófico, como busca da verdade no âmbito
natural, pelo menos implicitamente permanece aberto ao sobrenatural.
E, mesmo quando é o próprio discurso teológico que se serve de conceitos e
argumentações filosóficas, a exigência de correcta autonomia do pensamento há-de
ser respeitada. Com efeito, a argumentação conduzida segundo rigorosos critérios
racionais é garantia para a obtenção de resultados universalmente válidos.
Também aqui se verifica o princípio segundo o qual a graça não destrói, mas
aperfeiçoa a natureza: a anuência de fé, que envolve a inteligência e a vontade,
não destrói mas aperfeiçoa o livre arbítrio do crente, que acolhe em si próprio
o dado revelado.
Desta exigência em si mesma correcta, afasta-se nitidamente a teoria da
chamada filosofia « separada », sustentada por vários filósofos modernos. Mais
do que afirmação da justa autonomia do filosofar, ela constitui a reivindicação
duma auto-suficiência do pensamento que é claramente ilegítima: rejeitar as
contribuições de verdade vindas da revelação divina significa efectivamente
impedir o acesso a um conhecimento mais profundo da verdade, danificando
precisamente a filosofia.
76. Um segundo estádio da filosofia é aquilo que muitos designam com a
expressão
filosofia cristã. A denominação, em si mesma, é legítima, mas não deve
dar margem a equívocos: com ela, não se pretende aludir a uma filosofia oficial
da Igreja, já que a fé enquanto tal não é uma filosofia. Com aquela designação,
deseja-se sobretudo indicar um modo cristão de filosofar, uma reflexão
filosófica concebida em união vital com a fé. Por conseguinte, não se refere
simplesmente a uma filosofia elaborada por filósofos cristãos que, na sua
pesquisa, quiseram não contradizer a fé. Quando se fala de filosofia cristã,
pretende-se abraçar todos aqueles importantes avanços do pensamento filosófico
que não seriam alcançados sem a contribuição, directa ou indirecta, da fé
cristã.
Assim, a filosofia cristã contém dois aspectos: um subjectivo, que consiste
na purificação da razão por parte da fé. Esta, enquanto virtude teologal,
liberta a razão da presunção — uma típica tentação a que os filósofos facilmente
estão sujeitos. Já S. Paulo e os Padres da Igreja, e mais recentemente
filósofos, como Pascal e Kierkegaard, a estigmatizaram. Com a humildade, o
filósofo adquire também a coragem para enfrentar algumas questões que
dificilmente poderia resolver sem ter em consideração os dados recebidos da
Revelação. Basta pensar, por exemplo, aos problemas do mal e do sofrimento, à
identidade pessoal de Deus e à questão acerca do sentido da vida, ou, mais
diretamente, à pergunta metafísica radical: « Porque existe o ser? ».
Temos, depois, o aspecto objectivo, que diz respeito aos conteúdos: a
Revelação propõe claramente algumas verdades que, embora sejam acessíveis à
razão por via natural, possivelmente nunca seriam descobertas por ela, se
tivesse sido abandonada a si própria. Colocam-se, neste horizonte, questões como
o conceito de um Deus pessoal, livre e criador, que tanta importância teve para
o progresso do pensamento filosófico e, de modo particular, para a filosofia do
ser. Pertence ao mesmo âmbito a realidade do pecado, tal como é vista pela luz
da fé, e que ajuda a filosofia a enquadrar adequadamente o problema do mal.
Também a concepção da pessoa como ser espiritual é uma originalidade peculiar da
fé: o anúncio cristão da dignidade, igualdade e liberdade dos homens influiu
seguramente sobre a reflexão filosófica, realizada pelos filósofos modernos. Nos
tempos mais recentes, pode-se mencionar a descoberta da importância que tem,
também para a filosofia, o acontecimento histórico, centro da revelação cristã.
Não foi por acaso que aquele se tornou perne de uma filosofia da história, que
se apresenta como um novo capítulo da busca humana da verdade.
Entre os elementos objectivos da filosofia cristã, inclui-se também a
necessidade de explorar a racionalidade de algumas verdades expressas pela
Sagrada Escritura, tais como a possibilidade de uma vocação sobrenatural do
homem, e também o próprio pecado original. São tarefas que induzem a razão a
reconhecer que existe a verdade e o racional, muito para além dos limites
estreitos onde ela seria tentada a encerrar-se. Estas temáticas ampliam, de
facto, o âmbito do racional.
Ao reflectirem sobre estes conteúdos, os filósofos não se tornaram teólogos,
já que não procuraram compreender e ilustrar as verdades da fé a partir da
Revelação; continuaram a trabalhar no seu próprio terreno e com a sua
metodologia puramente racional, mas alargando a sua investigação a novos âmbitos
da verdade. Pode-se dizer que, sem este influxo estimulante da palavra de Deus,
boa parte da filosofia moderna e contemporânea não existiria. O dado mantém toda
a sua relevância, mesmo diante da constatação decepcionante de não poucos
pensadores destes últimos séculos que abandonaram a ortodoxia cristã.
77. Outro estádio significativo da filosofia verifica-se quando é a
própria teologia que
chama em causa a filosofia. Na verdade, a teologia sempre teve, e
continua a ter, necessidade da contribuição filosófica. Realizado pela razão
crítica à luz da fé, o trabalho teológico pressupõe e exige, ao longo de toda a
sua pesquisa, uma razão conceptual e argumentativamente educada e formada. Além
disso, a teologia precisa da filosofia como interlocutora, para verificar a
inteligibilidade e a verdade universal das suas afirmações. Não foi por acaso
que os Padres da Igreja e os teólogos medievais assumiram, para tal função
explicativa, filosofias não cristãs. Este facto histórico indica o valor da
autonomia que a filosofia conserva mesmo neste terceiro estádio, mas mostra
igualmente as transformações necessárias e profundas que ela deve sofrer.
É precisamente no sentido de uma contribuição indispensável e nobre que a
filosofia foi chamada, desde a Idade Patrística, ancilla theologiæ. De
facto, o título não foi atribuído para indicar uma submissão servil ou um papel
puramente funcional da filosofia relativamente à teologia; mas no mesmo sentido
em que Aristóteles falava das ciências experimentais como « servas » da «
filosofia primeira ». A expressão, hoje dificilmente utilizável devido aos
princípios de autonomia antes mencionados, foi usada ao longo da história para
indicar a necessidade da relação entre as duas ciências e a impossibilidade de
uma sua separação.
Se o teólogo se recusasse a utilizar a filosofia, arriscar-se-ia a fazer
filosofia sem o saber e a fechar-se em estruturas de pensamento pouco idóneas à
compreensão da fé. Se o filósofo, por sua vez, excluísse todo o contacto com a
teologia, ver-se-ia na obrigação de apoderar-se por conta própria dos conteúdos
da fé cristã, como aconteceu com alguns filósofos modernos. Tanto num caso como
noutro, surgiria o perigo da destruição dos princípios básicos de autonomia que
cada ciência justamente quer ver garantidos.
O estádio da filosofia agora considerado, devido às implicações que comporta
na compreensão da Revelação, está, como acontece com a teologia, mais
directamente colocado sob a autoridade do Magistério e do seu discernimento,
como expus mais acima. Das verdades de fé derivam, efectivamente, determinadas
exigências que a filosofia deve respeitar, quando entra em relação com a
teologia.
78. À luz destas reflexões, é fácil compreender porque tenha o Magistério
louvado reiteradamente os méritos do pensamento de S. Tomás, e o tenha proposto
como guia e modelo dos estudos teológicos. O que interessava não era tomar
posição sobre questões propriamente filosóficas, nem impor a adesão a teses
particulares; o objectivo do Magistério era, e continua a ser, mostrar como S.
Tomás é um autêntico modelo para quantos buscam a verdade. De facto, na sua
reflexão, a exigência da razão e a força da fé encontraram a síntese mais
elevada que o pensamento jamais alcançou, enquanto soube defender a novidade
radical trazida pela Revelação, sem nunca humilhar o caminho próprio da razão.
79. Ao explicitar melhor os conteúdos do Magistério precedente, é minha
intenção, nesta última parte, indicar algumas exigências que a teologia — e,
ainda antes, a palavra de Deus — coloca, hoje, ao pensamento filosófico e às
filosofias actuais. Como já assinalei, o filósofo deve proceder segundo as
próprias regras e basear-se sobre os próprios princípios; todavia, a verdade é
uma só. A Revelação, com os seus conteúdos, não poderá nunca humilhar a razão
nas suas descobertas e na sua legítima autonomia; a razão, por sua vez, não
deverá perder nunca a sua capacidade de interrogar-se e de interrogar,
consciente de não poder arvorar-se em valor absoluto e exclusivo. A verdade
revelada, projectando plena luz sobre o ser a partir do esplendor que lhe vem do
próprio Ser subsistente, iluminará o caminho da reflexão filosófica. Em resumo,
a revelação cristã torna-se o verdadeiro ponto de enlace e confronto entre o
pensar filosófico e o teológico, no seu recíproco intercâmbio. Espera-se, pois,
que teólogos e filósofos se deixem guiar unicamente pela autoridade da verdade,
para que seja elaborada uma filosofia de harmonia com a palavra de Deus. Esta
filosofia será o terreno de encontro entre as culturas e a fé cristã, o espaço
de entendimento entre crentes e não crentes. Ajudará os crentes a convencerem-se
mais intimamente de que a profundidade e a autenticidade da fé saem favorecidas
quando esta se une ao pensamento e não renuncia a ele. Mais uma vez, encontramos
nos Padres a lição que nos guia nesta convicção: « Crer, nada mais é senão
pensar consentindo [...]. Todo o que crê, pensa; crendo pensa, e pensando crê
[...]. A fé, se não for pensada, nada é ».
95 Mais: « Se se tira o assentimento, tira-se a fé, pois, sem o
assentimento, realmente não se crê ».
96
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CAPÍTULO VII - EXIGÊNCIAS E TAREFAS ACTUAIS
1. As exigências irrenunciáveis da palavra de Deus
80. A Sagrada Escritura contém, de forma explícita ou implícita, toda uma
série de elementos que permite alcançar uma perspectiva de notável densidade
filosófica acerca do homem e do mundo. Os cristãos foram gradualmente tomando
consciência da riqueza contida naquelas páginas sagradas. Delas se conclui que a
realidade que experimentamos, não é o absoluto: não é incriada, nem se
autogerou. Só Deus é o Absoluto. Nas páginas da Bíblia, o homem é visto como
imago Dei, que contém indicações precisas sobre o seu ser, a sua
liberdade e a imortalidade do seu espírito. Uma vez que o mundo criado não é
autosuficiente, qualquer ilusão de autonomia que ignore a essencial dependência
de Deus de toda criatura — incluindo o homem — leva a dramas que destroem a
busca racional da harmonia e do sentido da existência humana.
