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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II
 A CABO VERDE, GUINÉ-BISSAU, MALI E BURKINA FASO

HOMILIA DO SANTO PADRE DURANTE
A CELEBRAÇÃO DA SANTA MISSA
NO ESTÁDIO NACIONAL DE BISSAU

27 de Janeiro de 1990

 

Meus amados irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo,

“ Considerai a vossa vocação ”!  (1 Cor 1, 26)

1. Estas palavras, dirigidas pelo Apóstolo São Paulo aos primeiros cristãos de Corinto, dirige-as a Igreja a quantos participam na celebração da Eucaristia, a Santa Missa, deste quarto Domingo do Ano Litúrgico. E repete-as, hoje, o Bispo de Roma, sucessor de Pedro, nesta visita que vos faz aqui, na Guiné-Bissau: “ Vede quem sois, vós os que Deus chamou ”.

Enchei-vos de confiança ao considerar a vossa vocação! “ Deus escolheu o que era fraco aos olhos do mundo para confundir os fortes ” (1 Cor 1, 27). Escolheu-vos a vós, que, humildes e pobres, não vos gloriais diante dos homens, mas somente diante do Senhor Jesus Cristo, certos de que Ele é para vós “ sabedoria, justiça, santidade e redenção ” (1 Cor 1, 30).

Que Deus vos abençoe e vos torne felizes, irmãos e irmãs, dos vários grupos étnicos que compõem o povo da Guiné-Bissau: Balantas e Fulas, Manjacos e Mandingas, Pepéis e todos os outros!

Sede todos bem-vindos a esta celebração Eucarística: vós, os que pertenceis à Comunidade católica; vós, os irmãos de outras confissões cristãs, que quereis partilhar connosco a oração; e vós, os que ainda esperais da Igreja a luz de Cristo e o anúncio da sua Palavra.

A minha saudação estende-se igualmente aos amigos muçulmanos, bem como a quantos, seguindo outras crenças religiosas, especialmente as mais tradicionais da África, adoram a Deus, o único: o Criador do céu e da terra, o Deus vivo, misericordioso e omnipotente, que se revelou aos homens.

Saúdo em particular as Autoridades: o Senhor Presidente da República, os representantes do Governo e das instituições públicas. Para eles vai a minha gratidão, pelo acolhimento e hospitalidade. Peço a Deus que se mantenham e progridam aqui a concórdia e a colaboração, entre todos os que servem este Povo e a Comunidade eclesial.

2. Considerai - continua o Apóstolo - a vocação que temos em Jesus Cristo: Ele “ tornou-se para nós a sabedoria que vem de Deus e também justiça, santidade e redenção. E, assim, conforme está escrito, " quem se gloria deve gloriar-se no Senhor " ” (1 Cor 1, 30-31).

E qual é a vocação que temos em Jesus Cristo?

É Ele mesmo, o Senhor, que nos dá uma resposta muito profunda, no sermão da montanha, com a mensagem das oito bem-aventuranças. Acabámos de a ouvir, agora mesmo, na leitura do Evangelho deste dia:

Felizes os pobres, que o são no seu íntimo, em espírito;
felizes os que choram,
felizes os mansos, os humildes,
felizes os que têm fome e sede de justiça,
felizes os misericordiosos,
felizes os puros de coração,
felizes os obreiros da paz,
felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça.

Estas bem-aventuranças - as oito bem-aventuranças do sermão da montanha - mostram, de forma muito clara, qual a nossa vocação em Jesus Cristo, neste mundo.

A vocação cristã é-nos dada no sacramento do Baptismo e reforçada com o do Crisma. Mas exprime-se em plenitude, através da Eucaristia, deste sacramento em que estamos a participar. Esses três sacramentos chamam-se “ os sacramentos da iniciação cristã ”.

3. A vocação de todos vós, que aqui na Guiné-Bissau constituís a Igreja de Cristo, é a das “ bem-aventuranças ”.

Estais radicados em Cristo e sois vivificados por Ele, como membros vivos do seu Corpo, ramos da mesma videira, rebentos de oliveira enxertados no único tronco.

A vossa vocação exige-vos, portanto, que produzais fruto, em razão de vossa maneira específica de estar em Cristo, ou seja, em comunhão com Ele. Dar fruto é exigência essencial da vida cristã; deste modo, comunhão e missão andam juntas e uma implica a outra. Quem não dá fruto, quem se dispensa de trabalhar na missão que Cristo lhe confiou, ou não responde ao convite de anunciar o Evangelho, exclui-se a si próprio da vida e da comunhão com o Mestre. Ele é, ao mesmo tempo a fonte e o fruto da missão (Cfr. Christifidelis Laici, 32).

Caros irmãos e irmãs da Guiné-Bissau, procurai conscientizar-vos da vossa vocação, que é essencialmente missionária: Cristo chamou-vos para que, por vós, na vossa terra todos conheçam e aceitem a vida nova, que entrou na história do mundo, através do Filho de Deus.

