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MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
 JOÃO PAULO II
PARA A CELEBRAÇÃO DO
 DIA MUNDIAL DA PAZ

 

 1° DE JANEIRO DE 1987

 

 

DESENVOLVIMENTO E SOLIDARIEDADE 
DUAS CHAVES PARA A PAZ

 

 

1. Um apelo a todos ...

O meu prodecessor, o Papa Paulo VI de v. m., lançou um apelo a todos os homens de boa vontade, para celebrarem no primeiro dia de cada ano civil um Dia Mundial da Paz, como sinal de esperança e como promessa de que a paz venha a « dominar o desenrolar-se dos acontecimentos futuros » (AAS 59, 1967, p. 1098). À distância de vinte anos, eu volto a repetir este mesmo apelo, dirigindo-me a cada um dos membros da família humana. Convido-vos, pois, a unir-vos comigo, para reflectirmos juntos sobre a paz e celebrarmos a paz. Celebrar a paz no meio das dificuldades - como aquelas em que hoje vivemos - equivale a uma proclamação da nossa confiança na humanidade.

Baseando-me nesta confiança, dirijo o meu apelo a cada um pessoalmente, na convicção de que, todos juntos, podemos aprender a celebrar a paz, porquanto esta é uma aspiração universal de todos os povos no mundo inteiro. Todos os que compartilhamos essa aspiração, poderemos vir a ser, deste modo, uma só coisa nos nossos pensamentos e nos nossos esforços, em convergência para fazer da paz uma meta que pode ser alcançada por todos e em benefício de todos.

O tema que escolhi para a Mensagem deste ano tem a sua inspiração naquela verdade profunda acerca do homem que se enuncia assim: todos nós constituímos uma só família humana. Pelo simples facto de termos nascido neste mundo, nós participamos de uma herança e temos em comum a mesma origem, com todos os demais seres humanos. Esta unicidade exprime-se por sobre todas as riquezas e diversidades da família humana, nas diferentes raças, culturas, línguas e histórias. E nós somos chamados a reconhecer a radical solidariedade da família humana, como condição fundamental da nossa vida juntamente com os demais, sobre a face da terra.

Neste ano de 1987 ocorre também o vigésimo aniversário da publicação da Populorum Progressio. Esta célebre Encíclica do Papa Paulo VI foi un solene apelo para uma acção concertada em favor do desenvolvimento integral dos povos (cf. Populorum Progressio, n. 5). A frase do mesmo Paulo VI - « o desenvolvimento é o novo nome da paz » (ibid., nn. 76 e 87) - indica uma das chaves para a nossa busca da paz. Poderá existir paz verdadeira, enquanto houver homens, mulheres e crianças que não podem viver a sua plena dignidade humana? Poderá haver paz duradoura, num mundo onde predominam relações - sociais, económicas e políticas - que favorecem um grupo ou uma nação à custa de outros? Poderá estabelecer-se uma paz genuína, sem o reconhecimento efectivo daquela verdade sublime, segundo a qual nós somos todos iguais em dignidade, iguais porque fomos criados à imagem de Deus, que é nosso Pai?

2. ... para reflectir sobre a solidariedade ... 

Esta Mensagem para o XX Dia Mundial da Paz está em estreita relação com a Mensagem que dirigi ao mundo no ano passado, subordinada ao tema: Norte-Sul, Leste-Oeste: uma só Paz. Nessa Mensagem eu tive ocasião de dizer: « A unidade da família humana tem repercussões realíssimas para a nossa vida e para o nosso empenho em favor da paz. ... Isto significa que nós nos comprometemos por uma nova solidariedade, a solidariedade da família humana ... por um novo tipo de relações, a solidariedade social de todos » (n. 4).

Reconhecer a solidariedade social da família humana comporta a responsabilidade de construir sobre aquilo que nos une. Isto significa promover eficazmente e sem excepção alguma a igual dignidade de todos, como seres humanos, dotados de certos direitos fundamentais e inalienáveis. Isto afecta todos os aspectos da nossa vida individual, bem como da nossa vida na família, na comunidade em que vivemos e na mundo. Uma vez que compreendemos verdadeiramente que somos irmãos e irmãs no seio de uma comum humanidade, então podemos modelar as nossas atitudes diante da vida à luz da solidariedade que nos torna uma coisa só. Isto é verdade, de modo especial, quanto a tudo o que diz respeito ao projecto universal de base: a paz.