Também o problema do mal moral — a forma mais trágica do mal — é considerado
na Bíblia, dizendo-nos que este não pode ser reduzido a uma mera deficiência
devida à matéria, mas é uma ferida que provém de uma manifestação desordenada da
liberdade humana. Finalmente, a palavra de Deus apresenta o problema do sentido
da existência e revela a resposta para o mesmo, encaminhando o homem para Jesus
Cristo, o Verbo de Deus encarnado, que realiza em plenitude a existência humana.
Poder-se-iam ainda explicitar outros aspectos da leitura do texto sagrado; de
qualquer modo, o que sobressai é a rejeição de toda a forma de relativismo,
materialismo, panteísmo.
A convicção fundamental desta « filosofia » presente na Bíblia é que a vida
humana e o mundo têm um sentido e caminham para a sua plenitude, que se verifica
em Jesus Cristo. O mistério da Encarnação permanecerá sempre o centro de
referência para se poder compreender o enigma da existência humana, do mundo
criado, e mesmo de Deus. A filosofia encontra, neste mistério, os desafios
extremos, porque a razão é chamada a assumir uma lógica que destrói as barreiras
onde ela mesma corre o risco de se fechar. Somente aqui, porém, o sentido da
existência alcança o seu ponto culminante. Com efeito, torna-se inteligível a
essência íntima de Deus e do homem: no mistério do Verbo encarnado, são
salvaguardadas a natureza divina e a natureza humana, com sua respectiva
autonomia, e simultaneamente manifesta-se aquele vínculo único que as coloca em
mútuo relacionamento, sem confusão.
97
81. Deve ter-se em conta que um dos dados mais salientes da nossa situação
actual consiste na « crise de sentido ». Os pontos de vista, muitas vezes de
carácter científico, sobre a vida e o mundo multiplicaram-se tanto que estamos
efectivamente assistindo à afirmação crescente do fenómeno da fragmentação do
saber. É precisamente isto que torna difícil e frequentemente vã a procura de um
sentido. E, mais dramático ainda, neste emaranhado de dados e de factos, em que
se vive e que parece constituir a própria trama da existência, tantos se
interrogam se ainda tem sentido pôr-se a questão do sentido. A pluralidade das
teorias que se disputam a resposta, ou os diversos modos de ver e interpretar o
mundo e a vida do homem não fazem senão agravar esta dúvida radical, que
facilmente desemboca num estado de cepticismo e indiferença ou nas diversas
expressões do niilismo.
Em consequência disto, o espírito humano fica muitas vezes ocupado por uma
forma de pensamento ambíguo, que o leva a encerrar-se ainda mais em si próprio,
dentro dos limites da própria imanência, sem qualquer referência ao
transcendente. Privada da questão do sentido da existência, uma filosofia
incorreria no grave perigo de relegar a razão para funções meramente
instrumentais, sem uma autêntica paixão pela busca da verdade.
Para estar em consonância com a palavra de Deus ocorre, antes de mais, que a
filosofia volte a encontrar a sua dimensão sapiencial de procura do
sentido último e global da vida. Esta primeira exigência, por sinal, constitui
um estímulo utilíssimo para a filosofia se conformar com a sua própria natureza.
Deste modo, ela não será apenas aquela instância crítica decisiva que indica, às
várias partes do saber científico, o seu fundamento e os seus limites, mas
representará também a instância última de unificação do saber e do agir humano,
levando-os a convergirem para um fim e um sentido definitivos. Esta dimensão
sapiencial é ainda mais indispensável hoje, uma vez que o imenso crescimento do
poder técnico da humanidade requer uma renovada e viva consciência dos valores
últimos. Se viesse a faltar a estes meios técnicos a sua orientação para um fim
não meramente utilitarista, poderiam rapidamente revelar-se desumanos e
transformar-se mesmo em potenciais destrutores do género humano.
98
A palavra de Deus revela o fim último do homem, e dá um sentido global à sua
acção no mundo. Por isso, ela convida a filosofia a empenhar-se na busca do
fundamento natural desse sentido, que é a religiosidade constitutiva de cada
pessoa. Uma filosofia que quisesse negar a possibilidade de um sentido último e
global, seria não apenas imprópria, mas errónea.
82. De resto, este papel sapiencial não poderia ser desempenhado por uma
filosofia que não fosse, ela própria, um autêntico e verdadeiro saber, isto é,
debruçado não só sobre os aspectos particulares e relativos — sejam eles
funcionais, formais ou úteis — da realidade, mas sobre a verdade total e
definitiva desta, ou seja, sobre o próprio ser do objecto de conhecimento.
Daqui, uma segunda exigência: verificar a capacidade do homem chegar ao
conhecimento da verdade; mais, um conhecimento que alcance a verdade
objectiva por meio daquela adæquatio rei et intellectus, a que se referem
os Doutores da Escolástica.
99
Esta exigência, própria da fé, foi explicitamente reafirmada pelo Concílio
Vaticano II: « A inteligência, de facto, não se limita ao domínio dos fenómenos;
embora, em consequência do pecado, esteja parcialmente obscurecida e debilitada,
ela é capaz de atingir com certeza a realidade inteligível ».
100
Uma filosofia, radicalmente fenomenista ou relativista, revelar-se-ia
inadequada para ajudar no aprofundamento da riqueza contida na palavra de Deus.
De facto, a Sagrada Escritura sempre pressupõe que o homem, mesmo quando
culpável de duplicidade e mentira, é capaz de conhecer e captar a verdade clara
e simples. Nos Livros Sagrados, e de modo particular no Novo Testamento,
encontram-se textos e afirmações de alcance propriamente ontológico. Os autores
inspirados, com efeito, quiseram formular afirmações verdadeiras, isto é,
capazes de exprimir a realidade objectiva. Não se pode dizer que a tradição
católica tenha cometido um erro, quando entendeu alguns textos de S. João e de
S. Paulo como afirmações sobre o ser mesmo de Cristo. Ora, quando a teologia
procura compreender e explicar estas afirmações, tem necessidade do auxílio duma
filosofia que não renegue a possibilidade de um conhecimento objectivamente
verdadeiro, embora sempre passível de aperfeiçoamento. Isto vale também para os
juízos da consciência moral, que a Sagrada Escritura supõe ser objectivamente
verdadeiros.
101
83. As duas exigências, já referidas, implicam uma terceira: ocorre uma
filosofia de alcance autenticamente metafísico, isto é, capaz de
transcender os dados empíricos para chegar, na sua busca da verdade, a algo de
absoluto, definitivo, básico. Trata-se duma exigência implícita tanto no
conhecimento de tipo sapiencial, como de carácter analítico; de modo particular,
é uma exigência própria do conhecimento do bem moral, cujo fundamento último é o
sumo Bem, o próprio Deus. Não é minha intenção falar aqui da metafísica enquanto
escola específica ou particular corrente histórica; desejo somente afirmar que a
realidade e a verdade transcendem o elemento factível e empírico, e quero
reivindicar a capacidade que o homem possui de conhecer esta dimensão
transcendente e metafísica de forma verdadeira e certa, mesmo se imperfeita e
analógica. Neste sentido, a metafísica não deve ser vista como alternativa à
antropologia, pois é precisamente ela que permite dar fundamento ao conceito da
dignidade da pessoa, assente na sua condição espiritual. De modo particular, a
pessoa constitui um âmbito privilegiado para o encontro com o ser e,
consequentemente, com a reflexão metafísica.
Em toda a parte onde o homem descobre a presença dum apelo ao absoluto e ao
transcendente, lá se abre uma fresta para a dimensão metafísica do real: na
verdade, na beleza, nos valores morais, na pessoa do outro, no ser, em Deus. Um
grande desafio, que nos espera no final deste milénio, é saber realizar a
passagem, tão necessária como urgente, do fenómeno ao fundamento.
Não é possível deter-se simplesmente na experiência; mesmo quando esta exprime e
manifesta a interioridade do homem e a sua espiritualidade, é necessário que a
reflexão especulativa alcance a substância espiritual e o fundamento que a
sustenta. Portanto, um pensamento filosófico que rejeitasse qualquer abertura
metafísica, seria radicalmente inadequado para desempenhar um papel de mediação
na compreensão da Revelação.
A palavra de Deus alude continuamente a realidades que ultrapassam a
experiência e até mesmo o pensamento do homem; mas, este « mistério » não
poderia ser revelado, nem a teologia poderia de modo algum torná-lo inteligível,
102 se o conhecimento humano se limitasse exclusivamente ao
mundo da experiência sensível. Por isso, a metafísica constitui uma
intermediária privilegiada na pesquisa teológica. Uma teologia, privada do
horizonte metafísico, não conseguiria chegar além da análise da experiência
religiosa, não permitindo ao
intellectus fidei exprimir coerentemente o valor universal e
transcendente da verdade revelada.
Se insisto tanto na componente metafísica, é porque estou convencido de que
este é o caminho obrigatório para superar a situação de crise que aflige
actualmente grandes sectores da filosofia e, desta forma, corrigir alguns
comportamentos errados, difusos na nossa sociedade.
84. A importância da instância metafísica torna-se ainda mais evidente,
quando se considera o progresso actual das ciências hermenêuticas e das
diferentes análises da linguagem. Os resultados alcançados por estes estudos
podem ser muito úteis para a compreensão da fé, enquanto manifestam a estrutura
do nosso pensar e falar, e o sentido presente na linguagem. Existem, porém,
especialistas destas ciências que tendem, nas suas pesquisas, a deter-se no modo
como se compreende e exprime a realidade, prescindindo de verificar a
possibilidade de a razão descobrir a essência da mesma. Como não individuar
neste comportamento uma confirmação da crise de confiança, que a nossa época
está a atravessar, acerca das capacidades da razão? Além disso, quando estas
teses, baseando-se em convicções apriorísticas, tendem a ofuscar os conteúdos da
fé ou a negar a sua validade universal, então não só humilham a razão, mas
colocam-se por si mesmas fora de jogo. De facto, a fé pressupõe claramente que a
linguagem humana seja capaz de exprimir de modo universal — embora em termos
analógicos, mas nem por isso menos significativos — a realidade divina e
transcendente.
