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VIAGEM APOSTÓLICA DO SANTO PADRE
À REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA
(15-18 DE NOVEMBRO DE 1980)

SANTA MISSA AOS OPERÁRIOS NA CIDADE DE MAGÚNCIA

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Base Aérea de Finthen
Domingo, 16 de Novembro de 1980

 

Caros irmãos e irmãs!

1. "Graça e paz vos sejam dadas da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo" (Flp 1, 2). Com este voto de bênção do apóstolo saúdo todos vós de coração. A minha fraterna saudação é para o venerado Bispo da Diocese de Mogúncia, o Senhor Cardeal Hermann Volk, e para os Bispos e Sacerdotes aqui presentes: de, modo particular, porém, hoje. é para vós, caros operários e operárias católicos de perto e de longe.

A liturgia do domingo hodierno, a palavra de Deus, que escutámos com íntimo recolhimento, dispõe-nos de maneira particular a enfrentar importantes temas, propostos pela vossa presença e pelas palavras de saudação que me foram dirigidas no início.

O encontro com o mundo do trabalho, que me foi proporcionado em Mogúncia, junto do túmulo de um grande pioneiro e apóstolo da questão social no século passado, isto é do Bispo de Mogúncia Guilherme Manuel von Ketteler, traz-me recordações vividas, de uma série de encontros semelhantes, no tempo do meu serviço na Sé de São Pedro (Guadalajara e Monterrey, no México; o encontro em Jasna Gora, na Polónia, com a grande massa de mineiros e metalúrgicos da Silésia; Limerick, na Irlanda; Des Moines, nos Estados Unidos; em Turim, a maior cidade industrial da Itália; em Saint Denis, no âmbito de Paris; e finalmente em São Paulo, no Brasil). São sempre encontros de conteúdo particularmente importante não só do ponto de vista social, mas também evangélico. O problema do trabalho humano deve colocar-se no centro daquele pacto, que o Criador realizou com o homem, feito à sua imagem e semelhança, e que ele reafirmou e renovou em Jesus Cristo, que ele próprio viveu por muitos anos, numa oficina em Nazaré.

Por conseguinte, não é para admirar que a questão social, ligada como ao fundamento com a realidade do trabalho humano, tome lugar central nas declarações do magistério eclesiástico. Ela pertence irrenunciavelmente ao anúncio do Evangelho, de modo especial no mundo presente.

Se por isso enfrentamos o tema de hoje, queremos seguir a voz da liturgia, que nos coloca na presença do Senhor que se aproxima / Porque vem para julgar a terra. / Julgará o mundo com justiça / e os povos, segundo a Sua fidelidade" (Sl 95 [96], 13).

A configuração da justiça humana e a medida que deve ser aplicada a toda a questão social, ainda sempre em expansão, devem ser vistas a partir da perspectiva definitiva da justiça de Deus mesmo. A liturgia deste domingo, penúltimo do Ano litúrgico, é-nos de muito auxilio.

2. Na leitura da segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses o tema do trabalho humano é tratado de maneira completamente aberta e muito directa em base à experiência pessoal do Apóstolo: "Não temos vindo vivido entre vós desregradamente, nem temos comido de graça o pão de ninguém; com trabalho e fadiga labutámos noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos esse direito, mas para vos oferecer em nós mesmos um modelo a imitar" (2 Tess 3, 7-9).

Paulo de Tarso unia a sua missão e o seu serviço apostólico com o trabalho, com o trabalho de artesão. Como Cristo uniu o trabalho da sua redenção com o trabalho na oficina de Nazaré, também Paulo uniu o apostolado com o trabalho das suas mãos. Seja isto um apelo para muitos entre vós, aliás para todos, um apelo para todo o mundo cristão do trabalho: vede o problema do trabalho na dimensão da obra de redenção e uni o trabalho com o apostolado! A Igreja do nosso tempo tem necessidade de modo particular deste apostolado do trabalho: do apostolado dos trabalhadores e do apostolado entre os trabalhadores, para iluminar com a luz do Evangelho este vasto sector da vida. Precisamente como fez o Bispo Ketteler! Sobre o trabalho do homem deve resplandecer a luz da verdade e do amor de Deus! Ela não deve ser velada pelas. sombras da injustiça, da exploração, do ódio e da humilhação do homem!