No decorrer da vida de todos nós houve momentos e acontecimentos que nos ligaram uns aos outros, levando-nos conjuntamente ao reconhecimento consciente da unicidade da humanidade. Desde aquele momento em que nos foi possível ver, pela primeira vez, imagens da terra colhidas do espaço, deu-se uma mudança sensível no nosso modo de entender o nosso planeta, a sua imensa beleza e fragilidade. Ajudados pelas conquistas resultantes da exploração espacial, descobrimos que a expressão « herança comum de todo o género humano » tomou, a partir de então, um significado novo. Quanto mais compartilhamos uns com os outros as riquezas artísticas e culturais próprias de cada um, tanto mais descobrimos a nossa comum humanidade. Os jovens, sobretudo, têm vindo a aprofundar o sentido de unidade, pela participação em acontecimentos desportivos, de nível regional e mundial, e em actividades similares, reforçando os seus laços de fraternidade, como homens e mulheres.

3. ... na sua actuação ... 

Ao mesmo tempo, com quanta frequência, em anos recentes, tivemos ocasião de nos pormos em contacto, como irmãos e irmãs, para ajudar aqueles que foram atingidos por catástrofes naturais ou afligidos pela guerra e pela fome. Nós somos testemunhas de um crescente desejo colectivo - que passa por cima das fronteiras políticas, geográficas e ideológicas - de ajudar os membros menos favorecidos da família humana. O sofrimento, que se prolonga e é ainda tão trágico, dos nossos irmãos e irmãs da região subsarana, na Africa, está a suscitar por toda a parte formas e projectos desta solidariedade entre seres humanos. Duas das razões pelas quais eu tive a alegria de atribuir, em 1986, o Prémio Internacional para a Paz « Papa João XXIII » aos Serviços Católicos para os Socorros de Emergência e para os Prófugos (COERR), da Tailândia, foram: em primeiro lugar, poder chamar a atenção do mundo para as persistentes dificuldades com que se debatem aqueles que se vêem forçados a abandonar a própria pátria; e, em segundo lugar, pôr em realce o espírito de cooperação e colaboração que tantos grupos - católicos e outros - têm demonstrado, indo ao encontro das necessidades daquela gente, tão duramente provada e sem un tecto. Sim, o espírito humano pode corresponder e sabe corresponder, com grande generosidade, aos sofrimentos do próximo. Nestas respostas nós podemos ver uma crescente actuação daquela solidariedade social que, com palavras e com os factos, proclama que todos nós somos uma só coisa, que devemos reconhecer essa nossa unicidade e que isso é um elemento essencial para o bem comum de todos os indivíduos e de todas as nações.

Estes exemplos mostram que nós podemos cooperar e já cooperamos, de facto, de muitas maneiras; mostram que nós podemos trabalhar, e já trabalhamos, em conjunto, para fazer progredir o bem comum. Todavia, devemos fazer mais ainda. É preciso adoptarmos uma atitude de fundo para com a humanidade e no campo das relações que temos com as outras pessoas, individualmente, e com cada grupo do mundo. E, chegados a esse ponto, podemos começar a ver como o empenhamento pela solidariedade da parte de toda a família humana é uma chave para a paz. Os projectos que incrementam o bem da humanidade ou a boa vontade entre os povos representam passos em frente no sentido da actuação da solidariedade. Os laços de compaixão e de caridade, que nos impelem a ajudar aqueles que sofrem, põem em evidência de outra maneira a nossa unicidade. No entanto, o desafio subjacente, que se apresenta a todos nós, é o de adoptarmos uma atitude de solidariedade social para com a inteira família humana e de, nessa atitude, sabermos enfrentar todas as situações políticas e civis. Assim, por exemplo, a Organização das Nações Unidas designou o ano de 1987 como Ano Internacional do Alojamento e dos Sem-Casa. Deste modo pretende-se chamar a atenção para um vasto campo de grande interesse, e promover uma atitude de solidariedade - humana, política e económica - para com milhões de famílias, privadas daquele ambiente que é essencial para uma decorosa vida familiar.

4. ... e nos obstáculos com que depara ... 