103 Se assim não fosse, a palavra de Deus, que é sempre palavra
divina em linguagem humana, não seria capaz de exprimir nada sobre Deus. A
interpretação desta Palavra não pode remeter-nos apenas de uma interpretação
para outra, sem nunca nos fazer chegar a uma afirmação absolutamente verdadeira;
caso contrário, não haveria revelação de Deus, mas só a expressão de noções
humanas sobre Ele e sobre aquilo que presumivelmente Ele pensa de nós.
85. Bem sei que, aos olhos de muitos dos que actualmente se entregam à
pesquisa filosófica, podem parecer árduas estas exigências postas pela palavra
de Deus à filosofia. Por isso mesmo, retomando aquilo que, já há algumas
gerações, os Sumos Pontífices não cessam de ensinar e que o próprio Concílio
Vaticano II confirmou, quero exprimir vigorosamente a convicção de que o homem é
capaz de alcançar uma visão unitária e orgânica do saber. Esta é uma das tarefas
que o pensamento cristão deverá assumir durante o próximo milénio da era cristã.
A subdivisão do saber, enquanto comporta uma visão parcial da verdade com a
consequente fragmentação do seu sentido, impede a unidade interior do homem de
hoje. Como poderia a Igreja deixar de preocupar-se? Os Pastores recebem esta
função sapiencial directamente do Evangelho, e não podem eximir-se do dever de
concretizá-la.
Considero que todos os que actualmente desejam responder, como filósofos, às
exigências que a palavra de Deus põe ao pensamento humano, deveriam elaborar o
seu raciocínio sobre a base destes postulados, numa coerente continuidade com
aquela grande tradição que, partindo dos antigos, passa pelos Padres da Igreja e
os mestres da escolástica até chegar a englobar as conquistas fundamentais do
pensamento moderno e contemporâneo. Se conseguir recorrer a esta tradição e
inspirar-se nela, o filósofo não deixará de se mostrar fiel à exigência de
autonomia do pensamento filosófico.
Neste sentido, é muito importante que, no contexto actual, alguns filósofos
se façam promotores da descoberta do papel determinante que tem a tradição para
uma forma correcta de conhecimento. De facto, o recurso à tradição não é uma
mera lembrança do passado; mas constitui sobretudo o reconhecimento dum
património cultural que pertence a toda a humanidade. Poder-se-ia mesmo dizer
que somos nós que pertencemos à tradição, e por isso não podemos dispor dela a
nosso bel-prazer. É precisamente este enraizamento na tradição que hoje nos
permite poder exprimir um pensamento original, novo e aberto para o futuro. Esta
observação é ainda mais pertinente para a teologia, não só porque ela possui a
Tradição viva da Igreja como fonte originária,
104 mas também porque ela, em virtude disso mesmo, deve ser
capaz de recuperar quer a profunda tradição teológica que marcou as épocas
precedentes, quer a tradição perene daquela filosofia que, pela sua real
sabedoria, conseguiu superar as fronteiras do espaço e do tempo.
86. A insistência sobre a necessidade duma estreita relação de continuidade
entre a reflexão filosófica actual e a reflexão elaborada na tradição cristã
visa prevenir do perigo que se esconde em algumas correntes de pensamento, hoje
particularmente difusas. Embora brevemente, considero oportuno deter-me sobre
elas, para pôr em relevo os seus erros e consequentes riscos para a actividade
filosófica.
A primeira aparece sob o nome de ecletismo, termo com o qual se
designa o comportamento de quem, na pesquisa, na doutrina e na argumentação,
mesmo teológica, costuma assumir ideias tomadas isoladamente de distintas
filosofias, sem se preocupar com a sua coerência e conexão sistemática, nem com
o seu contexto histórico. Deste modo, a pessoa fica impossibilitada de discernir
entre a parte de verdade dum pensamento e aquilo que nele pode ser errado ou
inadequado. Também é possível individuar uma forma extrema de ecletismo no abuso
retórico dos termos filosóficos, às vezes praticado por alguns teólogos. Este
género de instrumentalização não favorece a busca da verdade, nem educa a razão
— tanto teológica, como filosófica — a argumentar de forma séria e científica. O
estudo rigoroso e profundo das doutrinas filosóficas, da linguagem que lhes é
peculiar, e do contexto onde surgiram, ajuda a superar os riscos do ecletismo e
permite uma adequada integração daquelas na argumentação teológica.
87. O ecletismo é um erro de método, mas poderia também ocultar em si as
teses próprias do historicismo. Para compreender correctamente uma
doutrina do passado, é necessário que esteja inserida no seu contexto histórico
e cultural. Diversamente, o historicismo toma como sua tese fundamental
estabelecer a verdade duma filosofia com base na sua adequação a um determinado
período e função histórica. Deste modo nega-se, pelo menos implicitamente, a
validade perene da verdade. O que era verdade numa época, afirma o historicista,
pode já não sê-lo noutra. Em resumo, a história do pensamento, para ele,
reduz-se a uma espécie de achado arqueológico, a que recorre a fim de pôr em
evidência posições do passado, em grande parte já superadas e sem significado
para o tempo presente. Ora, apesar de a formulação estar de certo modo ligada ao
tempo e à cultura, deve-se considerar que a verdade ou o erro nela expressos
podem ser, não obstante a distância espácio-temporal, reconhecidos e avaliados
como tais.
Na reflexão teológica, o historicismo tende a maior parte das vezes a
apresentar-se sob uma forma de « modernismo ». Com a justa preocupação de tornar
o discurso teológico actual e assimilável para o homem contemporâneo, faz-se
apenas uso das asserções e termos filosóficos mais recentes, descuidando
exigências críticas que, à luz da tradição, dever-se-iam eventualmente colocar.
Esta forma de modernismo, pelo simples facto de trocar a actualidade pela
verdade, revela-se incapaz de satisfazer as exigências de verdade a que a
teologia é chamada a dar resposta.
88. Outro perigo a ser considerado é o cientificismo. Esta concepção
filosófica recusa-se a admitir, como válidas, formas de conhecimento distintas
daquelas que são próprias das ciências positivas, relegando para o âmbito da
pura imaginação tanto o conhecimento religioso e teológico, como o saber ético e
estético. No passado, a mesma ideia aparecia expressa no positivismo e no
neopositivismo, que consideravam destituídas de sentido as afirmações de
carácter metafísico. A crítica epistemológica desacreditou esta posição; mas,
vemo-las agora renascer sob as novas vestes do cientificismo. Na sua
perspectiva, os valores são reduzidos a simples produtos da emotividade, e a
noção de ser é posta de lado para dar lugar ao facto puro e simples. A ciência,
prepara-se assim para dominar todos os aspectos da existência humana, através do
progresso tecnológico. Os sucessos inegáveis no âmbito da pesquisa científica e
da tecnologia contemporânea contribuíram para a difusão da mentalidade
cientificista, que parece não conhecer fronteiras, quando vemos como penetrou
nas diversas culturas e as mudanças radicais que aí provocou.
Infelizmente, deve-se constatar que o cientificismo considera tudo o que se
refere à questão do sentido da vida como fazendo parte do domínio do irracional
ou da fantasia. Ainda mais decepcionante é a perspectiva apresentada por esta
corrente de pensamento a respeito dos outros grandes problemas da filosofia que,
quando não passam simplesmente ignorados, são analisados com base em analogias
superficiais, destituídas de fundamentação racional. Isto leva ao empobrecimento
da reflexão humana, subtraindo-lhe aqueles problemas fundamentais que o
animal rationale se tem colocado constantemente, desde o início da sua
existência sobre a terra. Na mesma linha, ao pôr de lado a crítica que nasce da
avaliação ética, a mentalidade cientificista conseguiu fazer com que muitos
aceitassem a ideia de que aquilo que se pode realizar tecnicamente, torna-se por
isso mesmo também moralmente admissível.
89. Portador de perigos não menores é o pragmatismo, atitude mental
própria de quem, ao fazer as suas opções, exclui o recurso a reflexões
abstractas ou a avaliações fundadas sobre princípios éticos. As consequências
práticas, que derivam desta linha de pensamento, são notáveis. De modo
particular, tem vindo a ganhar terreno uma concepção da democracia que não
contempla o referimento a fundamentos de ordem axiológica e, por isso mesmo,
imutáveis: a admissibilidade, ou não, de determinado comportamento é decidida
com base no voto da maioria parlamentar.
105 A consequência de semelhante posição é clara: as grandes
decisões morais do homem ficam efectivamente subordinadas às deliberações que os
órgãos institucionais vão assumindo pouco a pouco. Mais, a própria antropologia
fica fortemente condicionada com a proposta duma visão unidimensional do ser
humano, da qual se excluem os grandes dilemas éticos e as análises existenciais
sobre o sentido do sofrimento e do sacrifício, da vida e da morte.
90. As teses examinadas até aqui conduzem, por sua vez, a uma concepção mais
geral, que parece constituir, hoje, o horizonte comum de muitas filosofias que
não querem saber do sentido do ser. Estou a referir-me à leitura niilista, que é
a rejeição de qualquer fundamento e simultaneamente a negação de toda a verdade
objectiva. O niilismo, antes mesmo de estar em contraste com as
exigências e os conteúdos próprios da palavra de Deus, é negação da humanidade
do homem e também da sua identidade. De facto, é preciso ter em conta que o
olvido do ser implica inevitavelmente a perda de contacto com a verdade
objectiva e, consequentemente, com o fundamento sobre o qual se apoia a
dignidade do homem. Deste modo, abre-se espaço à possibilidade de apagar, da
face do homem, os traços que revelam a sua semelhança com Deus, conduzindo-o
progressivamente a uma destrutiva ambição de poder ou ao desespero da solidão.
Uma vez que se privou o homem da verdade, é pura ilusão pretender torná-lo
livre. Verdade e liberdade, com efeito, ou caminham juntas, ou juntas
miseravelmente perecem.
