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VISITA PASTORAL
DO SANTO PADRE A BÉRGAMO (ITÁLIA) SANTA MISSA NA COMEMORAÇÃO HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II Praça Central de Sotto il Monte
Caríssimos Irmãos e Filhos 1. Contemplámos, ó Deus, as maravilhas do Vosso amor. Estas palavras da liturgia bem se adaptam a este "Domingo in Albis", em que, celebrando nós, na sua Terra natal, o Centenário do nascimento do Papa João XXIII contemplamos o maravilhoso dom que o Senhor nos fez com a sua vida e doutrinação. É com ânimo cheio de alegria e comoção que me encontro hoje, aqui, em Sotto il Monte, para esta solene e tão significativa cerimónia celebrada convosco, a quem apresento a minha saudação afectuosa. Trouxe-me aqui o desejo vivíssimo de tributar ao meu venerado Predecessor uma honra e reconhecimento que lhe são devidos não só por parte da Igreja, mas de todos os homens que lhe apreciaram a bondade e a sabedoria. Grande parte de vós, habitantes de Sotto il Monte e de Bérgamo, conheceu o Papa João, viu-o e encontrou-se com ele; falou-lhe, ouviu a sua voz quente, amorosa e persuasiva, sensível a toda a alegria e a todo o sofrimento humano. E também eu me lembro dele com viva comoção na primeira sessão do Concílio Vaticano II e sobretudo no encontro final da mesma, quando nos apresentou a saudação que desejava fosse um "até mais ver", e em vez disso era o último adeus. De modo particular apraz-me recordar o afecto que o Papa João sempre sentiu para com a minha Pátria, a Polónia. Ele, a 17 de Setembro de 1912, por ocasião do Congresso Eucarístico de Viena, visitou Cracóvia e celebrou na Catedral, no altar da Cruz milagrosa de Vavel, como ele gostava de recordar com exactidão extrema de pormenores; além disso, visitou muitas vezes o Santuário mariano de Jasna Gora, descobrindo, nos profundos sentimentos religiosos do meu povo, alguma coisa próxima, que o enternecia e confortava. Era justo, portanto, era necessário, que numa circunstância tão singular e solene, o seu Sucessor na Cátedra de Pedro, viesse à terra natal dele para meditar na sua mensagem e respirar a sua espiritualidade. 2. Como bem sabeis, na sexta-feira 25 de Novembro de 1881, na família Roncalli, nascia Ângelo José, quarto de 13 filhos, e na tarde do mesmo dia o sino da igreja paroquial retinia, para anunciar o Baptizado que se realizava. E assim nós comemoramos não só o nascimento para a luz do sol do pequeno "Angelinho", mas também o nascimento espiritual, para a vida da graça e da fé, daquele que viria a ser, como disse Paulo VI, "o Papa da bondade, da mansidão e da pastoralidade da Igreja" (Insegnamenti di Paolo VI, Vol. I, p. 534); o Papa que soube amar a todos e por todos foi amado devido às suas características de paternidade, serenidade e sensibilidade humana e sacerdotal. De facto, o motivo do seu tão extraordinário êxito na estima e no afecto do mundo inteiro, então e hoje, foi a sua bondade: os homens têm necessidade extrema de bondade, e por isso amaram o Papa João e ainda o veneram e o invocam. Parece vermo-lo por estas estradas, por estas colinas e entre estas casas, nesta sua paisagem, tão ardentemente amada e recordada com ternura até aos últimos dias de vida. O "seu querido ninho de Sotto il Monte", em que todos os anos, quando lhe foi possível — como sacerdote, como Bispo e como Cardeal — veio refugiar-se para retemperar o seu espírito "in gratia et fide", como o tinham educado os pais e o padrinho, o tio-avô Xavier. 