Abundam, infelizmente, os obstáculos à solidariedade, devidos a posições políticas e ideológicas que condicionam de facto a actuação da solidariedade. Trata-se de posições ou de orientações que ignoram ou negam a igualdade fundamental e a dignidade da pessoa humana. Dentre estas, vêm-me ao pensamento, em particular:

- a xenofobia que faz com que algumas nações se fechem em si mesmas e leva os governos a estabelecer leis discriminatórias no seu próprio país, com prejuízo de pessoas;

- o encerramento das fronteiras, actuado de modo arbitrário e injustificável, de tal maneira que as pessoas se vêem efectivamente privadas da possibilidade de deslocar-se e de melhorar a sua sorte, de reunir-se com os seus entes queridos, ou simplesmente de visitar as próprias famílias ou de contactar pessoalmente com outros, para lhes dispensarem os seus cuidados e compreensão;

- as ideologias que apregoam o ódio e a desconfiança e os sistemas que levantam barreiras artificiais. O ódio racial, a intolerância religiosa e as divisões de classes, abertamente ou de forma velada, acham-se por demais presentes em muitas sociedades. Quando os chefes políticos erigem semelhantes divisões sistematicamente, em planos internos ou em programas que dizem respeito às relações com outras nações, então esses preconceitos atingem o mais íntimo da dignidade do homem. E isso passa a ser uma fonte poderosa de reacções opostas; que aumentam as divisões, as inimizades; a repressão e o clima de guerra. Outro mal é o terrorismo que, ainda no decorrer deste último ano, causou não poucos sofrimentos às pessoas e danos à sociedade.

O antídoto para tudo isto é constituído pela solidariedade efectiva. Com efeito, se o carácter essencial da solidariedade tem de ser reconhecido na igualdade radical de todos os seres humanos, homens e mulheres, resulta claro que toda a política que esteja em contradição com a dignidade fundamental e com os direitos humanos, de cada pessoa ou grupo de pessoas, é uma política que deve ser rejeitada. Ao contrário, as políticas e os programas que visam instaurar relações abertas e honestas entre os povos, levar a alianças justas e unir entre si os homens para uma cooperação honrosa, devem ser incrementados. Semelhantes iniciativas não ignoram as reais diferenças linguísticas, raciais, religiosas, sociais ou culturais, existentes entre os povos; e também não ignoram as grandes dificuldades que há para superar divisões e injustiças inveteradas. Contudo, elas procuram pôr em primeiro plano os elementos que unem, embora possam parecer exíguos.

Este espírito de solidariedade é um espírito aberto ao diálogo. Ele lança as suas raízes na verdade e tem necessidade da verdade para se desenvolver. É um espírito que procura sobretudo construir e não destruir, que procura prevalentemente unir e não dividir. Uma vez que a solidariedade é uma aspiração universal, ela pode assumir muitas formas. Acordos regionais para promover o bem comum e para estimular as negociações bilaterais podem servir para diminuir as tensões. O intercâmbio de tecnologias ou de informações, para precaver desastres ou para melhorar a qualidade de vida das pessoas numa determinada região, é algo que contribuirá para a solidariedade e facilitará ulteriores medidas de alcance mais vasto.

5. ... e para reflectir sobre o desenvolvimento ... 

Não há, talvez, nenhum outro sector das tarefas humanas em que a necessidade de solidariedade social seja tão grande como na área do desenvolvimento. Grande parte das afirmações do Papa Paulo VI, contidas na sua Encíclica cujo vigésimo aniversário estamos a celebrar, podem aplicar-se de modo especial aos nossos dias. Ele viu com clareza que a questão social tinha assumido proporções mundiais (cf. Populorum Progressio, n. 3 ). Foi dos primeiros a chamar a atenção para o facto dë o progresso económico ser em si mesmo insuficiente, e de ele requerer o progresso social (cf. ibid., n. 35). Ele insistia, sobretudo na necessidade de um progresso integral; ou seja, tem de ser desenvolvimento de cada pessoa e de toda a pessoa (cf. ibid., nn. 14-21 ). Iria sua maneira de ver, consistia nisso o humanismo pleno: o desenvolvimento total da pessoa- homem ou mulher em todas as suas dimensões, com abertura para o Absoluto e « que exprime a ideia exacta do que é vida humana » (ibid:, n. 42). Um humanismo assim é o objectivo comum que deve ser tido em vista e buscado por todos. « O desenvolvimento integral do homem, dizia ele, não poderá realizar-se sem o desenvolvimento solidário da humanidade » (cf. ibid., n. 43).