A este apostolado compete grande tarefa na pastoral dos trabalhadores nas dioceses e nas comunidades como também para a eficiência das vossas associações, que se dedicam sobretudo ao mundo do trabalho. Evidentemente, os trabalhadores sentem mais do que os outros o efeito deletério de um intimo isolamento, com todos os prejuízos que daí derivam para a fé. Desejo chamar a novos e mais enérgicos esforços em particular as vossas associações, que já conquistaram, por diversos motivos, méritos históricos, particularmente o movimento católico dos dadores de trabalho, a juventude operária cristã e a Obra de Kolping — por amor dos homens criados por Deus e remidos por Cristo.

3. Na segunda Carta aos Tessalonicenses lemos: "A estas ordenamos e exortamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, a que trabalhem pacificamente para comerem o pão que eles mesmos tiverem ganho" (3, 12). Pouco antes o Apóstolo exprimira o mesmo pensamento de maneira muito lapidar: "Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer" (ibidem, 3, 10).

Estas claras palavras, lidas no contexto do desenvolvimento hodierno da questão social, levam-nos a recordar os princípios da doutrina social católica. Eles foram expostos, depois da Encíclica Rerum Novarum emanada pelo meu venerado predecessor Leão XIII, no ano de 1891, em inúmeras declarações do magistério eclesiástico, especialmente do Concílio Vaticano II, com cuidado pastoral profundamente sentido; foram explicados em numerosas obras por muitos estudiosos católicos, especialmente de língua alemã, e comunicados ao povo cristão operário pelo multíplice esforço de zelantes pastores de almas e de leigos responsáveis. Não deixeis esmorecer deploravelmente esta herança espiritual de crentes precursores no campo da questão social; deixai, pelo contrário, que ela traga frutos concretos para os problemas, velhos e novos, que vos preocupam.

No centro de todas as reflexões sobre o mundo do trabalho e sabre a economia deve estar sempre o homem. Não obstante as leis próprias da economia, deve ser sempre decisivo o respeito pela dignidade intangível do homem, não só de cada trabalhador, mas também da sua família, não só dos homens de hoje, mas também das futuras gerações.

Deste princípio, que exige, ainda mais que no passado, uma mudança , de pensamento, desce também a luz sobre a compreensão dos problemas no vosso país, que aqui posso recordar apenas brevemente, mas que me estão muito presentes.

Penso, por exemplo, naqueles cujo lugar de trabalho é periclitante ou que o perderam. Uma reestruturação dos grupos pode revelar-se, após uma prova muito cuidadosa, necessária; e quanto mais se vê serenamente tanto melhor é. Nunca, porém, devem ser os trabalhadores, que por muitos anos deram o melhor de si mesmos únicos a sofrer-lhe as consequéncias! Sede solidários com eles e ajudai-os a encontrarem de novo um trabalho qualificante. Já destes encorajantes exemplos disto.

Penso nos trabalhadores que chamastes de outros países e que juntamente convosco criaram aquilo de que hoje usufruís. Nos problemas que surgiram, o vosso sentido de responsabilidade encontrará soluções, que não ofendam a sensibilidade humana dos mesmos e venham ao encontro do bem espiritual das suas famílias.

Problemas ulteriores e ainda mais profundos derivam do nosso impacto cada vez mais frequente contra os limites do progresso económico. Embora não o queiramos, o progresso constringe-nos a afastarmo-nos das nossas pretenções e a renunciar a alguma coisa, para compartilhar pacificamente os bens limitados com o maior número possível de homens. Se o clima social começa a irrigidir-se, os sucessivos progressos de transformação são superáveis apenas objectivamente e em colaboração solidária entre todos.

