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VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE A TURIM DISCURSO DO PAPA JOÃO
PAULO II Praça Vittorio
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 1. Com estas palavras para mim tão queridas, e também para vós familiares, saúdo Turim, neste encontro com a cidade inteira e com o mundo do trabalho, que leva ao vértice a alegria e a riqueza espirituais de todos os outros encontros, e conclui a minha visita hodierna entre vós. Com estas palavras saúdo todos vós e todos levo no coração! Saúdo as Autoridades da Província, da Cidade, e as militares; saúdo o Cardeal Arcebispo de Turim, os Bispos do Piemonte, todo o clero aqui presente e as Religiosas; saúdo as representações do mundo do trabalho, parte importante e insubstituível da economia da cidade e da Itália; saúdo os homens da cultura e da política, nesta cidade intelectualmente vigorosa, profunda e rica de ideias; saúdo os homens dos "mass-media", do espectáculo e do desporto, saúdo todos vós, irmãos e irmãs aqui presentes, tecido conectivo da vida social quotidiana da metrópole; saúdo os jovens, minha alegria e minha coroa (Flp 4, 1)! E toda Turim, na sua riqueza humana e na sua configuração geográfica, que tenho diante dos olhos; num quadro que , certamente nunca mais esquecerei. É como se me viesse ao encontro a história da vossa amada cidade, desde o primeiro núcleo romano de "Augusta Taurinorum", até aos seus sucessivos desenvolvimentos, quando o anúncio do Cristianismo se radicou e se enleou com as vicissitudes da "civitas" terrena, favorecida no seu afirmar-se pelas condições ambientais e pela inata nobreza e laboriosidade dos seus filhos. Presto homenagem à rica e severa tradição cultural e civil da cidade: com a irradiação da sua Universidade, fundada já em 1404, e de renome europeu; com a fama das suas instituições culturais, dos seus Museus e das suas Academias; com o prestígio das suas indústrias em todos os campos, testemunho da laboriosidade e inventiva dos antepassados; com aquela indiscutível autoridade que bem mereceu à cidade o privilégio, seja embora temporâneo, de se tornar a capital da Itália. É esta Turim que saúdo; a Turim de ontem e de hoje, com a sua herança passada e com os seus presentes recursos de inteligência, de cultura e de actividade em todos os sectores. 2. É sobretudo a alma de Turim, que me vem ao encontro e que sinto pulsar e fundir-se em uníssono, aqui, diante da Grande Mãe. É uma alma humaníssima; isto é, com dimensões espirituais à medida do homem; é a alma de uma população que se formou nas fadigas, nas provações, não raro nas dificuldades de uma, vida simples, familiar; uma alma empreendedora, inspirada por amplos e estimulantes interesses culturais e espirituais; uma alma criativa e também prática, activa e também calma, que encontrou expressão na extraordinária expansão industrial da cidade; uma alma aberta, sensível aos valores do belo, do bem e do verdadeiro. E, deixai-me dizer, vem-me ao encontro a alma cristã, católica de Turim, de que são testemunho a difusão da mensagem evangélica na cidade e nos vales circundantes, o extraordinário florescimento das Abadias medievais e a tradição de uma ordenada vida paroquial, que foi como que a estrutura da pastoral arquidiocesana. Esta alma cristã de Turim manifestou-se na fundamental fidelidade à Igreja, e na coerência entre a vida e a fé: recordamos os nomes de leigos, que souberam fazer honra ao nome cristão no compromisso profissional e político, como Sílvio Péllico, Cesar Balbo e a Marquesa Júlia de Barolo. Esta alma cristã de Turim sentiu a presença da Igreja nas transformações e nos desbaratamentos da civilização industrial do século passado, esteve junto desta sua Igreja, que deu ao mundo figuras como as de Cottolengo, de Cafasso, de Don Bosco e de Maria Mazzarello. Com esta alma cristã, Turim viu com simpatia e admiração — inclusive desde posições opostas — as obras incrivelmente vastas e humanamente inexplicáveis, às quais essas pessoas de Igreja deram vida, com o auxílio de Deus, sustentando-as com generosidade, e considerando-as como próprias; demonstrou ter uma riqueza interior, invisível, que denota uma nascente escondida de fé e de caridade, como a fonte secreta que brota dos vossos montes e vem depois formar o grande rio Pó, sobre o qual assenta, real, a cidade. 