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HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II NA CERIMÓNIA DE BEATIFICAÇÃO DE CINCO NOVO
BEATOS
4 de Maio de 1997
1. «O Meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, como Eu
vos amei» (Jo. 15, 12).
A Liturgia deste sexto domingo de Páscoa convida-nos a reflectir sobre o grande mandamento do amor, à luz do Mistério pascal.
Precisamente a meditação do novo mandamento, coração e síntese do ensinamento
moral de Cristo, introduz- nos na celebração hodierna, que se tornou
particularmente solene e sugestiva pela proclamação de cinco novos Beatos.
Na
segunda leitura e no trecho evangélico a lei da caridade é-nos apresentada como
o testamento de Jesus, na vigília da sua Paixão. «Digo- vos isto para que a
Minha alegria esteja em vós e o vosso gozo seja completo» (Jo. 15, 11):
assim Ele conclui o seu discurso aos Apóstolos na última Ceia.
O amor de Deus é portanto a fonte da verdadeira alegria. É quanto experimentaram
pessoalmente estes nossos irmãos na fé, que são apresentados hoje à Igreja como
modelos de generosa adesão ao mandamento do Senhor. Eles são «beatos». Na sua
existência terrena, viveram dum modo muito particular o amor de Deus e,
precisamente por isso, puderam gozar a plenitude da alegria prometida por
Cristo.
Hoje são propostos à nossa veneração como testemunhas privilegiadas do amor de
Deus. Com o seu exemplo e com a sua intercessão, indicam o caminho rumo àquela
plena felicidade que constitui a aspiração profunda da alma humana.
2. Como repetimos
no Salmo responsorial, há pouco cantado, o mundo inteiro é convidado a
alegrar-se pelas grandes obras de Deus: «Aclamai o Senhor, terra inteira,
rejubilai, exultai e cantai salmos!» (Sl. 97, 4). Hoje, de diversas partes do
mundo, em particular dos lugares onde os novos Beatos viveram e trabalharam,
eleva-se a Deus um intenso cântico de louvor e de acção de graças pela
beatificação de Florentino Asensio Barroso, Bispo e mártir, de Zeferino Giménez
Malla, mártir, de Gaetano Catanoso, presbítero, fundador da Congregação das
Irmãs Verónicas da Sagrada Face, de Enrico Rebuschini, presbítero, da Ordem dos
Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos, e de Maria Encarnación Rosal,
reformadora do Instituto das Irmãs Bethlemitas.
3. «Como o Pai Me amou, também
Eu vos amei; permanecei no Meu amor» (Jo. 15, 9). O Bispo Florentino Asensio
Barroso permaneceu no amor de Cristo. Como Ele, entregou-se ao serviço dos
irmãos, especialmente no ministério sacerdotal, desempenhado com generosidade
durante muitos anos em Valhadolidantes, e depois no seu breve espaço de tempo como Bispo Administrador Apostólico
de Barbastro, sede para a qual tinha sido eleito poucos meses antes do início da
deplorável Guerra civil de 1936. Para um ministro do Senhor o amor é vivido na
caridade pastoral e, por isso, ante os perigos que se apresentavam, não
abandonou o seu rebanho, mas antes, a exemplo do Bom Pastor, ofereceu a sua vida
por ele.
O Bispo, como mestre e guia na fé para o seu povo, é chamado a confessá-la com as
palavras e as obras. D. Asensio levou até às suas últimas consequências a sua
responsabilidade de pastor, ao morrer pela fé que vivia e pregava. Nos últimos
momentos da sua vida, depois de ter sofrido vexames e lacerantes tormentos, ante
a pergunta de um dos seus verdugos, se conhecia o destino que o esperava,
respondeu com serenidade e firmeza: «Vou para o paraíso». Proclamava assim a sua
inquebrantável fé em Cristo, vencedor da morte e dador da vida eterna. Ao ser
elevado hoje à glória dos altares, o Beato Florentino Asensio Barroso continua a
encorajar, com o seu exemplo, a fé dos fiéis dessa amada diocese aragonesa e
vela por ela com a sua intercessão.
4. «Chamei-vos amigos» (Jo. 15, 15). Também
em Barbastro o cigano Zeferino Giménez Malla, conhecido como «el Pelé», morreu
pela fé na qual tinha vivido. A sua vida mostra como Cristo está presente nos
diversos povos e raças e que todos são chamados à santidade, a qual se alcança
conservando os Seus mandamentos e permanecendo no Seu amor (cf. Jo. 15, 11). «El
Pelé» foi generoso e acolhedor para com os pobres, embora ele mesmo fosse pobre;
honesto na sua actividade; fiel ao seu povo e à sua raça calé; dotado de uma
inteligência natural extraordinária e do dom do conselho. Foi sobretudo um homem
de profundas crenças religiosas.
A frequente participação na Santa Missa, a
devoção à Virgem Maria com a recitação do rosário e a pertença a diversas
associações católicas ajudaram-no a amar a Deus e ao próximo com integridade.
Assim, ainda que com o risco da própria vida, não hesitou em defender um
sacerdote que ia ser preso, razão por que o levaram para o cárcere, onde não
abandonou nunca a oração, sendo depois fuzilado enquanto estreitava o rosário
nas suas mãos. O Beato Zeferino Giménez Malla soube semear concórdia e
solidariedade entre os seus, servindo de mediador também nos conflitos que às
vezes se verificavam nas relações entre camponeses e ciganos, demonstrando que a
caridade de Cristo não conhece limites de raças nem de culturas. Hoje «el Pelé»
intercede por todos diante do Pai comum, e a Igreja propõe-no como modelo a
seguir e como demonstração significativa da universal vocação à santidade, especialmente
para os ciganos que com ele têm estreitos vínculos culturais e étnicos.