Agora, passados vinte anos, desejo render homenagem a estes ensinamentos do Papa Paulo VI: A sua visão perspicaz, pelo que se refere à importância de um espírito de solidariedade para o desenvolvimento, continua a ser válida, mesmo nas mudadas circunstâncias dos nossos dias, e projectam uma grande luz sobre os desafios do presente.

6. ... e sobre as suas aplicações hoje. 

Quando reflectimos sobre o empenho de solidariedade no campo do desenvolvimento, a verdade primordial e a mais fundamental é esta: o desenvolvimento é uma questão de pessoas. São as pessoas, de facto, os sujeitos do desenvolvimento verdadeiro; são elas a finalidade do desenvolvimento verdadeiro. O desenvolvimento integral das pessoas constitui a meta e o ponto de aferimento de todos os planos de desenvolvimento. O facto de as pessoas constituírem o ponto central do desenvolvimento é uma consequência da unicidade da família humana; e isto é independente de quaisquer descobertas tecnológicas ou científicas que o futuro nos possa reservar. As pessoas, homens e mulheres, devem ser o ponto de referência de tudo aquilo que se faz para melhorar as condições de vida. As mesmas pessoas têm de ser agentes activos, e não apenas receptores passivos, de todo e qualquer processo autêntico de desenvolvimento.

Outro princípio do desenvolvimento em relação com a solidariedade é a necessidade de promover os valores que sejam verdadeiramente benéficos para os indivíduos e para a sociedade. Não basta estender a mão àqueles que se encontram na necessidade. Temos de os ajudar a descobrir os valores que os ponham a eles próprios em condições de construir uma vida nova e de ocupar, com dignidade e justiça, o lugar que lhes compete na sociedade. Todas as pessoas têm o direito de buscar e de alcançar o que é bom e verdadeiro. Todas têm o direito de escolher aqueles bens que elevam a vida; e a vida em sociedade não é, de maneira nenhuma, algo moralmente neutro: As opções sociais implicam consequências que podem promover ou podem degradar o verdadeiro bem da pessoa na sociedade.

No campo do desenvolvimento, e especialmente no do desenvolvimento assistencial, são apresentados, algumas vezes, programas que pretendem passar por serem « sem conotação de valores »; na realidade, porém, revelam-se como contrários aos valores da vida. Se se verificar que programas governamentais ou formas de auxílio global coaccionem virtualmente comunidades ou inteiros países a terem de aceitar, como preço para o seu crescimento económico, programas englobando o uso de anticoncepcionais e projectos para favorecer o aborto, tem que se dizer claramente e com vigor que semelhantes propostas violam a solidariedade da família humana, por isso mesmo que negam os valores da dignidade e da liberdade da pessoa humana.

Aquilo que é verdadeiro quanto ao desenvolvimento das pessoas individuais, mediante uma selecção de valores que elevam a vida, aplica-se também ao desenvolvimento da sociedade. Tudo aquilo que impede a autêntica liberdade vai contra o desenvolvimento da sociedade e das instituições sociais. A exploração, as ameaças, a sujeição forçada, a recusa por parte de um sector da sociedade a dar a outros oportunidades, são coisas inaceitáveis e contradizem a própria noção de solidariedade humana. Semelhantes actividades, quer no seio de uma sociedade quer mesmo entre nações, podem infelizmente apresentar durante algum tempo a aparência de êxito. Todavia, quanto mais se prolongarem essas condições, tanto mais provável se torna que elas venham a ser causa de ulteriores repressões e de um aumento da violência. Os germes da destruição, quando é assim; acham-se inoculados na injustiça institucionalizada. Recusar os meios para alcançar o pleno desenvolvimento a um sector de determinada sociedade, ou então a uma inteira nação, só poderá levar à insegurança e à agitação social. Isso fomenta o ódio e a divisão e destrói as esperanças de paz.

