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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À CUBA
HOMILIA DO SANTO
PADRE
Santiago de Cuba, 24 de Janeiro
de 1998
1. «Ditosa a nação cujo Deus é o Senhor» (Sl
32, 12).
Cantámos com o salmista que a felicidade acompanha o povo
que tem Deus como seu Senhor. Há mais de quinhentos anos, quando a cruz de
Cristo chegou a esta Ilha e com ela a Sua mensagem salvífica, começou um
processo que, alimentado pela fé cristã, foi forjando os traços
característicos desta Nação. Na série dos seus homens ilustres estão: aquele
soldado que foi o primeiro catequista e missionário de Macaca; o primeiro
mestre cubano, Pe. Miguel de Velásquez; o sacerdote Esteban Salas, pai da
música cubana; o insigne habitante de Bayamo, Carlos Manuel de Céspedes, Pai
da Pátria, o qual, prostrado aos pés da Virgem da Caridade, iniciou a sua
luta pela liberdade e independência de Cuba; António da Caridade Maceo y
Grajales, cuja estátua preside à praça que hoje acolhe a nossa celebração, a
quem a sua mãe pediu diante do crucifixo que se dedicasse até ao extremo
pela liberdade de Cuba. Além destes, há muitos homens e mulheres ilustres
que, movidos pela sua inquebrantável fé em Deus, escolheram a via da
liberdade e a justiça como bases da dignidade do seu povo.
2. É-me grato encontrar-me hoje nesta Arquidiocese tão
insigne, que teve entre os seus Pastores Santo António Maria Claret. Antes de
tudo, dirijo a minha cordial saudação a D. Pedro Meurice Estíu, Arcebispo de
Santiago de Cuba e Primaz desta Nação, assim como aos outros Bispos, sacerdotes
e diáconos, comprometidos na difusão do Reino de Deus nesta terra. Saúdo de
igual modo os religiosos e as religiosas e todos os fiéis aqui presente. Desejo
dirigir também uma deferente saudação ao Senhor Vice-Presidente do Conselho de
Estado e Ministro Raúl Castro e às outras autoridades civis, que quiseram
participar nesta Santa Missa e agradeço-lhes a cooperação prestada para a sua
organização.
3. Nesta celebração vamos coroar a imagem da Virgem da
Caridade do Cobre. Desde o seu santuário, não distante daqui, a Rainha e Mãe de
todos os cubanos — sem distinção de raças, opções políticas ou ideologias —,
guia e sustenta, como no passado, os passos dos seus filhos rumo à Pátria
celeste e encoraja-os a viver de tal modo que na sociedade reinem sempre os
autênticos valores morais, que constituem o rico património espiritual
herdado dos antepassados. A Ela, como fez a sua prima Isabel, dirigimo-nos
agradecidos para lhe dizer: «Bendita Aquela que acreditou que teriam
cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor» (Lc 1,
45). Nestas palavras está o segredo da verdadeira felicidade das pessoas e dos
povos: crer e proclamar que o Senhor fez maravilhas para nós e que a Sua
misericórdia chega aos Seus fiéis, de geração em geração. Esta convicção é a
força que anima os homens e as mulheres que, mesmo à custa de sacrifícios, se
entregam com generosidade ao serviço dos demais.
O exemplo de disponibilidade de Maria indica-nos o caminho a
percorrer. Com Ela a Igreja leva a cabo a sua vocação e missão, anunciando Jesus
Cristo e exortando a fazer o que Ele nos diz; construindo também a fraternidade
universal, na qual cada homem possa invocar Deus como Pai. 4. Como a Virgem Maria, a Igreja é Mãe e Mestra no
seguimento de Cristo, luz para os povos, e dispensadora da misericórdia
divina. Como comunidade de todos os baptizados, é de igual modo lugar de
perdão, de paz e de reconciliação, que abre os seus braços a todos os homens
para lhes anunciar o Deus verdadeiro. Com o serviço à fé dos homens e mulheres
deste amado povo, a Igreja ajuda-os a progredir pelo caminho do bem. As obras de
evangelização que se vão realizando em diversos ambientes, como por exemplo as
missões nos bairros e povoados sem igrejas, devem ser cuidadas e fomentadas para
que possam desenvolver e servir não só os católicos, mas todo o povo cubano
para que conheça Jesus Cristo e O ame. A história ensina que sem fé
desaparece a virtude, os valores morais se obscurecem, não resplandece a
verdade, a vida perde o seu sentido transcendente e também o serviço à nação
pode deixar de ser estimulado pelas motivações mais profundas. A respeito disso,
António Maceo, o grande patriota da região oriental, dizia: «Quem não ama a
Deus, não ama a Pátria». A Igreja chama todos a encarnar a fé na própria vida,
como o melhor caminho para o desenvolvimento integral do ser humano, criado à
imagem e semelhança de Deus, e para alcançar a verdadeira liberdade, que
inclui o reconhecimento dos direitos humanos e a justiça social. A propósito
disso, os leigos católicos, salvaguardando a sua própria identidade para
poder ser «sal e fermento» no meio da sociedade da qual fazem parte, têm o
dever e o direito de participar no debate público, em igualdade de oportunidades
e em atitude de diálogo e reconciliação. De igual modo, o bem de uma nação deve
ser fomentado e procurado pelos próprios cidadãos, através dos meios pacíficos e
graduais. Deste modo cada pessoa, gozando de liberdade de expressão, de
capacidade de iniciativa e de proposta no seio da sociedade civil e da adequada
liberdade de associação, poderá colaborar de maneira eficaz na busca do bem
comum. A Igreja, imersa na sociedade, não busca nenhuma
forma de poder político para desenvolver a sua missão, mas sim quer ser
germe fecundo de bem comum, ao fazer-se presente nas estruturas sociais. Em
primeiro lugar, ela tem em vista a pessoa humana e a comunidade em que vive,
sabendo que o seu primeiro caminho é o homem concreto com as suas necessidades e
aspirações. Tudo o que a Igreja reclama para si, põe-no ao serviço do homem e da
sociedade. Com efeito, Cristo encarregou-a de levar a Sua mensagem a todos os
povos e para o fazer necessita de um espaço de liberdade e dos meios
suficientes. Defendendo a sua própria liberdade, a Igreja defende a liberdade de
cada pessoa, das famílias, das diversas organizações sociais, realidades vivas,
que têm direito a um âmbito próprio de autonomia e soberania (cf.
