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VIAGEM APOSTÓLICA DO SANTO PADRE
À REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA
(15-18 DE NOVEMBRO DE 1980)

SANTA MISSA PARA OS JOVENS

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

"Theresienwiese" de Munique
Quarta-feira, 19 de Novembro de 1980

 

1. Quando Cristo fala do Reino de Deus serve-se muitas vezes de imagens e de parábolas. A sua imagem da "ceifa" da "grande ceifa", devia recordar a quem O escutava um acontecimento que se repetia cada ano, esperado com tanta ansiedade, com o qual se podia aprestar para recolher, com o duro trabalho de muitos homens e fadiga, os frutos produzidos pela terra.

Esta palavra — "ceifa" — ainda hoje faz o nosso pensamento tomar a mesma direcção, embora tenhamos diante de nós, habitantes de países altamente industrializados, uma imagem pouco clara do que a colheita dos frutos da terra significa para o agricultor e sobretudo para os homens.

Com a imagem do trigo, que é recolhido, Cristo quer referir-se ao crescimento e à maturação interior do homem.

O homem está unido à sua natureza e dela não pode separar-se. Ao mesmo tempo ele domina-a com todo o procedimento íntimo do próprio ser pessoal. Por isso a maturação humana é um tanto diferente da maturação dos produtos da terra. Para o homem não falamos somente de um crescimento corpóreo e espiritual. Para que o homem amadureça é necessário que amadureça juntamente com ele, sobretudo, a dimensão espiritual e religiosa do seu ser. Quando Cristo fala da "ceifa", quer dizer que o homem deve amadurecer em Deus e que, por conseguinte, em Deus mesmo, no Seu Reino, ele recolhe os frutos das suas lutas e da sua maturação.

Desejaria agora falar-vos, jovens homens de hoje, com seriedade, mas, ao mesmo tempo, com alegre esperança, desta verdade do Evangelho. Estais a atravessar um período particularmente importante e crítico da vossa vida, no qual se pode decidir muito ou quase tudo para o vosso ulterior desenvolvimento, para o vosso futuro.

Para a formação da própria personalidade, para a construção do homem interior, a consciência da verdade reveste uma importância determinante. O homem pode maturar verdadeiramente só à luz da verdade e na verdade. Aqui está o significado profundo de uma educação tão importante, que deve acompanhar todo o sistema escolar até à universidade. Esta educação, esta formação deve ajudar o jovem a aprender a conhecer e a compreender o mundo e a si mesmo; deve ajudá-lo a fazer com que aprenda tudo aquilo que leva a existência e o agir do homem no mundo a atingirem o seu pleno significado. Por causa disso, deve também ajudá-lo a aprender a conhecer Deus. O homem não pode viver, sem conhecer o significado da própria existência.

2. Esta busca, esta auto-orientação e esta maturação para a verdade plena e fundamental da realidade não é certamente fácil. Desde sempre foi necessário enfrentar muitas dificuldades. E precisamente a este problema parece querer referir-se São Paulo, quando escreve, na segunda carta aos Tessalonicenses: "Não vos deixeis facilmente abalar e aterrorizar... Que ninguém vos seduza, de maneira alguma" (2 Tess 2, 2-3). Estas palavras, dirigidas a uma jovem comunidade dos primeiros cristãos, devem ser hoje relidas à luz das diferentes condições da nossa civilização e cultura moderna. Assim, desejaria dizer-vos, jovens homens de hoje: "Não vos deixeis desanimar! Não vos façais enganar!