A solidariedade que favorece o desenvolvimento integral é aquela que protege e defende a legítima liberdade de cada pessoa e a justa segurança de cada nação. Sem esta liberdade e segurança faltam as verdadeiras condições para o desenvolvimento. Não só os indivíduos, mas também as nações hão-de ter possibilidades de tomar parte nas escolhas que lhes dizem respeito. A liberdade de que devem usufruir as nações, para poderem assegurar o próprio crescimento e desenvolvimento como parceiros em pé de igualdade na família das nações, depende do respeito mútuo entre elas. Procurar a superioridade econômica, militar ou política à custa dos direitos de outras nações, é algo que faz periclitar qualquer perspectiva de verdadeiro desenvolvimento e de verdadeira paz.

7. Solidariedade e desenvolvimento: duas chaves para a paz

Pelas razões acabadas de apontar, propus que este ano se reflectisse sobre o solidariedade e o desenvolvimento como chaves para a paz. Cada uma destas realidades tem o seu próprio significado específico. Uma e outra são necessárias para serem alcançados os objectivos que visamos. A solidariedade é ética por sua própria natureza, porque implica uma afirmação de valor sobre a humanidade. Por isso mesmo, as suas implicações para a vida humana no nosso planeta e para as relações internacionais também são de ordem ëtica. Com efeito, os vínculos comuns de humanidade exigem de nós que se viva em harmonia e se procure promover uns para os outros tudo aquilo que é bom. É em virtude destas implicações éticas que a solidariedade é uma chave fundamental para a paz.

É sob esta mesma luz, ainda, que o desenvolvimento nos aparece com o seu significado pleno. Não se trata já simplesmente de melhorar determinadas situações ou determinadas condições económicas. Em última análise, o desenvolvimento torna-se uma questão de paz, porque ajuda a levar a bom termo aquilo que é bem para os outros e para a comunidade humana no seu conjunto.

No contexto de uma solidariedade verdadeira não há perigo de exploração ou de má utilização dos programas de desenvolvimento, só em benefício de um pequeno número de privilegiados. Pelo contrário, o desenvolvimento torna-se então um processo que envolve os diversos membros da mesma família humana, enriquecendo-os a todos. Enquanto que a solidariedade proporciona a base ética para actuar adequadamente, o desenvolvimento torna-se a oferta que um irmão faz a outro irmão, de modo que ambos possam viver mais plenamente, no âmbito daquela diversidade e complementaridade que são como que as marcas de garantia da civilização humana. É deste dinamismo que resulta a harmoniosa « tranquillitas ordinis » ( tranquilidade da ordem ) que constitui afinal a verdadeira paz. Sim, a solidariedade e o desenvolvimento são duas chaves para a paz.

8: Alguns problemas modernos ...

Muitos problemas, dentre aqueles que o mundo tem de enfrentar neste início do ano de 1987, são realmente complexos e parecem quase insolúveis. Apesar disso; se acreditamos na unicidade da família.humana e se insistimos no facto de que a paz é possível, a nossa reflexão em comum sobre a solidariedade e o desenvolvimento, como chaves para a paz, pode lançar muita luz sobre essas situações críticas.

Assim, o problema que se arrasta da dívida externa de numerosas nações em vias de desenvolvimento poderia ser visto com novos olhos, se todos aqueles a quem ele diz respeito incluíssem conscientemente estas considerações éticas nas avaliações dos dados de facto e nas soluções propostas. Muitos aspectos deste problema - como, o proteccionismo, os preços das matérias primas, as prioridades nos investimentos, o respeito pelas obrigações contraídas e, ainda, o ter na devida conta a situação interna dos países devedores - ficariam beneficiados se, em espírito de solidariedade, se buscassem soluções que promovessem um desenvolvimento estável.

