1. O dia do Migrante e do Refugiado, com o tema "Migrações
em visão de paz", oferece este ano a oportunidade de reflectir sobre um dos assuntos
mais importantes. O tema, de facto, chama a atenção da opinião pública para a
mobilidade humana forçada, focalizando alguns aspectos problemáticos de grande
actualidade por causa da guerra e da violência, do terrorismo e da opressão, da
discriminação e da injustiça, infelizmente sempre presentes nas notícias
quotidianas. Os meios de comunicação social veiculam nas casas imagens de
sofrimento, de violência e de conflitos armados. São tragédias que transtornam
Países e Continentes, e não raro as regiões mais atingidas são exactamente as
mais pobres. De tal modo, a um drama unem-se outros.
Infelizmente, estamo-nos habituando a ver o peregrinar desconsolado dos
desalojados, a fuga desesperada dos refugiados, o desembarque com todos os meios
de migrantes nos Países mais ricos em busca de soluções para as suas numerosas
exigências pessoais e familiares. Eis, portanto, a pergunta: como falar de paz,
quando se registram constantemente situações de tensão em muitas regiões da
Terra? E como pode contribuir o fenómeno das migrações para a construção da paz
entre os homens?
2. Ninguém pode negar que a aspiração pela paz esteja no coração de grande
parte da humanidade. Exactamente esse é o desejo ardente que estimula a procurar
todos os meios para realizar um futuro melhor para todos. Vamo-nos convencendo
cada vez mais de que é preciso combater o mal da guerra pela raiz, porque a paz
não é unicamente ausência de conflitos, mas um processo dinâmico e participativo
a longo prazo, que envolve todas as camadas da sociedade, da família à escola,
às várias Instituições e Organismos nacionais e internacionais. Juntos podemos e
devemos edificar uma cultura de paz, adequada a prevenir o recurso às armas e a
todas as formas de violência. Por isso, devem ser encorajados gestos e esforços
concretos de perdão e de reconciliação; é necessário superar contrastes e
divisões, que, de outro modo, se perpectuariam sem perspectiva de solução.
Depois, deve-se recordar com vigor que não pode haver paz verdadeira sem justiça
e sem respeito dos direitos humanos. Com efeito, existe um vínculo estreito
entre a justiça e a paz, como já realçava no Antigo Testamento o Profeta:
"Opus iustitiae pax" (Is 32, 17).
3. Realizar condições concretas de paz, no que diz respeito aos migrantes e
itinerantes, significa comprometer-se seriamente a salvaguardar antes de mais
o direito a não emigrar, ou seja, a viver em paz e dignidade na própria
Pátria. Graças a uma atenta administração local e nacional, a um comércio
equitativo e a uma solidária cooperação internacional, cada País deve ser posto
em condições de garantir aos próprios habitantes, além da liberdade de expressão
e de movimento, a possibilidade de satisfazer necessidades fundamentais como a
alimentação, a saúde, o trabalho, a habitação, a educação, cuja frustração
coloca muitas pessoas em condições de ter que emigrar forçadamente.
Existe sem dúvida também o direito a imigrar. Na base de tal direito,
recorda o Beato João XXIII na Encíclica Mater et magistra, está o destino
universal dos bens deste mundo (cf. nn. 30 e 33). Compete evidentemente aos
Governos regular os fluxos migratórios no pleno respeito da dignidade das
pessoas e das necessidades das suas famílias, tendo em conta as exigências das
sociedades que acolhem os imigrados. A este respeito, já existem Acordos
internacionais em tutela de quantos emigram, assim como de todos os que procuram
noutro País refúgio ou asilo político. São acordos que podem ser sempre
ulteriormente aperfeiçoados.