4. Na consideração destes importantes problemas relativos à justiça e a um vasto bem-estar social, não podemos nunca fechar-nos dentro dos confins de um país, de uma comunidade de países ou mesmo de um continente. A questão social tem hoje dimensão humana, de natureza mundial. Isto emerge claramente das declarações do magistério dos últimos Papas (Mater et Magistra, Populorum Progressio) e do Concílio Vaticano II. Se é frequente dizer-se que sob este ponto de vista há uma tensão entre ocidente e oriente, não é menos significativa a tensão entre norte e sul. Por "norte" entende-se a zona dos países ricos, que vivem numa certa abundância. O "sul", especialmente o chamado Terceiro Mundo, designa aquela faixa de países cujas populações, sob o ponto de vista económico, não raro são subdesenvolvidas, conduzem vida mísera, e estão mesmo expostas a duríssima fome, até ao ponto de morrerem.

Como cidadãos tendes o dever de criar um clima político, que ponha o Estado em condições, sobretudo os Estados ricos, de prestarem auxílios eficientes para o desenvolvimento em todas as formas necessárias aos países desprovidos e não raro explorados.

Como católicos há muitos anos que, nas vossas instituições sociais, começastes a compreender de modo exemplar e em medida crescente, a vossa co-responsabilidade em dimensões mundiais. Não desistais dos vossos esforços! Abri ainda mais profundamente o vosso coração às necessidades às vezes desesperadoras daqueles países! Como supremo Pastor da Igreja, sobre cujos ombros pesa uma responsabilidade imediata também por aqueles países, desejo nesta ocasião agradecer-vos muito cordialmente também em nome daqueles pobres e pobríssimos, pelos vossos esforços e sacrifícios. De modo particular agradeço a todos os fiéis do vosso País, o último sinal de solidariedade tão cordial, isto é a colecta realizada por ocasião da minha visita pastoral, para aliviar da miséria a região do Sahel, na Africa Central.

Esta dimensão mundial da questão social é um apelo à nossa consciência humana e cristã; ela caracterizará cada vez mais o último quartel deste século. A busca de soluções por parte de todos os homens de boa vontade e o apostolado de todos os cristãos devem crescer em medida cada vez maior nesta dimensão mundial. Em nome do Evangelho! E juntamente em nome da solidariedade humana!

5. O problema social na sua hodierna dimensão histórica, para cada povo e para toda a humanidade está intimamente ligado à tarefa central de assegurar a paz no mundo. "Justitia et Pax", Justiça e paz! como aqui uma dependente da outra: mostrou-no-lo o Papa João XXIII na sua Encíclica Pacem in terris. Devemos pensar novamente nela, quando a liturgia nos recorda as palavras de Cristo sobre "guerras e revoluções": "Erguer-se-á povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terremotos e, em vários lugares, fomes e epidemias; haverá fenómenos apavorantes e grandes sinais no céu" (Lc 21, 10 ss.).

Estas palavras derivam do discurso "escatológico" segundo Lucas. Cristo enumera os diversos sinais para o "desaparecimento do mundo no sofrimento"; eles repetem-se continuamente na história. Por isso acrescenta: "Quando ouvirdes falar de guerras, e revoltas, não vos alarmeis; é preciso que estas coisas sucedam primeiro, mas não será logo o fim" (Lc 21, 9).

Recordamo-nos ainda com clareza da horrível atrocidade da segunda guerra mundial, especialmente nós, filhos e filhas dos povos europeus. Recordamo-nos daquele tempo de tremendas destruições e sofrimentos indescritíveis, da devastação e do desprezo do homem. Isto não deve nunca repetir-se nas gerações dos nossos filhos e netos, nunca mais entre os homens, nem no nosso continente nem noutros lados.

Queremos pedir incessantemente a Deus que esta espantosa lição da história inculque em todo o mundo o respeito dos direitos de cada homem e de cada povo. Como isto é importante no nosso velho continente! A preocupação pela paz não deve nunca faltar no cumprimento do nosso mandato cristão; não pode nunca faltar nos esforços de todos os homens de boa vontade, especialmente daqueles que nisto têm particulares responsabilidades.

