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VIAGEM APOSTÓLICA DO SANTO PADRE
À REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA
(15-18 DE NOVEMBRO DE 1980)

CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA EM OSNABRÜCK

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Estádio Illos Höhe
Domingo, 16 de Novembro de 1980

 

Veneráveis Irmãos
Caros irmãos e irmãs no Senhor!

1. Quando o evangelista João, em base aos seus relacionamentos familiares com o Seu Mestre e ao profundo conhecimento do coração cheio de amor por Jesus, escreveu as palavras do Evangelho de hoje, a oração da despedida do Senhor, tinha diante de si as primeiras comunidades cristãs: só difícil e lentamente se tinham formado, primeiro na Palestina, em seguida após a primeira perseguição e fuga, em Antioquia e de lá, sob o impulso missionário de São Paulo também na Ásia Menor e na Grécia, e finalmente em Roma. Mas a consistência delas permanecia sempre um tanto pequena e exposta a perigos; estas comunidades viviam como minoria entre a enorme maioria dos pagãos dó império romano.

O evangelista quer confortar e corroborar estes cristãos escrevendo-lhes como Jesus Cristo rezou precisamente por eles: Jesus revelou-lhes o "Nome" de Deus; :manifestou-lhes a Sua "Glória"; neles deve permanecer o "Amor", que subsiste entre Deus Pai e o Filho; eles devem "ser perfeitos na unidade", como o é Jesus com o Pai. Palavras cheias de conforto e de íntimo fortalecimento para uma vida difícil na "dispersão", na "diáspora"!

Meus irmãos e irmãs! Hoje trago a todos vós este Evangelho, esta alegre mensagem, esta eficaz oração de Jesus: ela vale para vós, fiéis desta antiga e veneranda Diocese, que há pouco celebrou o 12° centenário da sua erecção; e vale para todos os católicos da diáspora na Alemanha do norte e na Escandinávia, aos quais de modo especial desejaria dirigir-me desta cidade de Osnabruque, sede da Diocese mais ao norte do País.

Saúdo com particular alegria os Bispos aqui presentes, desta Diocese e daquelas vizinhas, especialmente de Berlim e da Escandinávia, e também os sacerdotes e os fiéis das regiões e dos Países da diáspora. O Supremo Pastor da Igreja, que vive unida entre muitos povos, veio a vós para juntamente convosco agradecer a Deus a coragem da vossa fé e também para vos confirmar na fé, a fim de que continueis a ser testemunhas vivas da nossa redenção em Cristo.

2. A situação da fé dos católicos nesta vastíssima diáspora é muito diversificada e difícil. Isto, precisamente nas dioceses da Alemanha do norte, está ainda caracterizado de maneira decisiva pela singular situação histórica. No fim da guerra centenas de milhares de pessoas, entre as quais muitos católicos, tiveram que deixar a sua Pátria, emigrar e estabelecer a própria residência nos vastos territórios dessas dioceses, que antes tiveram população exclusivamente evangélica. Juntamente com a pequena bagagem, que constituía tudo quanto de material possuíam, levaram consigo, Como preciosa pertença, sobretudo a sua fé, muitas vezes simbolizada apenas no pequeno livro de orações da antiga Pátria. Muitos de vós, caros irmãos e irmãs na fé, ainda se recordam como então tiveram que procurar uma nova habitação, esforçar-se por estarem providos para as mais indispensáveis necessidades da vida, e como, ao mesmo tempo, tiveram que fundar centenas de novas comunidades católicas. Sob a guia de bispos e de sacerdotes zelosos, construístes novas igrejas e erigistes novos altares. Embora sofrendo de indigência e vivendo em grande preocupação por vossas famílias, vós também vos empenhastes logo na realização da vida eclesial, enfrentando vários sacrifícios. Revelastes assim ao mundo inteiro que permaneceis salvos na fé; nem vos deixastes abater pela cruz imposta; antes, pudestes até transformar o sofrimento em bênçãos e a discórdia em reconciliação. Nós devemos ser muito agradecidos a todos vós por este exemplo de constância na fé.

