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VIAGEM APOSTÓLICA À ESPANHA
31 DE OUTUBRO - 9 DE NOVEMBRO DE 1982

CELEBRAÇÃO DA PALAVRA NO SANTUÁRIO DE MONSERRAT

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Monserrate, 7 de Novembro de 1982

 

Caros irmãos no Episcopado:
Saúdo-vos com afecto.
Estimados irmãos e irmãs: louvado seja Jesus Cristo!

1. Ressoam com plena actualidade, na liturgia, as palavras do Profeta: "Virão muitos povos e dirão: "Vinde, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacob: Ele nos ensinará os Seus caminhos, e nós andaremos pelas Suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor'" (Is 2, 3).

Em consonância com o convite bíblico, a visita a Monserrate associa, em união muito estreita, os valores da peregrinação religiosa com os encantos da meta mariana no cimo do monte, onde os céus se fundem com a terra. A subida ao Santuário, num quadro orográfico sugestivo, convida à evocação de uma história várias vezes secular.

Impressiona saber que estamos num lugar sagrado; que por estas mesmas veredas, abertas há séculos, caminharam, multidões de peregrinos, muitos deles ilustres pela sua descendência ou pela sua ciência. É um deleite, sobretudo, saber que seguimos as pegadas de João da Mata, Pedro Nolasco, Raimundo de Penafort, Vicente Ferrer, Luís de Gonzaga, Francisco de Borja, José de Calasanz, António Maria Claret e muitos outros santos eminentes; sem esquecer aquele soldado que, depondo as suas armas aos pés da Morenita, desceu do monte para dirigir a Companhia de Jesus.

2. Aflora aqui espontaneamente o cântico de júbilo do peregrino ao chegar à meta. O Salmista evoca, antes de tudo, o prazer inicial da viagem: "Rejubilei quando me disseram: 'vamos subir à casa do Senhor'" (Sl 121/122, 1). Uma alegria intensa, contagiosa, impaciente, no sentir de Santo Agostinho: "Corramos, corramos, porque iremos à casa do Senhor. Corramos e não nos cansemos, porque chegaremos aonde não nos fatigaremos... Iremos à casa do Senhor. Regozijei-me com os profetas, regozijei-me com os apóstolos. Todos eles nos disseram: Iremos à casa do Senhor'" (Enarr. Sl 121, 2).

Logo a seguir descreve o Salmista a experiência incomparável dos peregrinos, quando chegaram à meta tão desejada: "Eis que param os nossos pés / às tuas portas, ó Jerusalém. / Jerusalém, cidade tão bem edificada, / formas um conjunto bem delineado. / Para lá sobem as tribos, as tribos do Senhor, / segundo a lei de Israel, para celebrar o nome do Senhor" (Sl 121/122, 2-4).

O primeiro sentimento é de admiração perante a solidez de um edifício bem fundado. Monserrate encontra-se felizmente na série daqueles santuários que o ano passado tive o gosto de qualificar como "sinais de Deus, da Sua entrada na história humana", pois representam "um memorial do Mistério da Encarnação e da Redenção", em maravilhosa consonância com essa "vocação tradicional e sempre actual de todos os santuários serem como uma antena permanente da Boa Nova da Salvação" (Aos Reitores dos Santuários, 22 de Janeiro de 1981).

Glória dos beneméritos Filhos de São Bento é terem convertido em realidade o sonho de Santo Agostinho: "Vê qual é a casa do Senhor. Nela é louvado o que edificou a casa. Ele é delícia de todos os que moram nela. Ele só é a esperança aqui e a realidade ali". (Enarr. Sl 121, 3). Fiéis ao seu carisma institucional, os Monges de Monserrate vivem a fundo o seu empenho de fazer da Basílica um exemplo de oração litúrgica, embelezando a celebração com os encantos da sua famosa schola cantorum, e orientando a sua prece em direcção pastoral em favor dos inúmeros devotos que se comprimem à volta da "Mare de Deo".