3. Vem-me, contemporaneamente, ao encontro a Turim de hoje, surgida das transformações do final do século passado até estes últimos decénios. É a realidade da grande cidade industrial, com o extraordinário potencial humano e profissional dos homens — cérebros e braços — que lhe dão vida, mas também com as ambiguidades, as antinomias, e as contradições que o trabalho e o mundo operário trazem consigo, especialmente quando se ofusca a consciência social, e os valores do Evangelho parecem às vezes sufocados pela figura amorfa da metrópole, que mesmo não querendo, se torna tentacular e desumanizada, fria e insensível aos problemas do homem, do vizinho e do "próximo". É o rosto, hoje comum a tantas cidades do mundo, da descristianização em acto, que agrava as inevitáveis tensões no âmbito do próprio trabalho, com todas as suas asperezas e conflitos permanentes. A vida social, embora com as inegáveis conquistas e melhoramentos obtidos, apresenta desequilíbrios desagregadores do contexto tradicional da cidade. Se é verdade que estes são os problemas de todas as metrópoles industriais, Turim viveu-os e vive-os de modo peculiar, até pelo fenómeno verdadeiramente impressionante da imigração, que criou para a comunidade civil e eclesial problemas graves, de que já fui informado, e que de resto bem imagino. A presente crise económica alimenta, além disso, receios não infundados sobre a estabilidade do amanhã, e contribui para criar na convivência, nas empresas e nas famílias um clima de desencorajamento e falta de empenho. Desenvolveram-se aquelas fórmulas exasperadas de luta, que agridem às cegas para aumentar o sentido da falta de confiança, da instabilidade social e política, da confusão ideológica, para substituir não se sabe o quê, e até mesmo um princípio de violência que não pode deixar de provocar sempre nova violência. Também aqui o fenómeno é particularmente doloroso e preocupante. Por conseguinte, é um quadro muito complexo o que, no seu conjunto, me é apresentado hoje: trata-se, no fundo, de três correntes características de toda a existência quer da sociedade hodierna — que tem Turim como uma sua expressão simbólica — quer da Igreja que vive e actua na sociedade. São correntes coexistentes uma com a outra, mas ao mesmo tempo em tensão, em aberto contraste entre si. Vejo sobretudo o estrato profundo e esplêndido do Cristianismo, a corrente espiritual e cristã, que também teve o seu apogeu "contemporâneo" sempre vivo e presente, como já disse. Mas neste conjunto apareceram as outras, bem, conhecidas correntes de uma poderosa eloquência e eficácia negativa: por um lado há toda a herança racionalista, iluminista e cientista do chamado "liberalismo" laicista das Nações do Ocidente, que trouxe consigo a negação radical do Cristianismo; por outro, há a ideologia e a prática do "marxismo" ateu, que chegou, pode dizer-se, às extremas consequências dos seus postulados materialistas nas várias denominações hodiernas. 4. Neste "crisol ardente" do mundo contemporâneo, Cristo quer estar de novo presente, e com toda a eloquência do seu Mistério pascal. A sua Páscoa, que celebrámos, é a única que pode elevar o homem e a sua actividade à perfeição: como disse o Concílio Vaticano II, Cristo, com a sua ressurreição, "opera já pela virtude do Seu Espírito nos corações dos homens, não só despertando o desejo da vida futura, mas também alentando, purificando e robustecendo a família humana a tornar mais humana a sua própria vida e a submeter a este fim a terra inteira" (Gaudium et Spes, 38). O Papa veio entre vós para recordar ao mundo da cidade e do trabalho moderno esta presença decisiva e insubstituível, forte e suave, que põe interrogativos urgentes ao nosso viver tranquilo, mas fora da qual é vão procurar soluções eficazes e duradouras para as crises que afligem aquele mundo. No meio de vós, o Papa é o portador da mensagem libertadora de Cristo; e ao mesmo tempo que se sente inábil para a tremenda tarefa, e por isso vem ao vosso encontro com a humildade indefesa da sua missão unicamente