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SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR
ORDENAÇÃO EPISCOPAL DE DOM FRANCISZEK MACHARSKI
HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
Sábado, 6 de Janeiro de 1979
1. Levanta-te (Jerusalém) ... porque chegou a tua luz e brilha
sobre ti a glória do Senhor, exclamou o Profeta Isaías (Is. 60, 1), no século VIII antes
de Cristo, e nós ouvimos as suas palavras hoje, no século XX depois de Cristo, e
admiramos, verdadeiramente admiramos, a grande luz que deriva destas palavras.
Isaías dirige-se, no decorrer dos séculos, a Jerusalém, que devia tornar-se a
cidade do Grande Ungido, do Messias: As nações caminharão à tua luz e os reis ao
esplendor da tua aurora ... Os teus filhos vão chegar de longe e as tuas filhas
são trazidas nos braços ... Invandir-te-á uma multidão de camelos, de
dromedários de Madiã e de Efá. Virão todos os de Sabá; hão-de trazer oiro e
incenso, e proclamarão as glórias do Senhor (Is. 60, 5). Temos diante dos olhos estes três
— assim diz a tradição — três Reis Magos que vêm de longe, peregrinos em camelos,
e trazem consigo não só oiro e incenso, mas também mirra: estes os presentes
simbólicos com que foram ao encontro do Messias, que era esperado mesmo além das
fronteiras de Israel. Não nos admiremos portanto se — neste seu diálogo profético
com Jerusalém prolongado através dos séculos — Isaías diz a certa altura:
palpitará e dilatar-se-á o teu coração (Is. 60, 5). Fala à cidade como se ela fosse um
homem vivo.
2. «Palpitará e dilatar-se-á o teu coração». Na
noite de Natal, encontrando-me com todos os que participavam na liturgia
eucarística da meia-noite aqui nesta Basílica, pedi a todos que estivessem com o
pensamento e o coração mais lá que aqui; mais em Belém, no lugar do nascimento
de Cristo, naquela gruta-estábulo em que o Verbo se fez carne (Jo.1, 14). E hoje peço-vos o mesmo. Porque lá, exactamente
lá, naquele lugar ao sul de Jerusalém, chegaram, vindos do Oriente, aqueles
estranhos peregrinos, os Reis Magos. Atravessaram Jerusalém. Guiava-os uma
estrela misteriosa, a estrela, luz exterior que se deslocava no firmamento. Mais
ainda, porém, os conduzia a fé, luz interior. Chegaram. Não os admirou aquilo
que encontraram: nem a pobreza, nem o estábulo, nem estar o Menino numa
manjedoira. Chegaram e, prostrando-se, «adoraram-no». Depois abriram os cofres e
ofereceram de presente ao Menino Jesus oiro e incenso, dos quais exactamente
fala Isaías, mas ofereceram-lhe também mirra. E, depois de fazerem tudo isto,
regressaram à sua terra.
Devido a esta peregrinação a Belém, os Reis Magos do
Oriente tornaram-se o início e o símbolo de todos aqueles que, por meio da fé,
chegam a Jesus, o Menino envolto em panos e deitado numa manjedoira, o Salvador
pregado na cruz, Aquele que — crucificado sob Pôncio Pilatos, descido da cruz e
sepultado num túmulo aos pés do Calvário — ressuscitou ao terceiro dia.
Precisamente estes homens, os Reis Magos — três, segundo pretende a tradição —
vindos do Oriente, tornaram-se o início e a prefiguração de todos os que, de
além fronteiras do Povo eleito da Antiga Aliança, chegaram e vão chegando sempre
a Cristo mediante a fé.
3. Palpitará e dilatar-se-á o teu
coração, diz Isaías a Jerusalém. De facto, era necessário dilatar o coração do
Povo de Deus para caberem nele os novos homens, os novos povos. Precisamente
esta exclamação do Profeta é a palavra-chave da Epifania. Era necessário dilatar
continuamente o coração da Igreja, quando iam entrando nela continuamente novos
homens; quando, seguindo as pisadas dos pastores e dos Reis Magos, chegavam
sempre, do Oriente a Belém, novas gentes. Também agora é preciso dilatar sempre
este coração, à medida dos homens e dos povos, à medida das épocas e dos tempos.
A Epifania é a festa da vitalidade da Igreja. A Igreja vive a consciência que
tem da missão recebida de Deus, que é desempenhada por seu intermédio. O
Concílio Vaticano II ajudou a darmo-nos conta de ser a «missão» o nome próprio
da Igreja e, em certo sentido, constituir a definição dela. A Igreja torna-se
ela mesma, quando cumpre a sua missão. A Igreja é ela mesma, quando os homens —
como os pastores e os Reis Magos do Oriente — chegam a Jesus Cristo por meio da
fé. Quando, em Cristo-Homem e por Cristo, encontram a Deus.
