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CARTA DO SUMO PONTÍFICE
A quantos se estão preparando 1. Depois de anos de preparação, estamos para entrar no Grande Jubileu.
Muito se fez nestes anos em toda a Igreja, para preparar este acontecimento
de graça. Mas agora, como na iminência duma viagem, chegou o momento de
prover aos últimos preparativos. Na verdade, o Grande Jubileu não consiste
numa série de práticas a cumprir, mas numa grande experiência interior a ser
vivida. As iniciativas exteriores têm sentido na medida em que são expressão
de um compromisso mais profundo, que toca o coração das pessoas. Quis chamar
a atenção de todos precisamente para esta dimensão interior, seja na Carta
Apostólica
Tertio millennio adveniente
seja na
Bula de proclamação do
Jubileu Incarnationis mysterium. Ambas foram objecto de cordial e
amplo acolhimento. Delas, os Bispos tiraram indicações significativas, e os
temas propostos para os diversos anos de preparação foram amplamente
meditados. Por tudo isto, quero dar graças ao Senhor e exprimir profundo
apreço tanto aos Pastores como a todo o Povo de Deus. Agora, a iminência do Jubileu sugere-me que proponha uma reflexão,
relacionada com o meu desejo de fazer pessoalmente, se Deus quiser, uma
especial peregrinação jubilar, detendo-me em alguns dos lugares que estão
particularmente ligados à encarnação do Verbo de Deus, facto este
directamente evocado pelo Ano Santo de 2000. A minha meditação estende-se, por isso, aos « lugares » de Deus, àqueles
espaços que Ele escolheu para colocar a sua « tenda » entre nós (Jo
1, 14; cf.
Ex 40, 34-35; 1 Re 8, 10-13), a fim de permitir ao ser
humano um encontro mais directo com Ele. Completo assim, de certa forma, a
reflexão da Carta Apostólica
Tertio millennio adveniente, cuja
perspectiva dominante, no horizonte da história da salvação, era o « tempo »
com a sua importância fundamental. Ora, a dimensão do « espaço » não é menos
importante que a do tempo, na realização concreta do mistério da Encarnação. 2. À primeira vista, falar de « espaços » determinados em relação a Deus
poderia gerar qualquer perplexidade. Não está porventura o espaço, tal como
o tempo, integralmente sujeito ao domínio de Deus? De facto, tudo saiu das
suas mãos e não há lugar onde Ele não se possa encontrar: « Do Senhor é a
terra e tudo o que nela existe, o mundo e quantos nele habitam. Ele a fundou
sobre os mares e a consolidou sobre as ondas » (Sal 2423, 1-2). Deus
está igualmente presente em todos os cantos da terra, pelo que o mundo
inteiro pode considerar-se « templo » da sua presença. Mas, isto não impede que, tal como o tempo pode ser marcado pelos
kairoi, momentos especiais de graça, analogamente também o espaço
possa ficar assinalado por particulares intervenções salvíficas de Deus.
Aliás, esta intuição acha-se presente em todas as religiões, que têm não
apenas templos mas também espaços sagrados, onde se pode experimentar o
encontro com o divino de forma mais intensa do que habitualmente se verifica
na imensidão do mundo. 3. No âmbito desta tendência geral das religiões, a Bíblia proporciona
uma mensagem específica, ao colocar o tema do « espaço sagrado » no
horizonte da história da salvação. Por um lado, acautela contra os riscos
inerentes a uma definição desse espaço que vá na linha de divinização da
natureza — recorde-se, a tal respeito, a grande batalha dos profetas contra
a idolatria, em nome da fidelidade a Javé, Deus do Êxodo —, mas, por outro,
não exclui uma utilização cultual do espaço, já que isso exprime plenamente
a especificidade da intervenção de Deus na história de Israel. Deste modo, o
espaço sagrado foi-se « concentrando » progressivamente no templo de
Jerusalém, onde o Deus de Israel deseja ser honrado e, de certo modo,
encontrado. Para o templo se voltam os olhos do peregrino de Israel, e
grande é a sua alegria quando chega ao lugar onde Deus colocou a sua morada:
« Que alegria quando me disseram: “Vamos para a casa do Senhor”.
Detiveram-se os nossos passos às tuas portas, Jerusalém » (Sal
122121, 1-2). No Novo Testamento, esta « concentração » do espaço sagrado tem o seu
ponto culminante em Cristo, que é agora pessoalmente o novo « templo » (cf.