106
91. Ao comentar as correntes de pensamento acima lembradas, não foi minha
intenção apresentar um quadro completo da situação actual da filosofia: aliás,
esta dificilmente poderia ser integrada numa visão unitária. Faço questão de
assinalar que a herança do saber e da sabedoria se enriqueceu efectivamente em
diversos campos. Basta citar a lógica, a filosofia da linguagem, a
epistemologia, a filosofia da natureza, a antropologia, a análise profunda das
vias afectivas do conhecimento, a perspectiva existencial aplicada à análise da
liberdade. Por outro lado, a afirmação do princípio de imanência, que está no
âmago da pretensão racionalista, suscitou, a partir do século passado, reacções
que levaram a pôr radicalmente em questão postulados considerados indiscutíveis.
Nasceram assim correntes irracionalistas, ao mesmo tempo que a crítica punha em
evidência a inutilidade da exigência de auto-fundamentação absoluta da razão.
A nossa época foi definida por certos pensadores como a época da «
pós-modernidade ». Este termo, não raramente usado em contextos muito
distanciados entre si, designa a aparição de um conjunto de factores novos, que,
pela sua extensão e eficácia, se revelaram capazes de determinar mudanças
significativas e duradouras. Assim, o termo foi primeiramente usado no campo de
fenómenos de ordem estética, social, tecnológica. Depois, estendeu-se ao âmbito
filosófico, permanecendo, porém, marcado por certa ambiguidade, quer porque a
avaliação do que se define como « pós-moderno » é umas vezes positivo e outras
negativo, quer porque não existe consenso sobre o delicado problema da
delimitação das várias épocas históricas. Uma coisa, todavia, é certa: as
correntes de pensamento que fazem referência à pós-modernidade merecem adequada
atenção. Segundo algumas delas, de facto, o tempo das certezas teria
irremediavelmente passado, o homem deveria finalmente aprender a viver num
horizonte de ausência total de sentido, sob o signo do provisório e do efémero.
Muitos autores, na sua crítica demolidora de toda a certeza e ignorando as
devidas distinções, contestam inclusivamente as certezas da fé.
De algum modo, este niilismo encontra confirmação na terrível experiência do
mal que caracterizou a nossa época. O optimismo racionalista que via na história
o avanço vitorioso da razão, fonte de felicidade e de liberdade, não pôde
resistir face à dramaticidade de tal experiência, a ponto de uma das maiores
ameaças, neste final de século, ser a tentação do desespero.
Verdade é que uma certa mentalidade positivista continua a defender a ilusão
de que, graças às conquistas científicas e técnicas, o homem, como se fosse um
demiurgo, poderá chegar por si mesmo a garantir o domínio total do seu destino.
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2. Tarefas actuais da teologia
92. Enquanto compreensão da Revelação, a teologia, nas sucessivas épocas
históricas, sempre sentiu como próprio dever escutar as solicitações das várias
culturas, para permeá-las depois, através duma coerente conceptualização, com o
conteúdo da fé. Também hoje lhe compete uma dupla tarefa. Por um lado, deve
cumprir a missão que o Concílio Vaticano II lhe confiou: renovar as suas
metodologias, tendo em vista um serviço mais eficaz à evangelização. Nesta
perspectiva, como não pensar às palavras pronunciadas pelo Sumo Pontífice João
XXIII, na abertura do Concílio? Dizia ele: « Correspondendo à viva expectativa
de quantos amam sinceramente a religião cristã, católica e apostólica, é
necessário que esta doutrina seja conhecida mais ampla e profundamente e que
nela sejam instruídas e formadas mais plenamente as consciências; é preciso que
esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja
aprofundada e apresentada segundo as exigências do nosso tempo ».
107
Mas, por outro lado, a teologia deve manter o olhar fixo sobre a verdade
última que lhe foi confiada por meio da Revelação, não se contentando nem se
detendo em etapas intermédias. O teólogo recorde-se de que o seu trabalho
corresponde « ao dinamismo interior próprio da fé » e que o objecto específico
da sua indagação é « a Verdade, o Deus vivo e o seu desígnio de salvação
revelado em Jesus Cristo ».
108 Esta tarefa, que diz respeito em primeiro lugar à teologia,
interpela também a filosofia. De facto, a quantidade imensa de problemas, que
hoje aparece, requer um trabalho comum, embora desenvolvido com metodologias
diversas, para que a verdade possa novamente ser conhecida e anunciada. A
Verdade, que é Cristo, impõe-se como autoridade universal que rege, estimula e
faz crescer (cf. Ef
4, 15) tanto a teologia como a filosofia.
O facto de acreditar na possibilidade de se conhecer uma verdade
universalmente válida não é de forma alguma fonte de intolerância; pelo
contrário, é condição necessária para um diálogo sincero e autêntico entre as
pessoas. Só com esta condição será possível superar as divisões e percorrer
juntos o caminho que conduz à verdade total, seguindo por sendas que só Espírito
do Senhor ressuscitado conhece.
109
O modo como se configura hoje concretamente a exigência de unidade, tendo em
vista as tarefas actuais da teologia, é o que desejo agora indicar.
93. O objectivo fundamental, que a teologia persegue, é apresentar a
compreensão da Revelação e o conteúdo da fé. Assim, o verdadeiro centro da
sua reflexão há-de ser a contemplação do próprio mistério de Deus Uno e Trino. E
a este chega-se reflectindo sobre o mistério da encarnação do Filho de Deus:
sobre o facto de Ele Se fazer homem e, depois, caminhar até à paixão e à morte,
mistério este que desembocará na sua gloriosa ressurreição e ascensão à direita
do Pai, donde enviará o Espírito de verdade para constituir e animar a sua
Igreja. Neste horizonte, a obrigação primeira da teologia é a compreensão da
kenosi de Deus, mistério verdadeiramente grande para a mente humana, porque
lhe parece insustentável que o sofrimento e a morte possam exprimir o amor que
se dá sem pedir nada em troca. Nesta perspectiva, impõe-se como exigência
fundamental e urgente uma análise atenta dos textos: os textos bíblicos
primeiro, e depois os que exprimem a Tradição viva da Igreja. A este respeito,
surgem hoje alguns problemas, novos só em parte, cuja solução coerente não
poderá ser encontrada sem o contributo da filosofia.
94. Um primeiro aspecto problemático refere-se à relação entre o significado
e a verdade. Como qualquer outro texto, também as fontes que o teólogo
interpreta transmitem, antes de mais, um significado, que tem de ser individuado
e exposto. Ora, este significado apresenta-se como a verdade acerca de Deus, que
é comunicada pelo próprio Deus por meio do texto sagrado. Assim, a linguagem de
Deus toma corpo na linguagem humana, comunicando a verdade sobre Ele mesmo com
aquela « condescendência » admirável que reflecte a lógica da Encarnação.
110 Por isso, ao interpretar as fontes da Revelação, é
necessário que o teólogo se interrogue sobre qual seja a verdade profunda e
genuína que os textos querem comunicar, embora dentro dos limites da linguagem.
Quanto aos textos bíblicos, e em particular os Evangelhos, a sua verdade não
se reduz seguramente à narração de simples acontecimentos históricos ou à
revelação de factos neutros, como pretendia o positivismo historicista.
111 Pelo contrário, esses textos expõem acontecimentos, cuja
verdade está para além da mera ocorrência histórica: está no seu significado
para e
dentro da história da salvação. Esta verdade adquire a sua plena
explicitação na leitura perene que a Igreja faz dos referidos textos ao longo
dos séculos, mantendo inalterado o seu significado originário. Portanto, é
urgente que se interroguem, filosoficamente também, sobre a relação que há entre
o facto e o seu significado; relação essa que constitui o sentido específico da
história.
95. A palavra de Deus não se destina apenas a um povo ou só a uma época. De
igual modo, também os enunciados dogmáticos formulam uma verdade permanente e
definitiva, ainda que às vezes se possa notar neles a cultura do período em que
foram definidos. Surge, assim, a pergunta sobre como seja possível conciliar o
carácter absoluto e universal da verdade com o inevitável condicionamento
histórico e cultural das fórmulas que a exprimem. Como disse anteriormente, as
teses do historicismo não são defendíveis. Pelo contrário, a aplicação duma
hermenêutica aberta à questão metafísica é capaz de mostrar como se passa das
circunstâncias históricas e contingentes, onde maturaram os textos, à verdade
por eles expressa que está para além desses condicionalismos.
Com a sua linguagem histórica e limitada, o homem pode exprimir verdades que
transcendem o fenómeno linguístico. De facto, a verdade nunca pode estar
limitada a um tempo, nem a uma cultura; é conhecida na história, mas supera a
própria história.
96. Esta consideração permite vislumbrar a solução de outro problema: o da
perene validade dos conceitos usados nas definições conciliares. Já o meu
venerado Predecessor Pio XII enfrentara a questão, na carta encíclica Humani
generis.
112
A reflexão sobre este assunto não é fácil, porque tem-se de atender
cuidadosamente ao sentido que as palavras adquirem nas diversas culturas e nas
diferentes épocas. Entretanto, a história do pensamento mostra que certos
conceitos básicos mantêm, através da evolução e da variedade das culturas, o seu
valor cognoscitivo universal e, consequentemente, a verdade das proposições que
os exprimem.
113 Se assim não fosse, a filosofia e as ciências não poderiam
comunicar entre si, nem ser recebidas por culturas diferentes daquelas onde
foram pensadas e elaboradas. O problema hermenêutico é real, mas tem solução. O
valor objectivo de muitos conceitos não exclui, aliás, que o seu significado
frequentemente seja imperfeito. A reflexão filosófica poderia ser de grande
ajuda neste campo. Possa ela prestar o seu contributo particular no
aprofundamento da relação entre linguagem conceptual e verdade, e na proposta de
caminhos adequados para uma sua correcta compreensão.
97. Se uma tarefa importante da teologia é a interpretação das fontes, mais
delicado e exigente ainda é o trabalho seguinte: a compreensão da verdade
revelada, ou seja, a elaboração do
intellectus fidei. Como já aludi, o intellectus fidei requer o
contributo duma filosofia do ser que, antes de mais, permita à teologia
dogmática realizar adequadamente as suas funções. O pragmatismo dogmático
dos inícios deste século, segundo o qual as verdades da fé nada mais seriam do
que regras de comportamento, foi já refutado e rejeitado;
114 apesar disso, persiste sempre a tentação de compreender
estas verdades de forma puramente funcional. Neste caso, cair-se-ia num esquema
inadequado, redutivo e desprovido da necessária incisividade especulativa. Por
exemplo, uma cristologia que partisse unilateralmente « de baixo », como hoje se
costuma dizer, ou uma eclesiologia elaborada unicamente a partir do modelo das
sociedades civis dificilmente poderiam evitar o perigo de tal reducionismo.