Esperamos que a preocupação pela paz leve todos os responsáveis a procurarem um diálogo continuo sobre os diversos problemas — por muito graves e complexos que possam ser — e assim reforçarem cada vez mais, dia após dia, a tão desejada paz. Como não poderíamos deixar de desejar contemporaneamente que também o encontro de Madrid, sobre a segurança e a colaboração na Europa, possa contribuir para reforçar a paz no pleno respeito dos direitos de cada homem e de cada povo, incluída a liberdade religiosa, na base dos princípios reconhecidos no Acto final de Helsínquia.

Oxalá a eficiente aplicação deste autorizado princípio dos direitos do homem e dos direitos de cada povo afaste da vida da humanidade toda a forma de imperialismo, agressão, domínio, exploração e colonialismo! Digo isto como filho de uma Nação que no decurso dos séculos muito sofreu e é constrangida a defender com grande determinação estes direitos do homem e do povo.

Sobre isto ouvi o grito de bênção da liturgia hodierna, com as palavras do profeta Malaquias: "levantar-se-á o sol da justiça", que trará para todos a salvação sob os seus raios! (cf. 4, 21).

6. No Evangelho hodierno Cristo diz também: "Tomai cuidado em não vos deixardes enganar, pois muitos virão com o Meu nome dizendo 'Sou eu', e ainda: 'o tempo está próximo'. Não os sigais" (Lc 21, 8).

Caros irmãos e irmãs! Pedimo-vos: permanecei firmes, irremovíveis na verdade do Evangelho! Percorrei sob a sua luz os caminhos da justiça e da paz! Ninguém nos deve enganar!

Cristo diz ainda: "Deitar-vos-ão as mãos e perseguir-vos-ão, entregando-vos às sinagogas e metendo-vos nas prisões; conduzir-vos-ão perante reis e governadores por causa do Meu nome" (Lc 21, 12).

Caros irmãos e irmãs! Rezemos por todos os homens do mundo! Rezemos particularmente pelos nossos irmãos na fé, cujos direitos sejam violados! Rezemos por aqueles que sofrem opressões, aos quais é negado aquilo que deriva do princípio da liberdade de consciência e de religião, qualquer que seja o modo em que isto se verifica no mundo.

Cristo diz, por fim: "Gravai, pois, no vosso coração, que não vos deveis preocupar com a vossa defesa porque Eu próprio vos darei palavras de sabedoria, a que não poderão resistir ou contradizer os vossos adversários. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Hão-de causar a morte a alguns de vós e sereis odiados por todos, por causa do Meu nome. Mas nem um só cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa constância é que salvareis as vossas almas" (Lc 21, 14-19).

Caros irmãos e irmãs! Nós pensamos em todos aqueles, também compatriotas vossos, que foram fiéis a esta palavra do nosso Redentor e Mestre de maneira heróica! Rezemos por que todos nós permaneçamos fiéis! Rezemos ao Senhor que nos dê sempre o seu espírito de força, especialmente nas horas e nos tempos de provação! E que nós, dia a dia, demos testemunho d'Ele!

7. Cristo diz: "isto proporcionar-vos-á ocasião de dar testemunho" (Lc 21, 13). Agradeçamos-lhe estas palavras. Agradeçamos-lhe esta extraordinária ocasião de poder dar testemunho de um Evangelho de paz e de justiça, aqui em Mogúncia, junto do túmulo do grande pioneiro e apóstolo deste Evangelho, do Bispo Guilherme Manuel von Ketteler. Para todos vós, que honrais o nome do Senhor, levante-se sempre o sol da justiça e com os seus raios venha a vós a salvação. Amém.

(Em inglês)

Nesta feliz ocasião desejo dirigir uma palavra de bons votos e gratidão aos membros da comunidade americana hoje aqui presentes. O vosso contributo na preparação deste encontro é profundamente apreciado. Peço ao Espírito de Deus vos dar em abundância a justiça, a paz e a alegria que constituem o reino de Deus. E por nosso lado, caros irmãos e irmãs, permiti que vos exortemos com as palavras de São: Paulo: "procuremos o que interessa à paz e à mútua edificação" (Rom 14, 19). Habite sempre o amor de Deus nos vossos corações.

 

© Copyright 1980 - Libreria Editrice Vaticana

 

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