O ambiente convida irresistivelmente à oração, que é uma necessidade para peregrinos que subiram ao monte, "segundo o costume de Israel, para celebrar o nome do Senhor". É uma alegria glorificar aqui as suas grandezas, onde o cântico ao Criador flutua espontaneamente nos nossos lábios; é um dever agradecer com amor filial os seus dons generosos, também em nome dos nossos irmãos; é, por fim, uma medida de prudência solicitar reserva de energias em vista de ulteriores etapas. Porque a peregrinação prossegue. Não devemos pensar aqui na terra em "morada permanente", e havemos de "aspirar à futura".

3. A isto convida a atitude exemplar de Nossa Senhora, que é Mãe e, portanto, Mestra. Sentada no seu trono de glória em atitude hierática, como compete à Rainha dos céus e da terra, com o Menino Deus sobre os joelhos, a Virgem Morena desvela aos nossos olhos a visão exacta do último mistério glorioso do Santo Rosário.

É providencial, contudo, que a celebração litúrgica da festa, gravite em torno do mistério gozoso da Visitação, que constitui a primeira iniciativa da Virgem Mãe. Monserrate encerra, por conseguinte, lições valiosíssimas para o nosso caminhar de peregrinos.

Não se deve esquecer nunca a meta definitiva do último mistério de glória. "Pensa — dirá Santo Agostinho — que hás-de estar ali amanhã de manhã, e embora ainda estejas no caminho, pensa como se já estivesses ali, como se já gozasses infalivelmente entre os anjos, e como se já se realizasse em ti o que se disse: 'Bem-aventurados os que moram na tua casa; pelos séculos dos séculos te louvarão'" (Enarr. Sl 121, 3).

No caminho deve-se imitar o estilo da Mãe na visita que fizera a sua prima: "Por aqueles dias, pôs-se Maria a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade de Judá" (Lc 1, 39). O seu ritmo é decididamente exemplar segundo Santo Ambrósio: "Alegre no desejo, religiosamente pronta ao dever, impaciente na alegria, dirigiu-se para a montanha" (Exp. Ev. Lc 2, 19).

É necessário observar que o seu itinerário não se limita a essa ascensão física para a montanha. O Espírito irrompe num momento forte: fez saltar de alegria João no seio materno; inundou de luz divina a mente de Isabel; arrebatou a Rainha dos Profetas, impelindo-a em marcha ascensional para o cimo do monte invisível do Senhor. Fê-lo seguindo a lei maravilhosa que "derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes" (Lc 1, 52). O "Magnificat" representa o eco daquela experiência sublime na sua peregrinação paradigmática: "A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilde condição da Sua serva. De facto, desde agora todas as gerações me hão-de chamar ditosa" (Lc 1, 47-48). O cântico de Maria ressoa indifectivelmente ao longo dos séculos. Aqui em Monserrate parece ter-se cristalizado até ao ponto de constituir "um Magnificat de rocha". Não é apenas sinal que faz fé da ascensão realizada; é além disso uma seta indicadora de ulteriores escaladas.

A virtude do peregrino é a esperança. Aqui é possível fazer provisão; porque Maria a cinge entre os seus braços e a põe maternalmente ao nosso alcance. Inclusivamente sem nos darmos conta, como fizera com os esposos de Caná da Galileia. Intervém sempre com solicitude e delicadeza de mãe. Fê-lo de forma exemplar no mistério da Visitação, salientado com acento litúrgico indelével em Monserrate. Explica-se, portanto, que ressoe diariamente nesta montanha o timbre melodioso da saudação a Nossa Senhora, à Rainha, à Mãe, à Depositária da esperança que encoraja os peregrinos: Deus vos salve, vida, doçura e esperança nossa.

4. O Salmista alude a uma Jerusalém celeste que se entrevê através da Jerusalém terrena. Será forçada a transposição da imagem? A Virgem de Monserrate, sentada no seu trono, com o Filho em cima dos joelhos, parece estar à espera de poder abraçar com Ele todos os seus filhos. A nossa peregrinação espiritual consiste, em definitivo, em alcançar em plenitude a filiação divina. A nossa vocação é um facto; por predilecção incompreensível do Pai, fez-nos filhos no Filho: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, do alto dos Céus, nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. Foi assim que n'Ele nos escolheu antes da constituição do mundo, para sermos santos e imaculados diante dos Seus olhos. Predestinou-nos para sermos Seus filhos adoptivos por meio de Jesus Cristo, por Sua livre vontade, para fazer resplandecer a Sua maravilhosa graça, pela qual nos tornou agradáveis em Seu amado Filho" (Ef 1, 3-6).