Se o intellectus fidei quer integrar toda a riqueza da tradição
teológica, tem de recorrer à filosofia do ser. Esta deverá ser capaz de propor o
problema do ser segundo as exigências e as contribuições de toda a tradição
filosófica, incluindo a mais recente, evitando cair em estéreis repetições de
esquemas antiquados. No quadro da tradição metafísica cristã, a filosofia do ser
é uma filosofia dinâmica que vê a realidade nas suas estruturas ontológicas,
causais e inter-relacionais. A sua força e perenidade derivam do facto de se
basear precisamente sobre o acto do ser, o que lhe permite uma abertura plena e
global a toda a realidade, superando todo e qualquer limite até alcançar Aquele
que tudo leva à perfeição.
115 Na teologia, que recebe os seus princípios da Revelação
como nova fonte de conhecimento, esta perspectiva é confirmada através da
relação íntima entre fé e racionalidade metafísica.
98. Idênticas considerações podem ser feitas a propósito da
teologia moral. A recuperação da filosofia é urgente também para a
compreensão da fé que diz respeito ao agir dos crentes. Diante dos desafios que
se levantam actualmente no campo social, económico, político e científico, a
consciência ética do homem desorientou-se. Na carta encíclica
Veritatis splendor, pus em evidência que muitos problemas do mundo
contemporâneo derivam de uma « crise em torno da verdade. Perdida a ideia duma
verdade universal sobre o bem, cognoscível pela razão humana, mudou também
inevitavelmente a concepção de consciência: esta deixa de ser considerada na sua
realidade original, ou seja, como um acto da inteligência da pessoa, a quem cabe
aplicar o conhecimento universal do bem a uma determinada situação e exprimir
assim um juízo sobre a conduta justa a ter aqui e agora; tende-se a conceder à
consciência do indivíduo o privilégio de estabelecer autonomamente os critérios
do bem e do mal, e de agir em consequência. Esta visão identifica-se com uma
ética individualista, na qual cada um se vê confrontado com a sua verdade,
diferente da verdade dos outros ».
116
Ao longo de toda a encíclica agora citada, sublinhei claramente o papel
fundamental que compete à verdade no campo da moral. Ora esta verdade, na maior
parte dos problemas éticos mais urgentes, requer, da teologia moral, uma
cuidadosa reflexão que saiba pôr em evidência as suas raízes na palavra de Deus.
Para poder desempenhar esta sua missão, a teologia moral deve recorrer a uma
ética filosófica que tenha em vista a verdade do bem, isto é, uma ética que não
seja subjectivista nem utilitarista. Tal ética implica e pressupõe uma
antropologia filosófica e uma metafísica do bem. A teologia moral, valendo-se
desta visão unitária que está necessariamente ligada à santidade cristã e à
prática das virtudes humanas e sobrenaturais, será capaz de enfrentar os vários
problemas que lhe dizem respeito — tais como a paz, a justiça social, a família,
a defesa da vida e do ambiente natural — de forma mais adequada e eficaz.
99. Na Igreja, o trabalho teológico está, primariamente, ao serviço do
anúncio da fé e da catequese.
117 O anúncio, ou querigma, chama à conversão, propondo a
verdade de Cristo que tem o seu ponto culminante no Mistério Pascal: na verdade,
só em Cristo é possível conhecer a plenitude da verdade que salva (cf. Act
4, 12; 1 Tim 2, 4-6).
Neste contexto, é fácil compreender a razão por que, além da teologia, assuma
também grande relevo a referência à catequese: é que esta possui
implicações filosóficas que têm de ser aprofundadas à luz da fé. A doutrina
ensinada na catequese pretende formar a pessoa. Por isso a catequese, que é
também comunicação linguística, deve apresentar a doutrina da Igreja na sua
integridade,
118 mostrando a ligação que ela tem com a vida dos crentes.
119 Realiza-se, assim, uma singular união entre doutrina e
vida, que é impossível conseguir de outro modo. De facto, aquilo que se comunica
na catequese não é um corpo de verdades conceptuais, mas o mistério do Deus
vivo. 120
A reflexão filosófica muito pode contribuir para esclarecer a relação entre
verdade e vida, entre acontecimento e verdade doutrinal, e sobretudo a relação
entre verdade transcendente e linguagem humanamente inteligível.
121 A reciprocidade que se cria entre as disciplinas teológicas
e os resultados alcançados pelas diversas correntes filosóficas, pode
traduzir-se numa real fecundidade para a comunicação da fé e para uma sua
compreensão mais profunda.
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CONCLUSÃO
100. Passados mais de cem anos da publicação da encíclica Æterni Patris
de Leão XIII, à qual me referi várias vezes nestas páginas, pareceu-me
necessário abordar novamente e de forma mais sistemática o discurso sobre o tema
da relação entre a fé e a filosofia. É óbvia a importância que o pensamento
filosófico tem no progresso das culturas e na orientação dos comportamentos
pessoais e sociais. Embora isso nem sempre se note de forma explícita, ele
exerce também uma grande influência sobre a teologia e suas diversas
disciplinas. Por estes motivos, considerei justo e necessário sublinhar o valor
que a filosofia tem para a compreensão da fé, e as limitações em que aquela se
vê, quando esquece ou rejeita as verdades da Revelação. De facto, a Igreja
continua profundamente convencida de que fé e razão « se ajudam mutuamente »,
122 exercendo, uma em prol da outra, a função tanto de
discernimento crítico e purificador, como de estímulo para progredir na
investigação e no aprofundamento.
101. Se detivermos o nosso olhar sobre a história do pensamento, sobretudo no
Ocidente, é fácil constatar a riqueza que sobreveio, para o progresso da
humanidade, do encontro da filosofia com a teologia e do intercâmbio das suas
respectivas conquistas. A teologia, que recebeu o dom duma abertura e
originalidade que lhe permite existir como ciência da fé, fez seguramente com
que a razão permanecesse aberta diante da novidade radical que a revelação de
Deus traz consigo. E isto foi, sem dúvida alguma, uma vantagem para a filosofia,
que, assim, viu abrirem-se novos horizontes apontando para sucessivos
significados que a razão está chamada a aprofundar.
Precisamente à luz desta constatação, tal como reafirmei o dever que tem a
teologia de recuperar a sua genuína relação com a filosofia, da mesma forma
sinto a obrigação de sublinhar que é conveniente para o bem e o progresso do
pensamento que também a filosofia recupere a sua relação com a teologia. Nesta,
encontrará não a reflexão dum mero indivíduo, que, embora profunda e rica,
sempre traz consigo as limitações de perspectiva próprias do pensamento de um
só, mas a riqueza duma reflexão comum. De facto, quando indaga sobre a verdade,
a teologia, por sua natureza, é sustentada pela nota da eclesialidade
123 e pela tradição do Povo de Deus, com sua riqueza multiforme
de conhecimentos e de culturas na unidade da fé.
102. Com tal insistência sobre a importância e as autênticas dimensões do
pensamento filosófico, a Igreja promove a defesa da dignidade humana e,
simultaneamente, o anúncio da mensagem evangélica. Ora, para estas tarefas, não
existe, hoje, preparação mais urgente do que esta: levar os homens à descoberta
da sua capacidade de conhecer a verdade
124 e do seu anseio pelo sentido último e definitivo da
existência. À luz destas exigências profundas, inscritas por Deus na natureza
humana, aparece mais claro também o significado humano e humanizante da palavra
de Deus. Graças à mediação de uma filosofia que se tornou também verdadeira
sabedoria, o homem contemporâneo chegará a reconhecer que será tanto mais homem
quanto mais se abrir a Cristo, acreditando no Evangelho.
103. Além disso, a filosofia é como que o espelho onde se reflecte a cultura
dos povos. Uma filosofia que se desenvolve de harmonia com a fé aceitando o
estímulo das exigências teológicas, faz parte daquela « evangelização da cultura
» que Paulo VI propôs como um dos objectivos fundamentais da evangelização.
125
Pensando na
nova evangelização, cuja urgência não me canso de recordar, faço apelo
aos filósofos para que saibam aprofundar aquelas dimensões de verdade, bem e
beleza, a que dá acesso a palavra de Deus. Isto torna-se ainda mais urgente, ao
considerar os desafios que o novo milénio parece trazer consigo: eles tocam de
modo particular as regiões e as culturas de antiga tradição cristã. Este cuidado
deve considerar-se também um contributo fundamental e original para o avanço da
nova evangelização.
104. O pensamento filosófico é frequentemente o único terreno comum de
entendimento e diálogo com quem não partilha a nossa fé. O movimento filosófico
contemporâneo exige o empenhamento solícito e competente de filósofos crentes
que sejam capazes de individuar as expectativas, possibilidades e problemáticas
deste momento histórico. Discorrendo à luz da razão e segundo as suas regras, o
filósofo cristão, sempre guiado naturalmente pela leitura superior que lhe vem
da palavra de Deus, pode criar uma reflexão que seja compreensível e sensata
mesmo para quem ainda não possua a verdade plena que a revelação divina
manifesta. Este terreno comum de entendimento e diálogo é ainda mais importante
hoje, se se pensa que os problemas mais urgentes da humanidade — como, por
exemplo, o problema ecológico, o problema da paz ou da convivência das raças e
das culturas — podem ter solução à luz duma colaboração clara e honesta dos
cristãos com os fiéis doutras religiões e com todos os que, mesmo não aderindo a
qualquer crença religiosa, têm a peito a renovação da humanidade. Afirmou-o o
Concílio Vaticano II: « Por nossa parte, o desejo de um tal diálogo, guiado
apenas pelo amor pela verdade e com a necessária prudência, não exclui ninguém:
nem aqueles que cultivam os altos valores do espírito humano, sem ainda
conhecerem o seu Autor, nem aqueles que se opõem à Igreja e, de várias maneiras,
a perseguem ».
126 Uma filosofia, na qual já resplandeça algo da verdade de
Cristo, única resposta definitiva aos problemas do homem,
127
será um apoio eficaz para aquela ética verdadeira e simultaneamente universal de
que, hoje, a humanidade tem necessidade.
