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VISITA PASTORAL À REGIÃO DA SICÍLIA (ITÁLIA)
20-21 DE NOVEMBRO DE 1982

SANTA MISSA NO VALE DO BÉLICE

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Sábado, 20 Novembro de 1982

 

Irmãos e Irmãs do Vale do Bélice!

1. "Graça e paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e da do Senhor Jesus Cristo" (1 Cor 1, 3). Realiza-se esta manhã um desejo que há muito cultivei no coração: o de vir à vossa terra, devastada pelo terrível sismo de 1969, para vos trazer o testemunho do meu afecto e para vos encorajar no generoso empenho com que estais lentamente a refazer-vos das consequências daquele doloroso evento. Louvado seja Deus que me concede a alegria deste tão caloroso e cordial encontro convosco.

Saúdo o Bispo de Mazara do Vale, que de maneira tão convincente interpretou os sentimentos dos Irmãos Bispos das dioceses de Agrigento, Monreal e Trápani, como também de toda a população do Vale e, de modo particular vossos, caríssimos, que vos reunistes no estupendo cenário deste ângulo pitoresco da Sicília. Além disso, dirijo uma deferente saudação às Autoridades presentes e agradeço ao Presidente da Câmara Municipal de Calatafimi que, também em nome dos colegas dos Municípios atingidos pelo terremoto, me deu as boas-vindas com nobres expressões, por mim muito apreciadas.

Saúdo os Sacerdotes, os Religiosos e as Religiosas, que compartilham quotidianamente as tribulações, as alegrias e as esperanças do rebanho que lhes foi confiado. Saúdo-vos, Homens e Mulheres desta terra que vivestes a terrível experiência daquela noite entre 14 e 15 de Janeiro de 1968 e enfrentastes, sem vos deixar abater, as extraordinárias dificuldades que a ela se seguiram durante todos estes anos. De modo particular saúdo-vos, jovens, que iniciáveis então os primeiros passos na existência ou que não tínheis ainda nascido: o futuro do Vale do Bélice está nas vossas mãos!

2. Quis que a minha primeira paragem entre as gentes da Sicília fosse aqui, na terra do Bélice. Não só porque é justo que o pai se dirija antes de mais aos filhos mais provados, mas também porque tinha para convosco a dívida de uma promessa. Monsenhor Trápani justamente recordou-a: quando o ano passado uma delegação dos Municípios desta região veio visitar-me no Vaticano, prometi que retribuiria a gentileza indo pessoalmente à vossa terra para vos olhar nos olhos e para que pudésseis ler no meu rosto a intensidade dos sentimentos que nutro por vós, pelos vossos anciãos, pelos doentes e pelas crianças.

Sim, as vossas crianças. Um grupo delas há alguns anos foi a Roma e foi acolhido também pelo meu Predecessor, o Papa Paulo VI, que, entretendo-se com elas, disse entre outras coisas: "Sabei que nós seremos os vossos advogados". A minha visita de hoje coloca-se em ideal continuidade com o empenho assumido por aquele grande Papa para convosco. Estou aqui para vos testemunhar que a solicitude da Igreja, manifestada de vários modos nos anos passados, não diminuiu, mas está sempre viva e operante. Estou aqui, além disso, para verificar pessoalmente que, não obstante mais de catorze anos passados desde aquela terrível noite, as consequências do sismo não foram ainda completamente canceladas.

Permanece ainda hoje, de modo particular grave, o problema da habitação: muitas famílias continuam a viver em barracas, suportando o peso do estado de coisas tão precário indigno de pessoas civilizadas. Como não elevar a voz para denunciar o insuportável perdurar de uma situação tão penosa? A casa é exigência primária e fundamental para o homem: nela florescem os afectos familiares, são educados os filhos e desfrutam-se os resultados do próprio trabalho.

Numa Sicília rica de história, de civilização, de tradições familiares humanas e cristãs, a barraca é uma degradação e um sinal de precariedade, que ofende e deprime. Seja portanto oferecida a todos a possibilidade de uma casa decorosa; seja oferecida de modo particular às crianças, que têm necessidade de um próprio lar, de um lugar sereno e caloroso, onde possam crescer e desenvolvesse, sem o perigo de traumas e de doenças.

A minha presença entre vós, caríssimos, quer ser apelo aos responsáveis e a todas as pessoas de boa vontade para que se esforcem, tanto no âmbito público quanto no privado, por apressar os tempos da retomada, favorecendo o término dos planos habitacionais e o avanço económico e social desta terra do Bélice, que tem nos dotes de mente e de coração dos seus habitantes os pressupostos seguros para significativos progressos em beneficio próprio e de toda a comunidade nacional.

3. Mas, cidadãos do Bélice, mesmo solicitando a necessária ajuda dos organismos administrativos, digo-vos: tende confiança sobretudo em vós mesmos! Estes anos de adversidade não vos trouxeram somente privações e sofrimentos; eles também revelaram em vós inesperadas reservas de inventivas e de generosidade, comoventes impulsos de altruísmo e de solidariedade. Tendes portanto razão para contar com as vossas energias no empenho de reconstrução, de que depende o vosso futuro.

Certamente, é justo que possais contar também com a contribuição da comunidade nacional e com a honestidade de quantos estão colocados à frente da administração do dinheiro público ou da sua aplicação em obras de comum utilidade. Nem tudo, infelizmente, nesta matéria, foi realizado com a necessária limpidez; e é conhecido como em tais carências foram manifestas em muitas partes as razões de lentidão e de irregularidades na obra de reconstrução.