No olhar retrospectivo para o desenvolvimento da vida eclesial naqueles anos difíceis, recordamos igualmente, com gratidão, as muitas comunidades evangélicas deste País, as quais durante muito tempo colocaram as suas igrejas à disposição também dos católicos, facilitando aos pastores reunirem de novo o rebanho disperso.

3. Em verdade, esses tempos difíceis causaram dolorosas feridas; mas o Senhor cuidou e ajudou. Parece justo lembrar isto, precisamente hoje, porque o vosso País recorda com um "dia de luto nacional" os inumeráveis mortos da última guerra. Mas o mesmo Senhor Jesus Cristo, que vos assistiu ontem com o Seu apoio consolador, concederá também hoje e no futuro a força do Seu amor, para que permaneçais testemunhas críveis da Sua mensagem de libertação, no meio das provações do tempo presente.

Assim — conforme as palavras da segunda Leitura da hodierna celebração litúrgica, tirada da primeira Carta de Pedro, tendes até bons motivos para "rejubilar, se bem que sejam ainda necessárias, por algum tempo, diversas provações, para que a prova a que é submetida a vossa fé, muito mais preciosa que o ouro perecível, o qual se prova pelo fogo, seja digna de louvor, de glória e de honra quando Jesus Cristo se manifestar" (1 Ped 1, 6-7). A prova da vossa fé: esta é a vossa hora! Uma fé íntima, amadurecida e consciente da própria responsabilidade: este pode ser o vosso dom à Igreja inteira! E assim podeis, vós mesmos, "obter como prémio da vossa fé, a vossa salvação" (v. 9), que será concedida "na manifestação de Jesus Cristo". "Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, crestes n'Ele" (v. 8). Mediante a Sua ressurreição dentre os mortos tendes "uma esperança viva para uma herança incorruptível, que não pode contaminar-se, e imarcescível; reservada nos céus para vós" (v. 3-4). É o próprio "poder de Deus a guardar-vos pela fé" (v. 5), se vós — podemos acrescentar — fizerdes quanto vos é possível para conservar viva e eficaz a vossa fé. A vossa situação de cristãos na diáspora constitui, por isso, um desafio singular.

Muito poucos dentre vós podem hoje manter-se na prática da própria fé, somente por um forte ambiente de crença. Devemos, portanto, decidir-nos conscientemente a querer ser cristãos praticantes, e a ter a coragem de nos distinguir, se necessário, do nosso ambiente. Pressuposto deste testemunho decisivo de vida cristã é perceber e compreender, da nossa parte, a fé como uma preciosa ocasião da vida, que transcende as interpretações e os costumes do ambiente. Devemos aproveitar toda a oportunidade para experimentar com a fé enriquece a nossa existência, causa em nós autêntica fidelidade na luta pela vida, corrobora a nossa esperança contra os ataques de toda a espécie de pessimismo e de desespero, nos estimula a evitarmos todo o extremismo e a comprometermo-nos com critério pela justiça e pela paz no mundo; ela pode, enfim, consolar-nos e amparar-nos no sofrimento. Tarefa e oportunidade da situação de diáspora é, por conseguinte, experimentar mais conscientemente como a fé ajuda a viver de maneira mais plena e profunda.

4. Ninguém pode ter fé só para si. O Senhor chamou os seus discípulos para uma comunhão, para serem Povo de Deus em peregrinação, para a Igreja, que age como um corpo com a sua força total. Onde muitos fiéis se reúnem para a profissão de fé, celebração, oração ou acção em comum, ali vem o Senhor ao encontro deles: "Pois onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles" (Mt 18, 20). Ao querer o Senhor, com estas palavras, referir-se precisamente a uma situação de diáspora, não fala nem de mil, nem de cem ou de dez, mas de "dois ou três". Já aqui o Senhor nos promete a Sua presença corroborante!

