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VIAGEM APOSTÓLICA À ESPANHA
31 DE OUTUBRO - 9 DE NOVEMBRO DE 1982

VISITA À PARÓQUIA DE SÃO BARTOLOMEU EM MADRID

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Madrid, 3 de Novembro de 1982  

 

Senhor Cardeal
Irmãos no Episcopado
Queridos irmãos e irmãs

1. A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular..." (Mc 12, 10).

Com estas instrutivas palavras tomadas do Salmista (Sl 118) e que São Marcos coloca nos lábios de Jesus, a primitiva comunidade cristã celebrava com júbilo a glória do Ressuscitado, alegria expansiva daqueles que se sentiam a salvo e felizes na nova construção de Deus: a Igreja.

A pedra, diz Paulo (1 Cor 14, 43), "era Cristo". E acrescenta: ib. 3, 11) "ninguém pode pôr outro fundamento diferente do que foi posto, isto é, Jesus Cristo.

Jesus Cristo é, pois, a pedra fundamental do novo templo de Deus (cf. Ef 2, 20). Rechaçado, rejeitado, deixado de lado, dado por morto — então como agora — o Pai constituiu-O e sempre O constitui a base sólida e inamovível da nova construção. E isto, pela sua ressurreição gloriosa. "Esta é a obra de Javé, admirável aos nossos olhos".

Sobre Ele, pela fé na sua ressurreição, nós cristãos somos edificados. Assim no-lo ensina o Apóstolo Pedro, na sua primeira carta: "Aproximai-vos d "Ele, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. E vós mesmos, como pedras vivas, entrais na construção de um edifício espiritual, por meio de um sacerdócio santo..." (1 Ped 2, 4-5).

O novo templo, corpo de Cristo (cf. Jo 2, 21), espiritual, invisível, está construído por todos e cada um dos baptizados, sobre a viva "pedra angular", Cristo (Ef 2, 20), na medida em que a Ela se aderem e n'Ele "crescem", até "à plenitude de Cristo" (ibid. 13). Neste templo e por ele, "morada de Deus no Espírito" (Ef 2, 21 b), Ele é glorificado, em virtude do "sacerdócio santo", que oferece "sacrifícios espirituais" (1 Ped 2, 5), e o seu Reino estabelece-se no mundo.

O ápice deste novo templo penetra no céu, enquanto sobre a terra, Cristo, a pedra angular, sustém-no mediante o "fundamento que Ele mesmo escolheu e dispôs: os apóstolos e os profetas" (cf. Ef 2, 20) e aqueles que lhes sucedem, isto é, em primeiro lugar, o colégio dos bispos, e a "pedra" que é Pedro (Mt 16, 18).

Desta esplêndida realidade eclesial repleta de lições e significados para cada cristão, é símbolo cada templo visível, como este diante do qual nós estamos, e que congrega os membros da herança de Cristo que constituem uma paróquia, numa Igreja local.

2. Passaram-se muitos séculos desde Cristo. A herança de Deus foi crescendo maravilhosamente — não sem se repetirem os rechaços, as incompreensões e lutas —, sobre a pedra angular: Cristo morto e ressuscitado. Cada dia são mais os homens e povos que O aceitam com fé e com amor, que buscam n'Ele o fundamento sólido para construir um mundo melhor e mais Unido, onde se sintam a salvo sob o bondoso olhar de um só Deus e Pai. Entre todos esses povos que não rejeitaram, mas que fizeram da fé em Jesus o centro da sua história, está a querida Espanha, profundamente cristã; entre esses homens, herdeiros de Deus pelo baptismo que os torna semelhantes ao Filho morto e ressuscitado, estais também vós, irmãos e irmãs desta paróquia madrilena de Orcasitas, reunidos junto do altar do mesmo Cristo. Sinto todos vós dentro de mim e acolho-vos como membros muito amados da sua Igreja.

Este encontro causa-me íntima satisfação, porque me faz reviver aqui as minhas visitas periódicas às paróquias de Roma, diocese do Sucessor de Pedro; paróquias situadas muitas vezes, como a vossa, em áreas periféricas da cidade ou de nova construção. Não sem certa nostalgia recordo-me também do meu trabalho ministerial nas paróquias da minha terra natal, como sacerdote, e depois as minhas visitas pastorais como Arcebispo de Cracóvia.