Centesimus annus,
45). Neste sentido, «o cristão e as comunidades cristãs vivem profundamente
inseridos na vida dos respectivos povos e são também sinal do Evangelho pela
fidelidade à sua pátria, ao seu povo e à sua cultura nacional, sempre porém na
liberdade que Cristo trouxe... A Igreja é chamada a dar o seu testemunho de
Cristo, assumindo posições corajosas e proféticas, face à corrupção do poder
político ou económico; não correndo ela própria atrás da glória e dos bens
materiais; usando os seus bens para o serviço dos mais pobres e imitando a
simplicidade de vida de Cristo» (Redemptoris
missio, 43). Este é um ensinamento constante e permanente do Magistério
social, da chamada Doutrina social da Igreja. 5. Ao recordar estes aspectos da missão da Igreja, demos
graças a Deus que nos chamou a fazer parte da mesma. Nela, a Virgem Maria ocupa
um lugar singular. Expressão disto é a coroação da venerada imagem da Virgem da
Caridade do Cobre. A história cubana está repleta de maravilhosas demonstrações
de amor à sua Padroeira, a cujos pés as figuras dos humildes nativos, dois
índios e um mulato, simbolizam a rica pluralidade deste povo. El Cobre, onde
está o seu Santuário, foi o primeiro lugar de Cuba onde se conquistou a
liberdade para os escravos. Amados fiéis, nunca esqueçais os grandes acontecimentos
relacionados com a vossa Rainha e Mãe. Com o dossel do altar familiar, Céspedes
confeccionou a bandeira cubana e foi prostrar-se aos pés da Virgem, antes de
iniciar a luta pela liberdade. Os corajosos soldados cubanos, os mambises,
levavam no seu peito a medalha e a «medida» da sua imagem bendita. O primeiro
acto de Cuba livre teve lugar quando, em 1898, as tropas do General Calixto
García se prostraram aos pés da Virgem da Caridade, numa solene Missa para a
«Declaração mambisa da Independência do povo cubano». As diversas peregrinações
que a imagem fez pelos povoados da Ilha, acolhendo os anseios e esperanças, as
alegrias e tristezas de todos os seus filhos, têm sido sempre grandes
manifestações de fé e de amor. Daqui quero enviar também a minha saudação aos filhos de
Cuba que em qualquer parte do mundo veneram a Virgem da Caridade: juntamente
com todos os seus irmãos que vivem nesta maravilhosa terra, ponho-os sob a sua
materna protecção, pedindo a Ela, Mãe amorosa de todos, que reúna os seus
filhos por meio da reconciliação e da fraternidade. 6. Hoje, continuando essa gloriosa tradição de amor à Mãe
comum, antes de proceder à sua coroação quero dirigir-me a Ela e invocá-la com
todos vós: Virgem da Caridade do
Cobre, Levas no teu nome, Bendita és tu entre as mulheres O teu nome e a tua imagem Santa Maria, Ampara as nossas famílias, Sê Mãe dos fiéis Mãe da reconciliação! Faze da nação cubana
Amém. No final da Santa Missa, João Paulo II anunciou a erecção
da nova Diocese de Guantánamo-Baracoa com as seguintes palavras: Tive a alegria de celebrar com todos vós a Santa Missa nesta
Praça dedicada a António Maceo. Com a vossa presença aqui, destes também um
testemunho visível da perseverança e crescimento da Igreja nesta linda terra,
que são expressão da sua rica vitalidade. A este propósito, sinto-me feliz por
vos comunicar que, a fim de favorecer melhor a acção da Igreja em Cuba, decidi
erigir a Diocese de Guantánamo-Baracoa, nomeando seu primeiro Bispo D. Carlos
Jesus Patrício Baladrón Valdés, até agora Bispo Auxiliar de Havana. Desejo encorajar os sacerdotes e os fiéis da nova
circunscrição eclesiástica a empenharem-se por edificar, como pedras vivas em
redor do seu Pastor, esta Igreja particular que hoje nasce. Estimado D.
Baladrón, considere a grande importância da missão que agora lhe é confiada e
anuncie com todas as suas forças a Boa Nova de Jesus Cristo aos seus diocesanos,
convidando-os à Eucaristia e aos outros Sacramentos, para que deste modo cresçam
na santidade e na justiça na presença do Senhor. Antes de conceder a Bênção, o Papa pronunciou ainda estas
palavras: Desejo agradecer este calor, calor atmosférico e também calor
humano, calor dos corações. Desejo oferecer a este povo, a esta Igreja tão
calorosa a Bênção final da Missa. © Copyright 1998 - Libreria Editrice Vaticana
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