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SANTA MISSA PARA A
PROCLAMAÇÃO DE CINCO NOVOS BEATOS
HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
Domingo, 23
de Maio de 1982 1. "E nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor, e quem
permanece no amor permanece em Deus e Deus nele" (1 Jo 4, 16).
Estas palavras do Apóstolo João, Caros Irmãos e Irmãs, encontram aqui
ulterior e luminosa confirmação na figura dos cinco novos Beatos, que nós
contemplamos na glória de Deus e são demonstração autêntica do amor mesmo de
Deus por nós. Trata-se de três mulheres e de dois homens. Uma viveu no século
XVI num Convento da Espanha: Maria Angela Astroch; os outros viveram
principalmente no século passado; Maria-Anne Rivier, Petrus Donders, Marie-Rose
Durocher; e por fim, um é quase nosso contemporâneo: André Bessette. Neles, como
escreve ainda o Apóstolo João, o amor de Deus atingiu a sua perfeição (cf. ibid.
4, 12) e no Céu eles conhecem aquela "plenitude da alegria" prometida por Cristo
na sua oração sacerdotal (cf. Jo 17, 13).
Nestes homens e nestas mulheres, por cujo testemunho já foram impressionados
os seus contemporâneos, vimos um verdadeiro reflexo do amor que forma a riqueza
incomparável de Deus, no interior da vida trinitária que se manifestou no dom do
Filho unigénito pela salvação do mundo, particularmente no seu sacrifício
redentor (cf. Jo 3, 16).
Este amor é multiplicado e quase aceso pelo Espírito Santo, como um fogo, no
coração de homens e de mulheres como nós, humildes e pobres, mas plenamente
"fiéis ao seu nome". O Espírito Santo torna-os confiantes em Deus, mas também
verdadeiramente corajosos para, com coerência constante, irem ao encontro dos
pobres, dos doentes, dos jovens necessitados da educação, das almas abandonadas.
É verdade que "ninguém jamais viu a Deus" (1 Jo 4, 12); mas o sinal mais eficaz
e revelador da sua presença entre os homens é precisamente o amor, tal como é
praticado sem reservas pelos seus melhores fiéis (cf. ibid. 4, 20). Os
contemporâneos dos novos Beatos foram atingidos pelos seus frutos de santidade.
E hoje a Igreja reconhece solenemente que estes Beatos têm "a sua morada em
Deus" e propõe-os como exemplos à meditação e à vida concreta de todos os
Baptizados, que encontram neles um novo ponto de referência para o próprio
testemunho cristão.
2. Petrus Donders, nascido no início do século passado nos Países Baixos,
passou grande parte da sua vida em Surinão, onde anunciou o Evangelho aos
escravos, aos negros e aos índios.
É conhecido sobretudo pela cura espiritual e corporal dos leprosos, de modo a
ser chamado, com razão, o apóstolos dos leprosos.
Podemos dizer que foi um apóstolo dos pobres. De facto nasceu numa família
pobre e teve de levar vida de operário antes de poder seguir a sua vocação
sacerdotal. Consagrou toda a sua vida de sacerdote aos pobres.
Ele é também um convite e um estímulo à renovação e ao reflorescimento do
impulso missionário que, no século passado e neste século, deu um contributo
excepcional à realização do dever missionário da Igreja. Tendo-se associado, em
idade mais avançada, a Congregação do Santíssimo Redentor, praticou de modo
excelente o que Santo Afonso propôs como ideal dos seus religiosos: imitar as
virtudes e os exemplos do Redentor, anunciando aos pobres a Palavra Divina. Ele
mostrou, através da sua vida; que o anúncio da Boa Nova da redenção, da
libertação do pecado, deve encontrar sustento e confirmação numa autêntica vida
evangéica, de concreto amor do próximo, sobretudo para com os mais pequenos
irmãos em Cristo.
3. A segunda figura que a Igreja quer hoje elevar à glória dos altares e
propor à imitação do povo fiel é a de Maria Angela Astorch, novo exemplo de
santidade amadurecida em terras de Espanha.
Pertence à família das religiosas Clarissas Capuchinhas.
Nas sucessivas etapas como simples religiosa, jovem mestra de noviças,
responsável da formação das professas e abadessa, deixa em redor, em Barcelona,
Saragoça, Sevilha e Murcia, uma esteira admirável de fidelidade à sua própria
consagração e de amor à Igreja.
A sua inteligência não comum sabe apoiar-se na solidez da palavra revelada e
dos escritores eclesiásticos, que estuda e conhece em profundidade. Isto leva-a
a um firme conhecimento téorico e prático dos caminhos da espiritualidade, que
vive em íntima união com a Igreja, sobretudo através da liturgia, dos textos
sagrados e do oficio divino. Até ao ponto de podermos indicá-la como a mística
do breviário.