4. Procurai ter sempre presente a comunhão missionária que vos une a todas as Igrejas particulares da África e que compromete a vossa Comunidade no testemunho de tantos outros irmãos do Continente. Sede, portanto, vigilantes, generosos e perspicazes em discernir as funções e as responsabilidades que vos foram confiadas, para dardes a conhecer qual o significado genuíno da vida cristã no coração das tradições culturais e religiosas das terras africanas, felizes por nelas descobrir os germes do Verbo. Atendei às profundas evoluções que se deram nos tempos recentes, prontos para interpretar e iluminar riquezas e problemas com a luz do Evangelho, em diálogo sincero e compreensivo.

Como sabeis, é também essa uma das finalidades que se propõe a assembleia especial do Sínodo dos Bispos que irá tratar o tema da Igreja em África no limiar do Terceiro Milénio. Estamos cada vez mais perto desse acontecimento, que deverá constituir para todos os cristãos da África um momento privilegiado e de responsabilidade no caminho complexo da evangelização. Por esta esperam tantas amadas populações, das quais me sinto hoje, de maneira especial, muito próximo.

5. A Comunidade católica da Guiné-Bissau vive numa sociedade caracterizada por um clima de paz, de tolerância e de respeito entre as comunidades religiosas que integram a população. Muitos, aqui, olham para a Igreja católica com interesse e viva esperança, confiantes na sua mensagem. Vêem-na com simpatia muitos irmãos muçulmanos. Interrogam-na, esperançados, sobretudo aqueles que, sendo herdeiros das mais antigas tradições animistas, precisamente da Igreja esperam uma resposta esclarecedora, para as suas numerosas interrogações sobre o mistério de Deus.

Neste território, a Igreja está também a percorrer, com todos os homens, o difícil caminho da libertação, da conquista e da promoção dos direitos fundamentais do homem - de cada pessoa, e a partilhar da comum aspiração e uma autêntica solidariedade e cooperação social e económica, fruto da superação de ideologias fixas e condicionadoras. Está-se num momento de procura da pacífica convivência justa, da participação e da abertura, no caminho de um verdadeiro progresso humano.

6. Este empenhamento é de todos os filhos da Igreja e especialmente dos leigos. Que estes procurem agir com sentido de responsabilidade, iluminados pela fé e pela doutrina social da Igreja, para servirem, na caridade e na verdade, a pessoa humana e a sociedade.

A Igreja caminha com todos os homens, vive com eles e solidariza-se com a sua história; mas, ao mesmo tempo, mantém firme a consciência de que o serviço da salvação em Cristo e o anúncio do seu Reino constituem o seu objectivo primário e a fonte, singularmente eficaz, para a libertação plena e a salvação total de cada homem.

A Igreja sabe muito bem quanto o cristão pode e deve dar à sua sociedade concreta, na caminhada do progresso e do crescimento; sabe quanto a imagem cristã do homem, da sua dignidade e do seu destino, se projecta, de certa maneira, em todos os sectores da vida. Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem. É o anúncio dessa revelação que leva o homem a reencontrar os valores próprios da sua humanidade.

Deste modo, Cristo melhora e eleva a pessoa humana; e, através das relações sociais, consolida a colaboração orgânica e desinteressada nas estruturas que visam o bem comum.

É necessário, pois, que se exalte devidamente a dignidade inviolável da pessoa humana, de modo que todos sejam levados a redescobri-la, à luz ao Evangelho. Ponde nisto, queridos irmãos e irmãs, o vosso empenho primário e unificador, ao serviço do bem comum da vossa dilecta Nação. Procurai agir no pleno respeito da ordem moral, como cidadãos que obedecem à autoridade; mas que, ao mesmo tempo, sentem solicitude responsável pela genuína liberdade, comprometidos como estão na afirmação dos direitos de todos, e dispostos a colaborar para se alcançar o que para todos é bom e justo.

Estai vigilantes e não vos deixeis vencer pelas tentações da corrupção e do abuso do poder e da riqueza. Impugnai sempre, cristãmente, o que é lesivo dos direitos e dos bens indispensáveis à dignidade de todos os vossos irmãos. Sede firmes em manter o princípio de que “ a dignidade pessoal é propriedade indestrutível a tudo o que pretenda esmagá-la ou anulá-la no anonimato da colectividade, da instituição, da estrutura, do sistema (Cfr. Christifidelis Laici, 32).

7. “Estais inseridos em Cristo Jesus” (Cfr. 1 Cor 1, 30). Sois testemunho do seu amor. Também daquele amor divino, com que o mesmo Cristo quer restituir ao casal toda a sua dignidade e à família toda a sua solidez.

A família cristã é sinal e anúncio da profunda relação que o matrimónio tem com o mistério de Cristo e da Igreja. Amai-vos, portanto, “ como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela ” (Ef 5, 25). Especialmente no mundo missionário, a família cristã constitui um lugar particularmente privilegiado para dar a conhecer o valor salvador do Evangelho.

