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CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II
A D. DOMENICO UMBERTO D'AMBROSIO,
DELEGADO DA SANTA SÉ PARA O SANTUÁRIO
E AS OBRAS DE SÃO PIO DE PIETRELCINA

 

Ao venerado Irmão DOMENICO UMBERTO D'AMBROGGIO
Arcebispo de Manfredónia-Vieste-San Giovanni Rotondo
Delegado para o Santuário e as Obras de São Pio de Pietrelcina

1. O movimento espiritual suscitado pelo carisma de São Pio de Pietrelcina não se extinguiu com a sua morte terrena, mas pelo contrário ampliou-se cada vez mais, tornando-se de importância significativa para a vida de toda a Igreja. O segredo de uma ressonância tão vasta deve ser procurado sem dúvida na total imersão do humilde Capuchinho no mistério da Cruz. Em toda a sua existência, Padre Pio procurou uma conformidade cada vez maior com o Crucificado, com clara consciência de ter sido chamado a colaborar de modo peculiar na obra da Redenção.

Redescobrir o valor da Cruz de Cristo para fazer dela o centro inspirador da própria vida: foi esta a característica fundamental da espiritualidade do Santo Frade do Gargano. Ele soube reconhecer Cristo sofredor não só no diálogo interior da oração, mas também no encontro com as pessoas visitadas pela doença e empenhou-se a levar-lhes o conforto. Desta forma, tornou-se um exemplo comovedor de sensibilidade humana, repropondo em si mesmo duas características peculiares da tradição franciscana e capuchinha: a oração contemplativa e a caridade efectiva. Da primeira são expressões os "Grupos de oração" por ele fundados; da segunda, permanece como testemunho singular a "Casa Alívio do Sofrimento".

Oração e caridade, eis uma síntese concreta como nunca da herança espiritual deixada pelo humilde Frade, educado na escola do Pobrezinho de Assis. Esta síntese deve continuar a ser vivida e testemunhada por quantos desejam manter viva a espiritualidade no mundo de hoje.

2. O centro do qual se irradia a mensagem do Santo Frade do Gargano é "San Giovanni Rotondo", ou melhor, o modesto Convento capuchinho no qual ele viveu a sua existência terrena circundado pelos Frades da querida comunidade religiosa. Ele está sepultado em "San Giovanni Rotondo" onde se encontra a maior parte das Obras por ele inspiradas e queridas. Por conseguinte, daquele lugar, a acção evangelizadora promovida por Padre Pio continua a difundir-se no mundo, suscitando no coração de numerosas pessoas um renovado impulso de amor a Deus e ao próximo, especialmente pelos mais necessitados.

Respondendo a esta irradiação espiritual, numerosíssimas pessoas, provenientes não só da Itália e da Europa, mas também de todos os continentes, chegam a "San Giovanni Rotondo". Não se trata apenas de pessoas que aderem aos "Grupos de oração". Trata-se também de outros fiéis, e não faltam por vezes até não crentes, que vão àquele lugar atraídos pela fama do Santo Capuchinho.

Pode dizer-se que hoje as fronteiras da devoção a este humilde filho de São Francisco se tornaram quase as fronteiras do mundo. A Comunidade capuchinha, que durante anos conservou no seu seio como pérola preciosa o tesouro admirável da santidade de Padre Pio, abriu-se cada vez mais com generoso ímpeto à dimensão universal que é característica da Igreja.

A este propósito, apraz-me realçar a actividade pastoral desempenhada ao longo destes decénios pelos Frades capuchinhos da Província de Fógia. Dando provas de zelo apostólico, eles receberam a herança espiritual de Padre Pio e preservaram-na até aos nossos dias, contribuindo para a sua difusão em todo o mundo.

Nesta perspectiva e à luz do amplo raio de influência que a devoção ao Santo do Gargano alcançou no mundo, tornou-se evidente com clareza sempre maior a oportunidade de um nexo mais estreito entre o Santuário e a Santa Sé.

3. Eis o motivo pelo qual, venerado Irmão, ao nomeá-lo com Bula de 8 de Março de 2003 Arcebispo da Igreja de Manfredónia-Vieste-San Giovanni Rotondo, julguei ser conveniente constituí-lo ao mesmo tempo meu Delegado para o Santuário e as Obras de São Pio de Pietrelcina. Com a presente Carta desejo dar-lhe algumas instruções mais pormenorizadas, para que possa cumprir do melhor modo possível as relativas tarefas que lhe são confiadas.

Como Delegado para o Santuário, Vossa Excelência deverá, antes de mais, dedicar um cuidado especial a este lugar de culto, onde afluem anualmente tantos peregrinos de todas as nacionalidades. De facto, se compete a toda a Igreja preservar e desenvolver a herança espiritual de Padre Pio, não há dúvida que ela permaneça de modo especial confiada ao Bispo que tem a responsabilidade pastoral dos lugares onde o Santo Capuchinho viveu. Por este motivo, na Audiência de 25 de Março do ano passado, lhe disse: "Compete-lhe preservar a herança de Padre Pio de Pietrelcina".

Como Bispo da Igreja de Manfredónia-Vieste-San Giovanni Rotondo, Vossa Excelência tem a tarefa de guardar os carismas que o Espírito suscitou e continua a suscitar nesta amada porção da Igreja Santa de Deus. Fará parte da sua solicitude pastoral não deixar que se dispersem, mas ao contrário, fazer com que se multipliquem os frutos daquela preciosa herança. De facto, aos Bispos, segundo a disciplina da Igreja, "está confiado o cargo de se ocupar dos carismas religiosos, porque a própria indivisibilidade do mistério pastoral os torna aperfeiçoadores de todo o rebanho" (Mutuae relationis, 9 c).