A Epifania é portanto a grande festa da fé. Participam nesta festa tanto os que
já chegaram à fé como aqueles que se encontram a caminho para chegar a ela.
Participam agradecendo. o dom da fé, assim como os Reis Magos, cheios de
gratidão, se ajoelharam diante do Menino. Nesta festividade participa a Igreja,
que se torna, de ano para ano, mais consciente da grandeza da sua missão. A
quantos homens é preciso ainda levar a fé! Quantos homens é preciso reconquistar
para a fé que eles perderam, e por vezes isto é mais difícil que a primeira
conversão à fé. Mas a Igreja, consciente daquele grande dom, do dom da
encarnação de Deus, não pode parar nunca, não pode nunca cansar-se.
Continuamente deve procurar o acesso a Belém para todos os homens e para todas
as épocas. A Epifania é a festa e o desafio lançado por Deus.
Neste dia solene
vieram a Roma os representantes da população e da Arquidiocese de Cracóvia, para
trazerem um presente a Jesus Menino, dom que se exprime na Ordenação episcopal
do novo Arcebispo de Cracóvia. É dom da fé, do amor e da esperança. Permiti que
lhes fale na minha língua materna.
4. Todos nós,
naturais da Polónia, aqui reunidos, filhos da Igreja de Cristo que há mil anos
inseriu as suas raízes nas nossas almas, também hoje participamos na Festa da
Epifania. As circunstâncias não são habituais. Viemos a Roma, encontramo-nos na
Basílica de São Pedro. Pela primeira vez na história da Igreja, o Papa, Filho da
Nação Polaca, celebra a Eucaristia e procede à consagração episcopal do seu
sucessor em Cracóvia, Sé de Santo Estanislau. Tudo isto se passa no início de
1979, novecentos anos após o martírio de Santo Estanislau, que no princípio do
milénio proclamava aos nossos antepassados Cristo nascido em Belém, crucificado
sob Pôncio Pilatos, e ressuscitado. Com a palavra desta pregação, com a força do
Evangelho levou-os à fé, como fizeram, e estão fazendo hoje os Bispos e os
Sacerdotes, na nossa Terra Natal.
Penso, caros Irmãos e Irmãs, meus caríssimos
compatriotas; penso, caríssimos Irmãos Bispos e Sacerdotes, que a nossa hodierna
presença aqui é um acto de especial agradecimento pela fé, que iluminou todos
estes séculos da nossa história, e não deixa de iluminar os nossos tempos, em
que deve especialmente levar à maturação a responsabilidade por ela tomada; é
acto de agradecimento pelo grande Dom de Deus Encarnado, pela Epifania. Por
meio deste agradecimento deve chegar à maturação o novo fruto deste Dom, desta
Epifania; deve amadurecer nas almas das gerações que nascem, que
virão depois de nós; deve amadurecer por meio do serviço de cada um de nós, por
meio do teu Ministério, Francisco, novo Metropolita de Cracóvia.
Repitamos então
juntamente com o Profeta Isaías: Levanta-te (Jerusalém) ... brilha sobre ti a
glória do Senhor ... as nações caminharão à tua luz ... Levanta-te! Palpitará e
dilatar-se-á o teu coração!.
5. Levanta-te, Jerusalém! «Palpitará e dilatar-se-á o teu
coração». Recolhidos em companhia daqueles que vieram do Oriente, dos Reis Magos
— admiráveis testemunhas da fé em Deus encarnado — lá junto da manjedoira de
Belém, aonde nos dirigimos com o pensamento e o coração; encontramo-nos de novo
cá nesta Basílica. Aqui de modo especial se cumpriu, através dos séculos, a
profecia de Isaías. Daqui se difundiu a luz da fé por tantos homens e tantos
povos. De cá, através de Pedro e da sua Santa Sé, entrou e entra sempre uma
multidão inumerável nesta grande comunidade do Povo de Deus, na união da nova
Aliança, nos tabernáculos da nova Jerusalém.
E hoje que pode desejar mais o
Sucessor de Pedro a esta Basílica, a esta sua nova Cátedra, senão que ela sirva
a Epifania e que ela e por ela os homens de todos os tempos e do nosso tempo, os
homens provenientes do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, consigam chegar
a Belém, chegar a Cristo mediante a fé.
Então, portanto, mais uma vez tomo de
empréstimo as palavras de Isaías para formular os votos «Urbi et Orbi» e dizer:
«Levanta-te!
palpitará e dilatar-se-á o teu coração!».
Levanta-te e semeia a
força da tua fé! Cristo te ilumine continuamente! Caminhem a esta luz os homens
e os Povos!
Ámen.
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