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VIAGEM APOSTÓLICA DO SANTO PADRE
À REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA
(15-18 DE NOVEMBRO DE 1980)

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS MEMBROS DA CONSELHO
DA IGREJA EVANGÉLICA

Museu da Catedral de Mogúncia
Segunda-feira, 17 de Novembro de 1980

 

Excelentíssimo Senhor Presidente do Conselho
Ilustres membros do Conselho da Igreja Evangélica Alemã
Caros irmãos em Cristo

"A graça e a paz de Deus nosso Pai, e de Jesus Cristo nosso Senhor" (Rom 1, 7). Com estas palavras do Apóstolo das gentes, vos saúdo e todos aqueles que representais. Agradeço de coração a todos quantos tornaram possível este encontro, no País onde a Reforma teve o seu início. Devo agradecimento particular a Si, Senhor Presidente do Conselho, pelas palavras que nos ajudaram a tomar consciência da dimensão desta hora e mais ainda da nossa missão cristã. Na consciência deste dado, seja-nos possível — como em tempos passados "reconfortarmo-nos mutuamente" (Rom 1, 12).

Estarmos nós juntos nesta hora matutina é para mim símbolo muito profundo, pelo qual posso exprimir-me com as palavras de um antigo hino: "Já a aurora se levanta no horizonte, como aurora surja Ele em nós; o Filho é tudo no Seu pai e o Pai tudo no Verbo" (Hino de Laudes de segunda-feira da 2ª semana do ciclo anual). O nosso comum desejo é resplandecer Cristo no meio de nós e neste País, como a luz da vida e da verdade.

Recordo-me neste momento que em 1510-1511 Martim Lutero foi a Roma como peregrino aos túmulos dos Príncipes dos Apóstolos, mas também como quem procurava resposta para algumas interrogações suas. Hoje sou eu que venho ter convosco, com a herança espiritual de Martim Lutero; venho como peregrino, para fazer deste encontro, de modo novo, sinal de união no mistério central da nossa fé.
Muitas coisas se apresentam com urgência à mente no nosso encontro fraterno, muitas mais do que podemos exprimir no breve tempo de que dispomos e usando as nossas forças limitadas. Permiti-me dizer, no princípio do nosso colóquio, o que particularmente me comove. Faço-o apelando para o testemunho da Carta aos Romanos, desse escrito que foi completamente decisivo para Martim Lutero. "Essa carta é a verdadeira obra-prima do Novo Testamento e o Evangelho mais puro", escrevia ele em 1522.

Na escola do Apóstolo das gentes podemos hoje tomar consciência de todos necessitarmos de conversão. Não há vida cristã sem penitência. "Não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior" (Unitatis redintegratio, 7). "Não queremos julgar-nos uns aos outros" (Rom 14, 3). Queremos antes reconhecer juntos a nossa culpa. Isto vale também para a graça da unidade: "Todos pecaram" (Rom 14, 3). Devemos ver e dizer isto com toda a seriedade e tirar daí as nossas consequências. A coisa mais importante é reconhecer, cada vez mais profundamente, as consequências que tira o Senhor da defecção do homem. Paulo redu-lo ao denominador: "Onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rom 5, 20). Deus não cessa de "usar misericórdia com todos" (Rom 11, 32). Dá o Seu Filho, dá-se a Si mesmo, dá perdão, justificação, graça e vida eterna. Podemos reconhecer tudo isto juntos.

Sabeis que decénios da minha vida foram assinalados pela experiência dos desafios lançados ao Cristianismo pelo ateísmo e pela descrença. Está-me por isso mais claro diante dos olhos o que importam a nossa comum profissão de Jesus Cristo, a Sua palavra e a Sua obra neste mundo, e como somos impelidos pela urgência imperiosa da hora a ultrapassar as diferenças que nos dividem e a dar testemunho da nossa união crescente.

Jesus Cristo é a salvação de todos nós. É o mediador único. "Deus apresentou-O como vítima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé" (Rom 3, 25). "Por Seu meio fomos pacificados com Deus" (Rom 5, 1) e entre nós. Por virtude do Espírito Santo somos Seus irmãos, verdadeira e essencialmente filhos de Deus. "Se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo" (Rom 8, 17).