Nas suas tarefas de formadora emprega "o nobre estilo" que Deus usa com ela
mesma. Sabe, por isso, respeitar a individualidade de cada pessoa, ajudando-a ao
mesmo tempo a "caminhar ao passo de Deus", que é diferente em cada um. Assim a
profunda compreensão não se torna tolerância inerte.
Maria Angela Astorch é pois uma figura digna de ser vista hoje atentamente.
Para que nos ensine a respeitar os caminhos do homem, abrindo-os aos caminhos
de Deus.
4. Observamos agora a Beata Marie Rivier que Pio IX já denominava a
"mulher-apóstolo". é, de facto, o ardor do seu apostolado que surpreende todos
os seus contemporâneos, durante e depois da Revolução francesa. Apaixonada desde
a infância da ideia de instruir crianças, de as ensinar, como uma "pequena mãe",
e amar a Deus, ela funda muito mais tarde as Irmãs da Apresentação,
especialmente para educar a juventude a viver na fé, privilegiando as pobres, as
órfãs, as abandonadas ou que desconhecem Deus. Não só reúne as jovens, mas quer
"formar boas mães de família", convicta do papel evangelizador das famílias e da
importância da iniciação religiosa desde a primeira infância: "A vida está
inteiramente nas primeiras impressões!", dizia ela. Pôde ser considerada como
uma "ceifeira de inumeráveis almas". E para isto não poupava meio algum:
numerosas escolas de aldeia, missões, retiros que ela própria pregava,
assembleias do domingo...
Qual era pois o segredo do zelo de Marie Rivier? Fica-se impressionado com a
sua audácia, a sua tenacidade, a sua alegria comunicativa, a sua coragem "disposta a preencher mil vidas". Muitas dificuldades, dada a sua
natureza, poderiam todavia tê-la desencorajada: a enfermidade da sua infância
até à cura no dia dedicado à Virgem, uma ausência de crescimento físico, uma
saúde sempre abalada durante os setenta anos da sua vida, a miséria da
ignorância religiosa que a circundava. Mas a sua vida mostra bem a força da fé
numa alma simples e recta, que se entrega inteiramente à graça do seu baptismo.
Conta a fundo com Deus, que a purifica mediante a cruz. Implora intensamente
Maria e, com ela, apresenta-se diante de Deus em estado de adoração e de
oferenda. A sua espiritualidade é solidamente teologal e claramente apostólica:
"A nossa vocação, é Jesus Cristo"; é necessário encher-se do seu espírito, para
fazer chegar o seu reino, especialmente à alma dos jovens.
5. Além-Atlântico, no Canadá, encontramos outra figura multo apostólica na
Beata Marie-Rose Durocher. Nasceu numa família numerosa e fértil em almas
consagradas. Procurando a sua própria vocação na Igreja e não podendo entrar,
devido à sua falta de saúde, nas duas únicas congregações femininas então
existentes em Quebeque, serve durante 13 anos no presbitério do seu irmão —
dir-se-ia hoje como "auxiliar do sacerdote" —, preocupando-se não só com o
arranjo da casa, mas em acolher os sacerdotes e seminaristas doentes, em dirigir
as obras de caridade da paróquia e estimular a piedade mariana das jovens. É
então, a pedido do Bispo de Monreal, com o encorajamento dos Padres Oblatos de
Maria Imaculada e seguindo o exemplo dos Irmãos das Escolas cristãs, que ela
funda uma nova congregação para responder às necessidades da instrução e da
educação religiosa das jovens, de modo especial nos meios pobres das localidades
vizinhas a Monreal: as Irmãs dos Santos Nomes de Jesus e Maria. Durante os
últimos seis anos da sua breve existência, lançou suficientemente a sua obra que
floresce hoje em seis países.
Que espírito presidiu então a tal apostolado, tão bem conjugado com as
necessidades da Igreja no momento do "renascimento católico" no Canadá, no
início do século passado? Sobretudo a disponibilidade total a seguir os
compromissos que lhe pedia a sua fé em Jesus, o seu amor pela Igreja, o cuidado
dos mais desamparados. São, por outro lado, os responsáveis da Igreja a
descobrir as suas capacidades e a confiar-lhe a sua missão: o apostolado
autêntico, hoje como ontem, não é só questão de carisma pessoal, mas de apelo da
Igreja e de inserção na sua pastoral. Marie-Rose Durocher agiu com simplicidade,
com prudência, com humildade, com serenidade. Não se deixou desmorecer com os
seus problemas pessoais de saúde nem com as primeiras dificuldades da obra
nascente. O seu segredo residia na oração e no esquecimento de si mesma que
alcançava, segundo o parecer do seu Bispo, uma verdadeira santidade.
