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VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE FRASCATI (ITÁLIA)

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Praça da Catedral
Frascati, 8 de Setembro de 2009

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs

1. Com intensa alegria venho hoje à vossa cidade, que se orgulha com bom direito, não só de uma longa e gloriosa tradição histórica e artística, mas também das suas belezas naturais e da bem conhecida cortesia dos seus habitantes, de maneira que se tornou, de há séculos, lugar buscado e privilegiado para o repouso do espírito, e também do corpo.

Quero dirigir, primeiro que tudo, uma cordial saudação ao venerado Irmão o Cardeal Paolo Bertoli, Camerlengo da Santa Igreja Romana, que tem particulares laços de afecto convosco, pois lhe está confiado o Título da Igreja Suburbicária de Frascati; uma saudação afectuosa ao vosso zeloso Pastor, Dom Luigi Liverzani, que houve por bem convidar-me para esta celebração; e também ao Senhor Presidente da Câmara, que teve nobres expressões quanto à minha pessoa e ao meu serviço pastoral para a Igreja Universal.

Nem posso esquecer, nesta alegre e significativa circunstância, os sacerdotes, os religiosos, as religiosas, os pais e as mães de família, os operários, os artesãos, os profissionais, os jovens, as jovens, os meninos, as crianças e, em particular, os pobres e os doentes.

A todos a minha saudação sincera.

Alguns de vós recordar-se-ão da visita que fez a esta cidade, há 17 anos, no domingo 1° de Setembro de 1963, o meu venerado Predecessor Paulo VI; veio aqui sobretudo para falar-vos de um Santo, tão caro ao vosso coração, São Vicente Pallotti, que nesta cidade celebrou a primeira Missa e escreveu as regras da sua benemérita Instituição.

Mas, ao mesmo tempo, o meu pensamento vela-se de tristeza ao recordar as pobres vítimas daquele triste e tremendo bombardeamento de 8 de Setembro de 1943, que atingiu e destruiu a vossa cidade, dando esta o seu contributo de dor, de lágrimas e de sangue ao trágico drama do segundo conflito mundial.

Ao recordarmos estes tristes acontecimentos, que pertencem agora à história de Frascati, estamos aqui reunidos para proclamar a alegre mensagem da esperança cristã pois como ouvimos da Liturgia nós hoje celebramos "com alegria a Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria: dela nasceu o sol da justiça, Cristo, nosso Deus".

Esta festividade mariana é toda um convite à alegria, exactamente porque, com o nascimento de Maria Santíssima, Deus deu ao mundo quase a garantia concreta de a salvação estar já iminente: a humanidade — que havia milénios, em formas mais ou menos conscientes, esperara alguma coisa ou alguém que a pudesse libertar da dor, do mal, da angústia e do desespero, e que no Povo eleito encontrara, especialmente nos Profetas, os porta-vozes da Palavra de Deus, pacificante e consoladora — podia finalmente olhar, comovida e vacilante, para Maria "Criancinha", que era o ponto de convergência e de chegada de um conjunto de promessas divinas, que tinham encontrado eco misteriosamente no coração mesmo da história.

É exactamente esta Criancinha, ainda pequenina e frágil, a "Mulher" do primeiro anúncio da Redenção futura, contraposta por Deus à serpente tentadora: "Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a sua descendência e a dela. Esta esmargar-te-á a cabeça ao tentares mordê-la no calcanhar" (Gén 3, 15).

É precisamente esta Criancinha a "Virgem" que "conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado Emanuel, que significa Deus connosco" (cf. Is  7, 14; Mt 1, 23).

É precisamente esta Criancinha a "Mãe" que dará à luz em Belém "aquele que deve ser o dominador de Israel" (cf. Miq. 5, 1 s.).

A Liturgia hodierna aplica a Maria, ao nascer, a passagem da Carta aos Romanos, em que São Paulo descreve o plano misericordioso de Deus relativamente aos eleitos: Maria é predestinada pela Trindade para uma altíssima missão; é chamada; é santificada; e é glorificada.

Deus predestinou-a para ser intimamente associada à vida e à obra do Seu Filho unigénito. Por isso a santificou, de maneira admirável e singular, desde o primeiro momento da sua conceição, constituindo-a "cheia de graça" (cf. Lc 1, 28); tornou-a conforme à imagem do Seu Filho: conformidade que, podemos dizer, foi única, porque Maria foi a primeira e a mais perfeita discípula do Filho.

O desígnio de Deus em Maria culminou depois naquela glorificação, que tornou o seu corpo mortal, conforme ao corpo glorioso de Jesus ressuscitado; a assunção de Maria ao céu, em alma e corpo, representa como que a última etapa da vida desta Criatura, na qual o Pai celeste manifestou, de maneira exaltante, a Sua divina complacência.

A Igreja toda, portanto, não pode hoje deixar de alegrar-se ao celebrar a Natividade da Maria Santíssima, que — segundo afirma com tons comovidos São João Damasceno — é aquela "porta virginal e divina, da qual e através da qual, Deus, que está acima de todas as coisas, está para fazer o Seu ingresso na terra corporalmente... Hoje brotou um rebento do tronco de Jessé, do qual nascerá para o mundo uma Flor substancialmente unida à divindade. Hoje, sobre a terra, da natureza terrestre, Aquele — que em tempos separou o firmamento e as águas e o elevou ao alto — criou um céu, e este céu é divinamente muito mais esplêndido que o primeiro" (Homilia sobre a Natividade de Maria: PG 96, 661 s.).

3. Olharmos para Maria significa copiarmo-nos num modelo que o próprio Deus nos deu para a nossa elevação e nossa santificação.