Jo 2, 21), onde habita a « plenitude da divindade » (Col 2, 9).
Com a sua vinda, o culto tende a superar radicalmente os templos materiais,
para se tornar culto « em espírito e verdade » (Jo
4, 24). E, em Cristo, também a Igreja é considerada « templo » pelo Novo
Testamento (cf. 1 Cor 3, 17), que diz o mesmo de cada um dos
discípulos de Cristo, enquanto habitado pelo Espírito Santo (cf. 1 Cor
6, 19; Rom 8, 11). É claro que tudo isto não exclui que os cristãos,
como o demonstra a história da Igreja, possam ter lugares de culto; é
preciso, todavia, não perder de vista o seu carácter completamente funcional
ao serviço da vida cultual e fraterna da comunidade, na certeza de que a
presença de Deus, por sua natureza, não pode ser encerrada em lugar algum,
já que os preenche a todos, tendo em Cristo a plenitude da sua expressão e
irradiação. Assim, o mistério da Encarnação modifica a experiência universal do «
espaço sagrado », por um lado redimensionando-a e por outro sublinhando em
novos termos a sua importância. Na realidade, a referência ao espaço está
contida no próprio facto de o Verbo « fazer-Se carne » (cf. Jo
1, 14). Em Jesus de Nazaré, Deus assumiu as características próprias da
natureza humana, incluindo a pertença obrigatória do indivíduo a um povo
concreto e a uma determinada terra. Possui um significado muito peculiar
esta frase — « Hic de Virgine Maria Iesus Christus natus est » — que
se encontra em Belém, precisamente no lugar onde, segundo a tradição, nasceu
Jesus: « Aqui nasceu Jesus Cristo da Virgem Maria ». A dimensão concreta e
física da terra e as suas coordenadas geográficas fazem parte da verdade da
carne humana assumida pelo Verbo. 4. Por isso mesmo, na perspectiva do ano bimilenar da Encarnação, sinto
grande desejo de ir pessoalmente rezar nos principais lugares onde, desde o
Antigo ao Novo Testamento, se verificaram as intervenções de Deus, que
atingiram o seu apogeu no mistério da encarnação e da páscoa de Cristo.
Estes lugares encontram-se já gravados indelevelmente na minha memória desde
1965, ano em que tive a oportunidade de visitar a Terra Santa. Foi uma
experiência inesquecível. Ainda hoje repasso de bom grado as páginas onde
registei os densos sentimentos de então. « Chego a estes lugares que de Ti
encheste de uma vez para sempre. (...) Ó lugar, quantas vezes, quantas vezes
te transformaste antes de passares d'Ele a mim! Quando Ele te encheu pela
primeira vez, ainda não eras nenhum lugar exterior, mas apenas o ventre de
Sua Mãe. Oh que sensação saber que as pedras sobre as quais caminho em
Nazaré são as mesmas que tocava o seu pé, quando ainda era Ela o Teu lugar,
único no mundo. Encontrar-Te através duma pedra que foi tocada pelo pé de
Tua Mãe! Ó lugar, lugar de Terra Santa, como é grande o espaço que ocupas em
mim! Por isso, não posso pisar-te com os meus pés, devo ajoelhar-me. E assim
atestar hoje que tu foste um lugar de encontro. Eu me ajoelho – e deste modo
aponho o meu sigilo. Aqui permanecerás com o meu sigilo — permanecerás,
permanecerás — e eu levar-te-ei comigo, transformar-te-ei dentro de mim num
lugar de novo testemunho. Eu parto como uma testemunha que dará o seu
testemunho através dos séculos » [K. Wojtyla, Obras literárias. Poesias e
dramas
(Livraria Editora Vaticana 1993), p. 124]. Quando há mais de trinta anos escrevia estas palavras, não podia imaginar
que o testemunho, ao qual então me comprometia, haveria de prestá-lo hoje
como sucessor de Pedro, posto ao serviço de toda a Igreja. É um testemunho
que me insere numa longa cadeia de pessoas, que, desde há dois mil anos, têm
ido procurar os « passos » de Deus naquela terra, justamente chamada « santa
», de algum modo esquadrinhando-os nas pedras, nos montes e nas águas, que
serviram de cenário à vida terrena do Filho de Deus. É conhecido, desde a
antiguidade, o diário de viagem da peregrina Etéria. Quantos peregrinos,
quantos santos seguiram o seu itinerário no decorrer dos séculos! Mesmo
quando as circunstâncias históricas turvaram o carácter essencialmente
pacífico da peregrinação à Terra Santa, dando-lhe uma fisionomia que,
intenções aparte, mal se conciliava com a imagem do Crucificado, a mente dos
cristãos mais conscientes pretendia apenas encontrar naquela terra a
recordação viva de Cristo. E quis a divina Providência que, ao lado dos
irmãos das Igrejas Orientais, ficassem, para a cristandade ocidental,
sobretudo os filhos de Francisco de Assis, santo da pobreza, da mansidão e
da paz, a interpretar de forma genuinamente evangélica o legítimo desejo
cristão de guardar os lugares onde se entranham as nossas raízes
espirituais. 5. É com este espírito que, se Deus quiser, penso percorrer, por ocasião
do Grande Jubileu do ano 2000, as marcas da história da salvação na terra
onde ela se desenrolou. Ponto de partida serão alguns lugares típicos do Antigo Testamento.