Sede reconhecidos, quando tendes bons pais, que vos encorajam e indicam o justo caminho. Talvez eles valham muito mais de quanto, à primeira vista, podeis reconhecer. Mas há muitos que sofrem por causa dos próprios pais, não se sentindo compreendidos, ou sem mais estão abandonados. Outros devem encontrar o caminho da fé sem ou até contra os próprios pais. Muitos, na escola sofrem por causa da "exigência de aproveitamento", como vós dizeis; muitos sofrem pelo relacionamento com os outros e pelas pressões no campo do trabalho; outros pela insegurança da perspectiva futura de uma ocupação. Com efeito, não causa medo o facto de que o desenvolvimento técnico destrói as condições naturais de vida do homem? E sobretudo: onde terminará este mundo, que está dividido em blocos militarizados, em povos ricos e pobres, em estados livres e totalitários? Neste ou em outro lugar da terra continuam a deflagrar guerras, causadoras de morte e de destruição entre os homens. E ainda em muitas partes da terra, de perto e de longe, actos de duras repressões e de sanguinoso terrorismo. Até mesmo no lugar onde agora celebramos a Eucaristia, devemos diante de Deus recordar as vítimas, que recentemente, perto desta grande praça, foram mortas ou feridas pela explosão de uma bomba. É difícil saber do que seja capaz o homem que vive a aberração do espírito e do coração.

É nestes pressupostos que baseamos o nosso apelo à mensagem da paz: "Não vos deixeis desanimar facilmente!". Todas estas misérias e dificuldades fazem parte daquelas resistências, das quais devemos aproximar-nos para provar o nosso amadurecimento à luz da verdade fundamental. Daqui nós encontramos também a força de trabalhar juntos para a construção de um mundo justo e humano; disto nos derivam a prontidão e a coragem e, em grande medida, também a responsabilidade de cuidarmos da vida da sociedade, do Estado e da Igreja. Em verdade, devemos também dizer que nos consola muito o facto de, apesar de tantas sombras e dificuldades, existir ainda tanto, tanto bem. E não quer dizer que falta, só porque dele o homem pouco fala. Muitas vezes é necessário descobrir e reconhecer todo o bem que age silenciosamente e que, talvez no futuro, será reconhecido na sua plenitude. Que fez, por exemplo, a Madre Teresa de Calcutá, no silêncio e na discrição, antes que o mundo, surpreso, desse conta dela e da sua obra? Por isso, não vos deixeis desanimar tão facilmente!

3. Não vos ocorre ver que, na vossa sociedade, ao vosso redor, muitos, que se dizem cristãos, tornaram incertos ou de todo perderam a orientação? E esta situação não age, talvez negativamente, sobretudo nos jovens? Não é evidente a grande tentação do abandono da fé, da qual fala o Apóstolo na sua carta?

A Palavra de Deus na liturgia de hoje dá-nos o pressentimento da amplitude do horizonte deste abandono da fé, assim como se manifesta neste século e aclara a sua dimensão.

São Paulo escreve: "O mistério da iniquidade já está em acção..." (2 Tess 2, 7). Não podemos dizer o mesmo do vosso tempo? O mistério da iniquidade, o abandono de Deus, segundo as palavras da carta de Paulo, tem estrutura interior e sequência bem definida: "... há-de manifestar-se o homem da iniquidade... aquele que se levanta contra tudo, o que leva o nome de Deus ou que se adora, a ponto de tomar lugar no templo de Deus e se apresentar como se fosse Deus" (2 Tess 2, 3-4). Encontramos também aqui uma estrutura da negação, da erradicação de Deus do coração dos homens e do abandono de Deus por parte da sociedade humana, e isto com o objectivo, como se diz, de uma plena "humanização" do homem, isto é, tornar o homem humano em sentido pleno e, de certo modo, colocá-lo no lugar de Deus; portanto, "deificá-1o". Esta estrutura, como se vê, é muito antiga e já conhecida desde as origens, desde o primeiro capítulo do Génesis: isto é, a tentação de conferir ao homem a "divindade" (da imagem e semelhança de Deus) do Criador, de tomar o lugar de Deus, com a "divinização" do homem, contra Deus — ou sem Deus, como é evidente pelas afirmações ateístas de muitos sistemas modernos.

Quem rejeita a verdade fundamental da realidade, quem se coloca a si mesmo como medida de todas as coisas, e deste modo se coloca no lugar de Deus, quem, mais ou menos conscientemente, pensa diminuir Deus, o Criador do mundo, ou Cristo, o Redentor da humanidade, quem, em vez de procurar Deus, corre atrás dos ídolos, sempre voltará as costas à única verdade suprema e fundamental.