6. Por fim, sem deixar o Canadá, veneramos também o Beato Irmão André
Bessette, homem de oração e amigo dos pobres; mas de um estilo muito diferente;
a bem dizer, extraordinário.
A obra de toda a sua vida — a sua longa vida de 91 anos — é a de
um servidor
do povo humilde: "Pauper, servus et humilis", como foi escrito sobre o seu
túmulo. Trabalhador manual até aos vinte e cinco anos, no campo, na oficina, na
fábrica, entra depois para os Irmãos da Santa Cruz, que lhe confiam, durante
quase quarenta anos, o serviço de porteiro no seu colégio de Monreal; e por fim,
durante quase trinta anos, é guardião do Oratório de São José nas proximidades
do Colégio.
De onde lhe vem pois a sua extraordinária irradiação, a sua popularidade
entre milhões de pessoas? Uma quotidiana multidão de doentes, de aflitos, de
pobres de todas as espécies, de deficientes ou dos que são feridos pela vida
encontravam junto dele, no parlatório do colégio, no Oratório, acolhimento,
escuta, reconforto e fé em Deus, confiança na intercessão de São José, em
resumo, o caminho da oração e dos sacramentos, e com isto a esperança e com
muita frequência o refrigério manifesto do corpo e da alma. Os "pobres" de hoje
não teriam igualmente necessidade de tal amor, de tal esperança, de tal educação
para a oração?
Mas o que é que dava a capacidade ao Irmão André? Deus dotou de abundante
atracção e de "poder" maravilhoso este homem simples, que, pessoalmente, tinha
conhecido a miséria de ser órfão ao lado de 12 irmãos e irmãs, tinha ficado sem
meios, sem instrução, com saúde precária, em breve, desprovido de tudo, salvo de
uma grande confiança em Deus. Não é para admirar que ele se tenha sentido muito
próximo da vida de São José, o Operário pobre e exilado, tão íntimo do Salvador,
que o Canadá e de modo especial a Congregação da Santa Cruz sempre honraram
muito. O Irmão André teve que suportar a incompreensão e o escárnio devido ao
sucesso do seu apostolado. Mas mantinha-se simples e jovial. Recorrendo a São
José e diante do Santo Sacramento, ele próprio dizia, longamente e com fervor,
em nome dos doentes, a oração que lhes ensinava. A sua confiança na virtude da
oração não é uma das indicações mais valiosas para os homens e as mulheres do
nosso tempo, tentados a resolver os problemas abstendo-se de Deus?
7. Enquanto recebemos deste modo a mensagem de cada um destes
bem-aventurados, quais são os sentimentos que animam a nossa oração?
Primeiramente uma profunda acção de graças ao Senhor, como cantamos no salmo:
"Bendiz, ó minha alma o Senhor... Porque, quanto os céus se elevam acima da
terra, tanto Sua misericórdia prevalece para com os que O temem" (Sl 102, 2,
11). É Ele; a fonte deste amor forte que nos permite contemplar nos nossos
antepassados. Beneficiamos das obras deles que deixaram um vestígio que ainda
dura. Beneficiamos do exemplo deles, que a Igreja propõe hoje oficialmente.
Beneficiamos da intercessão deles: beatificando-os, a Igreja diz-nos que eles
podem ser invocados e implorados nas Igrejas particulares, porque ela está certa
que eles participam já da felicidade eterna, junto de Cristo levantado a direita
do Pai.
Este dia de acção de graças, de alegria e de orgulho para a Igreja, é-o
particularmente para os quatro países cuja fé generosa pôde preparar cristãos,
sacerdotes, missionários, religiosos e religiosas desta têmpera: os Países
Baixos, a Espanha, a França e o Canadá, cujas delegações oficiais e diocesanas
me é grato saudar. Dia de festa também para as cinco famílias religiosas tão
honradas por estos bem-aventurados que foram seus membros ou as fundaram.
Oxalá todos possamos experimentar ao mesmo tempo uma grande esperança! Tal
como na origem, os Apóstolos souberam encontrar em Matias uma testemunha da
Ressurreição, assim também, em cada época, o Espírito Santo suscita, mesmo — e
talvez sobretudo — entre aqueles que são considerados fracos, pequenos, pobres,
às vezes deficientes e doentes, em todo o caso humildes, testemunhas decisivas
do Evangelho, que respondem às necessidades espirituais do seu tempo, com uma
intuição segura, uma simplicidade desarmante, uma audácia a toda a prova, e uma
profunda adesão à Igreja que reconheceu a autenticidade do carisma e da missão
deles.
Intercedam por nós estes bem-aventurados! Iluminem o nosso caminho!
Obtenham-nos a esperança e a audácia das testemunhas do Amor de Deus! Para que o
mundo reconheça este Amor entre nós e aspire à sua plenitude!
Amém! Aleluia!
© Copyright 1982 - Libreria
Editrice Vaticana
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