105. Não posso concluir esta carta encíclica sem dirigir um último apelo, em
primeiro lugar aos teólogos, para que prestem particular atenção às
implicações filosóficas da palavra de Deus e realizem uma reflexão onde
sobressaia a densidade especulativa e prática da ciência teológica. Desejo
agradecer-lhes o seu serviço eclesial. A estrita conexão entre a sabedoria
teológica e o saber filosófico é uma das riquezas mais originais da tradição
cristã no aprofundamento da verdade revelada. Por isso, exorto-os a recuperarem
e a porem em evidência o melhor possível a dimensão metafísica da verdade, para
desse modo entrarem num diálogo crítico e exigente quer com o pensamento
filosófico contemporâneo, quer com toda a tradição filosófica, esteja esta em
sintonia ou contradição com a palavra de Deus. Tenham sempre presente a
indicação dum grande mestre do pensamento e da espiritualidade, S. Boaventura,
que, ao introduzir o leitor na sua obra Itinerarium mentis in Deum,
convidava-o a ter consciência de que « a leitura não é suficiente sem a
compunção, o conhecimento sem a devoção, a investigação sem o arrebatamento do
enlevo, a prudência sem a capacidade de abandonar-se à alegria, a actividade
separada da religiosidade, o saber separado da caridade, a inteligência sem a
humildade, o estudo sem o suporte da graça divina, a reflexão sem a sabedoria
inspirada por Deus ».
128
Dirijo o meu apelo também a quantos têm a responsabilidade da formação
sacerdotal, tanto académica como pastoral, para que cuidem, com particular
atenção, da preparação filosófica daquele que deverá anunciar o Evangelho ao
homem de hoje, e mais ainda se se vai dedicar à investigação e ao ensino da
teologia. Procurem organizar o seu trabalho à luz das prescrições do Concílio
Vaticano II
129 e sucessivas determinações, que mostram a tarefa
indeclinável e urgente, que cabe a todos nós, de contribuir para uma genuína e
profunda comunicação das verdades da fé. Não se esqueça a grave responsabilidade
de uma preparação prévia e condigna do corpo docente, destinado ao ensino da
filosofia nos Seminários e nas Faculdades Eclesiásticas.
130
É necessário que uma tal docência possua a conveniente preparação científica,
proponha de maneira sistemática o grande património da tradição cristã, e seja
efectuada com o devido discernimento face às exigências actuais da Igreja e do
mundo.
106. O meu apelo dirige-se ainda aos filósofos
e a quantos ensinam a filosofia, para que, na esteira duma tradição
filosófica perenemente válida, tenham a coragem de recuperar as dimensões de
autêntica sabedoria e de verdade, inclusive metafísica, do pensamento
filosófico. Deixem-se interpelar pelas exigências que nascem da palavra de Deus,
e tenham a força de elaborar o seu discurso racional e argumentativo de resposta
a tal interpelação. Vivam em permanente tensão para a verdade e atentos ao bem
que existe em tudo o que é verdadeiro. Poderão, assim, formular aquela ética
genuína de que a humanidade tem urgente necessidade, sobretudo nestes anos. A
Igreja acompanha com atenção e simpatia as suas investigações; podem, pois,
estar seguros do respeito que ela nutre pela justa autonomia da sua ciência. De
modo particular, quero encorajar os crentes empenhados no campo da filosofia
para que iluminem os diversos âmbitos da actividade humana, graças ao exercício
de uma razão que se torna mais segura e perspicaz com o apoio que recebe da fé.
Não posso, enfim, deixar de dirigir uma palavra também aos cientistas,
que nos proporcionam, com as suas pesquisas, um conhecimento sempre maior do
universo inteiro e da variedade extraordinariamente rica dos seus componentes,
animados e inanimados, com suas complexas estruturas de átomos e moléculas. O
caminho por eles realizado atingiu, especialmente neste século, metas que não
cessam de nos maravilhar. Ao exprimir a minha admiração e o meu encorajamento a
estes valorosos pioneiros da pesquisa científica, a quem a humanidade muito deve
do seu progresso actual, sinto o dever de exortá-los a prosseguir nos seus
esforços, permanecendo sempre naquele horizonte sapiencial onde aos
resultados científicos e tecnológicos se unem os valores filosóficos e éticos,
que são manifestação característica e imprescindível da pessoa humana. O
cientista está bem cônscio de que « a busca da verdade, mesmo quando se refere a
uma realidade limitada do mundo ou do homem, jamais termina; remete sempre para
alguma coisa que está acima do objecto imediato dos estudos, para os
interrogativos que abrem o acesso ao Mistério ».
131
107. A todos peço para se debruçarem profundamente sobre o homem, que
Cristo salvou no mistério do seu amor, e sobre a sua busca constante de verdade
e de sentido. Iludindo-o, vários sistemas filosóficos convenceram-no de que ele
é senhor absoluto de si mesmo, que pode decidir autonomamente sobre o seu
destino e o seu futuro, confiando apenas em si próprio e nas suas forças. Ora,
esta nunca poderá ser a grandeza do homem. Para a sua realização, será
determinante apenas a opção de viver na verdade, construindo a própria casa à
sombra da Sabedoria e nela habitando. Só neste horizonte da verdade poderá
compreender, com toda a clareza, a sua liberdade e o seu chamamento ao amor e ao
conhecimento de Deus como suprema realização de si mesmo.
108. Por último, o meu pensamento dirige-se para Aquela que a oração da
Igreja invoca como Sede da Sabedoria. A sua vida é uma verdadeira
parábola, capaz de iluminar a reflexão que desenvolvi. De facto, pode-se
entrever uma profunda analogia entre a vocação da bem-aventurada Virgem Maria e
a vocação da filosofia genuína. Como a Virgem foi chamada a oferecer toda a sua
humanidade e feminilidade para que o Verbo de Deus pudesse encarnar e fazer-Se
um de nós, também a filosofia é chamada a dar o seu contributo racional e
crítico para que a teologia, enquanto compreensão da fé, seja fecunda e eficaz.
E como Maria, ao prestar o seu consentimento ao anúncio de Gabriel, nada perdeu
da sua verdadeira humanidade e liberdade, assim também o pensamento filosófico,
quando acolhe a interpelação que recebe da verdade do Evangelho, nada perde da
sua autonomia, antes vê toda a sua indagação elevada à mais alta realização. Os
santos monges da antiguidade cristã tinham compreendido bem esta verdade, quando
designavam Maria como « a mesa intelectual da fé ».
132 N'Ela, viam a imagem coerente da verdadeira filosofia, e
estavam convencidos de que deviam philosophari in Maria.
Que a Sede da Sabedoria seja o porto seguro para quantos consagram a sua vida
à procura da sabedoria! O caminho para a sabedoria, fim último e autêntico de
todo o verdadeiro saber, possa ver-se livre de qualquer obstáculo por
intercessão d'Aquela que, depois de gerar a Verdade e tê-La conservado no seu
coração, comunicou-A para sempre à humanidade inteira.
Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 14 de Setembro — Festa da
Exaltação da Santa Cruz — de 1998, vigésimo ano de Pontificado.
IOANNES PAULUS PP. II
|
1
Na minha primeira encíclica, a
Redemptor hominis, já tinha escrito:
« Tornámo-nos participantes de tal missão de Cristo profeta, e,
em virtude desta mesma missão e juntamente com Ele, servimos a
verdade divina na Igreja. A responsabilidade por esta verdade
implica também amá-la e procurar obter a sua mais exacta
compreensão, a fim de a tornarmos mais próxima de nós mesmos e
dos outros, com toda a sua força salvífica, com o seu esplendor,
com a sua profundidade e simultaneamente a sua simplicidade »
[N. 19: AAS
71 (1979), 306].
2
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.
past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo
Gaudium et spes,
16.
3
Const. dogm. sobre a Igreja
Lumen gentium, 25.
4
N. 4:
AAS 85
(1993), 1136.
5
Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
revelação divina
Dei Verbum, 2.
6
Cf. Const. dogm. sobre a fé católica
Dei Filius, III:
DS
3008.
7
Ibid.,
IV: DS 3015; citado também em Conc. Ecum. Vat. II, Const.
past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes,
59.
8
Const. dogm. sobre a revelação divina
Dei Verbum, 2.
9 João Paulo II, Carta ap.
Tertio millennio adveniente (10 de
Novembro de 1994), 10:
AAS
87 (1995), 11.
10
N. 4.
11
N. 8.
12
N. 22.
13
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina
Dei Verbum, 4.
14
Ibid., 5.
15
O Concílio Vaticano I, ao qual se refere a sentença
anteriormente citada, ensina que a obediência da fé exige o
empenhamento da inteligência e da vontade: « Dado que o homem
depende totalmente de Deus, enquanto seu Criador e Senhor, e a
razão criada está submetida completamente à verdade incriada,
somos obrigados, quando Deus Se revela, a prestar-Lhe, mediante
a fé, a plena submissão da nossa inteligência e da nossa vontade
» [Const. dogm. sobre a fé católica
Dei Filius,
III:
DS
3008].
16
Sequência,
na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.
17
Pensées
(ed. L. Brunschvicg), 789.
18
Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a
Igreja no mundo contemporâneo
Gaudium et spes, 22.
19
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina
Dei Verbum, 2.
20
Proémio e nn. 1 e 15: PL
158, 223-224.226.235.
21
De vera religione,
XXXIX, 72: CCL 32, 234.
22
« Ut te semper desiderando quærerent et inveniendo quiescerent
»:
Missale Romanum.
23
Aristóteles, Metafísica,
I, 1.
24
Confessiones,
X, 23, 33: CCL 27,173.
25
N. 34: AAS
85 (1993), 1161.
26
Cf. João Paulo II, Carta ap.
Salvifici doloris
(11 de Fevereiro de 1984), 9:
AAS 76
(1984), 209-210.
27
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decl. sobre a relação da Igreja com as
religiões não-cristãs Nostra ætate,
2.
28
Desenvolvo, há muito tempo, esta argumentação, tendo-a expresso
em diversas ocasiões: « "Quem é o homem, e para que serve? E que
bem ou que mal pode ele fazer?" (Sir
18, 8) (...) Estas perguntas estão
no coração de cada homem, como bem demonstra o génio poético de
todos os tempos e de todos os povos, que, quase como profecia da
humanidade, repropõe continuamente a
séria pergunta
que torna o homem verdadeiramente tal.
Exprimem a urgência de encontrar um porquê da existência, de
todos os seus instantes, tanto das suas etapas salientes e
decisivas como dos seus momentos mais comuns. Em tais perguntas,
é testemunhada a razão profunda da existência humana, pois nelas
a inteligência e a vontade do homem são solicitadas a procurar
livremente a solução capaz de oferecer um sentido pleno à vida.
