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VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE A TURIM
DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
Basílica de Maria Santíssima Auxiliadora
Caríssimas Irmãs em Cristo! Este encontro — o encontro do Papa com as Religiosas de Turim é motivo de mútua alegria espiritual: alegria que transborda hoje do meu coração, transparece luminosa das vossas faces e se exprime num entusiasmo, que proclama, a mim e a toda a Igreja, a vossa incontível felicidade de serdes consagradas totalmente e com coração indiviso a Deus. Turim, de seculares e ricas tradições cristãs, apresenta-se-me como uma cidade de "vocações femininas"! Sete mil Religiosas de inúmeras Congregações exercem a sua acção no âmbito da cidade, que — como aliás toda a terra piemontesa — sempre deu magnífica prova de fidelidade ao chamamento de Deus. Estas minhas palavras, como também todo o nosso breve colóquio, adquirem um significado particular, pois nos encontramos na grandiosa Basílica, erguida em honra de Maria Santíssima Auxiliadora pela fé ardente e dinâmica daquele génio da santidade, São João Bosco, que deu à Igreja duas grandes e fervorosas Famílias Religiosas, e com a sua longa e profunda experiência entre as crianças e os jovens costumava dizer que a vocação está em germe no coração da maioria dos cristãos. Sob o olhar materno de Nossa Senhora, queremos hoje reflectir juntos sobre a dignidade altíssima que a vida religiosa assume no âmbito do Povo de Deus, pela sua particular manifestação de seguimento total e beatificante de Cristo (cfr. Mt 8, 22; 16, 24;- 19, 21; Mc 8, 34; Lc 18, 22) mediante a prática dos conselhos evangélicos da castidade, da pobreza e da obediência. Já com o Baptismo o cristão está morto para o pecado e consagrado a Deus, enquanto "unido" a Jesus. Neste sacramento — ensina-nos São Paulo — nós somos sepultados juntamente com Cristo na morte, e juntamente com Ele, ressuscitado, podemos caminhar numa vida nova. "Porque se nós (pelo baptismo) nos tornamos uma, mesma planta com ele, à semelhança da sua morte, sê-lo-emos também à semelhança da sua ressurreição" (Rom 6, 5). Esta fundamental dimensão pascal do Baptismo adquire o seu fruto maduro e o seu maravilhoso florescimento na consagração religiosa, que de modo totalmente particular une o fiel, indissolúvel e perenemente, à morte e à ressurreição de Cristo e fá-lo viver aquela "vida nova" (cfr. Rom 6, 4), fruto da Redenção. "Por meio dos votos ou de outros vínculos sagrados, por sua natureza equiparados aos votos — afirma o Concílio Vaticano II — o cristão obriga-se à prática dos... conselhos evangélicos. Entrega-se totalmente a Deus amado acima de tudo, ficando assim destinado, por título especial e novo, ao serviço e à glória de Deus" (Const. dogmática Lumen Gentium, 44). Esta consagração total e definitiva a Deus floresce no amor a Cristo e à Sua Esposa, a Igreja, numa participação intensa na Sua vida e numa adesão filial ao Seu ensinamento; frutifica na caridade generosa para com os irmãos, em particular para com os que têm necessidade do nosso afecto e da nossa compreensão; fortifica-se na oração litúrgica, comunitária ou pessoal, como diálogo amoroso com o Pai celeste; exprime-se no compromisso, segundo as forças e o género da própria vocação, em fundar e em radicar nos espíritos o Reino de Deus, e em o dilatar em todas as partes da terra; estimula a viver integralmente as exigências evangélicas do "Sermão da Montanha" e das "Bem-aventuranças", que representam continuamente um autêntico desafio à mentalidade corrente do mundo, e são para ela um "sinal" da vida eterna, que já irrompeu entre nós. Por isso — com o Bispo de Cartago, São Cipriano — vos digo: "guardai, ó virgens, guardai aquilo que sois. Guardai o que sereis. Espera-vos uma coroa magnífica. Já começastes a ser o que nós seremos. Tendes já neste mundo a glória da ressurreição!" (De habitu Virginum, 22: CSEL. 3/1, pp. 202 s.). Precisamente em consequência desta dimensão pascal da consagração religiosa, a vossa vida, caríssimas Irmãs, tem em si um valor social especial, porque ela é e deve ser o sinal e o testemunho da luta do bem contra o mal, da luz contra as trevas: uma luta que tem como vasto campo o mundo inteiro e a história inteira, e que nesta grande metrópole assume por vezes formas dramáticas. O ensinamento do Concílio põe bem em evidência a grandeza da doação, decidida livremente por vós mesmas, à imagem daquela outra feita por Cristo à Sua Igreja e, como ela, total e irreversível. "Exactamente em vista do Reino dos Céus — escrevia o meu Predecessor Paulo VI na Exortação Apostólica sobre a Renovação da Vida Religiosa — vós haveis votado a Cristo, com generosidade e sem reservas, estas forças de amor, esta necessidade de possuir e esta liberdade de orientar a própria vida, as quais são para o homem tão preciosas. Tal é a vossa consagração, que se realiza na Igreja" (Evangelica Testificatio, 7). O coração que se doa totalmente a Deus abre-se, ao mesmo tempo, para uma dimensão universal de amor desinteressado por todos os irmãos em Cristo. Só o Senhor poderá avaliar e medir a misteriosa fecundidade da oração e dos sacrifícios, que as Irmãs contemplativas, recolhidas na sua clausura, oferecem cada dia, em união com o seu Esposo celeste, pela salvação espiritual dos homens. E devo recordar hoje, nesta cidade, os autênticos prodígios realizados, principalmente nestes dois últimos séculos, por