3. Se nos perguntamos onde e como adquiriu o Papa João esses dotes de bondade e paternidade, unidas estas a uma fé cristã sempre íntegra e pura, é fácil responder: na família. Ele mesmo, por toda a sua longa vida e num grandíssimo número de escritos, particulares e oficiais, recorda, comovida e reconhecidamente o seu patriarcal lar doméstico, os anos da meninice e da adolescência, passados num ambiente límpido e sereno, em que o estilo era a graça de Deus, vivida com simplicidade e coerência, a regra de vida era o catecismo e a instrução paroquial, o conforto era a oração, especialmente a Missa festiva e o Terço vespertino, e o empenho quotidiano era a caridade: "Éramos pobres — escrevia o Papa João — mas contentes com a nossa condição, confiados na ajuda da Providência. Quando um mendigo se apresentava à porta da cozinha, onde uns 20 jovens esperavam a tigela de caldo, havia sempre um lugar a mais. A minha mãe apressava-se em mandar sentar o hóspede ao lado de nós" (Giornale dell'anima, IV ed. Appendice). A catequese familiar e paroquial foi o seu alimento espiritual; a fidelidade às práticas de piedade e às cerimónias da Igreja foi o seu empenho constante, porque teve nos pais o exemplo, o estímulo e a sua primeira escola de teologia. Com doce afabilidade recordava num discurso: "A querida imagem de Nossa, Senhora, sob o título de 'Auxiliadora' foi por muitos anos familiar aos nossos olhos de criança e adolescente na casa dos nossos pais" (Discorsi, Messaggi, Colloqui del Santo Padre Giovanni XXIII, Vol. IV, p. 307). E no discurso pronunciado pelo seu octogésimo aniversário disse: "Foi destas recordações que tomou princípio e alimento de veneração tudo quanto se referia à vida religiosa, no santuário das nossas famílias, modestas, laboriosas, tementes a Deus e serenas" (idem, Vol. IV, p. 23). Na noite de Natal de 1959, ele com viva saudade voltava aos tempos longínquos e com simplicidade e sabedoria traçava as linhas da Doutrina Cristã acerca da família: "Como eram bem vividas as grandes realidades da família cristã! Noivado no reflexo da luz de Deus, matrimónio sagrado e inviolável no respeito das quatro notas características: fidelidade, castidade, amor mútuo e santo temor de Deus; espírito de prudência e de sacrifício na educação atenta dos filhos; e sempre, em todas as circunstâncias, amor do próximo, perdão, espírito de paciência, confiança e respeito para com os outros. É assim que se edifica uma casa que não vem a desmoronar-se" (idem, Vol. II, p. 96). 4. A sua fé originada na família, iluminada e confirmada pelo estudo sério e metódico realizado no Seminário dentro do sulco da Sagrada Escritura, do Magistério da Igreja, da Patrística e da Teologia qualificada e aprovada, acompanhada depois, no decurso dos anos, pela leitura e pela meditação dos grandes mestres da ascética e da mística, ficou de tal modo sempre íntegra e profunda, sem sofrer as debandadas do modernismo, sem se afastar nunca do recto caminho da Verdade. Em 1910 anotava no "Diário da Alma": "Agradeço de joelhos ao Senhor ter-me conservado ileso no meio de tanto referver e agitar-se de língua e de cérebro... Devo recordar sempre que a Igreja contém em si a juventude eterna da verdade e de Cristo, que é de todos os tempos... O primeiro tesouro da minha alma é a fé, a santa fé pura e ingénua dos meus pais e dos meus bons antepassados". De tal fé genuína e transparente, que lhe foi instilada pela família, brotou também o seu total e confiado abandono na Providência expresso no mote inspirador da sua vida: "Oboedientia et Fax"; nasceu a visão sobrenatural e escatológica da existência e de toda a história, para a qual ele caminha à luz dos "novíssimos" e da "teologia do além". Esta fé, intimamente apreciada como Verdade absoluta e como significado da humana existência, expressou-se com suavidade e confiança nas práticas de piedade, que alimentam a vida cristã: as tantas e tão belas devoções que, durante os séculos, floresceram no fértil tronco do dogma: a união com Cristo Eucarístico e Crucificado, com o Sagrado Coração; a devoção a Maria Santíssima, aos Anjos e aos Santos; a constante recordação das almas do Purgatório; e naturalmente as visitas ao Santíssimo Sacramento, a Confissão com regularidade, a reza do Terço, os retiros e os Exercícios Espirituais, a meditação e as peregrinações. Trata-se de uma fé, justa e rectamente tradicional, que não é porém estática, gelada, indevidamente conservadora no mudar exigente e arrastador dos tempos e das situações; pelo contrário, é maravilhosamente juvenil, intrépida, aberta e previdente, tanto que ideou e iniciou o Concílio Vaticano II e sentiu, com aguda inteligência, todas as problemáticas acompanhadoras da época moderna, como bem demonstram as Encíclicas Mater et Magistra e Pacem in terris. 5. O Papa João foi verdadeiramente um homem mandado por Deus. Imensamente rica e preciosa é a herança que nos deixou. Mas nesta sua terra natal, onde da família recebeu os primeiros germes da fé que depois se desenvolveu de modo tão surpreendente e fecundo, eu desejo recordar e reunir em particular quanto ele nos diz a respeito da família. Já tinha posto de sobreaviso acerca dos perigos que a ameaçam: "Este santuário — dizia com lágrimas no coração — está ameaçado por muitas insídias. Uma propaganda, por vezes sem limite, serve-se dos poderosos meios da imprensa, do espectáculo e do divertimento para difundir, especialmente na juventude, os germes nefastos da corrupção. É necessário que a família se defenda... Aproveitando também, quando é necessário, a tutela da lei civil (idem, Vol. I, p. 172, 1 de Março de 1959). Por isso, o seu ensinamento permanece válido e perene, porque é a voz da Verdade e é o que no íntimo deseja e espera a alma de cada pessoa. Apraz-me sintetizar esse ensinamento nos seguintes cinco "pontos firmes". — Primeiro de tudo, a sacralidade da família, e portanto também do amor e da sexualidade: "a família é dom de Deus — dizia —, encerra uma vocação que vem do alto, a qual não se improvisa" (idem, Vol. III, p. 67). "Na família dá-se a mais admirável e íntima cooperação do homem com Deus: as duas pessoas humanas criadas à imagem e semelhança divina, são chamadas não só ao grande encargo de continuar e prolongar a obra criadora, dando a vida física a novos seres, a que o Espírito vivificador infunde o vigoroso princípio da vida imortal, mas são chamadas também ao dever mais nobre e que aperfeiçoa o primeiro, isto é, o da educação cívica e cristã da prole" (idem, Vol. II, p. 519). Por motivo desta essencial característica, quis Jesus que o matrimónio fosse 'Sacramento' ". — A moralidade da família. "Não nos deixemos enganar, cegar, iludir —
aconselhava com sabedoria cristã e paternal —: a Cruz é sempre a única
esperança de salvação; a Lei de Deus está sempre nela, com os seus dez
mandamentos a recordar ao mundo que só nela está a salvaguarda das
consciências e das famílias, que só na sua observância está o segredo da paz e
da tranquilidade de consciência. Quem se esquece disto, embora pareça esquivar
qualquer preocupação de seriedade, depressa ou tarde constrói para si a
própria tristeza e miséria" (idem, Vol. II, pp. 281-282). E noutra