As vossas dioceses e comunidades paroquiais oferecem além disso múltiplas possibilidades de encontros, não.só com um ou dois crentes da mesma fé cristã, mas com todas as comunidades e grupos. Neste momento, como Pastor supremo da Igreja, desejaria agradecer cordialmente a todos os sacerdotes e aos seus colaboradores leigos que, não obstante as grandes dificuldades, se comprometem incansável e muito zelosamente por uma vida comunitária activa e eficiente. Ao mesmo tempo, convido todos os crentes a aproveitarem toda a ocasião que se apresente, para melhorar a sua fé e o seu futuro. Sede particularmente fiéis e constantes na participação na Santa Missa, domingo ou sábado à tarde.

E onde não é possível assistir à celebração eucarística dominical devido às grandes distâncias, tomai parta ao menos na liturgia da Palavra, com a eventual distribuição da Santa Comunhão! "Onde estivermos reunidos no nome do Senhor, ali Ele estará presente no meio de nós".

5. Mas desejaria sobretudo encorajar-vos a procurardes e aprofundardes, na fé sincera, o contacto com os vossos irmãos evangélicos. O movimento ecuménico dos últimos decénios fez-vos ver claramente quanto os cristãos evangélicos estão unidos a vós nas suas preocupações e alegrias, e quanto tendes em comum com eles, lá onde vós e eles viveis de maneira sincera e consequente à fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Agradeçamos, portanto, de todo o coração a Deus que as diversas comunidades eclesiais nas vossas regiões não se opõem e muito menos se fecham entre si com medo. Antes, fizestes já muitas vezes a feliz experiência de que a mútua compreensão e aceitação eram particularmente fáceis, quando ambas as partes conheciam bem a própria fé, a professavam com alegria e estimavam a comunhão concreta com os próprios irmãos de fé. Desejaria encorajar-vos a prosseguirdes neste caminho.

Vivei a vossa fé como católicos, reconhecidos a Deus e à vossa comunidade eclesial; dai, com toda a humildade e sem alguma autocomplacência, um testemunho acreditável dos valores íntimos da vossa fé, e encorajai também, de maneira oportuna e amável, os vossos irmãos evangélicos a testemunharem própria fé, a corroborarem e aprofundarem em Cristo as suas diversas formas de vida religiosa. Se todas as igrejas e comunidades crescerem verdadeiramente na plenitude do Senhor, com certeza o Seu Espírito indicar-nos-á o caminho para alcançarmos a plena unidade interna e externa da Igreja.

Jesus mesmo rezou pela perfeita unidade dos seus: "Para que todos sejam um só; como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que também eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste" (Jo 17, 21). Acabamos de ouvir isto ainda agora no Evangelho. E mais uma vez Jesus reza com insistência ao Seu divino Pai: "Dei-lhes a glória que Tu Me deste para que sejam um como Nós somos Um. Eu neles e Tu em Mim, para que eles sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que Tu Me enviaste e os amaste como Me amaste a Mim" (Jo 17, 22-23).

Esta oração pela unidade deve, precisamente por vontade de Cristo, vale também para todos aqueles cristãos que se sustêm e confirmam reciprocamente na fé: "Não rogo somente por estes reza ainda Jesus mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão-de crer em Mim" (v. 20). Podemos, então, esperar com confiança que todos os diálogos ecuménicos, todas as preces e acções comuns de cristãos de diferentes confissões, estejam já incluídos nesta afectuosa oração de Jesus: "Para que sejam um só; como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que também eles estejam em Nós". Desta unidade depende a credibilidade da mensagem da redenção pela morte e ressurreição de Cristo: "para que o mundo creia que Tu Me envias-te" (v. 21). O Senhor coloca na mesma súplica uma condição: "Dei-lhes a conhecer o Teu nome e dá-lo-ei a conhecer, para que o amor com que Me amaste esteja neles e Eu esteja neles também" (v. 26). Rezaremos e agiremos de maneira verdadeiramente ecuménica "no nome de Jesus", só quando conservarmos o amor de Cristo entre nós e o colocarmos como base de todos os esforços por uma unidade mais profunda.