espiritual, é também consciente do valor do seu testemunho, que deseja adequar-se às vossas expectativas deste momento. Este testemunho é como a espada da Palavra de Deus, que "penetra até dividir a alma..., e discerne os pensamentos e intenções do coração" (Heb 4, 12); mas é também como o azeite que o bom Samaritano deita nas chagas do homem ferido (cfr. Lc 10, 34). A ambiguidade de fundo de uma sociedade, que encontre apenas no trabalho a própria razão de ser, sem se abrir às exigências de ordem humana, espiritual e sobrenatural, afastando-se do seu estrato mais profundo, deve fazer reflectir. Talvez cada um de vós se pergunte preocupado: a que chegará Turim? O Papa pergunta-o convosco. A uma espiral interminável de imanência, de terrenalidade, de desconfiança e de violência? Ou para um amanhã sereno, construtivo, operoso e fraterno "à medida do homem", porque está aberto a toda a realidade humana, porque aberto à Páscoa de Cristo? Desejai-lo de todo o coração, e eu convosco. Estou junto de vós e compreendo as vossas ansiedades, as vossas solicitudes e devo dizei-vos que vim aqui para testemunhar que compreendo e que desejo ser solidário convosco. Tendo vindo entre vós no nome de Cristo, o Papa que vos fala, já prestes a deixar a cidade que se lhe ofereceu em toda a sua realidade espiritual e humana, religiosa e civil, deixa-vos as suas palavras de reflexão e bons votos, a fim de que o que fez Turim, grande e admirada no mundo, possa continuar a alimentar a vida e a actividade da vossa Comunidade turinesa. 5. O trabalho humano — que, aqui em Turim, se manifesta do modo mais eloquente e mais dramático — é uma realidade que exalta e realça as capacidades criativas do homem. É a sua herança, desde o princípio. O livro do Génesis apresenta o homem como encarregado directamente por Deus de fazer crescer a terra, e dominar sobre todas as criaturas inferiores (cfr. Gén 1, 28). Como disse aos trabalhadores, meus compatriotas, da Polónia, "O trabalho é também a dimensão fundamental da existência do homem sobre a terra. Para o homem o trabalho não tem apenas um significado técnico, mas também ético. Pode dizer-se que o homem "submete" a terra a si quando ele próprio, com o seu comportamento, se torna senhor dela, não escravo, e também senhor e não escravo do trabalho. O trabalho deve ajudar o homem a tornar-se melhor, espiritualmente mais maduro, mais responsável, de modo a que possa realizar a sua vocação sobre a terra" (6 de Junho de 1979; L'Oss. Rom., ed. port. de 8.7.79, p. 5). O trabalho deve ajudar o homem a ser mais homem. O trabalho, embora nas suas componentes de fadiga, de monotonia e de obrigatoriedade — nas quais se advertem as consequências do pecado original — foi dado ao homem por Deus, antes do pecado, precisamente como instrumento de elevação e de aperfeiçoamento do cosmos, como completamento da personalidade, como colaboração na obra criadora de Deus. A fadiga, que lhe é inerente, associa o homem ao valor da Cruz redentora de Cristo; e, na visual totalizante do Evangelho, torna-se instrumento para a sociabilidade entre irmãos, para a colaboração mútua, para o aperfeiçoamento recíproco, já no plano da vida terrestre: numa palavra, torna-se expressão de caridade, no único amor de Cristo, que deve constranger-nos a procurar, cada um, o bem dos outros, a levar os fardos uns dos outros (cfr. 2 Cor 5, 14; Gál. 6, 2). A realidade positiva do trabalho e do mundo operário está aqui, grande. E bela. Se a exprimo com uma linguagem evangélica — é claro que vos falo como apóstolo de Cristo — estou porém convencido que sobre a grandeza, sobre a dignidade do trabalho humano, podemos encontrar-nos nesta linguagem, com cada homem que procura efectivamente todas as dimensões da realidade humana e procura com toda a humildade a verdadeira dignidade do homem; podemos encontrar-nos com todos. Por conseguinte, não seja nunca o trabalho em prejuízo do homem! Em muitas partes já se reconhece que o progresso técnico não é acompanhado de um adequado respeito do homem. A técnica, embora admirável nas suas continuas conquistas, não raro empobreceu o homem na sua humanidade, privando-o da sua dimensão interior, espiritual, e sufocando nele o sentido