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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II
AO ZIMBÁBUE, BOTSUANA, LESOTO,
SUAZILÂNDIA E MOÇAMBIQUE (10 A 19 DE SETEMBRO)

HOMILIA DO SANTO PADRE
DURANTE A SANTA MISSA AOS FIÉIS
DA ARQUIDIOCESE DE NAMPULA
EM MOÇAMBIQUE

17 de Setembro de 1988

 

Meus amados irmãos e irmãs,

“HÁ DIVERSOS DONS espirituais, mas o Espírito é o mesmo” (1 Cor 12, 14). Foi Ele que aqui nos congregou, no Senhor Jesus Cristo.

1. Deixai que vos manifeste, antes de mais, a alegria que sinto por estar entre vós. E recebei a saudação afectuosa do Bispo de Roma, sucessor de Pedro, que veio visitar-vos como peregrino do Evangelho e da Paz. Deus me é testemunha de quanto vos amo a todos, com a ternura de Jesus Cristo, como dizia São Paulo (Cfr. Fl 1, 8). Por estas palavras, já entendeis o meu desejo de vos ver, animar e abençoar a todos. Sei que vós mesmos desejáveis dar-me o testemunho da vossa Fé e da vossa devoção.

Aqui, bem perto do local onde nasceu o nome Moçambique, hoje Nação soberana, convosco dou graças a Deus, pelo crescimento da Igreja na vossa pátria: nesta Arquidiocese de Nampula, nas Dioceses vizinhas e em todo o território moçambicano. Saúdo, com todo o afecto, o Senhor Arcebispo que me acolhe, Dom Manuel Vieira Pinto, os outros Irmãos no Episcopado, as Excelentíssimas Autoridades e todas as forças vivas desta Comunidade eclesial e das Dioceses sufragâneas de Lichinga e Pemba; saúdo os queridos missionários e fiéis presentes, e quantos, por dificuldades várias, não puderam vir, mas nos estão unidos em espírito.

Quero ainda dirigir uma saudação particular aos seminaristas, que frequentam este Seminário interdiocesano e aos demais de todo o Moçambique: olhai, as vossas comunidades, os vossos Pastores e o Papa, queridos jovens, têm os olhos postos em vós, com muita esperança. Sede generosos e amigos de Cristo, que vos quis “fitar com amor” (Cfr. Mt 19, 36ss).

2. As primeiras Missões, aqui iniciadas há quase cinco séculos, deram a estas terras os primeiros cristãos. Com o andar do tempo, aos poucos nasceram as vossas comunidades. Neste momento, quero evocar, aqui convosco, os missionários que, generosa e abnegadamente, algumas vezes mesmo com o sacrifício da própria vida, foram lançando os alicerces da Igreja neste belo País. Os seus nomes, desconhecidos muitos deles, estão escritos no Livro da Vida. E os seus túmulos, ou os seus restos mortais sem túmulo, estarão nalgum recanto da vossa terra.

Ajoelho-me em espírito, diante de cada uma dessas sepulturas e sufrago esses missionários, engrandecidos pelo dom de si mesmos às missões. E por eles e por vós, cristãos de hoje, dou graças a Deus!

3. A minha visita missionária à vossa terra torna aqui presente de modo especial a Igreja que está em Roma. Na Igreja universal – como ouvimos na Palavra de Deus agora proclamada – todos os que fomos baptizados num só Espírito, constituímos um só Corpo (Cfr. 1 Cor 12, 13); e no Romano Pontífice e nos Bispos em união com ele está o fundamento visível da verdadeira e única Igreja de Jesus Cristo. Esta é realidade viva na alma dos cristãos, nas comunidades, nas dioceses, enfim, na universalidade do Povo de Deus em toda a terra. Também as vossas comunidades são ramos desta grande árvore; e aí vão buscar a própria seiva, para viver; mesmo se espalhadas no interior e atravessando grandes dificuldades, elas são animadas por um só Espírito.

Ao receber os vossos Bispos em visita “ad Limina”, já por duas vezes, tive a consolação de congratular-me pela caminhada de evangelização, de amadurecimento na fé e de participação comunitária, que a Igreja em Moçambique tem feito. E hoje, a minha presença no meio de vós é também congratulação, ao celebrarmos juntos a comunhão de vida, aqui e agora, na Igreja.