Desejo, assim, exprimir a consciência que tem a Igreja do seu vínculo
indivisível com o antigo povo da Aliança. Também para nós, Abraão é o « pai
na fé » por excelência (cf. Rom 4; Gal 3, 6-9; Heb
11, 8-19). No evangelho de João, encontra-se esta frase que Cristo disse
um dia acerca dele: « Abraão exultou com a ideia de ver o meu dia; viu-o e
rejubilou » (8, 56). Precisamente com Abraão está ligada a primeira etapa da viagem que desejo
fazer. De facto, gostaria de ir, se for da vontade de Deus, a Ur dos
Caldeus, que corresponde à actual Tal-al-Muqayyar no sul do Iraque, cidade
onde Abraão, segundo a narração bíblica, ouviu a palavra do Senhor que o
arrancava da sua terra, do seu povo e, em certo sentido, de si próprio, para
fazer dele o instrumento dum desígnio de salvação que abraçava o futuro povo
da aliança e mesmo todos os povos do mundo: « O Senhor disse a Abrão: “Deixa
a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te
indicar. Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu
nome e serás uma fonte de bênçãos. (...) E todas as famílias da terra serão
em ti abençoadas » (Gen 12, 1-3). Com estas palavras, tem início o
longo caminho do Povo de Deus. Para Abraão se voltam os olhos não só de
quantos se gloriam de descenderem dele fisicamente, mas também de todos
aqueles — e são inumeráveis — que se sentem sua descendência « espiritual »,
porque partilham a sua fé e abandono sem reservas à iniciativa salvífica do
Omnipotente. 6. As vicissitudes do povo de Abraão foram-se desenrolando ao longo de
centenas de anos, tocando muitos lugares do Médio Oriente. Lugar central
ocupam os acontecimentos do Êxodo, quando o povo de Israel, depois duma dura
experiência de escravidão, se encaminhou guiado por Moisés para a Terra da
sua liberdade. Este caminho está assinalado por três momentos, relacionados
com lugares montanhosos densos de mistério. Aparece em primeiro lugar, na
fase preliminar, o monte Horeb, uma das denominações bíblicas do Sinai, onde
Moisés teve a revelação do nome de Deus, sinal do seu mistério e da sua
presença salvífica eficaz: « Eu sou Aquele que sou » (Ex 3, 14).
Também a Moisés, não menos que a Abraão, era pedido que tivesse confiança no
desígnio de Deus e se colocasse à frente do seu povo. Começava assim a
dramática história da libertação, que ficaria impressa na memória de Israel
como experiência basilar da sua fé. Ao longo do caminho pelo deserto, aparece de novo o Sinai como o cenário
onde foi estipulada a aliança entre Javé e o seu povo. Este monte permanece,
por isso, associado com o dom do Decálogo, as dez « palavras » com que
Israel se comprometia a uma vida de plena adesão à vontade de Deus. Na
realidade, estas « palavras » traduziam os pilares da lei moral de carácter
universal escrita no coração de cada homem, mas foram entregues a Israel no
contexto de um pacto recíproco de fidelidade, segundo o qual o povo se
comprometia a amar a Deus, recordando as maravilhas que Ele operou no Êxodo,
e Deus garantia-lhe a sua benevolência perene: « Eu sou o Senhor, teu Deus,
que te fez sair do Egipto, de uma casa de escravidão » (Ex 20, 2).