dos verdadeiros valores, dos valores superiores. É necessário recordar o primado espiritual! A Igreja convida a conservar a justa jerarquia dos valores. O célebre binómio beneditino "Ora et labora" seja para vós, homens e mulheres de Turim, meus irmãos e irmãs, fonte inseparável de verdadeira sabedoria, de seguro equilíbrio e de perfeição humana: a oração anime o trabalho, purifique as intenções, defenda-o dos perigos da incompreensão e do desleixo; e faça o trabalho descobrir de novo, depois da fadiga, a força tonificadora do encontro com Deus, em que o homem encontra toda a sua verdadeira e grande estatura. "Ora et labora". Sim, também tu, Turim, reza e trabalha! 6. O trabalho não desagregue a família! O pensamento não pode deixar de se dirigir para aquela Sagrada Família de Nazaré, na qual o Verbo, Filho de Deus e de Maria, se exercitou no trabalho humano, sob a guia vigilante e afectuosa daquele que lhe fazia de pai, São José — padroeiro dos trabalhadores! — sob os olhos da Mãe, Virgem Imaculada, também ela ocupada nas humílimas tarefas que as atrasadas condições do tempo reservavam às mulheres. O Cristo menino foi acariciado por rudes mãos de carpinteiro! E também ele foi operário, num mistério de humilhação que enche a alma de surpresa infinita. Se nos perguntarmos que fez o Filho de Deus sobre a terra, na sua vida, durante a maior parte da sua vida, nos trinta anos da sua vida, temos que dizer que fez o trabalho de um operário, de um carpinteiro, de um de nós. Como se pode deixar de olhar para aquela Família, na qual a Igreja e a sua Liturgia vêem a protectora de todas as famílias do mundo, especialmente das mais humildes, das mais anónimas, das que ganham o pão de cada dia com suor e fadiga incalculáveis? Seja ela, Turineses, a manter intactos os grandes valores da vossa dedicação, do vosso amor e da vossa estima à família. Esta é não só a "célula primeira e vital da sociedade" (Apostolicam Actuositatem, 11), mas sobretudo "santuário familiar da Igreja"(ibid.), até mesmo "Igreja doméstica" (Lumen Gentium, 11); assim a definiu o Concílio; e assim seja para vós, forja de virtudes, escola de sabedoria e de paciência, primeiro santuário onde se aprende a amar a Deus e a conhecer o Cristo, forte defesa contra o hedonismo e o individualismo ardente e amorosa abertura aos outros. Não seja, pelo contrário, um deserto de almas, um casual encontro de caminhos divergentes, um albergue ou — queira Deus que não — um refúgio para tomar as refeições ou descansar, e depois afastar-se cada um para seguir o próprio destino. Não! Eu confio cada uma das vossas famílias a Jesus, a Maria e a José, para que, com o seu amparo, possais conservar sempre aqueles valores que, nascidos e mantidos precisamente nas vossas famílias tornaram estável, ou melhor invejável o florescimento civil da vossa cidade! E de novo repito: falei da família, falei numa linguagem cristã, teológica; mas pergunto-me, pergunto ainda a todos se os valores essenciais de que se discute, de que se trata, com que nos preocupamos, não são os que nos unem a todos. Quem poderá não requerer da família humana que seja uma verdadeira família, uma verdadeira comunidade, onde o homem é amado, onde cada um é amado pelo simples facto de que é um homem, único e irrepetível, que é uma pessoa? Estamos todos unidos na defesa destes valores e na busca da sua promoção. Estamos todos unidos. São os factores humanos que nos unem a todos, e se eu falo destes valores com a minha linguagem apostólica, estou convencido que todos me compreendem. Que todos compreendem o verdadeiro significado humano desta preocupação, deste desejo, destes votos que pretendo deixar a todos, a Turim inteira, a cada família de Turim e a toda a vossa comunidade. Obrigado, obrigado a todos por este conforto que me dais, por este incitamento a viver ainda. Obrigado! 