Em relação à ciência e à tecnologia, estão a surgir novas e profundas divisões entre aqueles que dispõem de recursos tecnológicos e os que deles não dispõem. Ora semelhantes desigualdades não favorecem a paz e o desenvolvimento harmónico, mas agravam as situações de desigualdade já existentes. Se as pessoas são o sujeito do desenvolvimento e a finalidade que ele tem em vista, torna-se imperativo ético da solidariedade uma participação mais ampla das nações menos avançadas nos progressos das aplicações da tecnologia; assim como há o mesmo imperativo quanto à recusa ao fazer desses países um terreno de experiências problemáticas e um lugar de vazão para produtos duvidosos. Há Organizações internacionais e alguns Estados que estão a envidar notáveis esforços neste sentido. Tais esforços representam uma contribuição importante para a paz:

Estudos recentes sobre as relações entre desarmamento e desenvolvimento - dois dos problemas mais cruciais com que se debate o mundo dos nossos dias - põem em realce o facto das tensões actuais entre o Leste e o Oeste e as desigualdades entre o Morte e o Sul representarem sérias ameaças contra a paz no mundo. Torna-se cada vez mais claro que um mundo em paz, no qual esteja garantida a segurança dos povos e dos Estados, reclama uma solidariedade activa, nos esforços em prol tanto do desenvolvimento como do desarmamento. Não há Estado algum que possa eximir-se a sofrer as consequências da pobreza dos outros Estados; como não há Estado algum que possa ficar isento de sofrer prejuízo com o malogro das negociações sobre o desarmamento. E não podemos esquecer ainda as chamadas guerras localizadas que tão graves tributos pagam em vidas humanas. Todos os Estados têm responsabilidades pela paz no mundo; e esta paz não poderá ser garantida, enquanto a segurança baseada nas armas não for gradualmente substituída pela segurança baseada na solidariedade da família humana. Uma vez mais, quero aqui fazer o apelo para que sejam intensificados ainda os esforços no sentido de reduzir as armas ao mínimo necessário para a legítima defesa e para que sejam incrementadas as medidas que visam ajudar os países em vias de desenvolvimento a terem confiança em si mesmos. Somente desta forma a comunidade dos Estados poderá viver em verdadeira solidariedade.

Existe ainda uma outra ameaça contra a paz, ameaça que, em todo o mundo, corrói as próprias raízes da sociedade: a crise grave da família. A família é a célula fundamental da sociedade. A famílìa é o espaço onde primeiro se verifica ou não se verifica o desenvolvimento. Se ela for sã e íntegra, há grandes possibilidades de um desenvolvimento integral para o conjunto da sociedade. Mas, com demasiada frequência, não é assim.

Em numerosas sociedades a família tornou-se um elemento social secundário. Está relativizada por diversas interferências e, muitas vezes, não encontra no Estado aquela tutela e apoio de que precisa. Com muita frequência, ainda, ela se vê privada dos meios equitativos, a que tem direito, para estar verdadeiramente em condições de crescer e proporcionar aos seus membros um clima em que eles possam desenvolver-se e prosperar. O fenómeno das famílias desconjuntadas, o facto de os membros de uma família se verem obrigados à separação para sobreviverem, ou a impossibilidade de encontrar um alojamento para poderem fundar uma família ou para subsistirem, como grupo familiar, são tudo sinais de um subdesenvolvimento moral ou de uma sociedade que baralhou os seus valores. A importância que um povo ou uma nação dispensam ao desenvolvimento das famílias constitui um índice fundamental da sua saúde. As condições propícias para as famílias promovem também a harmonia da sociedade e da nação; e isto, por sua vez, favorece a paz tanto no interior das mesmas como no mundo.

Nos nossos dias deparamos com o espectro terrível de crianças abandonadas ou forçadas a sujeitarem-se ao mercado do trabalho. Vemos crianças e jovens vaguear nos bairros pobres das periferias, ou então nos grandes aglomerados impessoais das cidades, onde encontram apenas escassos meios para subsistir e poucas ou nenhumas esperanças de futuro. A derrocada das estruturas da família e a dispersão dos seus membros, em particular dos mais jovens, e os consequentes males que os atingem - abuso das drogas, alcoolismo, relações sexuais passageiras e banalizadas; exploração por parte de outros - são elementos negativos quanto ao almejado desenvolvimento de toda a pessoa; este só a solidariedade social da família humana o pode facultar. Olhar bem nos olhos as outras pessoas e perscrutar, desse modo, as esperanças e as angústias de um irmão ou de uma irmã, é descobrir o sentido da solidariedade.

9. ... que para todos nós constituem um desafio.