3. Sei que esta paróquia se foi formando pouco a pouco com habitantes vindos de diversos lugares. Conheço também os vossos esforços como trabalhadores. O meu grande desejo é que a vossa vida de cidadãos também cresça e que se tornem realidade as aspirações que vos animaram a vir, e as melhorias sonhadas e às quais tendes pleno direito. Ao mesmo tempo sinto-me preocupado com os numerosos e graves problemas que surgem num bairro novo, e quase sempre com penosas consequências não só de ordem trabalhista, mas também familiar, religiosa e moral. São problemas humanos suscitados em boa parte pela acelerada urbanização e a criação de populações em grande escala, que, ao alterarem muitas vezes o ritmo tranquilo das habituais ocupações, condicionam de maneira notável a vida diária, ofuscando talvez as vivências religiosas, inclusivamente as mais arraigadas.

A Igreja, essa herdeira de Deus solidária com a sorte do homem em todo o momento histórico, não considera tais condicionamentos como obstáculos insuperáveis para levar avante a sua missão; ao contrário, ela vê neles um chamamento a prodigar-se com abnegação e entrega, compartilhando as dificuldades e as necessidades, para que não sofra diminuição alguma a obra redentora de Cristo. Este novo templo convida-vos encarecidamente a dar testemunho, como pessoas e como comunidade paroquial, de que estais unidos em Cristo numa mesma fé e numa mesma esperança. Este templo vai ser sinal da permanente construção do Reino de Deus em vós e no vosso País. É casa de Deus e casa vossa. Estimai-o, pois, como lugar de encontro com o Pai comum. Alegro-me de saber que sob o impulso do Senhor Cardeal Arcebispo se desenvolve em Madrid um vasto programa de construção de templos paroquiais. Felicito quantos participam nesse empenho eclesial.

Permiti que me detenha agora em alguns pontos concretos que, como Pastor e responsável da Igreja universal, considero de particular importância para que continue a crescer, para o vosso bem e da inteira família eclesial, o edifício espiritual desta Comunidade.

4. Não me encontro convosco simplesmente diante de um templo, mas numa paróquia e, como tal, sois chamados a formar uma só coisa em Cristo, e obrigados a testemunhar a vossa vocação comunitária.

Uma paróquia é, de facto, uma comunidade de homens que, pelo Baptismo, estão pessoal e socialmente unidos ao sacerdócio de Cristo: à plena dedicação que Cristo fez de si mesmo ao culto e louvor de Deus, Criador e Pai. Vós sois uma paróquia, antes de tudo, graças ao facto de que Cristo está aqui: no meio de vós, convosco, em vós. Vós sois paróquia, porque estais unidos a Cristo, de modo especial graças ao memorial do seu único Sacrifício oferecido no próprio Corpo e Sangue na Cruz, o qual se faz presente e se renova na Igreja como o Sacrifício sacramental do pão e do vinho. Este sacrifício eucarístico traça o constante ritmo da vida da Igreja, também da vossa paróquia. Centralizai as vossas actividades paroquiais na Sagrada Eucaristia, no encontro pessoal com Cristo, perene Hóspede nosso! Desejo, em especial, recordar-vos a necessidade de participardes na Santa Missa aos domingos e dias festivos.

A união de Jesus na Eucaristia influirá na vossa vida e enriquecerá a vossa paróquia, pois a comunidade cristã cresce e se consolida graças ao testemunho de vida que os seus membros sabem oferecer. A este respeito, é fundamental que os pais dêem nas suas famílias um exemplo de vida coerente, e que os membros dos vários grupos e associações saibam ser bons discípulos de Cristo, generosos com todos, também com os que se mostram ainda refractários à mensagem cristã. Particular importância tem o compromisso de caridade para com os que, por uma outra razão, se encontram em necessidade. Os pobres, as pessoas doentes, os anciãos, os deficientes, representam outros tantos "apelos" com os quais Deus bate à porta do vosso coração. Pedi-Lhe a generosidade necessária para responder com doação, da forma adequada a cada caso.

