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VIAGEM APOSTÓLICA DO SANTO PADRE
À REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA
(15-18 DE NOVEMBRO DE 1980)

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
À COMUNIDADE HEBRAICA

Magúncia, 17 de Novembro de 1980

 

Ilustres senhores,
Caros irmãos

Agradeço-vos as amigas e sinceras palavras de saudação. Este encontro era para mim uma exigência do coração no programa desta viagem apostólica, e agradeço-vos terdes vindo ao encontro do meu desejo. Oxalá a bênção de Deus possa pairar sobre esta hora!

1. Devendo os Cristãos sentirem-se irmãos de todos os homens, e compartilharem por conseguinte esta sagrada obrigação, isto vale ainda mais quando se encontram diante daqueles que pertencem ao povo hebreu!

Na "Declaração sobre as relações da Igreja com o Hebraísmo", de Abril deste ano, os Bispos da República Federal da Alemanha colocaram no início esta afirmação: "Quem encontra Jesus Cristo, encontra o Judaísmo". Desejaria fazer também minhas essas palavras. A fé da Igreja em Jesus Cristo, filho de David e filho de Abraão (cf. Mt 1, 1) contém, de facto, aquilo que os Bispos na referida Declaração chamam "a herança espiritual de Israel para a Igreja" (parágrafo II), uma herança viva que, por nós cristãos católicos, é entendida e conservada na sua profundidade e riqueza.

2. As concretas relações fraternas, entre hebreus e católicos na Alemanha, assumem um valor todo particular no ambiente sombrio da perseguição e da pretendida eliminação do hebraísmo neste País. As vítimas inocentes na Alemanha e em outras partes, as famílias destruídas ou dispersas, os valores da cultura ou os tesouros de arte aniquilados para sempre, provam tragicamente para onde podem conduzir a discriminação e o desprezo da dignidade humana, especialmente se estimulados por nefastas teorias sobre uma eventual diversidade de valorização das raças ou sobre a divisão dos homens, em homens de "alto valor" e "dignos de viver", contra aqueles "destituídos de valor" e "indignos de viver". Diante de Deus todos os homens têm o mesmo valor e importância. Neste espírito também Cristãos se empenharam, muitas vezes com perigo de vida, durante a perseguição, para impedir ou, pelo menos, mitigar os sofrimentos dos seus irmãos hebreus. A eles desejo agora exprimir reconhecimento e gratidão. Como também àqueles que, como cristãos afirmando pertencerem ao povo hebreu, seguiram até ao fim a "via crucis" dos seus irmãos e irmãs — como a grande Edith Stein, chamada no seu Instituto com o nome religioso de Teresa Benedita da Cruz, cuja recordação é justamente mantida em grande honra.

Desejo, além disso, recordar também Franz Rosenzweig e Martinho Buber, os quais com a sua familiaridade criativa com as línguas hebraica e alemã estabeleceram admirável ponte para um encontro aprofundado dos dois âmbitos culturais. Vós mesmos, nas vossas palavras de saudação, realçastes que, nos múltiplos esforços para a edificação neste País de uma nova convivência com os concidadãos hebreus, os católicos e a Igreja deram contributo decisivo. Este reconhecimento e a necessária colaboração da vossa parte causam-me muita alegria. Da minha parte, desejo exprimir grata admiração também pelas vossas respectivas iniciativas, inclusive a novíssima fundação da vossa Universidade de Heidelberg.

3. A profundidade e a riqueza da nossa comum herança abrem-nos, de maneira particular, para um diálogo amigo e uma colaboração confiante. Alegro-me por ver que tudo isto é cuidado neste País consciente e propositadamente. Muitas iniciativas públicas e particulares no campo pastoral, académico e social servem para este intento, também em ocasiões muito solenes, como recentemente para o Katholikentag de Berlim. Sinal encorajador foi igualmente a reunião da Comissão de aliança internacional entre a Igreja romana-católica e o Hebraísmo no ano passado em Ratisbona.

Não se trata somente de corrigir uma falsa visão religiosa do povo hebreu, que ao longo da história foi em parte co-causa de desconhecimentos e de perseguições, mas trata-se sobretudo do diálogo entre as duas religiões, que — com o Islão — puderam dar ao mundo a fé no Deus único e inefável, que nos fala, e querem servi-1'O em nome do mundo inteiro.