4. Que ninguém permaneça insensível às condições em que se encontram tantos
imigrantes! Trata-se de pessoas no poder dos acontecimentos, que deixaram atrás
de si situações muitas vezes dramáticas. Destas pessoas os mass media transmitem
imagens comovedoras e por vezes horripilantes. São crianças, jovens, adultos e
idosos com o rosto magro e os olhos cheios de tristeza e de solidão. Nos campos
onde são acolhidos experimentam por vezes graves restrições. Por isso, é um
dever, a este propósito, reconhecer o louvável esforço realizado por não poucas
organizações públicas e privadas para aliviar as situações preocupantes que se
vieram a criar em várias regiões do Globo.
Nem se pode deixar de denunciar o tráfico praticado por exploradores sem
escrúpulos que abandonam no mar, em embarcações precárias, pessoas na busca
desesperada de um futuro menos incerto. Quem se encontra em condições críticas
necessita de solicitações e intervenções concretas.
5. Não obstante os problemas que acabei de mencionar, o mundo dos migrantes
encontra-se em condições de oferecer um válido contributo de consolidamento da
paz. De facto, as migrações podem facilitar o encontro e a compreensão entre as
pessoas e as comunidades. Este enriquecedor diálogo intercultural constitui,
como escrevi na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2001, um "caminho
necessário para a edificação de um mundo reconciliado". Isto verifica-se quando
os imigrantes são tratados com o respeito devido à dignidade de cada pessoa;
quando se favorece com todos os meios a cultura do acolhimento e a cultura da
paz, que harmoniza as diferenças e procura o diálogo, mesmo sem ceder a formas
de indiferentismo quando estão em jogo os valores. Esta abertura solidária
torna-se oferta e condição de paz.
Se se favorece uma integração gradual entre todos os migrantes, mesmo no
respeito da sua identidade, salvaguardando ao mesmo tempo o património cultural
das populações que os acolhem, corre-se menos o risco de que os emigrantes se
concentrem formando verdadeiros e próprios "guetos", onde se isolar do contexto
social, acabando às vezes por alimentar até o desejo de conquistar gradualmente
o território.
Quando as "diversidades" se encontram e se integram, dão vida a uma
"convivência das diferenças". Redescobrem-se os valores comuns a cada cultura,
capazes de unir e não de dividir; valores que afundam as suas raízes no idêntico
húmus humano. Isto facilita a abertura a um diálogo proveitoso para
construir um caminho de tolerância recíproca, realista e respeitadora das
peculiaridades de cada um. Com estas condições, o fenómeno das migrações
contribui para cultivar o "sonho" de um futuro de paz para toda a humanidade.
6. Bem-aventurados os construtores de paz! Assim diz o Senhor (cf. Mt
5, 9). Para os cristãos, a busca de uma comunhão fraterna entre os homens
encontra a sua fonte e o seu modelo em Deus, Uno na natureza e Trino nas
Pessoas. Desejo de coração que cada Comunidade eclesial, formada pelos migrantes
e pelos refugiados e por quantos os acolhem, vá buscar estímulos às fontes da
graça, se comprometam incansavelmente a construir a paz. Que ninguém se
resigne à injustiça, nem se deixe abater pelas dificuldades e pelas
privações!
Se o "sonho" de um mundo em paz é partilhado por tantas pessoas, se se
valoriza o contributo dos migrantes e dos refugiados, a humanidade pode
tornar-se sempre mais família de todos e a nossa Terra uma real "casa comum".
7. Com a sua vida e sobretudo com a morte na cruz, Jesus mostrou-nos qual é o
caminho a percorrer. Com a sua ressurreição garantiu-nos que o bem triunfa
sempre sobre o mal e que todos os nossos esforços e sofrimentos, oferecidos ao
Pai celeste em comunhão com a sua Paixão, contribui para a realização do
desígnio universal de salvação.
Com esta certeza, convido todos os que estão comprometidos no vasto sector
das migrações a serem construtores de paz. Com a certeza, para isto, de uma
especial recordação na oração, invoco a materna intercessão de Maria, Mãe do
Unigénito Filho de Deus feito homem, e envio a todos e a cada um a minha Bênção.
Vaticano, 15 de Dezembro de 2003.
PAPA JOÃO PAULO II
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