1. Fixemos hoje a nossa atenção no pensamento de São Paulo, que a sagrada
liturgia nos propõe. A segunda leitura da Missa, tomada da carta aos Romanos,
parece «escrita» para aqueles que, de modo especial e profundo, devem meditar no
problema da sua vocação e devem ainda tomar responsavelmente decisões acerca
dela.
O trecho da carta de São Paulo fala primeiramente da nossa vocação eterna:
Porque aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem
conformes à imagem de seu Filho (Rom. 8, 29).
Com certeza que mais de uma vez reflectimos
sobre este mistério profundo. A nossa vocação tem a sua fonte unicamente em
Deus, conhecedor de cada um de nós no Verbo, Seu Filho, e, «conhecendo»,
predestina para que nos tornemos também filhos Seus. Deste modo, o eterno e
unigénito Filho «gerado, não criado, da mesma substância do Pai», tem na terra
os seus irmãos, e Ele é o primogénito entre muitos irmãos (Rom. 8, 29). Pensar na vocação
significa ter familiaridade com o eterno mistério da Caridade, o mistério da
Graça. Esta é sem qualquer dúvida a dimensão fundamental e plena da nossa
preparação para o sacerdócio. A Graça constitui, ao mesmo tempo, o fundamento
essencial da vocação em cada um de nós. Desejo que aprofundeis a vossa vocação
sacerdotal no seminário, começando por este mistério de graça. A vocação é graça
e dom de Deus em Jesus Cristo. Mediante o sacerdócio, tornamo-nos
particularmente semelhantes a Jesus, o primogénito entre muitos irmãos (Rom.
8, 29). Este conhecimento do dom divino confere à nossa vocação o seu sentido
profundo, na perspectiva de toda a nossa vida. A vida humana tem pleno valor
quando forma o reflexo e o cumprimento da Eterna Verdade e do único Amor.
2. Continuando a seguir o pensamento de São Paulo, tornamo-nos
conscientes de a vocação, além dum dom, ser um encargo.
Mais, a consolidação e aprofundamento dela, durante o curso da vida humana,
não pode dar-se sem esforço e sem luta espiritual. Se assim não fosse, como se
compreenderiam e explicariam estas palavras: Se Deus é por nós, quem estará
contra nós? (Rom. 8, 31). Estas palavras têm o seu significado verdadeiro, o seu primeiro
valor, só nos lábios do homem que não só procura mas também combate. Por que
coisa combate? A que coisa é que a luta conduz? Combate precisamente pela
vitória que está na realização do eterno pensamento de Deus na pessoa humana,
pela verdade da sua vocação ou chamamento, pelo mais profundo significado dela.
Nesta busca, nesta luta interna, deve situar-se o homem, em certo sentido, a
enfrentar a plena realidade do amor que Deus revelou ao homem em Cristo: Ele não
poupou o próprio Filho, mas entregou-o por nós (Rom. 8, 32).
O resultado de tal confronto
com a realidade revelada, do amor de Deus, e em particular com a da nossa eterna
vocação, é esta pergunta de São Paulo: Quem nos separará então do amor de
Cristo? (Rom. 8, 35).
Assim precisamente. No centro das reflexões sobre a nossa vocação
sacerdotal coloca-se este amor: amou-me e entregou-se a Si mesmo por mim
(Rom. 20, 20);
fitando-me, amou-me (Cfr. Mc. 10, 21). Se não tivesse havido este olhar, se não houvesse este
amor, eu não estaria aqui. Não me encontraria neste caminho. Este caminho deve
ser a minha vocação até ao fim da vida ... Sei em que ela consiste? Persevero
nela? A resposta de São Paulo é: Mas em tudo isto somos nós mais que vencedores
por Aquele que nos amou (Rom. 8, 37). É isto um encargo incrivelmente importante. É isto o princípio-chave de toda a formação para o sacerdócio e para a vida sacerdotal,
da ascese sacerdotal e do ministério sacerdotal:
Estou certo que nem a morte nem
a vida ... nem o presente nem o futuro ... nem a altura nem a profundidade, nem
qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo
Jesus, Nosso Senhor (Rom. 8, 37).
Que pode significar «altura»? Que pode significar «outra
criatura»? Que pode significar «profundidade», na perspectiva da nossa vocação?
É necessário olhar para tudo isto com pleno sentido do concreto, considerando
adequadamente a realidade que «eu próprio» constituo. E é necessário olhar para
tudo isto com espírito de fé; com espírito de esperança e de confiança.
3. Esta
última palavra orienta-nos para Maria, «Mãe da confiança». A data de hoje é
particularmente querida a todos vós, porque o Seminário Romano é dedicado a
Nossa Senhora da Confiança.
Diante da imagem devota da Mãe da Confiança, tão venerada e tão
amorosamente conservada neste Seminário, há mais de um século e meio que
falanges inúmeras de Seminaristas se foram ajoelhando e, no auxílio maternal de Maria, encontraram a força para
vencer os momentos de dificuldade e a generosidade de compromisso requerida pela
fiel correspondência à vocação.
«Mater mea, fiducia mea», é a jaculatória
familiar entre estes muros. Maria é fonte inexaurível de confiança porque é Mãe
nossa. Cada um de nós pode dizer: Jesus fitando-me, amou-me (Cfr. Mc.
10, 21). Dirigiu-me o seu
olhar particular e amou-me de modo especial quando, do alto da cruz, disse ao
discípulo indicando a Mãe: Eis a tua Mãe (Jo. 19, 27).
Se, portanto, aceitar a vocação,
escolher o sacerdócio e perseverar no sacerdócio, significa crer no amor
(1 Jo. 4, 16),
então, em toda a vossa vida (primeiro seminarística e depois sacerdotal) é
necessário inserir bem fundo também aquele olhar do alto da cruz e as últimas
palavras do nosso Mestre: Eis aí a tua Mãe. Com o auxílio de tal fé e tal
confiança é construído o nosso sacerdócio. Ele leva-nos a particular semelhança
com Aquele que, precisamente como Filho de Maria, se tornou o primogénito entre
muitos irmãos (Rom 8, 29). Então o sacerdócio absorve em si, de certo modo, um particular
e pessoal influxo desta esperança e desta confiança, tão necessária ao homem
chamado enquanto percorre os caminhos às vezes difíceis da vida, mas sobre os
quais ele deve responder à chamada do eterno Amor.