Tenho firme confiança de que esta oração do Filho de Deus, nosso Senhor e irmão, produzirá um dia o seu pleno fruto. Queremos pedir-Lhe que se realize quanto nos anunciou o profeta na primeira leitura de hoje:

"Assim diz o Senhor Deus: retirar-vos-ei dentre as nações, recolher-vos-ei de todos os países e vos restabelecerei em vossa terra. Eu vos aspergirerei com águas puras, que vos justificarão... Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo... Dentro de vós meterei o Meu espírito, fazendo com que obedeçais às Minhas leis e sigais e observeis os Meus preceitos... sereis o Meu povo e Eu serei o vosso Deus" (Ex 36, 24-28).

6. Caros irmãos e irmãs! Vós viveis a vossa fé certamente em condições difíceis. Outras dioceses do vosso Pais, melhor situadas, estão porém unidas a vós com várias formas de solidariedade, sobretudo mediante a tão benemérita comprovada instituição da Obra de São Bonifácio. A ela associa-se a Obra de Santo Anscário, com a qual sustentais e assistis fraternalmente as dioceses da Escandinávia. No Reino de Deus nada perde quem sabe participar; pelo contrário, torna-se nesse caso verdadeiro discípulo de Cristo, que por nós se fez pobre, a fim de a todos enriquecer (cf. 2 Cor 8, 29). A existência do cristão na diáspora deve ser amparada pela consciência de pertencer a uma grande comunidade de homens, ao Povo de Deus reunido de todos os povos desta terra. Também na "dispersão" estais juntamente com os vossos sacerdotes e Bispos, unidos de múltiplas formas à Igreja de todo o vosso País e à Igreja universal. Por isso, considero acontecimento muito feliz poder, como Bispo de Roma, estar no meio de vós, no segundo dia da minha visita na Alemanha, precisamente nesta sede episcopal ligada até ao extremo norte da Europa, e celebrar convosco a Santa Eucaristia.

A Eucaristia significa acção de graças da comunidade crente no Senhor "em comunhão com toda a Igreja", como rezamos na primeira prece eucarística da Missa. Queremos hoje, com todos os que acreditam em Deus, agradecer-Lhe todos os dons com os quais confirmou e consolidou a vossa fé e o vosso amor à Igreja também nas circunstâncias difíceis e nos tempos de duras provações. A própria celebração da Missa é fonte inexaurível de força para a vida religiosa e para o fortalecimento de todos os cristãos na fé. Ela conserva e nutre a viva comunhão com o seu Corpo místico, que é a Igreja.

De modo semelhante, quando na Santa comunhão nos é repartido o pão e oferecido o Seu corpo, vivemos e realizamos de maneira clara e perceptível a mais íntima unidade com o corpo de Cristo, a comunhão de todos os crentes. Tomais hoje, em alegre acção de graças, nova consciência desta profunda e íntima unidade de toda a Igreja para além de todos os confins e barreiras humanas! Conservai esta consciência como precioso tesouro nas vossas comunidades, junto dos vossos vizinhos e nas vossas famílias! De facto, como crentes, não sois nunca "poucos", nunca estais "sós", mas sempre unidos com "os muitos", que no vasto mundo seguem convosco a Cristo na fé e na esperança, e testemunham o seu amor redentor. Ele é a força da nossa fé e o fundamento da nossa confiança. Ele vos abençoe, abençoe todas as vossas famílias e guie a vossa peregrinação de católicos até à sua meta eterna, definitiva reunião de todos os crentes da dispersão deste mundo, na única pátria do seu Reino eterno. Amém.

 

© Copyright 1980 - Libreria Editrice Vaticana

 

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