A primeira dimensão deste diálogo, isto é, o encontro entre o povo de Deus do Antigo Testamento, jamais revogado por Deus (cf. Rom 11, 29), e aquele do Novo Testamento, é ao mesmo tempo um diálogo dentro da nossa Igreja, por assim dizer entre a primeira e a segunda parte da sua bíblia. Sobre isto, as directrizes para a aplicação do Decreto conciliar Nostra aetate dizem: "Devemos esforçar-nos por compreender melhor tudo aquilo que no Antigo Testamento conserva um valor próprio e perpétuo... visto que este valor nunca foi esquecido pela ulterior interpretação do Novo Testamento, a qual, pelo contrário, deu ao Antigo o seu significado mais completo, assim como reciprocamente o Novo recebe do Antigo luz e explicação" (11).

Uma segunda dimensão do nosso diálogo — a verdadeira e central — é o encontro entre as hodiernas Igrejas cristãs e o hodierno povo da Aliança concluída com Moisés. Isto comporta "que os cristãos — assim dizem as directrizes pós-conciliares tendam a compreender melhor as componentes da tradição religiosa do Hebraísmo, e aprendam que linhas fundamentais são essenciais para a realidade religiosa vivida pelos hebreus, segundo a sua própria compreensão" (Introdução). O caminho para este recíproco conhecimento é o diálogo. Agradeço-vos, venerados irmãos, porque também vós estais a conduzi-lo com aquela "abertura e amplidão de espírito", com aquele "ritmo" e aquela prudência, que a nós católicos vêm recomendados pelas citadas directrizes (1). Resultado deste diálogo e orientação para o seu frutuoso prosseguimento é a Declaração dos Bispos alemães, citada ao início, "sobre as relações entre a Igreja e o Hebraísmo", de Abril deste ano. É meu ardente desejo que esta Declaração se torne um bem espiritual para todos os católicos da Alemanha!

Desejo, além disso, acenar a uma terceira dimensão do nosso diálogo. Os Bispos alemães dedicam o capítulo conclusivo da sua Declaração às tarefas que temos em comum. Israelitas e cristãos, como filhos de Abraão, são chamados a ser bênção para o mundo (cf. Gén 12, 2 ss.), a empenharem-se juntos pela paz e pela justiça entre todos os homens e povos, e realizarem-nas em plenitude e profundidade, como Deus mesmo as estabeleceu para nós, e com a disponibilidade para os sacrifícios que este alto objectivo pode exigir. Quanto mais este sagrado dever marcar o nosso encontro, tanto mais ele se tornará sagrado dever marcar o nosso encontro, tanto mais ele se tornará uma bênção também para nós mesmos.

4. À luz desta promessa e chamada abramítica, convosco eu volto o olhar para o destino e para a missão do vosso povo entre os povos. De bom grado rezo convosco pela plenitude do Shalom para todos os vossos irmãos de nacionalidade e de fé, e também pela Terra, para a qual todos os israelitas olham com particular veneração. O nosso século pôde viver a primeira peregrinação de um Papa na Terra Santa. Ao concluir, desejo repetir as palavras de Paulo VI ao entrar em Jerusalém: "Implorai connosco, no vosso desejo e na vossa oração, respeito e paz para esta terra singular e visitada por Deus! Rezemos juntos, aqui, pela graça de uma verdadeira e profunda fraternidade entre todos os homens, entre todos os povos!... Felizes aqueles que te amam. Sim, reine a paz dentro dos teus muros, e a tranquilidade nos teus palácios. Peço paz para ti, desejo para ti todos os bens (cf. Sl 121, 6-9)".

Oxalá, logo possam todos os povos ser reconciliados em Jerusalém e abençoados em Abraão! Ele, o inefável, de quem nos fala a sua criação; Ele, que não constringe a sua humanidade ao bem, mas a orienta; Ele, que dá a conhecer o nosso destino e cala; Ele, que nos escolhe entre todos para seu povo; Ele nos guie nos seus caminhos para a vida eterna! Que o Seu Nome seja louvado! Amém.

 

© Copyright 1980 - Libreria Editrice Vaticana

 

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