O Salmista descreve a meta como uma "Jerusalém que se edifica como cidade". O que dá ensejo a Santo Agostinho para modelar a filiação noutro registo: "Agora está a edificar-se, e para ela concorrem na sua edificação pedras vivas, das quais diz São Paulo: 'também vós, como pedras vivas, sois edificados em casa espiritual'" (Enarr. Sl 121, 4). Este monte recortado de forma estranha, que é Monserrate, parece uma pedreira incomparável. "Agora edifica-se a cidade, agora são cortadas as pedras dos montes pelas mãos dos que pregam a verdade e são esquadradas para se unirem em construção eterna" (ib.). Daqui, de Monserrate, da região catalã, da Espanha inteira devem extrair-se os silhares da nova construção.

Sem esquecer que o fundamento é Cristo (cf. 1 Cor 10, 4). Com as consequências que isto traz consigo na arquitectura. Dir-se-ia que Santo Agostinho, ao comentar o salmo, tinha uma Basílica como a de Monserrate diante dos olhos: "Quando se deita o cimento na terra, edificam-se as paredes para cima, e o seu peso gravita para baixo, porque em baixo está colocado o cimento. Mas se o nosso cimento ou fundamento está no céu, edificamos para o céu. Os construtores edificaram esta "basílica que vedes erguer-se majestosa; mas como a edificaram os homens, colocaram o cimento em baixo; mas quando espiritualmente somos edificados, coloca-se o fundamento no alto. Corramos pois para ali, a fim de sermos edificados, porque desta mesma Jerusalém foi dito: "Eis que param os nossos pés às tuas portas, ó Jerusalém'" (Enarr. Sl 121, 4). O templo onde param os nossos pés é uma porta dessa outra construção, da qual nos sentimos pedras vivas.

5. Não é licito ignorar a sugestão oferecida aos peregrinos: "Pedi a graça da paz para Jerusalém, / e vivam em segurança os que te amam. / Reine a paz dentro dos teus muros, / e a tranquilidade nos teus palácios. / Por amor dos meus irmãos e dos meus amigos, / direi: haja paz para ti. / Por amor da casa do Senhor, nosso Deus, / pedirei para ti todos os bens" (Sl 121/122, 6-9).

A paz resume em síntese o conjunto de bens que pode um homem desejar. Uma paz baseada firmemente na aliança do Senhor, que é fiel para com os eleitos. Desta montanha santa, oásis de serenidade e de paz, desejo a autêntica paz messiânica para todos os homens, que são irmãos e para os quais a Morenita olha com o mesmo amor de Mãe. E que encomenda a seu Filho divino. "Ele julgará as nações, e dará as Suas leis a muitos povos, os quais das suas espadas forjarão relhas de arados, e das suas lanças, foices. Uma nação não levantará a espada contra outra nação e não se adestrarão mais para a guerra. Casa de Jacob, vinde, caminhemos à luz do Senhor" (Is 2, 4-5).

Que a montanha santa, Senhor, seja campo de oliveiras, seja "sacramento de paz". Um sinal do que são os filhos que amam ao lado da mãe comum; e um impulso eficaz para realizar na verdade o que ressoa hoje como utopia. E será realidade na medida em que os homens se conformarem docilmente ao único imperativo que os Evangelhos recolheram da boca de Maria: "fazei o que Ele vos disser". E Ele chama-se "príncipe da paz".

6. Damos-te graças. Senhor, pela felicidade que nos trouxe pousar os nossos pés aqui no santuário consagrado à Mãe, e onde nos sentimos confortados com impulso renovado para o nosso itinerário futuro.

Pedimos-te, ó Pai, que nesta Basílica, onde mora o teu Filho Jesus Cristo, Filho de Maria, concedas copiosamente a paz, a concórdia e a alegria a todas as tribos peregrinas da nova Israel. Faz, Senhor, que todos os homens consigam descobrir o profundo sentido da sua existência peregrina na terra; que não confundam as etapas com a meta; que adequem a marcha segundo o exemplo de Maria. Ela será a sua Auxiliadora; porque aqui, agora e sempre, Maria é Rainha poderosa e Mãe piedosíssima. Amém.

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

 

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