4. Por conseguinte, será sob a sua autoridade que se desenvolverá tudo o que se refere "ao exercício público do culto divino, salva, contudo, a diversidade de ritos; no respeitante à cura de almas e à pregação que se deve fazer ao povo; à educação religiosa e moral dos fiéis, principalmente das crianças; à instrução catequética e à formação litúrgica; ao decoro do estado clerical e também às diversas obras relacionadas com os exercícios do Sagrado apostolado" (Christus Dominus, 35).

Além disso, como Bispo diocesano, deverá favorecer as obras de apostolado, prestando particular atenção às que estão relacionadas com a figura de Padre Pio, coordenando de modo adequado o seu regular desenvolvimento (cf. C.I.C. cânn. 394 1 e 680). Por outro lado, "vigie para que não se introduzam abusos na disciplina eclesiástica, principalmente no mistério da palavra, na celebração dos sacramentos e sacramentais, no culto de Deus e dos Santos e na administração dos bens" (ibid., cân. 392 2).

Venerado Irmão, a sua tarefa principal será o cuidado pastoral em relação aos peregrinos que vão a San Giovanni Rotondo. Procurará fazer anunciar a Palavra confortadora e iluminante de Deus, provendo a fim de que a todos seja concedido haurir com abundância das fontes da Graça, mediante a fervorosa participação nos Sacramentos e de modo particular na Eucaristia e na Penitência.

Vossa Excelência não deixará de se servir, em relação a isto, do contributo da Comunidade capuchinha, que há já muitos anos desempenha generosamente, com zelo e espírito de sacrifício, o ministério do anúncio da Palavra e da celebração dos Sacramentos, e que continuará, a título particular, este compromisso.

5. Além disso, dedicará total atenção à harmonização da actividade pastoral do Santuário com as outras actividades da pastoral diocesana. Isto servirá de ajuda à própria Comunidade capuchinha de San Giovanni Rotondo, que será estimulada pelo compromisso pastoral a viver de maneira cada vez mais autêntica a própria espiritualidade. De facto, como disse no discurso aos Superiores Gerais de Ordens e Congregações religiosas, durante o encontro de 28 de Novembro de 1981, "fidelidade ao carisma da vida consagrada deve gerar nos Religiosos uma profunda e sentida consciência eclesial e, por conseguinte, um esforço constante por viver com a Igreja, para a Igreja e na Igreja. Se a doutrina da vida religiosa faz parte da eclesiologia, muito mais a vida religiosa vivida é expressão da vida eclesial. Baseia-se nisto a atitude de fé, de amor e de docilidade dos Religiosos para com os Pastores colocados a reger a Igreja, assim como o dever de se inserirem na vida da Igreja particular enriquecendo-a com os próprios dons específicos, comprometendo-se no seu seio e como seus membros e não simplesmente como forças complementares" (Insegnamenti, IV/2, 1981, pág. 771, n. 2).

Isto é válido de modo particular para os Religiosos que se distinguem pelo carácter sacerdotal os quais, graças à sua orientação paterna, venerado Irmão, poderão sentir de modo mais vivo a sua pertença ao único presbitério comprometido na Igreja local. Oportunamente o Concílio Vaticano II recordou que os religiosos sacerdotes "pertencem verdadeiramente ao clero da diocese, visto que participam na cura das almas e no exercício das obras de apostolado, sob a autoridade dos Sagrados Pastores" (Christus Dominus, 34).

Nesta perspectiva, o Decreto agora citado traça as normas de comportamento oportunas às quais os Religiosos se devem ater (cf. n. 35). Como Bispo, Vossa Excelência não deixará de recordar continuamente tais disposições.

6. Como Delegado para as Obras do Padre Pio, Vossa Excelência é também, no presente momento, Presidente da Fundação "Casa Alívio do Sofrimento Obra de Padre Pio de Pietrelcina" e, ao mesmo tempo, Director-Geral da Associação internacional dos "Grupos de oração", com os direitos e deveres indicados pelos respectivos Estatutos. Por conseguinte, competir-lhe-á orientar o apostolado de tais Grupos, dando directrizes adequadas aos seus assistentes espirituais, quer se trate de sacerdotes religiosos quer de sacerdotes diocesanos. Para as iniciativas que estão fora dos confins da Arquidiocese, pôr-se-á evidentemente em contacto com os Ordinários dos lugares interessados, concordando com eles as actividades a serem desempenhadas nas respectivas Igrejas particulares.

Faço votos por que estas primeiras directrizes possam permitir-lhe iniciar uma colaboração proveitosa com a amada Comunidade capuchinha de San Giovanni Rotondo, tão benemérita pelo serviço que de bom grado presta às multidões de peregrinos provenientes de todas as partes do mundo. Peço a Deus, por intercessão da Virgem Maria e do próprio Padre Pio, que lhe conceda o discernimento e o zelo necessários no cumprimento da tarefa que lhe foi confiada, enquanto, como penhor de abundantes favores celestes, concedo a Vossa Excelência, aos religiosos capuchinhos e aos fiéis uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 22 de Fevereiro de 2004, Festa da Cátedra de São Pedro.

 

PAPA JOÃO PAULO II

 

© Copyright 2004 - Libreria Editrice Vaticana

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