Comprometiam-se reciprocamente Deus e o povo. Se, na visão da sarça ardente,
o Horeb, lugar do « nome » e do « projecto » de Deus, tinha sido sobretudo o
« monte da fé », agora, para o povo peregrino no deserto, aquele tornava-se
lugar do encontro e de um pacto recíproco, tornava-se de certo modo o «
monte do amor ». Quantas vezes no decorrer dos séculos os profetas, ao
denunciarem a infidelidade do povo à aliança, haveriam de a considerar como
uma espécie de infidelidade « conjugal », uma autêntica traição do
povo-esposa a Deus, seu esposo (cf. Jer 2, 2; Ez 16, 1-43). No final do caminho do Êxodo, destaca-se outro lugar elevado, o monte
Nebo, donde Moisés pôde contemplar a Terra Prometida (cf. Dt 32, 49),
sem a alegria de poder pisá-la, mas com a certeza de a ter finalmente
alcançado. Aquele seu olhar a partir do monte Nebo é o próprio símbolo da
esperança. Daquele monte, ele podia constatar que Deus tinha mantido as suas
promessas. Uma vez mais, porém, devia confiadamente abandonar-se à
omnipotência divina quanto ao pleno cumprimento do desígnio preanunciado. Provavelmente não será possível, na minha peregrinação, passar por todos
estes lugares. Mas queria pelo menos, se for da vontade do Senhor, deter-me
em Ur, lugar das origens abraâmicas, e fazer depois uma paragem no célebre
Mosteiro de Santa Catarina, no Sinai, aquele monte da Aliança que de algum
modo resume todo o mistério do Êxodo, paradigma perene do novo Êxodo que
encontrará no Gólgota a sua realização completa. 7. Se estes itinerários e outros semelhantes do Antigo Testamento são tão
densos de significado para nós, é óbvio que o ano jubilar, recordação solene
da encarnação do Verbo, nos convida a parar sobretudo nos lugares onde
decorreu a vida de Jesus. Vivíssimo é o meu desejo de ir, antes de mais, a Nazaré, cidade ligada ao
próprio momento da Encarnação e, depois, lugar onde Jesus cresceu « em
sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens » (Lc
2, 52). Lá ouviu Maria a saudação do Anjo: « Salve, ó cheia de graça, o
Senhor está contigo » (Lc 1, 28). Lá pronunciou Ela o seu fiat
como resposta ao anúncio que A chamava para ser mãe do Salvador e tornar-se,
à sombra do Espírito Santo, um ventre acolhedor para o Filho de Deus. Depois, como não deslocar-se a Belém, onde Cristo veio à luz, e os
pastores e os magos deram voz à adoração da humanidade inteira? Em Belém,
ressoaram também pela primeira vez aqueles votos de paz que, formulados
pelos Anjos, haveriam de continuar a ecoar de geração em geração até aos
nossos dias. Paragem particularmente significativa será Jerusalém, lugar da morte na
cruz e da ressurreição do Senhor Jesus. Certamente são muitos mais os lugares que evocam a existência terrena do
Salvador e tantos deles mereciam ser visitados. Por exemplo, como não
lembrar o monte das Bem-aventuranças, o monte da Transfiguração, ou Cesareia
de Filipe, localidade onde Jesus confiou a Pedro as chaves do Reino dos
Céus, constituindo-o como alicerce da sua Igreja (cf. Mt 16, 13-19)?
Na Terra Santa, de norte a sul, pode-se dizer que tudo recorda Cristo. Mas
terei de contentar-me com os lugares mais significativos, e Jerusalém de
algum modo resume-os a todos. Lá, se Deus quiser, tenciono ajoelhar-me em
oração, levando no coração toda a Igreja. Lá contemplarei os lugares onde
Cristo deu a sua vida e, depois, a retomou na ressurreição, concedendo-nos o
dom do seu Espírito. Lá quero gritar uma vez mais esta grande e consoladora
certeza: « Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único, para
que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna » (Jo
3, 16). 8. Um dos lugares hierosolimitanos a que a vida terrena de Cristo está
ligada de forma mais intensa, sendo por isso irrenunciável a sua visita, é o
Cenáculo, onde Jesus instituiu a Eucaristia, fonte e cume da vida da Igreja.