Aquilo que está em jogo é a paz: a paz civil, no interior das nações, e a paz mundial entre os Estados (cf. Populorum Progressio, n. 55). O Papa Paulo VI, há vinte anos, teve disto clara intuição. Ele apercebeu-se bem da conexão intrínseca que existe entre as exigências da justiça no mundo e a possibilidade da paz para o mundo. Não foi por mera coincidência que esse mesmo ano da publicação da Populorum Progressio ficou assinalado pela instituição do Dia Mundial da Paz, a ser celebrado cada ano, iniciativa que de boa vontade eu continuei.

O Papa Paulo VI exprimia, já nessa altura, o essencial da reflexão que estamos a fazer, sobre a solidariedade e o desenvolvimento como chaves da paz, quando declarava: A « paz não se reduz a uma ausência de guerra, fruto do equilíbrio sempre precário das forças. Constrói-se dia a dia, na busca de uma ordem querida por Deus, que traz consigo uma justiça mais perfeita entre os homens » (ibid., n. 76).

10. O empenhamento dos que crêem em Deus, especialmente dos cristãos

Todos os que acreditamos em Deus estamos convencidos de que a ordem harmoniosa, pela qual aspiram ardentemente todos os povos, não pode tornar-se realidade apenas com os esforços humanos, se bem que estes sejam indispensáveis. Essa paz - paz pessoal e paz para os outros - tem de ser ao mesmo tempo procurada na oração e na meditação. E ao dizer isto, tenho diante dos olhos e à flor do coração a experiência profunda do recente Dia Mundial de Oração pela Paz; celebrado em Assis. Chefes religiosos, representantes das Igrejas cristãs, das Comunidades eclesiais e das Religiões do mundo inteiro deram uma expressão viva à solidariedade na oração e na meditação pela paz. Houve um empenhamento evidente, da parte de todos os participantes - e da de muitos outros que connosco se uniram espiritualmente - por buscarem a paz, por serem artífices de paz, por fazerem tudo o que é possível, em profunda solidariedade de espírito, no sentido de actuar uma sociedade em que floresça a justiça e abunde a paz (cf. Sl 72, 7).

O Justo Juiz que o Salmista nos descreve é Aquele que faz justiça aos pobres e àqueles que sofrem: « Terá compaixão do pobre e do desvalido e salvará a vida dos necessitados. Resgatará as suas vidas da injustiça e da opressão » (vv. 13-14). Estas palavras estão hoje diante dos nossos olhos, ao mesmo tempo que rezamos para que o anelo pela paz, que marcou o encontro de Assis, possa continuar a ser um estímulo forte para todos os que acreditam em Deus e, de modo especial, para os cristãos.

Os cristãos, de facto, podem vislumbrar nestas palavras inspiradas do Salmo a figura de nosso Senhor Jesus Cristo, d'Aquele que trouxe a paz ao mundo, que curou os feridos e os aflitos e que foi enviado « a anunciar a boa-nova aos pobres ... a anunciar a libertação aos oprimidos » (Lc 4, 18). Jesus Cristo é Aquele a quem nós chamamos « a nossa paz »; foi Ele que derrubou « o muro intermédio de separação, isto é, as inimizades » (Ef 2, 14), a fim de fazer a paz. Sim, é precisamente este desejo de promover a paz, manifestado no encontro de Assis, que nos solicita a reflectir sobre a maneira de celebrar no futuro este Dia Mundial da Paz.

Também nós estamos chamados a ser como Cristo: a ser artífices de paz mediante a reconciliação, a cooperar com Ele na árdua tarefa de trazer a paz a esta terra, promovendo a causa da justiça para todos os povos e para todas as nações. E nunca devemos esquecer aquelas suas palavras, em que está resumida qualquer expressão perfeita da solidariedade humana: « Tudo aquilo que quereis que os homens vos façam a vós, fazei-o também vós a eles » (Mt 7, 12 ). Os cristãos, todas as vezes que este mandamento é por eles infringido, devem dar-se conta que estão a ser causa de divisão e que cometem pecado. Este pecado tem graves repercussões na comunidade dos que crêem e em toda a sociedade. Com ele, ofende-se o próprio Deus, que é o criador da vida e Aquele que mantém o que vive na existência.

