Agradeço o vosso convite. Tomei conhecimento do tema do vosso Congresso e das
várias intervenções previstas. Será necessário dizer-vos que me interessam muito
os problemas pastorais, objecto do vosso estudo? Como não assegurar às
comunidades católicas de emigração o auxílio eclesial, e em especial o
ministério sacerdotal de que têm necessidade? Conforme sabeis, visitei muitas
vezes comunidades polacas no estrangeiro: trata-se dum campo completo de
pastoral, interessante e delicada. E, de modo mais geral, devemos perguntar-nos:
que atitude deve tomar a Igreja local perantes os migrantes, sejam eles quais
forem?
1. Porque a emigração é um fenómeno colectivo do nosso tempo, um fenómeno
permanente, que toma mesmo formas novas, e que afecta todos os continentes e
quase todos os países levanta graves problemas humanos e espirituais. É uma
prova, quer dizer, um risco e uma oportunidade, para os imigrantes e para
aqueles que os acolhem. Sim, comporta para os primeiros um risco muito sério de
desarraigamento, de desumanização e, em alguns casos, de descristianização; para
os segundos, um risco de fechamento, de inflexibilidade. Mais ainda, implica
também uma ocasião de enriquecimento humano e espiritual, de abertura, de
acolhimento aos estrangeiros e de renovação recíproca no contacto com eles. E
para a Igreja é um convite a ser mais missionária, a ir ao encontro do irmão
estrangeiro, a respeitá-lo, a testemunhar, neste contexto, a sua fé e caridade,
e a receber o contributo positivo do outro. Sabe a Igreja aproveitar esta
ocasião? A hospitalidade foi sempre, desde os primeiros séculos, uma
característica profunda de todas as comunidades eclesiais. A Igreja, que é
católica, isto é, universal, encontra aqui uma nota fundamental da sua missão.
2. É necessário, portanto, fazer sentir constantemente às
Igrejas de origem e às Igrejas de recepção, as necessidades dos migrantes.
Porventura as Igrejas de origem preocupam-se suficientemente com acompanhar as
suas «diásporas», com preparar para elas «missionários» e ampará-los? E as
Igrejas receptoras, às vezes transbordantes, prestam bastante atenção à presença
dos migrantes? Adoptam os meios que esta pastoral exige? Interessam-se sobretudo
por que haja sacerdotes, religiosos e leigos, que se consagrem prioritariamente
aos ambientes que permanecem muitas vezes marginalizados?
3. Entendamo-nos bem: a pastoral dos migrantes não é obra só
destes «missionários» destacados, é obra de toda a Igreja local: sacerdotes,
religiosas e leigos; é toda a Igreja local que deve ter em conta os migrantes,
colocar-se em atitude de acolhimento, de intercâmbios recíprocos. De modo
particular, quando se trata de favorecer a inserção dos estrangeiros, de prover
às suas necessidades humanas e à sua promoção social, de permitir-lhes que
desempenhem as suas responsabilidades temporais, os sacerdotes não devem ocupar
o lugar dos leigos, nem também estes o lugar dos imigrantes. Mas os
«missionários» desempenham um papel capital, precisamente na preparação de uns e
outros para a própria tarefa, e têm um contributo especial a dar em favor da
vitalidade religiosa das comunidades de migrantes. A sua função é sem dúvida
difícil e o vosso Congresso mundial teve razão para insistir na formação e nos
deveres destes «missionários».
4. Com efeito, eles devem, em primeiro lugar, entrar em contacto
com a sensibilidade e a linguagem dos migrantes. Se eles são seus compatriotas, torna-se evidentemente mais fácil; mas não podem
contentar-se só com transplantar, pura e simplesmente, os métodos e os meios de
apostolado do seu país de origem; e menos ainda, fazer deles tábua rasa. São
necessárias continuidade e adaptação. O seu coração de pastores deve considerar
os emigrantes segundo as diferentes dimensões da vida complexa que levam. Por um
lado, devem ajudá-los a salvaguardar, ou melhor, a fortificar os seus valores
religiosos, familiares e culturais, uma vez que são o fruto de gerações cristãs,
porque se arriscam a serem destruídos sem que nada os substitua verdadeiramente.
Por outro lado, não podem também esquecer que estes emigrados estão já marcados
pelos países de recepção, onde aliás têm a desempenhar um papel; as relações
entabuladas entre adultos nos ambientes de trabalho, e mais ainda talvez na
escola e nos tempos de descanso tratando-se de crianças e jovens, os meios de
comunicação que utilizam onde se encontram, como por exemplo a televisão,
despertam evidentemente neles novos problemas, até mesmo nova mentalidade com
uma necessidade nova de expressão ou de participação; a pastoral deve ajudá-los
a enfrentarem tudo isto, a integrarem harmoniosamente o «novo» sem desprezarem o
«velho». O sacerdote, ou melhor, os sacerdotes chamados a trabalhar em equipe
com religiosas e leigos, devem ser prudentes e ao mesmo tempo abertos à união
destas duas culturas, sobretudo com vistas na preparação das gerações novas que
permanecem no país de recepção. Quer dizer, a necessidade do equilíbrio destes
missionários — equilíbrio humano, equilíbrio espiritual —, a necessidade também
da sua preparação e da sua formação permanente. Devem continuar a ser, antes de
tudo, homens de Deus e apóstolos, a fim de darem a possibilidade aos emigrados
de viverem plenamente a própria fé, com todas as suas consequências.
Termino
aqui estas considerações que o vosso Congresso vos permite aprofundar com
Pastores e especialistas, bons conhecedores destes temas. Os métodos, os meios,
têm a sua importância, mas o que é determinante, em conclusão, é a alma
pastoral, é o zelo iluminado, é a fé e a caridade de todos aqueles que têm uma
responsabilidade junto dos migrantes. Devem estar em comunhão com o espírito do
nosso único Pastor, Cristo Jesus, a quem todos nós procuramos servir. Oxalá Ele
vos ilumine e fortifique, a vós que trabalhais na Comissão para a Pastoral das
Migrações e do Turismo ou em união com ela; e mantenha o zelo de todos quantos,
para além deste Congresso, trabalham quotidianamente na base, no serviço directo
dos migrantes, fazendo-se «tudo para todos» como o Apóstolo Paulo. Em nome do
Senhor, abençoo-os, e abençoo-vos de todo o coração.