Estes interrogativos, portanto, constituem a expressão mais
elevada da natureza do homem; por conseguinte, a resposta a eles
mede a profundidade do seu empenho na própria existência. Em
particular, quando
o porquê das coisas
é procurado a fundo em busca da resposta última e mais
exauriente, então a razão humana atinge o seu vértice e abre-se
à religiosidade. De facto, a religiosidade representa a
expressão mais elevada da pessoa humana, porque é o ápice da sua
natureza racional. Brota da profunda aspiração do homem à
verdade, e está na base da busca livre e pessoal que ele faz do
divino » [Alocução da Audiência Geral de quarta-feira, 19 de
Outubro de 1983, 1-2:
L'Osservatore Romano
(ed. portuguesa, de 23 de Outubro de 1983),
12].
29
« [Galileu] declarou explicitamente que as duas verdades, de fé
e de ciência, não podem nunca contradizer-se, "procedendo
igualmente do Verbo divino a Escritura santa e a natureza, a
primeira como ditada pelo Espírito Santo, a segunda como
executora fidelíssima das ordens de Deus", segundo ele escreveu
na sua carta ao Padre Benedetto Castelli, a 21 de Dezembro de
1613. O Concílio Vaticano II não se exprime diferentemente;
retoma mesmo expressões semelhantes, quando ensina: "A
investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada
a cabo (...) segundo as normas morais, nunca será realmente
oposta à fé, já que as realidades profanas
e as da fé têm origem no mesmo Deus" (Gaudium
et spes, 36). Galileu manifesta, na
sua investigação científica, a presença do Criador que o
estimula, que Se antecipa às suas intuições e as ajuda, operando
no mais profundo do seu espírito » [João Paulo II, Discurso à
Pontifícia Academia das Ciências, a 10 de Novembro de 1979:
L'Osservatore Romano
(ed. portuguesa, de 25 de Novembro de
1979), 6].
30
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina
Dei Verbum, 4.
31
Orígenes, Contra Celso
3, 55: SC
136, 130.
32
Diálogo com Trifão,
8, 1: PG 6, 492.
33
Stromata
I, 18, 90, 1: SC 30, 115.
34 Cf.
ibid.
I, 16, 80,
5:
SC 30,
108.
35
Cf.
ibid.
I, 5, 28, 1:
SC 30,
65.
36
Ibid.,
VI, 7, 55, 1-2: PG 9, 277.
37
Ibid.,
I, 20, 100, 1: SC 30, 124.
38
Santo Agostinho, Confessiones
VI, 5, 7: CCL
27, 77-78.
39
Cf.
ibid.
VII, 9, 13-14: CCL
27, 101-102.
40
« Quid ergo Athenis et Hierosolymis? Quid academiæ et ecclesiæ?
» [De præscriptione hereticorum,
VII, 9:
SC 46,
98].
41
Cf. Congr. da Educação Católica, Instr. sobre o estudo dos
Padres da Igreja na formação sacerdotal (10 de Novembro de
1989), 25:
AAS 82 (1990),
617-618.
42
Santo Anselmo, Proslogion,
1:
PL 158,
226.
43
Idem, Monologion,
64:
PL 158,
210.
44
Cf. S. Tomás de Aquino, Summa
contra gentiles, I, VII.
45
« Cum enim gratia non tollat naturam, sed perficiat » [Idem,
Summa theologiæ,
I, 1, 8 ad 2].
46
Cf. João Paulo II, Discurso aos participantes no IX Congresso
Tomista Internacional (29 de Setembro de 1990):
L'Osservatore Romano (ed. portuguesa
de 28 de Outubro de 1990), 9.
47
Carta ap. Lumen Ecclesiæ
(20 de Novembro de 1974), 8:
AAS 66 (1974),
680.
48
« Præterea, hæc doctrina per studium acquiritur. Sapientia autem
per infusionem habetur, unde inter
septem dona Spiritus Sancti
connumeratur » [Summa theologiæ,
I, 1, 6].
49
Ibid.,
II, II, 45, 1 ad 2; cf. também II, II, 45, 2.
50
Ibid.,
I, II, 109, 1 ad 1, que cita a conhecida frase do Ambrosiaster,
In prima Cor 12,3: PL 17, 258.
51 Leão XIII, Carta enc.
ÆTERNI PATRIS
(4 de Agosto
de 1879):
ASS 11
(1878-1879), 109.
52
Paulo VI, Carta ap. Lumen Ecclesiæ
(20 de Novembro de 1974), 8:
AAS 66 (1974),
683.
53
Carta enc. Redemptor hominis
(4 de Março de 1979), 15:
AAS 71 (1979),
286.
54
Cf. Pio XII, Carta enc. Humani
generis
(12 de Agosto de 1950):
AAS 42 (1950),
566.
55
Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Primeira const. dogm. sobre a Igreja de
Cristo
Pastor TERNUS:
DS
3070; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja
Lumen gentium,
25c.
56
Cf. Sínodo de Constantinopla, DS
403.
57
Cf. Concílio de Toledo I, DS
205; Concílio de Braga I,
DS
459-460; Sisto V, Bula
Cœli et terræ Creator
(5 de Janeiro de 1586):
Bullarium Romanum
44 (Roma, 1747), 176-179; Urbano VIII,
Inscrutabilis iudiciorum (1 de Abril
de 1631):
Bullarium Romanum
61 (Roma, 1758), 268-270.
58
Cf. Conc. Ecum. de Viena, Decr.
Fidei catholicæ: DS 902; Conc. Ecum.
Lateranense V, Bula
Apostolici regiminis:
DS
1440.
59
Cf.
Theses a Ludovico Eugenio Bautain
iussu sui Episcopi subscriptæ (8 de
Setembro de 1840):
DS
2751-2756;
Theses a Ludovico Eugenio Bautain
ex mandato S. Congr. Episcoporum et Religiosorum subscriptæ
(26 de Abril de 1844):
DS 2765-2769.
60
Cf. S. Congr. Indicis, Decr.
Theses contra traditionalismum Augustini Bonnety (11 de Junho de
1855):
DS
2811-2814.
61
Cf. Pio IX, Breve Eximiam tuam
(15 de Junho de 1857):
DS 2828-2831; Breve
Gravissimas inter
(11 de Dezembro de 1862):
DS 2850-2861.
62
Cf. S. Congr. do Santo Ofício, Decr.
Errores ontologistarum (18 de
Setembro de 1861):
DS 2841-2847.
63
Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica
Dei Filius,
II:
DS
3004; e cân. 2-§1: DS
3026.
64
Ibid.,
IV: DS 3015, citado em Conc. Ecum. Vat. II, Const. past.
sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes,
59.
65
Conc. Ecum. Vat. I,
Const. dogm. sobre a fé católica
Dei Filius,
IV:
DS
3017.
66
Cf. Carta enc. Pascendi dominici
gregis
(8 de Setembro de 1907):
ASS
40 (1907), 596-597.
67
Cf. Pio XI, Carta enc. Divini
Redemptoris
(19 de Março de 1937):
AAS 29 (1937),
65-106.
68
Carta enc. Humani generis
(12 de Agosto de 1950):
AAS
42 (1950), 562-563.
69
Ibid.:
o.c., 563-564.
70 Cf. João Paulo
II, Const. ap.
Pastor Bonus
(28 de Junho de 1988) arts. 48-49:
AAS 80 (1988), 873; Congr. da
Doutrina da Fé, Instr. sobre a vocação eclesial do teólogo
Donum veritatis
(24 de Maio de 1990), 18:
AAS 82 (1990),
1558.
71
Cf. Instr. sobre alguns aspectos da « teologia da libertação »
Libertatis nuntius
(6 de Agosto de 1984), VII-X:
AAS 76 (1984),
890-903.
72
Com sua palavra clara e de grande autoridade, o Concílio
Vaticano I tinha já condenado este erro, ao afirmar, por um
lado, que, « relativamente à fé (...), a Igreja Católica
preconiza que é uma virtude sobrenatural pela qual, sob a
inspiração divina e com a ajuda da graça, acreditamos que são
verdadeiras as coisas por Ele reveladas, não por causa da
verdade intrínseca das coisas percebida pela luz natural da
razão, mas por causa da autoridade do próprio Deus que as
revela, o qual não pode enganar-Se nem enganar » [Const. dogm.
sobre a doutrina católica Dei
Filius, III:
DS 3008; e cân. 3-§ 2:
DS
3032]. E, por outro lado, o Concílio declarava que a razão nunca
« chega a ser capaz de penetrar [tais mistérios], nem as
verdades que formam o seu objecto específico » [ibid.,
IV:
DS
3016]. Daqui tirava a seguinte conclusão prática: « Os fiéis
cristãos não só não têm o direito de defender, como legítimas
conclusões da ciência, as opiniões reconhecidas contrárias à
doutrina da fé, especialmente quando estão condenadas pela
Igreja, mas são estritamente obrigados a considerá-las como
erros, que apenas têm uma ilusória aparência de verdade » [ibid.,
IV:
DS
3018].
73
Cf. nn. 9-10.
74
Const. dogm. sobre a revelação divina
Dei Verbum,
10.
75
Ibid.,
21.
76 Cf.
ibid.,
10.
77
Cf. Carta enc. Humani generis
(12 de Agosto de 1950):
AAS 42 (1950), 565-567.571-573.
78 Cf.
Carta enc. ÆTERNI PATRIS
(4 de Agosto de 1879):
ASS
11 (1878-1879), 97-115.
79
Ibid.:
o.c., 109.
80 Cf. nn.
14-15.
81
Cf.
ibid.,
20-21.
82
Ibid.,
22; cf. João Paulo II, Carta enc.
Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 8: AAS 71 (1979), 271-272.
83
Decr. sobre a formação
sacerdotal
Optatam totius,
15.
84
Cf. João Paulo II, Const. ap.
Sapientia christiana
(15 de Abril de 1979), arts. 79-80:
AAS
71 (1979), 495-496; Exort. ap. pós-sinodal
Pastores dabo vobis
(25 de Março de 1992), 52:
AAS 84
(1992), 750-751. Vejam-se também algumas reflexões sobre a
filosofia de S. Tomás: Discurso na Pontifícia Universidade de S.
