MENSAGEM DO PAPA
JOÃO PAULO II ASSINADA PELO CARDEAL ANGELO SODANO PARA O
«DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO»*
16 de Outubro de 1997
A Sua Excelência o Senhor Jacques DIOUF Director-Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a
Agricultura (FAO)
Ainda está vivo na Comunidade internacional e na alma da
sociedade civil mundial o eco do Encontro Mundial sobre a Alimentação, através
do qual a FAO, os Estados membros e, juntamente com eles, todo o sistema da
Organização das Nações Unidas, se comprometeram solenemente a favor de uma luta
mais decidida contra a fome e a subalimentação. Para Sua Santidade, a celebração
deste Dia Mundial da Alimentação constitui uma ocasião propícia para renovar a
aprovação de tal iniciativa e confirmar o apoio à acção empreendida pela
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, eficazmente
gerida por Vossa Excelência.
O objectivo de chegar a resultados concretos até
aos primeiros anos do novo milénio parece estar cada vez mais ligado não só a
opções políticas e técnicas, mas a uma directa transformação da mentalidade, dos
estilos de vida e da acção de pessoas, comunidades e governos nos vários níveis.
Só uma acção concertada e decidida, não obstante as inevitáveis dificuldades que
poderá encontrar no próprio caminho, pode constituir uma resposta eficaz ao brado de quantos vivem directamente o drama da
fome. Conhecer as causas, determinar os comportamentos, orientar políticas e
intervenções, se tudo isto estiver privado de uma constante referência à pessoa
humana e às suas exigências, pode tornar-se um instrumento
aparentemente suficiente, mas contudo inadequado.
A experiência da acção internacional e,
em particular, da FAO demonstra que não basta apenas a disponibilidade de
alimentos para pôr fim à fome. São necessárias condições políticas, económicas e
ambientais para um constante e adequado nível de segurança alimentar. Traduzido
na ética dos relacionamentos internacionais, significa que se deve exortar ao
compromisso, individual e colectivo, para realizar formas de distribuição
concreta, a fim de que cada um se sinta responsável pelo «próximo» — quer ele
seja uma pessoa, uma comunidade, uma nação ou um Estado. Efectivamente, na
descoberta de que o «dar» é superior ao «ter» pode encontrar-se um sólido
fundamento para as relações entre os povos, bem como a essência da solidariedade
internacional. Permitir que a milhões de seres humanos e a inteiras comunidades
seja limitada ou até mesmo repudiada a própria esperança de vida devido à falta
do pão quotidiano constitui uma evidente negação da consciência comum da
humanidade e uma violação dos direitos fundamentais, a começar pelos direitos
económicos e sociais. E isto não nos pode deixar indiferentes!
Com efeito,
determinadas formas de assistência internacional, cada vez mais ligadas a uma
limitada visão da globalização, correm o perigo de ignorar a realidade de homens
e mulheres que, nas cidades ou nas áreas rurais, permanecem à margem dos
circuitos da economia mundial, das programadas intervenções humanitárias, bem
como dos benefícios que derivam do próprio trabalho. O tema que caracteriza o actual Dia Mundial da Alimentação,
Investing in Food Security («Investir na segurança alimentar»), relança uma concreta acção internacional, capaz de
envolver contribuições de vários tipos, contanto que sejam livres de
condicionamentos ou de interesses egoístas.
Estas são as reflexões que o Santo
Padre quer oferecer a quantos, em todas as partes do mundo, celebram a hodierna
Jornada e a todos aqueles que, nas diferentes tarefas e responsabilidades, estão
empenhados na luta contra a fome e a subalimentação. Os votos são por que cada
um, perscrutando no próprio coração, encontre os únicos motivos de
humanidade que podem inspirar uma renovada «acção de partilha».
Ao invocar Deus Omnipotente para que encha de bênçãos a actividade da FAO,
o Santo Padre renova a Vossa Excelência, Senhor Director-Geral, as expressões da sua estima
e a mais elevada consideração.
ANGELO CARD. SODANO Secretário de Estado
*L'Osservatore Romano. Edição semanal em português n°43 p.12.
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