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VIAGEM APOSTÓLICA DO SANTO PADRE
À REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA
(15-18 DE NOVEMBRO DE 1980)

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
NA CERIMÓNIA DE DESPEDIDA DA ALEMANHA

Aeroporto de Munique-Riem
Quarta-feira, 19 de Novembro de 1980

 

Ilustríssimo Senhor Presidente da República Federal!
Venerado Senhor Cardeal, caros Irmãos no Episcopado!
Senhoras e Senhores!

1. A minha viagem pastoral através da Alemanha chega ao seu término. Neste momento de despedida, gostaria de exprimir a minha sincera gratidão a Deus e aos homens pelo dom deste evento único e memorável.

Agradeço-lhe de coração, Ilustríssimo Senhor Presidente, o acolhimento extremamente amigável que me reservaram os cidadãos deste País, em cada lugar por onde passei.

Gostaria de expressar um agradecimento, de modo especial, aos inumeráveis colaboradores que, durante semanas inteiras, trabalharam intensamente para o sucesso da organização externa desta viagem, obrigados, certamente, a algumas horas suplementares de trabalho. Penso, aqui, sobretudo na administração civil, na polícia, nos guardas de fronteira e, de modo particular, nos pilotos de helicópteros, no pronto socorro da Ordem, de Malta, nas agências de viagem e nas comissões locais de cada diocese. A todos, um cordial muito obrigado.

Recordamos nesta viagem algumas etapas da história da Igreja e do povo deste País. Eu estava bem consciente de ser peregrino numa terra cujas raízes cristãs remontam ao tempo dos Romanos; uma terra, na qual o Santo bispo e mártir Bonifácio colocou, no século VIII, os fundamentos desta Igreja local; Igreja esta da qual saiu, na Idade Média, uma série historicamente importante de Papas e Imperadores, de Santos e de homens doutos. É a terra na qual há 700 anos morreu Santo Alberto Magno e na qual há 450 anos foi proclamada a Confessio Augustana.

2. Se, no que diz respeito a este passado distante, recordo alguns dos seus marcos miliários, não posso, do mesmo modo, preterir os eventos da história mais recente. Não há muito tempo, em Setembro de 1978, quando ainda Cardeal e Arcebispo de Cracóvia, estive na Vossa Terra, juntamente com uma delegação de Bispos poloneses. Aquela visita ocorreu apenas algumas semanas depois da eleição do Papa João Paulo I e — quem teria pensado? — somente alguns dias antes da sua morte. Ora, ninguém poderia supor que a Divina Providência me teria chamado para assumir, imediatamente depois dele, a herança da Cátedra de Pedro.

Dois motivos que me oferecem a ocasião para mencionar aqui, no momento da minha partida, estes eventos históricos antigos e recentes. O primeiro motivo é que aquela visita dos bispos poloneses, chefiados pelo Cardeal Primaz da Polónia, testemunhava um importante desenvolvimento que se tinha verificado e ainda continua entre vós e a minha pátria: faço alusão àquele processo que se propõe como meta a superação das trágicas consequências da segunda guerra mundial, sobretudo daquelas consequências que se imprimiram nos corações dos homens. Eu conheço-as por experiência pessoal, porque eu com a minha Nação experimentamos profundamente a cruel realidade daquela guerra mundial.

A este respeito, desejo expressar a minha profunda gratidão ao grupo de Cardeais e Bispos alemães que, recentemente, foram à Polónia retribuir aquela visita. Eu vos serei muito grato, dilectos irmãos, se continuardes com os vossos esforços, para aprofundar ainda mais estes contactos. Na verdade, temos diante dos olhos a história da Igreja e do Cristianismo desta nação com a sua dimensão milenária, na qual a vida dos seus cidadãos, muitas vezes, não foi fácil. Esta nação polonesa foi-vos dada pela Divina Providência como directo vizinho oriental... Possa o conceito dominante dessas relações serem sempre o ensinamento dado pelo Concílio Vaticano II sobre a troca recíproca de bens entre as igrejas, que se baseia sobre as diferentes nações, línguas e relações históricas. Um tal intercâmbio de bens espirituais pertence à própria essência da comunhão na Igreja de Jesus Cristo.

Sim, trata-se justamente disto! Devemos fazer tudo o que depende de nós, para dar um novo fundamento e uma nova forma à vida e à coesão entre os homens e as nações e, assim, superar as consequências daquela terrível experiência do nosso século. Os mártires e os santos de todos os tempos até ao beato Maximiliano Kolbe demonstraram-nos que o "amor de Cristo é mais forte", como diz o tema do último Katholikentag de Berlim. Segundo este princípio, a construção de um futuro melhor, para as nações e para os homens, não somente é possível, mas é até um grave dever para nós: uma tarefa do nosso tempo, neste segundo milénio depois de Cristo, que já entrou na sua última fase.

Por isso, sou-vos profundamente agradecido pelo convite para esta viagem pastoral, que pude realizar em vosso favor ainda, este ano, a fim de vos oferecer o meu serviço, enquanto Bispo de Roma e sucessor de São Pedro.