Cristo proclama a unidade do amor conjugal e a sua fidelidade absoluta, num mundo onde muitas vezes, se apresentam outro tipos de cultura e de moral; um mundo que aceitou tradições de poligamia e admitiu o menosprezo da mulher, frequentemente considerada mais como objecto do que como pessoa, ao serviço dos interesses de uma cultura do poder. “ O cristão é chamado a desenvolver uma atitude de amor novo, manifestando para com a própria esposa a caridade delicada e forte que Cristo tem para com a Igreja ” (Familiaris Consortio, 25).

Tornai-vos defensores corajosos deste anúncio libertador da família, de todas as famílias! Prontificai-vos a ultrapassar, com energia, todas as formas de desigualdade abusiva, de maus tratos, de desprezo e de descuido pela dignidade da esposa, das crianças, dos menores! Testemunhai, de modo claro e evidente, a estima que tendes pela vida, empenhando-vos em protegê-la, logo desde o seu início, e recusando toda a espécie de desinteresse ou de descuido em ralação aos mais pequenos!

Os vossos lares, os vossos agregados familiares deverão constituir um exemplo de acolhimento, de amor e de serviço, como é próprio de uma família cristã. Fazei todo o possível para que a família seja considerada come primeiro núcleo da vida social. E que todos, a começar pelas autoridades públicas e pelas leis da comunidade, respeitem os seus direitos naturais!

8. A Igreja considera seu dever preocupar-se pelo desenvolvimento dos homens e dos povos; e insere essa preocupação na sua tarefa pastoral. Move-a o amor de Cristo à luz do qual se há-de chegar ao conhecimento da autêntica promoção do homem.

Sabe-se como as opiniões sobre o desenvolvimento podem ser redutivas, o que acontecerá, se os caminhos do progresso abrangerem só uma disponibilidade maior de bens materiais e de consumo, ou privilegiando a mera expansão das tecnologias em função do crescimento económico. Mas é claro que a mera posse de bens materiais se não for acompanhada também pela consciência da dimensão moral pode facilmente levar o homem à escravizante avidez de um imediato possuir e gozar. Ora isto conduz inevitavelmente ao consumismo e provoca, afinal, uma insatisfação radical no próprio viver.

O verdadeiro desenvolvimento humano exige que o homem redescubra o plano de Deus, que lhe confiou o mundo criado, para que o conheça e o domine, no contexto da sabedoria da sua divina lei. Deus quer que o homem conheça e se sirva dos bens e das energias da natureza, considerando-os como um dom necessário à sua realização pessoal, sem que se ofusquem os valores do espírito.

Para se chegar a uma relação harmoniosa do homem com o universo criado, é preciso percorrer os caminhos do cultivo do pensamento e do amor; é por estas dimensões que o homem se eleva à sua suprema dignidade, a de ser espiritual e livre. Tal cultivo processa-se desenvolvendo conhecimentos e meios de expressão, com apreço pelo próprio património cultural, sem omitir o diálogo que o mundo moderno favorece.

É este o lema das escolas que a Igreja abre, para facultar também à população guineense essa “ cultura animi ” (M. T. Ciceronis), uma boa preparação humana e profissional, em ordem ao progresso, indispensável para que cada pessoa possa realizar autenticamente a própria vocação. São guiados pelo mesmo intuito os filhos da Igreja aqui peregrina, quando, especialmente no campo da saúde, se esforçam por assegurar com a prática das boas obras a própria vocação (Cfr. 2 Pd 1, 10), num trabalho que exorto vivamente a continuarem e pelo qual lhes exprimo aqui o melhor apreço.

9. Consideremos, pois, irmãos e irmãs, a vocação que temos em Jesus Cristo!

E voltando, mais uma vez, às oito bem-aventuranças do sermão da montanha, ouçamos o Mestre que nos diz: bem-aventurados... porque é deles o Reino dos Céus; porque serão consolados... saciados... alcançarão misericórdia... verão a Deus... serão chamados filhos de Deus, aqueles que puserem em prática as bem-aventuranças.

A nossa vocação em Jesus Cristo é uma vocação para a vida eterna em Deus: “ Alegrai-vos e exultai, porque será grande nos Céus a vossa recompensa ” (Mt 5, 12). Assim nos diz o nosso Salvador. Assim nos ensina o Redentor do mundo: Aquele que tem palavras de vida eterna!

Ouçamos as suas palavras. Acreditemos nelas! Pois Deus é eternamente fiel à sua Palavra (Cfr, Sl 146 (145) 6.

Por isso, com o Profeta, digo aqui, a quantos habitam na Guiné-Bissau: “ Procurai o Senhor, vós todos, humildes da terra... Procurai a justiça, procurai a humildade... ”. E tende confiança no nome do Senhor (Cfr. Sf 2, 3; 3, 13).

Deus conserva-se fiel para sempre(Sl 146 (145) 6)!  

 

© Copyright 1990 - Libreria Editrice Vaticana

 

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