A graça e a sabedoria de que Jesus dá mostras desde o tempo da sua vida oculta em Nazaré, com Maria e com José (cf. Lc 2, 51-52), são um modelo para as nossas relações mútuas, no seio da família, nas nossas nações e no mundo. O serviço dos outros, com as palavras e as obras - algo que marcou a vida pública de Jesus continua a recordar-nos que a solidariedade da família humana foi radicalmente aprofundada; e, ainda, que lhe foi atribuído um significado transcendente que enobrece todos os nossos esforços humanos em prol da justiça e da paz. Por fim, o supremo acto de solidariedade que o mundo conheceu - a morte de Jesus Cristo por todos na Cruz - abre para nós, cristãos, o caminho que devemos seguir. Se quisermos que a nossa actuação pela paz seja plenamente eficaz, é necessário que ela participe do poder transformador de Cristo, cuja morte dá a vida a todas as pessoas nascidas neste mundo e cujo triunfo sobre a morte é a definitiva garantia de que a justiça - que é pressuposta pela solidariedade e pelo desenvolvimento - levará a uma paz duradoura.

Que a adesão dada pelos cristãos a Jesus Cristo, como seu Salvador e Senhor, dirija todos os seus esforços! E que as suas orações lhes sirvam de apoio no seu empenho pela causa da paz, mediante o desenvolvimento dos povos, com o espírito de solidariedade social!

11. Apelo final 

Assim, juntos, vamos iniciar um novo ano: 1987. Faço votos de que ele seja um ano em que a humanidade ponha finalmente de parte as divisões do passado, um ano em que as pessoas busquem a paz, com todo o coração! É minha esperança que a presente Mensagem possa dar a cada um de vós - homens ou mulheres a ocasião para aprofundar o próprio empenho pela unidade da família humana na solidariedade. Que ela possa servir de incitamento e a todos nos anime, para procurarmos o verdadeiro bem de todos os nossos irmãos e irmãs, num desenvolvimento integral que favoreça todos os valores da pessoa na sociedade.

Ao iniciar esta Mensagem explicava que o tema da solidariedade me impelia a dirigi-la a todos e a cada um, homens e mulheres deste mundo. Faço agora de novo o meu apelo a cada um de vós; mas desejaria fazer aqui alguns apelos especiais, da maneira que segue:

- a todos vós, Chefes de governo e a quantos sois Responsáveis por Organizações internacionais: a fim de garantir a paz, faço apelo a que redobreis os vossos esforços em prol do desenvolvimento integral dos indivíduos e das nações;

- a todos vós, os que participastes no Dia Mundial de Oração pela Paz, em Assis, ou que vos unistes espiritualmente connosco nessa ocasião: faço apelo para que possamos conjuntamente dar testemunho em favor da paz no mundo;

- a todos vós, que vos deslocais ou que sois movidos pelo interesse dos intercâmbios culturais: faço apelo a que sejais instrumentos conscientes de cada vez maior compreensão, respeito e estima recíprocos;

- e a vos, meus irmãos e irmãs mais jovens, a juventude do mundo: faço apelo a que lanceis mão de todos os meios para estabelecer novos vínculos de paz, em fraterna solidariedade com todos os jovens do mundo inteiro.

E será ousadia, porventura, esperar ser ouvido por aqueles que recorrem à violência e ao terrorismo? Àqueles dentre vós que escutarem pelo menos a minha voz, peço novamente - como já tenho feito no passado - que desistais de procurar conseguir os vossos objectivos com a violência, mesmo que tais objectivos sejam em si mesmos justos. Peço-vos encarecidamente que renuncieis a matar e a fazer mal aos inocentes. Peço-vos, ainda, que acabeis com os processos de minar as próprias estruturas da sociedade. O caminho da violência não poderá levar-vos a uma verdadeira justiça, nem para vós nem para os outros. E, se quiserdes, podeis ainda mudar. Podeis muito bem demonstrar a vossa humanidade e reconhecer a solidariedade humana.

Faço apelo, por fim, a todos vós, onde quer que vos encontreis e seja qual for a vossa actividade: a que procureis ver o rosto de um irmão ou de uma irmã em todos e cada um dos seres humanos! O que nos une é de facto.muito mais do que aquilo que nos separa e divide: é a nossa comum humanidade.

A paz é sempre um dom de Deus; contudo, ela também depende de nós. E as chaves da paz estão em nosso poder. Compete-nos a nós usá-las para abrir todas as portas.

 

Vaticano, 8 de Dezembro de 1986.

 

 

 

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