4. Viver em comunhão, ao nível de comunidades locais, como Igreja viva e aberta aos desafios do momento em Moçambique, foi opção feita em Assembleia Nacional de Pastoral na Beira, em 1977. Dos relatórios constam alguns dos desafios que, na altura, se apresentavam à Igreja. Urgia providenciar para que se mantivessem vivas as comunidades cristãs, dada a falta de Sacerdotes.

Para isso, era necessário que os cristãos leigos, bem escolhidos e bem preparados, se empenhassem a prestar às comunidades os serviços compatíveis com a própria condição eclesial; era necessário despertar neles a consciência de Igreja e a co-responsabilidade como baptizados.

Mesmo sem templos onde se reunir para rezar, impunha-se apoiar a vivência da fé de cada um, suscitando o sentido de comunhão: entre os cristãos, na própria comunidade; entre as diversas comunidades; e entre todos, a com um só coração e uma só alma” (Cfr. At 4, 4), na Igreja particular, presidida pelo Bispo; esta – sabemo-lo – nas dimensões locais e com as marcas africana e moçambicana, respira sempre pelos “pulmões” da Igreja universal, sustentada pelo mesmo Espírito.

5. Num ambiente como aquele em que vivíeis então, era muito importante a imagem e a missão da Igreja como factor de comunhão. Assim, as circunstâncias contribuíram para a vossa caminhada como Igreja, mediante a vivência da fé pelos seus membros, aos vários níveis em que o Senhor os colocou. Há um só depósito da fé, há para todos os mesmos Sacramentos e um idêntico vínculo da caridade, porque “o Senhor é o mesmo” (1 Cor 12,11). Há, pois, “um só Corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança no chamamento que recebestes” (Ef 4, 4). E, nesta comunhão, todos participamos, em grau diverso, da missão sacerdotal, profética e real de Jesus Cristo.

O Espírito distribui os seus dons “a cada um conforme lhe agrada” (1 Cor 12,11): alguns fiéis são chamados, por vontade de Cristo, para servirem os irmãos no ministério sacerdotal; outros, para darem testemunho da vida eterna e do absoluto de Deus, no estado de consagração, mormente na vida religiosa; mas, à grande maioria dos cristãos, Nosso Senhor confia-lhes o cumprimento da própria missão eclesial como leigos, no meio do mundo. Aí hão-de proceder de modo que a acção salvífica da Igreja chegue a todos os homens e impregne inteiramente o ambiente. Entretanto, São Paulo explica:

“Há diversos dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos”.

6. A realidade da Igreja-comunhão – uma comunhão orgânica, espiritual e hierárquica – está bem presente na perspectiva do Concílio Vaticano II, em particular na explanação doutrinal da Constituição “Lumen Gentium”: a Igreja é comunhão com o Pai, por Jesus Cristo, no Espírito Santo; e esta comunhão realiza-se pela Palavra e pelos Sacramentos. O Baptismo é a porta e o fundamento dessa comunhão: a Penitência é o meio sempre prestes de reconciliação; e a Eucaristia é a “fonte e convergência de toda a vida cristã” e da unidade: “formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo Pão” (1 Cor 10, 17).

Assim, a Igreja é para todo o crente objecto de fé e amor. Um dos sinais do real compromisso com a mesma Igreja é acatar sinceramente o seu Magistério, que cimenta a comunhão. Não é admissível a contraposição que se faz, por vezes, entre uma Igreja oficial, “institucional” e a Igreja-comunhão. Não são de facto, nem podem ser, realidades separadas. O verdadeiro cristão sabe que a Igreja é povo de Deus uno e único, por convocação de Jesus Cristo (Cfr. Lumen Gentium, 13).

Este carácter de unidade católica do Povo de Deus, é dom do Senhor, graças ao qual a Igreja, prefigurando e promovendo a paz universal, tende, constante e eficazmente, a recapitular em Cristo a humanidade inteira, com tudo o que ela tem de bom. O mesmo Senhor a quis sociedade visível; e Ele próprio a governa por meio do Sumo Pontífice e dos Pastores Cfr. Lumen Gentium, 14). Portanto, Igreja-comunhão é, antes de mais, comunhão na fé e nas obras, com a sagrada Hierarquia.

7. A fé assim vivida em comunhão fraterna, na unidade do mesmo Espírito e sob a orientação dos pastores, dá à comunidade um aspecto de família, a família dos filhos de Deus, reunida em nome de Cristo. Sei que a ideia de família é muito querida ao povo africano: é portanto bem compreensível que gosteis de ver as vossas comunidades cristãs a viverem à maneira de uma família unida, onde todos contam, na qual ninguém se sente estranho, onde todos fazem aquilo que podem e sabem, cada um segundo a própria condição e generosidade.