tantas Religiosas, que foram serenas e alegres educadoras na fé para milhares de crianças, de jovens que, especialmente nos oratórios, aprenderam a dar sentido e orientação cristã à sua juventude e à sua vida. Nem posso esquecer os milhares de Religiosas que, com vigor intrépido, enfrentaram e em parte resolveram, com modernas obras sociais, os problemas dramáticos de tantos jovens, que nesta grande metrópole industrial procuravam e procuram trabalho, colocação, compreensão e afecto. E penso também naquelas Religiosas que, entrevendo no irmão necessitado a imagem de Cristo, se debruçam, com dedicação materna comovente, sobre todas as chagas sangrentas dos que sofrem, dos enfermos e dos pobres, para lhes darem auxílio, serenidade e conforto, nos lares, nos hospitais e nas casas de saúde, e em particular naquele milagre permanente da Providência, que é o "Cottolengo"! É esta, caras Irmãs, a fecundidade admirável da vossa consagração a, Deus! A Igreja e a sociedade têm extrema necessidade da vossa presença orante e adorante, do vosso testemunho evangélico, da vossa fé límpida e humilde, que opera mediante a caridade (cfr. Gál 5, 6). A vossa é, portanto, uma demonstração concreta e um sinal tangível do radicalismo evangélico, necessário para anunciar de maneira profética a humanidade nova segundo o Cristo, totalmente disponíveis para Deus e totalmente disponíveis para os outros homens. "Cada Religiosa — dizia à União Internacional das Superioras-Gerais — deve dar testemunho da primazia de Deus na sua vida, consagrando todos os dias um tempo suficientemente longo a estar na Sua presença, para confessar-Lhe o seu amor e, sobretudo, para deixar-se amar por Ele. Cada Religiosa deve, cada dia, através do seu estilo de vida, dar a conhecer que ela escolheu a simplicidade e os meios pobres em tudo o que diz respeito à sua vida pessoal e comunitária. Cada Religiosa deve, cada dia, viver a vontade de Deus e não a sua, para mostrar que os projectos humanos, tanto os seus como os da sociedade, não são os únicos da história, mas que existe um plano de Deus a exigir o sacrifício da própria liberdade..." (L'Oss. Rom., ed. port., 26.11.78, p. 6). Precisamente este lugar sagrado, onde estamos hoje reunidos, traz-nos à memória a figura de uma filha desta Região forte e generosa, isto é, Santa Maria Domenica Mazzarello, fundadora, juntamente com D. Bosco, das Filhas de Maria Auxiliadora. Desde muito jovem, ela quis viver a vida religiosa no mundo, instituindo ao mesmo tempo uma pequena casa para ensinar costura às jovens, as proteger e guiar nos caminhos do bem. Dizem-nos os seus biógrafos que então quase não sabia escrever e pouco sabia ler, mas falava das coisas referentes à virtude de maneira tão clara e persuasiva que parecia inspirada pelo Espírito Santo. Viveu na humildade, na mortificação e na serenidade a sua doação a Deus, realizando a sua "maternidade de amor" para com milhares de jovens e terminando a sua intensa vida terrena com apenas 44 anos de idade. As suas filhas espirituais são hoje cerca de dezoito mil, distribuídas por todo o mundo. Na adesão solicita e fiel ao carisma dos vossos Fundadores e Fundadoras, continuai, caras Irmãs, a viver, na Igreja e no mundo de hoje, segundo as ricas tradições da índole específica dos vossos Institutos; cultivai, com empenho interior, a vossa vocação, mas cultivai também "as vocações", com a oração assídua, e com a vossa própria vida, que deve ser, especialmente perante as jovens, um sinal de plena alegria por terdes escolhido a "melhor parte" (cfr. Lc 10, 42). Face às calúnias, aos malentendidos e ao desinteresse que por vezes existe quanto ao significado e ao valor da vossa presença de Religiosas na sociedade contemporânea, encaminhada para o secularismo e o tecnicismo, esteja a vossa resposta do amor. "Caritas Christi urget nos!" (2 Cor 5, 14), deveis poder dizer ao mundo, sempre, dia após dia, com os vossos lábios, com a vossa serenidade, mas de modo especial com toda a vossa vida, completamente consagrada a Cristo e aos irmãos! E seja a Virgem Maria o modelo admirável da vossa vida de almas consagradas. Eis como Santo Ambrósio nos apresenta, com delicadeza extraordinária e realista, o retrato de Nossa Senhora: "Ela era virgem não só no corpo, mas também na alma; completamente isenta de qualquer artifício que mancha a sinceridade da alma; humilde de coração; sensata no falar; prudente no pensamento; de poucas palavras; ... Ela depunha a sua esperança, não na incerteza das riquezas, mas na oração do pobre. Reservada nas conversas, estava sempre activa, habituada a procurar Deus... como juiz da sua consciência. Não ofendia ninguém; queria bem a todos; .., fugia à ostentação, seguia a razão; amava a virtude... É esta a imagem da virgindade. Maria foi tão perfeita que só a sua vida é regra para todos" (De Virginibus, II, 2, 6-7: PL 16, 208-210). E, ao deixar-vos esta recordação mariana sob o olhar de Nossa Senhora Auxiliadora, reitero-vos a minha palavra de encorajamento para o vosso meritório apostolado e também os meus votos de alegria pascal, desejando que a graça da vossa vocação religiosa produza abundantes frutos de vida espiritual na Igreja universal e na Igreja particular, aqui em Turim, onde prestais, dia após dia, o vosso precioso testemunho de amor a Deus e aos Irmãos. A minha Bênção Apostólica vos acompanhe agora e sempre. Ámen.
© Copyright 1980 - Libreria Editrice Vaticana
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