5. "Um só Senhor, uma só fé, um só baptismo" (cf. Ef 4, 5) cantais com frequência, jubilosos diante do mistério da unidade da Igreja universal.

Papel privilegiado da paróquia é manter e tornar visível esta unidade. Ela deve ser para todos acolhedora, colaborando para a "unidade de toda a humanidade". Ninguém deve sentir-se estranho entre vós. Transpareça em todas as manifestações da vida paroquial que, como porção da Igreja, sois instrumentos de união com Deus e de unidade entre os homens.

Não há senão uma Igreja e Jesus Cristo, que é como uma grande árvore na qual estamos enxertados. Trata-se de uma unidade profunda, vital, que é dom de Deus. Não é somente nem sobretudo unidade exterior, é um mistério e um dom.

Seria empenho inútil e injusto pretender a unidade a nível de pequena comunidade enquanto nela se descuidasse a unidade profunda na fé, nos sacramentos da fé, na caridade. É em Cristo, Cabeça da Igreja, na sua doutrina, nos seus sacramentos, nos seus mandatos, na união com Cristo que se realiza e de onde surge a unidade.

A graça de Cristo continua a vir sem cessar, através da Igreja visível. Recordais bem como o Senhor diz aos seus Apóstolos: "Quem vos ouve é a Mim que ouve"(Lc 10, 16) e confere a Pedro e aos Apóstolos o poder de ligar e desligar (cf. Mt 16, 18; 18, 18).

A unidade manifesta-se, portanto, em torno daquele que, em cada diocese, foi constituído Pastor, o Bispo. E no conjunto da Igreja manifesta-se ao redor do Papa, Sucessor de Pedro, "princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade, tanto dos Bispos como dos fiéis" (Const. Lumen gentium, 23). Outra forma de proceder, quer pessoal, quer em grupo, não seria outra coisa que desgarrar-se da vida (cf. Jo 15,-1-6).

Vivei, pois, com delicada fidelidade o que prescreve a autoridade eclesiástica, evitando particularismos que separam e podem romper a comunhão com a Igreja.

Sois uma paróquia jovem, recém-criada, necessitada ainda de muitas coisas. Sem dúvida deveis pensar não só em vós mesmos, mas também nos demais. Deveis contribuir com a vossa oração e com o vosso empenho para o desenvolvimento do cristianismo nesta cidade e no mundo inteiro. Pedi fervidamente que entre os vossos jovens surjam vocações sacerdotais, a fim de levarem a voz de Cristo a outras paróquias e — porque não — também a outras terras e nações.

6. Ao terminar o nosso encontro, quero abençoar de coração esta obra e as outras Igrejas que se estão construindo ou se construirão nesta área, nos bairros com maior densidade populacional da arquidiocese madrilena e das outras cidades da Espanha.

Muitos de vós aqui presentes vivestes as dificuldades da construção deste templo, e participastes depois da alegria da sua inauguração, da sua dedicação ao culto de Deus. E hoje participais comigo da alegria deste encontro. Assim ocorre também com a construção desse templo de Deus que é cada um de nós. Custa construi-lo, porque essa construção exige superar o egoísmo, o ódio, viver a paciência, a fidelidade, a castidade, a laboriosidade, a integridade. Mas também, ao final desse esforço, espera-nos a alegria que acompanha os que são bons filhos de Deus.

Não esqueçais isto: a paróquia não é somente um lugar onde se celebram algumas cerimónias e se ensina o catecismo; é, além disso, ambiente vivo em que esse catecismo deve actuar-se. As pedras materiais ou a estrutura externa do templo devem sempre recordar-vos que sois "pedras vivas", que deveis construir-vos constantemente em Cristo, à medida e exemplo de Cristo, naquilo que é pessoal, familiar e social. Já está construído este edifício. Edificai agora as vossas vidas segundo a vontade de Deus.

Para isto, permanecei sempre junto da Virgem Santíssima. Ela, que concebeu no seu seio virginal a Nosso Senhor e Salvador, haverá de con-cebê-1'O igualmente nas vossas almas, se pedirdes com confiança a sua ajuda. Que interceda também por vós São Bartolomeu, vosso Padroeiro. Assim seja.

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

 

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