É necessário, portanto, fazer apelo ao sentido de responsabilidade de políticos, de administradores e de empreiteiros. É porém necessário chamar também cada um dos cidadãos à consciência dos deveres que lhes competem quanto ao bem comum. É só com o solidário contributo de todos que se podem enfrentar calamidades naturais deste alcance e avançar no caminho do civil progresso, criando espaços convenientes às novas gerações, que se apresentam à existência e exigem poder dar ao comum bem-estar o contributo das suas vigorosas energias.

4. Irmãos e Irmãs do Vale do Bélice! O que em tempos de dificuldades e de crises urge sobretudo promover é a formação de consciências amadurecidas, sensíveis ao apelo dos valores morais. A reconstrução material da vossa terra será feita de modo plenamente satisfatório e dará duradouros frutos no tempo, se estiver apoiada na firme rocha dos valores morais que formaram o património dos vossos antepassados, consentindo-lhes suplantar dificuldades não menores das que hoje enfrentais.

Vós sabeis quais foram os valores que inspiraram as opções de vida dos vossos pais: não obstante as debilidades e os desvios que marcaram também as épocas precedentes, é fora de dúvida que a fé iluminou e sustentou os vossos antepassados, purificando progressivamente os seus sentimentos e orientando as suas opções em sentido cada vez mais conforme às exigências da dignidade de homens e filhos de Deus.

É a esta fonte que deve chegar também a presente geração se quer alcançar aquelas metas de liberdade, de justiça e de paz às quais aspira de maneira apaixonada. A fé, de facto, abre o coração a Cristo. E Cristo sabe "o que está dentro de cada homem" (Jo 2, 25). Ele pode, portanto, indicar-vos o justo caminho para a plena realização das esperanças e dos ideais que ardem no vosso ânimo. Não tenhais, por conseguinte, medo de Cristo, mas abri-Lhe as portas do. vosso coração!

5. Estamos agora reunidos à volta do altar, sobre o qual Ele renovará o mistério da sua paixão e da sua ressurreição. Portanto, Ele está no meio de nós. Como não pensar na cena descrita na página evangélica, há pouco proclamada? Também outrora havia muita gente ao redor de Jesus, e foi naquela circunstância que o Mestre divino, anunciada que Lhe fora a chegada da Sua Mãe e de parentes, respondeu "voltando-se para os que estavam sentados à sua volta": "Aí estão Minha mãe e Meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é Meu irmão. Minha irmã e Minha mãe" (cf. Mc 3, 31-35).

"Aquele que fizer a vontade de Deus". Cada um sinta sobre si o olhar indagador de Cristo, enquanto Ele nos repete estas palavras. O critério enunciado naquele dia continua válido nos séculos. O que decide que se pertença a Cristo, estabelecendo entre Ele e a alma um vínculo espiritual tão profundo a ponto de ser semelhante àquele que liga entre si os membros da mesma família, é o "fazer a vontade de Deus". Não há outro título que, aos olhos de Cristo, possa substituir este único, mesmo que seja o da maternidade puramente física. Se Maria é a primeira criatura nos planos de Deus, isto é devido ao facto que, além de ser a mãe de Cristo segundo a carne, também acolheu a palavra de Deus com total disponibilidade, fazendo-a em todos os momentos do dia conteúdo vivo da própria existência.

Por esta razão, Ela "é saudada como membro eminente e inteiramente singular da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade" (Lumen gentium, 53). Para Ela, portanto, cada fiel deve olhar para aprender como se "faz a vontade de Deus" e como se entra em comunhão de vida com Cristo, Verbo de Deus descido do Céu por amor do homem.

5. Povo do Bélice, confio a vossa terra à materna protecção da Virgem Santíssima: benzi há pouco a sua imagem, invocando a sua intercessão pelas numerosas vítimas do terremoto, cujos nomes estão inscritos na coluna de mármore colocada aos seus pés.

Acolha Maria sob o seu manto cada um de vós, as vossas comunidades, cada uma das famílias, e conserve viva e ardente nos vossos corações a chama da fé. Salvaguarde nas crianças o candor da inocência; suscite nos jovens a paixão pelos grandes ideais; inspire aos esposos o vivo sentido da sacralidade do amor; defenda os adultos das tentações do oportunismo e do comprometimento; conforte a velhice, provada de várias maneiras no corpo e no espírito, com o bálsamo interior da esperança.

Com a sua ajuda possa esta vossa terra, caríssimos Irmãos e Irmãs, juntamente com toda a ilha da Sicília permanecer firme na profissão da fé, continuando a merecer considerar-se entre aquelas "numerosas nações" para as quais o profeta Zacarias prevê que "adereriam ao Senhor" e se tornariam "o seu povo". Oxalá se diga sempre desta Ilha, em que povos diversos deixaram gloriosos vestígios do seu passado, a solene palavra que ouvimos na primeira Leitura de hoje: "Ele, o Senhor, ficará no meio de ti" (Zac 2, 15).

Se o Senhor "ficar no meio de ti", terra da Sicília que emerges do mar mais rico de história, e nos séculos foste um ponto de encontro de povos, poderás desempenhar também no futuro um providencial papel de ligação entre o Oriente e o Ocidente, e favorecer o encontro entre civilizações diversas, reflectindo sobre todas a luz trazida aos homens por Cristo, Pilho de Deus e Filho de Maria.

Se o Senhor "ficar no meio de ti". Não esqueças isto! Aqui está o segredo dos teus futuros destinos.

 

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

 

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