Esta é a fuga da interioridade. Ela pode levar a render-se. "É tudo sem sentido". Se os jovens tivessem para com Jesus uma tal atitude, o mundo nunca teria nada a aprender da mensagem salvífica de Cristo. Esta fuga da interioridade pode assumir a forma de uma desesperada extensão do conhecimento. Há muitos Jovens entre vós que procuram destruir a própria humanidade refugiando-se no álcool e nas drogas. Frequentemente se trincheiram atrás do medo ou do desespero, muitas vezes, por isso também atrás da busca do prazer, da falta de força interior, ou da irresistível curiosidade de "experimentar" tudo. Ou também, a fuga da interioridade leva a associardes-vos em seitas religiosas, que se servem do vosso idealismo e da vossa ingenuidade e de vós tiram a liberdade de pensamento e da consciência. Refiro-me além disso à fuga para "as ilhas de felicidade" que, mediante determinadas práticas exteriores, garantem a conquista da verdadeira felicidade, e por fim deixam abandonado, quem nelas se refugia, a si mesmo e à própria indecisa solidão.

E depois, existe também uma fuga da verdade fundamental para o exterior, isto é, para utopias políticas e sociais, para alguma visão ideal da sociedade. Os ideais e a necessidade de um objectivo são de tal modo necessários, que as "fórmulas miraculosas" utópicas já não ajudam, tanto mais que frequentemente se traduzem em regimes totalitários ou na aplicação de um poder destrutivo.

4. Vós vedes tudo isto, todas as fugas da verdade, a força oculta e cheia de perigos da resistência à lei e da maldade, que se manifestam. Não conseguis resistir à tentação da solidão e do abandono? Então a leitura de hoje do Profeta Ezequiel vos dá a resposta. São as palavras do pastor, que procura as ovelhas tresmalhadas e abandonadas para as poder reunir "de todas as partes por onde tenham sido dispersas num dia de nuvens e trevas" (Ez 34, 12).

Este pastor, que procura o homem no caminho escuro da sua solidão e do seu abandono para poder levá-lo novamente para a luz, é Cristo. Ele é o bom pastor. Ele está também sempre presente no ponto mais oculto do "mistério do malvado" e põe sobre os seus ombros até a existência humana nesta terra. Ele age na verdade, quando liberta o coração do homem da fundamental resistência em que se aloja, e que é aquela da divinização do homem sem ou contra. Deus, a qual cria um clima de solidão e de abandono. No caminho que leva da escura solidão para a autêntica humanidade, Cristo, o bom pastor, faz-se portador, com profunda participação e acompanhando-nos com o seu amor, de cada um dos homens, sobretudo dos jovens que crescem.

O profeta Ezequiel diz ainda deste pastor: "Arrancá-las-ei entre os povos e as reunirei dos vários países, para as reconduzir à sua própria terra e as apascentar nos montes de Israel, nos vales e em todos os lugares habitados da região" (Ez 34, 13). "Procurarei a ovelha perdida; reconduzirei a transviada; a que está ferida tratá-la-ei; à doente darei força, ao mesmo tempo que vigiarei a que está gorda e vigorosa. Apascentá-las-ei todas com justiça" (Ez 34, 16).

Assim Cristo acompanhará a maturação do homem para a sua humanidade. Ele acompanha-nos, nutre e encoraja-nos na vida da Sua Igreja com a Sua palavra e os Seus Sacramentos, com o Corpo e o Sangue da Sua celebração pascal. Nutre-nos como eterno Filho de Deus, de maneira que o homem participe da Sua filiação divina, "diviniza-o" interiormente, para que seja "homem em toda a plenitude do seu significado, para que o homem, criado imagem e semelhança de Deus alcance a sua maturidade em Deus.