Ouçamos o que diz São Paulo: “A um é concedido, por meio do Espírito, a linguagem da sabedoria, a outro a linguagem da ciência... a outro o dom das curas... a outro o poder de operar milagres... todas essas coisas, porém, as produz o mesmo e único Espírito” (1 Cor 12, 8-11). Transpondo esta variedade de carismas, sem anacronismos nem simplificações demasiadas, para o tempo hodierno da Igreja em Moçambique, sei que os vossos Bispos, nas suas cartas pastorais, têm tido a preocupação: de explicar-vos, no enquadramento devido, como cada um de vós há-de aproveitar e exercitar, ao serviço das comunidades, os “dons” recebidos de Deus (obviamente, diversos dos enumerados por São Paulo); e de vos instruir sobre a maneira de dar vida e coerência aos vários “ministérios” não constituídos.

O que distingue algum dos membros no Corpo da Igreja, se for suplemento de dignidade, está subordinado à habilitação para a “obra do ministério”, à contribuição que cada um deve dar para o crescimento orgânico do Corpo inteiro (Cfr. Ef 4, 16).

8. O mais recente Sínodo dos Bispos, nas “propostas” finais, apelou para as pequenas comunidades vivas, exortando-as a serem cada vez mais verdadeiras expressões do rosto da Igreja evangelizada e evangelizadora. Com este lema parece processar-se entre vós a caminhada da Igreja “ministerial”. O esforço por animar e servir as vossas comunidades cristãs continua. E todos procuram adaptar-se às necessidades; também os pastores e missionários: os ministros ordenados.

Sei, amados irmãos, que o vosso contacto com numerosas comunidades, por vezes se torna impossível. Com generosidade e grandes sacrifícios,. fazeis o que podeis; e prestais relevantes serviços, no campo da evangelização, da vida sacramental, da assistência espiritual, do exercício da caridade pastoral. De quantos riscos ides ao encontro, para realizar estes serviços e os demais planos de pastoral, em regiões tão vastas e tão provadas pela guerra!

Essas dificuldades não vos fazem esmorecer; e estais decididos a não privar as comunidades do vosso ministério. Diante dos desafios prementes da actividade sócio-caritativa, não cedais por motivo nenhum, a glória e o primeiro lugar do Senhor em tudo e em todos; não abafeis a voz deste povo, com fome de Deus, que hoje, como os discípulos outrora, vos diz: “ensinai-nos a rezar” (Cfr. Lc 11, 1).

9. O trabalho apostólico e caritativo dos “animadores”, que se desenvolve em tantas comunidades cristãs, não substitui totalmente nem dispensa o “ministério hierárquico”. Este, sinal sacramental de Cristo Pastor e Cabeça da Igreja, é o principal responsável na edificação da mesma Igreja, na comunhão e na dinamização da sua actividade evangelizadora (Cfr. Puebla, 659).

Remontando às raízes da Igreja, sabemos que o “ministério ordenado” e hierárquico pertence à estrutura essencial da Igreja, por vontade do Senhor Jesus: pertence à sua configuração e visibilidade, com carácter perpétuo, garantindo a continuidade da “missão” e a ligação entre Cristo e a comunidade. E não esqueçamos que as estruturas ministeriais – destinadas a santificar, ensinar e governar – de per si, são estruturas de comunhão.

10. Mais uma breve palavra, ainda, sobre o papel importante do animador da Liturgia dominical, sem a presença do Sacerdote. Esta celebração constitui para muitos cristãos, o único meio de viverem a comunhão com Cristo pela Liturgia. Entretanto, é uma “forma de culto que não é destinada – repito-o aqui – a substituir a Missa: mas deve conduzir a ela” ( Cfr. Notitiae, 23 (1987) 1012).

Trata-se do modo melhor para celebrar o Dia do Senhor, de que dispõem os fiéis conscientes da importância do domingo, mas privados da presença do Sacerdote (Congr. Culto Divino Directorium, 2 de junho de 1988). Por isso, com os vossos Bispos, quero mostrar-vos muito apreço pela “acção generosa” que desenvolveis neste sentido, bem como em relação a outros Sacramentos e Sacramentais (Cfr. CEM, Vida cristã no momento presente, Maputo, 1980).