Lá, segundo a tradição, estavam reunidos os Apóstolos em oração com Maria,
Mãe de Cristo, no dia de Pentecostes, quando foi derramado o Espírito Santo.
Começou então a última etapa do caminho da história da salvação, o tempo da
Igreja, corpo e esposa de Cristo, povo peregrino no tempo, chamado a ser
sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género
humano (cf.
Lumen gentium, 1). Deste modo, a visita ao Cenáculo quer ser uma subida até às próprias
nascentes da Igreja. O sucessor de Pedro, que em Roma vive no lugar onde o
Príncipe dos Apóstolos afrontou o martírio, não pode deixar de voltar
constantemente ao lugar onde Pedro, no dia de Pentecostes, começou a
proclamar em voz alta, com a força inebriante do Espírito, a « boa nova » de
que Jesus Cristo é o Senhor (cf. Act 2, 36). 9. A visita aos Lugares Santos da vida terrena do Redentor desemboca, por
conexão lógica, nos lugares que foram significativos para a Igreja nascente
e viram o ardor missionário da primeira comunidade cristã. E seriam tantos,
segundo a narração de Lucas nos Actos dos Apóstolos. Mas, de modo
particular, gostaria de poder deter-me em meditação também em duas cidades
ligadas de forma especial com a vida de Paulo, o apóstolo dos Gentios. Penso
antes de mais em Damasco, lugar que evoca a sua conversão. Com efeito, o
futuro apóstolo dirigia-se para aquela cidade nas vestes de perseguidor,
quando o próprio Cristo cruzou o seu caminho: « Saulo, Saulo, porque Me
persegues? » (Act 9, 4). Assim conquistado por Cristo, o zelo de
Paulo estendeu-se a partir dali numa marcha incessante até atingir grande
parte do mundo então conhecido. Muitas foram as cidades que evangelizou.
Seria bom poder tocar especialmente Atenas, em cujo Areópago ele pronunciou
um discurso admirável (cf. Act 17, 22-31). Se se pensa ao papel que a
Grécia teve na formação da cultura antiga, compreende-se a razão por que
aquele discurso de Paulo pode considerar-se, de algum modo, o próprio
símbolo do encontro do Evangelho com a cultura humana. 10. Abandonando-me completamente à decisão da vontade divina, ficaria
contente se este desígnio pudesse realizar-se pelo menos nos seus pontos
essenciais. Trata-se de uma peregrinação exclusivamente religiosa, quer pela
sua natureza quer pelos seus objectivos, e desgostar-me-ia ver atribuídos a
este meu projecto outros significados. Aliás, desde já estou a realizá-la em
sentido espiritual, uma vez que ir, mesmo só em pensamento, a tais lugares
significa de certa forma reler o próprio Evangelho, significa percorrer as
estradas que a Revelação seguiu. Deslocar-se, em espírito de oração, de um lugar a outro, de uma cidade a
outra, naquele espaço particularmente marcado pelas intervenções de Deus,
ajuda-nos não só a viver a nossa vida como um caminho, mas apresenta aos
nossos olhos a ideia de um Deus que nos precedeu e precede, que Se pôs, Ele
mesmo, a caminho pelas estradas do homem, um Deus que não nos olha de cima,
mas fez-Se nosso companheiro de viagem. Assim a peregrinação aos Lugares Santos torna-se uma experiência
extraordinariamente significativa, de certo modo recordada por qualquer
outra peregrinação jubilar. De facto, a Igreja não pode esquecer as suas
raízes; antes, deve continuamente voltar a elas, para se manter totalmente
fiel ao desígnio de Deus. Por isso, na Bula
Incarnationis mysterium,
escrevi que o Jubileu, celebrado simultaneamente na Terra Santa, em Roma e
nas Igrejas locais do mundo inteiro, « terá, por assim dizer, dois centros:
um será a Cidade onde a Providência quis colocar a sede do sucessor de
Pedro, e o outro, a Terra Santa onde o Filho de Deus enquanto homem nasceu,
tomando a nossa carne de uma Virgem, chamada Maria » (n. 2). Esta atenção à Terra Santa, ao mesmo tempo que traduz a inevitável
recordação dela por parte dos cristãos, quer honrar a profunda relação que
estes continuam a ter com o povo judeu, do qual provém Cristo segundo a