5. É precisamente à luz de quanto foi referido, que Cristo diz: a messe é "grande". A messe é grande porque o destino do homem supera qualquer medida. É grande pela dignidade do homem. É grande pela força da sua vocação. Grande é esta maravilhosa colheita do Reino de Deus na humanidade, a messe do bem na história do homem, dos povos e das nações. É verdadeiramente grande"mas os operários são poucos" (Mt 9,37).

Que significa isto? Quer significar, meus caros Jovens, que vós sois chamados, sois chamados por Deus. A minha vida, a minha vida como homem tem portanto o seu significado, quando sou chamado por Deus, com um apelo vigoroso, decisivo e definitivo: Somente Deus pode chamar assim o homem, e nenhum outro. E este apelo de Deus é feito incessantemente em Cristo e por Cristo, a cada um de vós; sede operários da messe da vossa humanidade, operários na vinha do Senhor, para participardes da colheita messiânica da humanidade.

Jesus tem necessidade também de homens jovens que, entre vós, sigam o seu apelo e vivam como Ele, em pobreza e castidade, a fim de que sejam o sinal vivo da realidade de Deus no meio dos vossos irmãos e irmãs.

Deus tem necessidade de sacerdotes que se deixem guiar pelo bom pastor no serviço da Sua palavra e dos Seus sacramentos para os homens.

Ele tem necessidade de religiosos, homens e mulheres, que abandonem tudo para O seguir e servir a humanidade.

Ele tem necessidade de esposos cristãos, que juntos e com os seus filhos se esforcem pela plena maturação da humanidade em Deus.

Deus tem necessidade de homens que estejam prontos a assistir aos pobres, aos doentes, aos rejeitados, aos marginalizados e àqueles que sofrem na alma.

A história do cristianismo do vosso povo, que tem mais de mil anos, é rica de homens, cuja figura pode ser um estimulo para a resposta ao vosso grande apelo. Desses citarei apenas quatro, que hoje, na cidade de Munique, me vêm mente. Na liturgia hodierna celebramos a memória deles. Penso no santo Bispo Benno de Meissen, cujos restos mortais repousam na Frauenkirche de Munique. Ele era um homem de paz e de reconciliação, que pregava incessantemente, um amigo dos pobres e dos necessitados. E também hoje o meu pensamento dirige-se para a grande figura de Santa Isabel, cujo lema era: "Amar — conforme o Evangelho". Era princesa de Wartburg, e como tal gozava de todos os privilégios do seu estado; e no entanto viveu completamente para os pobres e para os marginalizados. Para concluir, desejaria citar um homem, que alguns de vós, ou os vossos pais, conheceram pessoalmente: o Padre Jesuíta Rupert Mayer, cujo túmulo, no centro de Munique, na cripta do Bürgesaal, todos os dias, é visitado por muitas centenas de pessoas para breve oração, Não dando importância às consequências de uma grave ferida, que lhe deixara a primeira guerra mundial, ele lutou aberta e corajosamente pelos direitos da Igreja e pela liberdade, e por isso sofreu as penas do campo de concentração e o exílio.

Caros jovens! Sede abertos ao apelo de Cristo. A vossa vida humana é "uma ventura e um risco que jamais se repetem", e pode ser "uma bênção ou uma maldição". Diante de vós, jovens, que sois a grande esperança do nosso futuro, queremos pedir ao "Senhor da messe" que faça de cada um de vós, de todos os jovens desta terra um operário da Sua "grande colheita", que corresponda assim à abundância dos apelos e dos dons no Seu Reino nesta terra.

Desejo, enfim, enviar particular pensamento de bênçãos aos nossos irmãos e irmãs de fé evangélica, que hoje, neste País, comemoram o "dia de penitência". Eles celebram-no com a consciência da necessidade de conversão sempre nova e, segundo o desejo da Igreja, para recordar diante de Deus na oração também as comunidades dos povos e dos Estados. Recordai-vos também, na oração deste dia, dos vossos compatriotas católicos e do vosso irmão João Paulo e do seu serviço. Amém.

 

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