7. E ainda: o trabalho não deve degradar a juventude, nem defraudá-la dos seus tesouros mais autênticos: do entusiasmo, do fervor, do compromisso por um amanhã mais justo e mais respeitoso do homem. A entrada dos jovens na fábrica, corresponde às vezes a um processo, insidiosamente facilitado pela mentalidade permissiva predominante, de perversão ideológica, quando não moral, e de comportamento. São devastações cujas feridas nunca mais se fecharão, tanto em cada indivíduo como na sociedade, senão com fadiga ou com o contributo das pessoas e das instituições mais dedicadas. Turim esteve na vanguarda da formação profissional da juventude, que andou a par e passo com a formação religiosa e moral: o pensamento de todos corre instintivamente para Don Bosco e para as suas obras, às quais vós, cidadãos, continuais a confiar os vossos filhos. Mas não quereria esquecer São Leonardo Murialdo e os seus aprendizes, nem a presença benemérita de todas as outras iniciativas religiosas que, com largo emprego de homens e de meios, asseguraram às vossas famílias um forte e seguro suporte para a insubstituível obra educadora dos vossos filhos. É-me grato recordar os animadores, masculinos e femininos, das paróquias; as várias associações e em particular, a Acção Católica, que realizaram aqui uma obra muitíssimo louvável, continuando uma tradição que apresentou figuras radiosas de jovens. Prossiga Turim por este caminho! Resta sempre e ainda muito a fazer! Nas grandes cidades, multidões de crianças e de jovens ficam frequentemente sem assistência, devido às condições de trabalho dos pais, à escassez de estruturas sociais e, talvez, à falta de adequado interesse. Quantos deles saberão resistir às fáceis tentações da droga, às fortes seduções da amoralidade e imoralidade mostrada descaradamente, aos tentáculos terríveis da violência e do terrorismo? Jovens, jovens — dirijo-me a vós —: não vos deixeis subjugar! Sede generosos e bons! A sociedade e a Igreja, a Pátria, têm necessidade de vós: "quid hic statis tota die otiosi? Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?", repito-vo-lo com as palavras do Evangelho (Mt 20, 6). As obras sociais e de animação juvenil, missionária, cultural e desportiva esperam também o vosso contributo! A Igreja espera! A sociedade espera! Cristo espera! Não desiludais esta nossa comum esperança! Não desiludais a minha esperança! 8. Além disso, não faça o trabalho esquecer os pobres, os que sofrem. A caridade de Cottolengo criou aqui em Turim a pequena casa da caridade: e também vos louvo pelo suporte que sabeis dar àquela instituição. É um bom sinal, este! Indica que, embora no agravamento dos contrastes sociais, no cruzamento das tensões de vário género, o grande coração de Turim não esquece quem sofre. Mas o sofrimento está no meio de nós, ao nosso lado, nos próprios prédios onde moramos, talvez escondido por um véu de discrição que se envergonha de pedir. É necessário que a fadiga quotidiana, não só não torne obtusos os olhos da alma para descobrir os sofrimentos e as privações alheias, mas também estimule, aumente a sensibilidade e suscite a "simpatia", isto é o "sofrer-com-outro". Sei que em Turim foram e são florescentes as Conferências de São Vicente de Paulo, nas quais, operários e estudantes universitários, homens e mulheres de diversas classes sociais, deram vida a belissimas iniciativas de caridade, que fazem um bem imenso. Continue Turim, ou volte a ser a cidade da caridade! Continue e volte a ser: continue na sua posição social hodierna, na sua composição social, plena, diversificada, continue a ser a cidade da caridade. Não podemos encontrar palavra mais exacta que exprima melhor a solidariedade humana, o humanismo, do que a palavra: caridade. 9. Por fim, o Papa deseja-vos que o trabalho não adormeça as faculdades humanas, não as desfigure no ódio que destrói sem nada construir. É preciso fazer barreira ao terrorismo que não dorme, e que fez desta cidade um dos seus pontos nevrálgicos. Talvez as desigualdades sociais e as outras motivações tenham podido dar motivo para uma mentalidade critica, que tende a eliminar tudo, na expectativa de um futuro chamado melhor. Mas que futuro, que futuro melhor pode construir-se sobre o ódio que ferozmente recrudesce contra os próprios irmãos, que amanhã poderia surgir de um último mar de ruínas e de morte? Convido, e também peço firmemente a todas as Autoridades responsáveis, e com elas aos homens de Igreja, a envidarem todos os esforços para eliminar tudo aquilo que é incentivo de injustiças, de desigualdade, de