carne (cf. Rom 9, 5). Muita estrada se fez já nos últimos decénios,
especialmente depois do Concílio Vaticano II, para estabelecer um diálogo
fecundo com o povo que Deus escolheu como primeiro destinatário das suas
promessas e da aliança. O Jubileu deverá constituir mais uma ocasião para
fazer crescer a consciência dos laços que nos unem, contribuindo para
extinguir definitivamente incompreensões que infelizmente tantas vezes, ao
longo dos séculos, caracterizaram amargamente as relações entre cristãos e
judeus. Além disso, não podemos esquecer que a Terra Santa é estimada também
pelos seguidores do Islão, que lhe tributam uma especial veneração. Espero
vivamente que a minha visita aos Lugares Santos possa ser também uma
oportunidade de encontro com eles, para que, sempre na clareza do
testemunho, cresçam motivos de conhecimento e estima recíproca e também de
colaboração no esforço de dar testemunho do valor do compromisso religioso e
do desejo duma sociedade mais conforme ao desígnio de Deus, no respeito de
toda a pessoa e da criação. 11. Neste percurso ao longo do espaço que Deus escolheu para colocar a
sua « tenda » no meio de nós, desejo ardentemente ver-me acolhido como
peregrino e irmão não só pelas comunidades católicas, que encontrarei com
particular alegria, mas também pelas outras Igrejas que ininterruptamente
têm vivido nos Lugares Santos, guardando-os com fidelidade e amor ao Senhor. Mais do que qualquer outra minha peregrinação, esta que estou para
realizar à Terra Santa durante a efeméride jubilar será caracterizada pelo
anélito, expresso por Cristo na sua Oração ao Pai, de que todos os
discípulos « sejam um só » (Jo 17, 21), oração esta que nos interpela
ainda mais vigorosamente na hora excepcional em que se abre o novo Milénio.
Por isso, faço votos de que todos os irmãos na fé possam, na docilidade ao
Espírito Santo, ver, nos meus passos de peregrino na terra pisada por
Cristo, uma « doxologia » pela salvação que todos recebemos, e sentir-me-ia
feliz se conjuntamente pudéssemos reunir-nos nos lugares da nossa origem
comum, para testemunhar Cristo, nossa unidade (cf.
Ut unum sint, n. 23), e confirmar o recíproco empenho de caminhar
até ao restabelecimento da plena comunhão. 12. Resta-me apenas convidar calorosamente toda a comunidade cristã para
se pôr idealmente a caminho da peregrinação jubilar. Esta poderá ser
celebrada segundo as múltiplas formas que indiquei na Bula de proclamação.
Mas, por certo, tantos vão vivê-la também pondo-se concretamente em viagem
até àqueles lugares que tiveram particular relevo na história da salvação.
Seja como for, todos deveremos efectuar aquela viagem interior, cuja
finalidade é separar-nos daquilo que, em nós mesmos e ao nosso redor, é
contrário à lei de Deus, para termos a possibilidade de nos encontrarmos
plenamente com Cristo, confessando a nossa fé n'Ele e recebendo a abundância
da sua misericórdia. No Evangelho, Jesus aparece-nos sempre em caminho. Parece que Ele tem
pressa de passar dum lugar a outro para anunciar que o Reino de Deus está
próximo. Anuncia e chama. Aquele « segue-Me » que era a sua forma de chamar
mereceu a pronta adesão dos Apóstolos (cf. Mc 1, 16-20). Sintamo-nos
todos abrangidos pela sua voz, pelo seu convite, pelo seu apelo a uma vida
nova. Digo-o sobretudo aos jovens, diante dos quais se abre a vida como um
caminho pleno de surpresas e de promessas. Digo-o a todos: sigamos os passos de Cristo! Possa esta peregrinação, que tenciono fazer no ano jubilar, significar o
caminho de toda a Igreja, desejosa de estar cada vez mais disponível à voz
do Espírito, para ir sem demora ao encontro de Cristo, o Esposo: « O
Espírito e a Esposa dizem: “Vem” » (Ap 22, 17). Vaticano, dia 29 de Junho — Solenidade dos Apóstolos S. Pedro e S.
Paulo — do ano 1999, vigésimo primeiro de Pontificado. JOÃO PAULO PP. II Copyright © Libreria Editrice Vaticana
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