E Maria hoje ensina-nos, primeiro que tudo, a conservar intacta a fé em Deus, aquela fé que nos foi dada no Baptismo, e deve continuamente crescer e chegar à maturidade em nós, nas várias etapas da nossa vida cristã. Comentando as palavras de São Lucas (Lc 2,19), Santo Ambrósio assim se exprime: "Reconheçamos em tudo o pudor da Virgem Santa, que, intemerata no corpo não menos que nas palavras, meditava no seu coração os argumentos da fé" (Expos. Evang. sec. Lucam, II, 54: CCL, XIV, p. 54). Também nós, Irmãos e Irmãs caríssimos, devemos continuamente meditar no nosso coração "os argumentos da fé", isto é, devemos. estar abertos e disponíveis à Palavra de Deus, para fazer que a nossa vida quotidiana — a nível pessoal, familiar e profissional — esteja sempre em perfeita sintonia e em harmoniosa coerência com a mensagem de Jesus, com o ensinamento da Igreja e com os exemplos dos Santos.

Maria, a Virgem-Mãe, reafirma hoje, a nós todos, o valor altíssimo da maternidade, glória e alegria da mulher, e também o da virgindade cristã, professada e acolhida "em vista do Reino dos Céus" (cf. Mt 19, 12), isto é como um testemunho, neste mundo caduco, daquele mundo final, em que os salvos serão "como os anjos de Deus" (cf. Mt 22, 30).

4. A hodierna festividade sugere-nos ainda outro ponto para a nossa reflexão, ligado com um acontecimento eclesial de particular importância, que interessará por vários meses a diocese de Frascati. No ano próximo celebrareis solenemente o terceiro centenário da consagração da vossa artística Catedral, isto é do Templo principal, o mais importante da diocese.

Mas o templo de pedras leva-nos a um Tabernáculo vivo, ao verdadeiro Templo santo do Altíssimo, qual foi Maria, que no seu ventre virginal concebeu e gerou, por obra do Espírito Santo, o Verbo encarnado. E, segundo a Palavra de Deus, cada cristão, mediante o Baptismo, torna-se templo de Deus (1 Cor 3, 16.17; 2 Cor 6, 16); é uma pedra viva para a construção de um edifício espiritual (cf. 1 Ped 2, 5), isto é, deve, com a sua exemplar vida cristã, contribuir para o crescimento e para a edificação da Igreja, Corpo místico de Cristo, Povo de Deus e Família de Deus.

O próximo terceiro centenário da consagração da vossa Catedral deve incitar-vos e empenhar-vos, Irmãos e Filhos caríssimos, a um testemunho de vida cristã cada vez mais concreto, constante e generoso, em filial união com os vossos Pastores. As minhas palavras de exortação dirigem-se, em primeiro lugar, aos sacerdotes e religiosos, que escolheram uma vida de completa doação e dedicação para dilatarem o Reino de Deus. Mas nesta circunstância dirijo-me, de modo particularíssimo aos Leigos — isto é, aos homens, às mulheres, pais e mães, profissionais, operários, jovens, meninas e estudantes recordando as palavras, que há 17 anos dirigia precisamente a vós, fiéis de Frascati, Paulo VI, falando da maturação da consciência do laicado católico quanto ao apostolado. Esta consciência —  afirmava ele —  "não é dada... só pela necessidade de alongar os braços do Sacerdote que não chega a todos os ambientes e não consegue suportar todas as fadigas. É dada por alguma coisa mais profunda e mais essencial, isto é pelo facto de que também o laicado é cristão. Do interior da sua consciência ressoa uma voz: Se sou cristão, não devo ser elemento negativo, passivo e neutro, e talvez adversário, da onda de espírito que põe nas almas o Cristianismo" (Insegnamenti di Paolo VI, I [1963], p. 570).

Criando eco a estas palavras do meu grande Predecessor, eu digo-vos, fiéis de Frascati: Cristo Cabeça tem necessidade de vós, porque vós sois os Seus membros. A Igreja precisa de vós, porque a formais. Não vos deixeis desanimar pelas dificuldades nem, menos ainda, fascinar ou intimidar por concepções ou ideologias em contraste com a mensagem cristã. "Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé" (1 Jo 5,4),assegura-nos São João Evangelista; esta fé seja sempre sólida, profunda, simples, operosa e dinâmica.

Ó Virgem nascente,
esperança e aurora de salvação para o mundo inteiro, / volve benigna o teu olhar materno para nós todos, / aqui reunidos para celebrar e proclamar as tuas glórias.

Ó Virgem fiel,
que sempre estiveste pronta e solicita para acolher, conservar e meditar a Palavra de Deus, / faz que também nós, no meio das dramáticas alternativas da história, saibamos manter sempre intacta a nossa fé cristã, / tesouro que nos foi transmitido pelos Antepassados.

Ó Virgem poderosa,
que esmagas com o teu pé a cabeça da serpente tentadora, / faz que, dia após dia, cumpramos as nossas promessas baptismais, renunciando a Satanás, às suas obras e às suas seduções, / e saibamos dar ao mundo alegre testemunho da esperança cristã.

Ó Virgem clemente,
que sempre abriste o teu coração maternal às invocações da humanidade, às vezes dividida pelo desamor e também, infelizmente, pelo ódio e pela guerra, faz que saibamos sempre crescer todas, segundo o ensinamento do teu Filho, na unidade e na paz, para sermos dignos filhos do único Pai celestial.

Amém!

 

© Copyright 1980 - Libreria Editrice Vaticana

 

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