ocasião acrescentava: "O culto da pureza é a honra — A responsabilidade da família. O Papa João tem confiança na obra educativa dos pais, sustentada pela graça divina. Dirigindo-se ás mães dizia: "A voz da mãe, quando anima, convida e repreende, permanece esculpida profundamente no coração dos seus, e não se esquece nunca. Oh, só Deus conhece o bem despertado por esta voz, e a utilidade que ela procura à Igreja e à sociedade humana" (idem, Vol. II, p. 67). E aos pais acrescentava: "Nas famílias — onde o pai reza e tem fé alegre e consciente, frequenta as instruções catequéticas e a elas leva os filhos — não haverá tempestades nem desolações de uma juventude rebelde e sem amor. A nossa palavra quer ser sempre de esperança; mas estamos certo que, nalgumas expressões desconfortantes de vida juvenil, a maior responsabilidade se deve buscar primeiramente naqueles progenitores, especialmente nos pais de família, que fogem dos deveres precisos e graves do seu estado" (idem, Vol. IV, p. 272). — A finalidade da família. Sob este ponto, o Papa João era claro e linear: o fim para que se nasce é a santidade e a salvação, e a família é querida por Deus para este fim. Há vinte anos, na carta-testamento, escrita por ocasião dos seus 80 anos, recordando uma a uma as suas amadas pessoas de família dizia: "Isto é o que mais vale: assegurar cada um a vida eterna confiando na bondade do Senhor que tudo vê e a tudo provê" (3 de Dezembro de 1961). E comentando cada um dos mistérios do Rosário, afirmava que pedia no terceiro mistério gozoso pelas crianças de todas as raças humanas vindas à luz nas últimas 24 horas (idem, Vol. IV, p. 241). — A exemplaridade da família cristã. O Papa João exortava insistentemente os pais e os filhos cristãos a serem exemplo de fé e virtude no mundo moderno, segundo o modelo da Sagrada Família: "O segredo da verdadeira paz — dizia —, do mútuo e duradouro acordo, da docilidade dos filhos, do florescer de costumes delicados, está na imitação continua e generosa da doçura e da modéstia da Família de Nazaré" (idem, Vol. II, pp. 118-119). O Papa João está seguro que destas famílias exemplares podem brotar numerosas e escolhidas vocações sacerdotais e religiosas, apesar das dificuldades dos tempos. Esta é, em síntese, a doutrina do grande e amável Pontífice, acerca da família, doutrina que soa a condenação clara das teorias e das práticas, que são contra a instituição familiar. A figura sorridente e boa do Papa João, tão próxima do coração de todos os italianos, concorra para fazer ressurgir uma vez mais na alma aquele património de bondade e solidariedade, característico de um povo que deseja a vida e não a morte do homem, a promoção e não a destruição da família. 6. Caríssimos Irmãos e Filhos. Encontrarmo-nos aqui, hoje, em Sotto il Monte, com o Papa João, para comemorar o Centenário do seu nascimento, é indubitavelmente grande alegria para todos e suave consolação; mas deve ser também incentivo para termos sempre presente o seu exemplo e ouvirmos a sua palavra: "Todo o crente — escrevia ele na Pacem in terris — deve ser centelha de luz, centro de amor, fermento vivificador na massa" (n. 57). Esta é a recomendação que vos deixo em seu nome. Deixo-a a vós, habitantes de Sotto il Monte e de toda a terra de Bérgamo, por ele tanto amada, seguindo as indicações do Plano Pastoral, optimamente proclamado pelo vosso Bispo. Deixo-a a todos os fiéis da Igreja, sacerdotes e leigos, e torno-a extensiva a todos os homens de boa vontade, que foram atraídos e comovidos pela paternal figura do Papa João. Seja ainda precioso património de todos a terna devoção a Maria Santíssima, que sempre assinalou a sua vida. "A nenhuma outra coisa tende ela senão a tornar mais robusta, pronta e operante a nossa fé", são palavras suas. "Maria ajudará a todos nós, que somos peregrinos cá na terra: com o seu auxílio supremo venceremos as inevitáveis tristezas e adversidades e habituar-nos-emos a olhar para o Céu com serenidade e alegria" (idem, Vol. II, p. 707). O Papa João nos acompanhe com o seu exemplo e a sua oração pelas estradas cansativas da nossa vida. Ele é bom amigo: escutemo-lo. A sua herança é verdadeiramente para bênção.
© Copyright 1981 - Libreria Editrice Vaticana
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