11. A Igreja, amados irmãos, é como um corpo vivo, com muitas funções (Cfr. 1 Cor 12, 13). Para as exercer não é suficiente uma pessoa, mesmo que seja o Sacerdote; é necessária a intervenção de muitas que, sentindo-se parte integrante da família de Deus, em comunhão com os irmãos, ponham as próprias capacidades ao serviço de todos. Vós aqui tendes dado mostras de boa vontade neste sentido, com dedicação e sacrifício.

Mas é preciso continuar a pensar no Sacerdócio ministerial, sem o qual nenhuma comunidade pode ter tudo aquilo de que precisa, por natureza. É enorme a desproporção em Moçambique entre as necessidades dos cristãos e o exíguo número dos Sacerdotes ordenados e a ordenar nos próximos tempos. Quando teremos Sacerdotes moçambicanos, diocesanos e religiosos, em número suficiente?

E aqui, seja-me permitido acentuar: é sobretudo do clero local diocesano – e também da vida consagrada local – que dependem a consolidação e a garantia do futuro duma Igreja particular. Por isso, o ritmo e as perspectivas de Ordenações do clero diocesano em Moçambique não podem deixar-nos indiferentes. É preciso rezar mais pelas vocações e, deixando liberdade de opção aos vocacionados, criar-lhes ambiente favorável na família e nas comunidades.

12. Para concluir, queridos irmãos e irmãs, quero exortar-vos

– a empenhar-vos, como Povo de Deus peregrino, para que a Igreja aqui se torne, sempre mais, sinal de salvação, sendo e ajudando outros a serem adoradores de Deus “em espírito e verdade”;

– a anunciar a Boa Nova de Jesus, o Salvador, às comunidades, às famílias, aos jovens e às crianças, realçando a sua força santificadora e libertadora do pecado e do mal, para a comunhão com Deus;

– a constituir e ajudar a formar lares cristãos, onde reinem a paz, o amor e a alegria, com a glorificação de Deus e Senhor;

– a defender a dignidade e os direitos inalienáveis e sagrados de toda a pessoa humana, em todos os momentos da existência: homens e mulheres, crianças e velhinhos;

– a exercer com coragem e perseverança, mas sem violência e segundo o Evangelho das bem-aventuranças, a dimensão profética do vosso ser cristão, até à denúncia do que desintegra, desumaniza e degrada o homem-irmão (Cfr. Is 62, 1-2);

– a promover a reconciliação e a unidade e a abrir por toda a parte espaços de esperança e de vida, no meio das atrocidades da violência e da guerra e diante do escândalo da miséria e da fome;

– a favorecer e contribuir para o diálogo, por um Moçambique cada vez mais digno do homem: diálogo pelo desenvolvimento na justiça e na paz;

 – a envidar e conjugar esforços pela promoção da identidade cultural e nacional do vosso País, salvaguardando as “sementes do Verbo”, aqui colocadas pelo Senhor, e servindo o Reino de Deus e a sua justiça (Cfr. Mt 6, 33).

Em tudo isso, o Senhor Jesus quer continuar – através de nós, seu Corpo visível, através da Igreja que formamos – a sua missão de Redentor do homem: do homem todo e de todos os homens. Vim aqui para confirmar-vos na fé e no serviço dessa missão, pois “servir é reinar”!

Com Maria, Mãe de Jesus, o “Servo de Javé”,
com Maria, Mãe nossa, a “Serva do Senhor”,
com Maria, Rainha do mundo e Rainha da paz,
peçamos a paz para Moçambique.

Dou graças a Deus, Senhor nosso, por esta possibilidade de estar convosco aqui em Nampula; também dou graças a todos os presentes pela participação, pela oração de vida em comunhão de todos. Dou graças, também pela beleza deste encontro litúrgico, deste encontro de oração. Agradeço a todos, especialmente aos jovens, aos jovens, os cantos. Digo-me cheio de admiração pela beleza das vozes: cantaram com força, cantaram também com alegria. Pude também viver convosco este momento litúrgico de paz, alegria litúrgica de todos, e momento de compartilhar a paz. E desejo para toda esta região, para Moçambique inteiro, desejo de coração esta paz. Agradeço uma vez mais a todos, e estou convosco rezando pela paz, pela reconciliação, pelo progresso da vossa pátria, do vosso amado e querido País, Moçambique.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

 

© Copyright 1988 - Libreria Editrice Vaticana