Tomás (17 de Novembro de 1979):
L'Osservatore Romano
(ed. portuguesa de 25 de Novembro de 1979),
1; Discurso aos participantes no VIII Congresso Tomista
Internacional (13 de Setembro de 1980):
L'Osservatore Romano
(ed. portuguesa de 28 de Setembro de
1980), 4; Discurso aos participantes no Congresso Internacional
da Sociedade S. Tomás de Aquino sobre « A doutrina tomista da
alma » (4 de Janeiro de 1986):
L'Osservatore Romano
(ed. portuguesa de 12 de Janeiro de 1986),
9. E ainda: S. Congr. da Educação Católica,
Ratio fundamentalis institutionis
sacerdotalis (6 de Janeiro de 1970),
70-75:
AAS 62 (1970),
366-368; Decr.
Sacra theologia
(20 de Janeiro de 1972):
AAS
64 (1972), 583-586.
85
Cf. Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo
Gaudium et spes, 57.62.
86
Cf.
ibid.,
44.
87
Cf. Bula Apostolici regimini
sollicitudo, Sessão VIII:
Conc. Rcum. Decreta
(1991), 605-606.
88
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina
Dei Verbum,
10.
89
S. Tomás de Aquino, Summa theologiæ,
II-II, 5, 3 ad 2.
90
« A busca das condições, nas quais o homem faz por si próprio as
primeiras perguntas fundamentais acerca do sentido da vida, do
fim que lhe deseja dar e daquilo que o espera depois da morte,
constitui para a Teologia Fundamental o preâmbulo necessário,
para que, também hoje, a fé possa mostrar plenamente o caminho a
uma razão em busca sincera da verdade » [João Paulo II, Carta
aos participantes no Congresso Internacional de Teologia
Fundamental por ocasião do 125o aniversário da promulgação da
Const. dogm. « Dei Filius » (30 de Setembro de 1995), 4:
L'Osservatore
Romano,
(ed. portuguesa de 7 de Outubro de 1995), 10].
91
Ibid.,
4: o.c., 10.
92 Cf. Conc. Ecum.
Vat. II, Const. past.
sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes,
15; Decr. sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes,
22.
93
S. Tomás de Aquino, De Cœlo
1, 22.
94
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo
contemporâneo Gaudium et spes,
53-59.
95
S. Agostinho, De prædestinatione
Sanctorum
2, 5:
PL 44, 963.
96
Idem, De fide, spe et caritate,
7:
CCL 64,
61.
97
Cf. Conc. Ecum. de Calcedónia,
Symbolum, definitio:
DS
302.
98
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Redemptor hominis (4 de Março de
1979), 15:
AAS
71 (1979), 286-289.
99
Veja-se, por exemplo, S. Tomás de Aquino,
Summa theologiæ, I, 16, 1; S.
Boaventura,
Coll. in Hex.,
3, 8, 1.
100
Const. past. sobre a Igreja no mundo
contemporâneo Gaudium et spes, 15.
101
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Veritatis splendor
(6 de Agosto de 1993), 57-61:
AAS 85
(1993), 1179-1182.
102
Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica
Dei Filius,
IV:
DS
3016.
103
Cf. Conc. Ecum. Lateranense IV,
De
errore abbatis Ioachim, II:
DS
806.
104
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina
Dei Verbum,
24; Decr. sobre a formação sacerdotal
Optatam totius,
16.
105
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Evangelium vitæ
(25 de Março de 1995), 69:
AAS 87
(1995), 481.
106
Neste mesmo sentido, escrevi na minha primeira encíclica,
comentando a frase « conhecereis a verdade, e a verdade
tornar-vos-á livres » do Evangelho de S. João (8, 32): « Estas
palavras encerram em si uma exigência fundamental e, ao mesmo
tempo, uma advertência: a exigência de uma relação honesta para
com a verdade, como condição de uma autêntica liberdade; e a
advertência, ademais, para que seja evitada qualquer verdade
aparente, toda a liberdade superficial e unilateral, toda a
liberdade que não compreenda cabalmente a verdade sobre o homem
e sobre o mundo. Ainda hoje, depois de dois mil anos, Cristo
continua a aparecer-nos como Aquele que traz ao homem a
liberdade baseada na verdade, como Aquele que liberta o homem
daquilo que limita, diminui e como que despedaça pelas próprias
raízes essa liberdade, na alma do homem, no seu coração e na sua
consciência » [Carta enc. Redemptor
hominis (4 de Março de 1979), 12:
AAS
71 (1979), 280-281].
107
Discurso de abertura do Concílio (11 de Outubro de 1962): AAS 54
(1962), 792.
108
Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre a
vocação eclesial do teólogo
Donum veritatis (24 de Maio de 1990), 7-8: AAS 82
(1990), 1552-1553.
109
Escrevi na encíclica Dominum et
vivificantem, comentando
Jo 16, 12-13:
« Jesus apresenta o Consolador, o Espírito da Verdade, como
Aquele que "ensinará e recordará", como Aquele que "dará
testemunho" d'Ele; agora diz: "Ele vos guiará para a verdade
total". Este "guiar para a verdade total", em relação com aquilo
que "os Apóstolos por agora não estão em condições de
compreender", está necessariamente em ligação com o despojamento
de Cristo, por meio da sua paixão e morte de cruz, que então,
quando Ele pronunciava estas palavras, já estava iminente. Mas,
em seguida, torna-se bem claro que aquele "guiar para a verdade
total" tem a ver não apenas com o
scandalum crucis,
mas também com tudo o que Cristo "fez e ensinou" (Act
1, 1). Com efeito, o mysterium
Christi na sua globalidade exige a
fé, porquanto é ela que introduz o homem oportunamente na
realidade do mistério revelado. O "guiar para a verdade total"
realiza-se, pois, na fé e mediante a fé: é obra do Espírito da
verdade e é fruto da sua acção no homem. O Espírito Santo deve
ser em tudo isso o guia supremo do homem, a luz do espírito
humano » [n. 6:
AAS 78 (1986),
815-816].
110
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina
Dei Verbum,
13.
111
Cf. Pontifícia Comissão Bíblica, Instr. sobre a verdade
histórica dos Evangelhos (21 de Abril de 1964):
AAS
56 (1964), 713.
112
« É claro que a Igreja não pode estar ligada a qualquer sistema
filosófico efémero; aquelas noções e termos que, segundo o
consenso geral, foram compostos ao longo de vários séculos pelos
doutores católicos para se chegar a um certo conhecimento e
compreensão do dogma, sem dúvida que não se apoiam sobre
fundamento tão caduco. Apoiam-se, ao contrário, em princípios e
noções ditadas por um verdadeiro conhecimento da criação; e,
para deduzirem estes conhecimentos, a verdade revelada, como se
fosse uma estrela, iluminou a mente humana por meio da Igreja.
Por isso, não há de que maravilhar-se se alguma destas noções
acabou não apenas por ser usada em Concílios Ecuménicos, mas foi
aí de tal modo ratificada que não é lícito abandoná-la » [Carta
enc.
Humani generis
(12 de Agosto de 1950):
AAS 42 (1950),
566-567; cf. Comissão Teológica Internacional, Doc.
Interpretationis problema (Outubro
de 1989):
Enchiridion Vaticanum,
XI, nn. 2717-2811].
113
« Quanto ao próprio significado das fórmulas dogmáticas, este
permanece, na Igreja, sempre verdadeiro e coerente, mesmo quando
se torna mais claro e melhor compreendido. Por isso, os fiéis
devem rejeitar a opinião segundo a qual as fórmulas dogmáticas
(ou uma parte delas) não podem manifestar exactamente a verdade,
mas apenas aproximações variáveis que, de certa forma, não
passam de deformações e alterações da mesma » [S. Congr. da
Doutrina da Fé, Decl. sobre a defesa da doutrina católica acerca
da Igreja
Mysterium Ecclesiæ
(24 de Junho de 1973), 5:
AAS 65
(1973), 403].
114
Cf. Congr. S. Officii, Decr.
Lamentabili
(3 de Julho de 1907), 26:
ASS
40 (1907), 473.
115
Cf. João Paulo II, Discurso na Pontifícia Universidade de S.
Tomás (17 de Novembro de 1979), 6:
L'Osservatore Romano
(ed. portuguesa de 25 de Novembro de 1979),
8.
116
N. 32:
AAS
85 (1993), 1159-1160.
117
Cf. João Paulo II, Exort. ap.
Catechesi tradendæ
(16 de Outubro de 1979), 30: AAS
71 (1979), 1302-1303; Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre a
vocação eclesial do teólogo
Donum veritatis
(24 de Maio de 1990), 7:
AAS 82 (1990), 1552-1553.
118
Cf. João Paulo II, Exort. ap.
Catechesi tradendæ (16 de Outubro de
1979), 30:
AAS
71 (1979), 1302-1303.
119
Cf.
ibid.,
22: o.c.,
1295-1296.
120
Cf.
ibid.,
7: o.c.,
1282.
121
Cf.
ibid.,
59: o.c.,
1325.
122
Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé
católica Dei Filius, IV:
DS 3019.
123
« Ninguém pode tratar a teologia como se fosse uma simples
colectânea dos próprios conceitos pessoais; mas cada um deve ter
a consciência de permanecer em íntima união com aquela missão de
ensinar a verdade, de que é responsável a Igreja » [João Paulo
II, Carta enc. Redemptor hominis
(4 de Março de 1979), 19:
AAS 71
(1979), 308].
124
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decl. sobre a liberdade religiosa
Dignitatis humanæ,
1-3.
125
Cf. Exort. ap.
Evangelii nuntiandi
(8 de Dezembro de
1975), 20:
AAS 68
(1976), 18-19.
126
Const. past. sobre a Igreja no mundo
contemporâneo Gaudium et spes, 92.
127 Cf.
ibid.,
10.
128
Prólogo, 4: Opera omnia,
t. V (Florença 1891), 296.
129
Cf. Decr. sobre a formação sacerdotal
Optatam totius, 15.
130
Cf. João Paulo II, Const. ap.
Sapientia christiana
(15 de Abril de 1979), arts. 67-68:
AAS 71
(1979), 491-492.
131
João Paulo II, Discurso na Universidade de Cracóvia, por ocasião
dos 600 anos da Alma Mater Jaghelónica (8 de Junho de 1997), 4:
L'Osservatore Romano
(ed. portuguesa de 21 de Junho de 1997), 6.
132
« 'e noerà tes pìsteos tràpeza » [Pseudo-Epifânio,
Homilia em louvor de Santa Maria Mãe de Deus: PG
43, 493] .
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