5. O
Padre Gaetano Catanoso seguiu Cristo pelo caminho da Cruz, fazendo-se com Ele
vítima de expiação pelos pecados. Repetia com frequência que queria ser o
Cireneu que ajuda Cristo a carregar a Cruz, pesada mais pelos pecados do que
pelo peso material do madeiro.
Verdadeira imagem do Bom Pastor, prodigalizou-se
incansavelmente pelo bem do rebanho que lhe foi confiado pelo Senhor, tanto na
vida paroquial como na assistência aos órfãos e aos doentes, tanto no apoio
espiritual aos seminaristas e aos jovens sacerdotes como na animação das Irmãs Verónicas da Sagrada Face, por ele fundadas.
Nutriu e difundiu uma grande
devoção à Face ensanguentada e desfigurada de Cristo, que ele via reflectida no
rosto de cada homem que sofre. Todos os que com ele se encontravam, percebiam na
sua pessoa o bom perfume de Cristo; por isso gostavam de o chamar «pai», e assim
o sentiam realmente, pois ele era um sinal eloquente da paternidade de Deus.
6.
Também o Beato Enrico Rebuschini caminhou de modo decisivo, ao longo da sua
existência, para aquela «perfeição da caridade», que constitui o tema dominante
da Liturgia da Palavra deste Domingo. Na esteira do Fundador, São Camilo de
Lellis, testemunhou a caridade misericordiosa, exercendo-a em todos os âmbitos
em que actuou. O seu firme propósito de «consumar o próprio ser para dar Deus ao
próximo, vendo nele o próprio rosto do Senhor», empenhou-o num árduo caminho
ascético e místico, caracterizado por uma intensa vida de oração, por um amor
extraordinário pela Eucaristia e pela incessante dedicação aos doentes e aos que
sofrem.
Ele tornou-se um ponto de referência
seguro tanto para os Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos, como para a
Comunidade cristã de Cremona. O seu exemplo constitui para todos os crentes um
premente convite a estarem atentos aos que sofrem e aos doentes no corpo e no
espírito.
7. «Fui Eu que vos escolhi e vos nomeei para irdes e dardes frutos, e
para que o vosso fruto permaneça» (Jo. 15,
16). A Madre Maria Encarnación Rosal, primeira guatemalteca beatificada, foi
escolhida para continuar o carisma do Beato Pedro de São José Betancourt,
fundador da Ordem Bethlemita, a primeira latino-americana. Hoje, o seu fruto
perdura nas Irmãs Bethlemitas que, juntamente com todos os membros da grande
família da Associação de Leigos, trabalham para pôr em prática
o seu carisma evangelizador ao serviço da Igreja.
Mulher constante, tenaz e animada sobretudo pela caridade, a sua vida é
fidelidade a Cristo — seu confidente assíduo através da oração — e à
espiritualidade de Belém. Isto custou-lhe múltiplos sacrifícios e desgostos,
tendo que peregrinar de um lugar para outro a fim de poder
consolidar a sua Obra. Não lhe importou renunciar a muitas coisas, contanto que
se salvasse o essencial, afirmando: «Perca-se tudo, menos a caridade».
A partir
daquilo que aprendera na escola de Belém, isto é, o amor, a humildade, a
pobreza, a entrega generosa e a austeridade, viveu uma esplêndida síntese de
contemplação e acção, unindo às obras educativas o espírito de penitência, de
adoração e de reparação do Coração de Jesus. Que o seu exemplo perdure entre as
suas filhas, e que a sua intercessão acompanhe a vida eclesial do Continente
americano, que se dispõe com esperança a cruzar o limiar do Terceiro Milénio da
era cristã.
8. A santidade é chamamento que Deus dirige a todos, mas sem forçar
ninguém. Deus pede e espera a livre adesão do homem. No âmbito desta vocação
universal à santidade, Cristo escolhe depois para cada um uma tarefa específica
e, se encontra correspondência, Ele mesmo provê com que progrida a obra
iniciada, fazendo que o fruto permaneça.
«Como o Pai Me amou, também Eu vos
amei... Vós sereis Meus amigos» (Jo. 15, 9.14), continua a repetir o Senhor e
espera a nossa resposta, como fez com os novos Beatos. O exemplo deles
recorda-nos que todos nós estamos empenhados, cada um de modo diferente, em
produzir fruto, para o bem não só nosso, mas da comunidade inteira. Exultamos,
hoje, pelo dom destes novos Beatos. Damos graças a Deus por tudo o que
realizaram e pelas obras de bem que deixaram na sua passagem sobre a terra.
Oramos a fim de que o seu exemplo seja seguido por muitos e aumente o número dos
trabalhadores na vinha do Senhor.
Renove-se a face da terra (cf. Sl. 103, 30)
pelo poder do Espírito Santo, e em todos os cantos do mundo ressoe o cântico da
alegria, ressoe o anúncio do amor divino.
Deus é amor: Ele foi o primeiro a
amar-nos. Agora a nossa tarefa é amarnos uns aos outros, como Ele nos amou. Por
isto seremos reconhecidos como Seus discípulos. Daqui nasce a nossa
responsabilidade: ser testemunhas críveis. Os novos Beatos foram-no. Obtenham
para nós a graça de o sermos também nós, a fim de que este mundo, que amamos,
saiba reconhecer em Cristo o único e verdadeiro Salvador!
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Editrice Vaticana
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