Reflectindo sobre a Confissão de Ausburgo, e através de numerosos contactos, demo-nos de novo conta de crermos e professarmos juntos tudo isto. Testemunharam-no os Bispos alemães com a carta pastoral "Venha a nós o Vosso reino" (20 de Janeiro de 1980). Disseram aos católicos: "Alegramo-nos ao descobrir não só consenso parcial sobre algumas verdades, mas também acordo sobre as verdades fundamentais e centrais. Isto deixa-nos esperar a unidade, mesmo no campo da nossa fé e da nossa vida, naquilo em que até este momento estamos ainda divididos".

Toda a gratidão, por aquilo que nos fica de comum e nos une, não nos pode tornar cegos sobre quanto nos divide ainda. Devemos da maneira possível ver juntos, não para aprofundar os fossos, mas para os transpor. Não podemos deter-nos com a verificação: "Estamos e ficamos para sempre divididos e contrapostos uns aos outros". Somos chamados a tender juntos, no diálogo da verdade e do amor, para a plena unidade na fé. Só a unidade plena nos dá a possibilidade de nos reunirmos com os mesmos sentimentos e a mesma fé na única mesa do Senhor. Podemos fazer que as lições dadas por Lutero, nos anos de 1516-1517 sobre a Carta aos Romanos, nos digam em que está sobretudo este esforço. Ensina que a "fé em Cristo, pela qual somos justificados, não consiste só em crer em Cristo, ou mais exactamente na pessoa de Cristo, mas em crer naquilo que é de Cristo". "Devemos crer n'Ele e naquilo que é Seu". A pergunta "Que coisa é então isso?", Lutero remete para a Igreja e para o seu ensino autêntico. Se as dificuldades que subsistem entre nós dizem respeito somente aos "ordenamentos eclesiásticos de instituição humana" (cf. Confissão de Ausburgo, VIII), poderemos e deveremos eliminá-los imediatamente. Segundo a persuasão dos católicos, a dissensão versa sobre "aquilo que é de Cristo", sobre "o que é Seu": a Sua Igreja e a Sua missão, a Sua mensagem, os Seus sacramentos e os ministérios postos ao serviço da palavra e do sacramento. O diálogo travado desde o Concílio fez-nos realizar progressos neste campo. Precisamente na Alemanha, deram-se passos importantes. O que pode inspirar-nos confiança diante de problemas ainda por resolver.

Devemos manter-nos em diálogo e em contacto. As questões para juntos enfrentarmos exigem, por sua natureza, serem tratadas ainda mais amplamente do que é possível hoje. Espero que havemos de encontrar juntos o caminho para continuarmos o nosso diálogo. Certamente os Bispos alemães e os colaboradores do Secretariado para a União dos Cristãos prestarão nisto a sua ajuda.

Não podemos deixar nada por tentar. Devemos fazer tudo para nos unirmos. Devemo-lo a Deus e ao mundo. "Procuremos o que interessa à paz e à mútua edificação" (Rom 14, 19). Cada um de nós deve dizer a si mesmo com São Paulo: "Ai de mim se não evangelizar" (1 Cor 9, 16). Somos chamados a ser testemunhas do Evangelho, testemunhas de Cristo. A Sua mensagem exige que juntos demos testemunho. Permiti-me que repita o que disse a 25 de Junho deste ano por ocasião do jubileu da Confissão de Ausburgo: "A vontade de Cristo e os sinais dos tempos incitam-nos a um testemunho comum na plenitude crescente da verdade e do amor".

Grandes e graves são os encargos que nos esperam. Se contássemos só com as nossas forças, perderíamos o ânimo. Por graça de Deus, "o Espírito vem em ajuda da nossa fraqueza" (Rom 8, 26). Confiando n'Ele, podemos continuar o nosso diálogo, enfrentar as actividades que nos são pedidas. Comecemos com o diálogo mais importante, com a obra mais importante: oremos! Diante da incompreensível graça de Deus, peçamos com o Apóstolo das gentes:

"Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Que insondáveis são os Seus juízos e impenetráveis os Seus caminhos! Pois quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi Seu conselheiro? Ou quem Lhe deu primeiro a Ele, para receber, por sua vez, retribuição? Por que da parte d'Ele, por meio d'Ele e para Ele são todas as coisas. Glória a Ele pelos séculos. Amém" (Rom 11, 33-36).

 

© Copyright 1980 - Libreria Editrice Vaticana

 

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