privilégios iníquos: a Igreja não nos exime, certamente, de abrir os olhos sobre as injustiças sociais e sobre os graves problemas quotidianos dos nossos irmãos, aliás denuncia-os com a força dos antigos profetas, com a palavra arrebatadora do Evangelho, mas além disso procura dedicar-se a mudar e melhorar a vida humana, esforçando-se por melhorar o próprio homem. Mas, como na Irlanda, eu proclamo igualmente com firmeza, "com a convicção da minha fé em Cristo e com a consciência plena da minha missão, com a consciência da minha humanidade que a violência é um mal, que a violência é inaceitável como solução dos problemas, que a violência não é digna do homem... Peço juntamente convosco para ninguém se atrever a chamar a um homicídio outra coisa que não seja homicídio" (Homilia em Drogheda, L'Oss. Rom., ed. port., 7.10.79, p. 5). Estamos todos comprometidos nesta obra de persuasão, de esclarecimento, de melhoramento: ela exige, certamente, uma "conversão" das mentalidades; e a conversão deve passar à acção concreta. Mas mal de nós se não soubermos pensar e dizer claramente que não existe melhoramento social fundado sobre o ódio, sobre a destruição. O ódio gera a morte. Somos, pelo contrário, portadores do bem, os apóstolos da caridade, os defensores da vida! E neste ponto devemos estar todos firmemente unidos. Não nos pode dividir aspecto algum, ideologia alguma, nem concepção pessoal alguma da vida, do destino humano, porque o problema é claro em si mesmo e devemos estar unidos profundamente na maior solidariedade para vencer o mal com o bem. 10. Dirijo-me a ti, Turim, cuja alma, antiga e nova, gentil e activa, humana, cristã e católica, senti hoje vir-me ao encontro e vibrar em uníssono comigo. Continua no teu caminho secular de progresso e de paz! A Igreja está contigo! Esteve sempre com os seus santos, Cafasso, Don Bosco, Don Murialdo, Cottolengo, nos seus sacerdotes simples e bons que viveram o Evangelho à letra, nas suas Irmãs dedicadas ao serviço dos irmãos, nos seus leigos melhores; nas suas instituições seculares. Não olheis para ela com desconfiança, para esta Santa Igreja que te ama porque ama a Cristo seu Salvador, crucificado e ressuscitado, Primogénito entre os irmãos (cfr. Rom 8, 29; Col 1, 15); e amando a Cristo não pode deixar de amar cada um de vós, não pode deixar de amar o homem, porque o homem representa Cristo. E ele a fonte inesgotável da sua caridade, do seu zelo, do seu heroísmo. A Igreja está junto de ti, como está junto de cada homem, Ela é "perita em humanidade", como disse o grande Paulo VI, meu Predecessor. Ela oferece a sua 'colaboração em todos os campos: para a elevação do mundo do trabalho, para as iniciativas da cultura, para as necessidades da vida social, para as obras de beneficência: onde quer que esteja um homem que espera, ali quer estar a Igreja ao seu lado, porque ela descobre nele o vestígio profundo e imortal do Criador, que o fez à sua imagem e semelhança, e o remiu em Cristo. Ressuscita, Turim, na sua Páscoa que transforma o mundo! Conserva a tua alma cristã, a tua alma católica, a tua alma italiana, a tua alma humana. Sê a cidade fiel e segura, que Deus protege, como disse o teu grande Bispo, São Máximo: "Tunc ergo civitas munita est quando eam magis Deus ipse custodit: uma cidade está bem defendida quando sobretudo é o próprio Deus que a protege; mas Deus protege-a precisamente quando, como está escrito (cfr. Sl 126, 1), todos os seus habitantes são sensatos e coerentes. De facto, Deus não deixará de conservar uma cidade assim, onde vê que todos os seus preceitos são observados" (S. Maximi Taurin, Serm. 86, 1; ed. Mutzenbecher, C. Ch. Ser. Lat. 23, Turnholti 1962, p. 352). E estes preceitos podem não ser observados se quisermos viver uma vida mesmo simplesmente humana? Deus te conserve, Turim! E tu observa sempre a sua. Lei! Deus te recompense, Turim, por esta hospitalidade que hoje deste a este Papa João Paulo II que veio a ti como peregrino! São estes os meus votos que confio à Grande Mãe de Deus, à intercessão dos vossos Santos e à vossa boa vontade! E abençoo todos vós, no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!
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