3. O segundo motivo das minhas precedentes considerações é que, a partir deste convite, feito primeiramente pelo Senhor Cardeal de Colónia e, depois, por todos os Cardeais e Bispos conjuntamente, colhi não apenas um particular apelo do passado distante e recente, mas também o desafio do futuro, cujas linhas foram traçadas pelo espírito do Concílio Vaticano II. Precisamente na vossa terra, onde nasceu Martinho Lutero e onde foi proclamada há 450 anos a Confessio Augustana, este desafio do futuro pareceu-me extremamente importante e decisivo. De que futuro se trata? Trata-se do futuro que promana da oração de Jesus Cristo feita por nós, como seus discípulos, na noite da última ceia: Eu te peço, Pai; que "todos sejam um" (Jo 17, 21). Esta oração do Senhor torna-se para nós fonte de uma nova vida e de uma nova aspiração. Como bispo de Roma e sucessor de São Pedro, coloco-me total e absolutamente no fluxo desta aspiração. Reconheço nela a voz do Espírito Santo e a vontade de Cristo, à qual gostaria de ser fiel e obediente até ao fim.

Eu quero servir a unidade, quero percorrer todas as vias através das quais Cristo, depois das experiências de séculos e milénios, nos guia para aquele ovil no qual Ele sozinho é o único e seguro pastor.

Por isso, o meu grande desejo era fazer esta visita precisamente neste ano jubilar, tão importante do ponto de vista ecuménico. Gostaria, por conseguinte, de agradecer cordialmente ao Conselho da Igreja Evangélica da Alemanha e às Comunidades de trabalho das Igrejas Cristãs pela participação no encontro com o Papa e pela aceitação do diálogo com ele no seu País.

Nutro a firme esperança de que a unidade dos cristãos, pela força do Espírito de verdade e de amor, esteja já em andamento.

Sabemos quanto foi longo o tempo da separação e da divisão. Não sabemos quanto será longo o caminho para a unidade. Uma coisa, porém, sabemos com certeza: devemos fazer muito, sobretudo perseverar na oração, numa oração sempre mais eficaz e íntima. A unidade pode ser-nos dada unicamente como dom do Senhor, como fruto da sua morte e da sua ressurreição, na devida "plenitude dos tempos".

"Vigiai e orai" (Mt 26, 41) no Jardim do Getsémani das numerosas experiências históricas, a fim de não cairdes em tentação e não desfalecerdes no caminho!

4. Ainda uma vez, gostaria de lhe agradecer cordialmente, Senhor Presidente da República Federal, e a todos os representantes das autoridades estatais, pelo convite a mim dirigido.

Despedindo-me, exprimo os meus melhores votos de bênçãos para todos os cidadãos do seu País, incluindo neles todos os seus irmãos e irmãs que vivem no estrangeiro e todos os que já há muito tempo emigraram para diversas nações do mundo.

Permita-me unir estes votos a um convite e a um apelo. Já passou muito tempo, desde a catástrofe da última guerra com as suas imagens terrificantes, a qual passou como um terremoto pela Europa e pela nossa pátria. E, no entanto, deve-se repetir sempre de novo o apelo por um mundo futuro que, segundo as palavras do Concilio Vaticano II, deve ser "mais ' digno do homem", e, na verdade, de todos os homens da terra. Concordais comigo que um tal desejo representa um desafio. De facto, o mundo e a vida que este contém podem tornar-se mais dignos do homem apenas se o próprio homem se esforça constantemente para ser mais digno da sua condição de ser humano, em todos os âmbitos e dimensões da sua existência.

Serei grato, da maneira mais profunda, à Divina Providência, se este ardente desejo se cumprir nos vossos corações e no vosso meio e se tornar sempre mais uma realidade, para vós, para cada um em particular e para todos, juntamente com todos os outros homens e nações. Serei igualmente agradecido, se vós, filhos e filhas de uma nação tão importante, herdeiros de uma cultura excelente e descendentes de personalidades tão grandes da história da Europa e do mundo, vos tornardes sempre mais pioneiros daquela civilização do amor, a única capaz de fazer o nosso mundo mais digno do homem.

Possa esta ser a resposta histórica do futuro às dolorosas experiências do passado. Dirijo estes votos indirectamente a toda a Europa, pois ao vosso País foi assegurado pela Providência um posto central. Toda a Europa está esperando que se actue no seu meio aquela civilização do amor que se inspira no espírito do Evangelho e que, ao mesmo tempo, é também profundamente humanista. De facto, ela corresponde às profundas necessidades do homem, também na dimensão social da sua existência. Com esta dimensão a civilização do amor significa aquela forma de coexistência e de convivência na qual a Europa formará uma verdadeira família de povos. Assim como a cada um dos membros de uma família humana se deve todo o respeito, do mesmo modo, na família das nações; é necessário que cada nação, pequena, média ou grande, seja respeitada. Estas nações já possuem a sua longa história, a sua plena identidade e a sua. própria cultura. A esta verdadeira maturidade histórica corresponde o direito à autodeterminação e, naturalmente, também os direitos das outras nações devem ser devidamente respeitados. Já é hora de começarmos a pensar no futuro da Europa, não a partir de uma posição de força e de prepotência, não de uma posição de predomínio económico e de egoísmo, mas a partir do ponto de vista da civilização do amor, que dá a cada nação a possibilidade de ser ela mesma e permite a todas as nações em maneira comunitária, de libertarem-se da ameaça de um novo conflito e da recíproca destruição. O amor permite a todos sentirem-se verdadeiramente livres em vista da plena aquisição da própria dignidade. Por isto, ocorre contribuir com a política de uma justa solidariedade, que torne impossível a quem quer que seja desfrutar do próximo para o próprio interesse; ao mesmo tempo, deve-se evitar toda a forma de abuso e opressão. Estes são os votos que vos exprimo nos últimos momentos da minha presença no vosso País. Acrescento a estes a minha gratidão pelos dias aqui passados.

Deus abençoe este Pais com todos os seus habitantes.

 

© Copyright 1980 - Libreria Editrice Vaticana

 

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