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VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE A ÓTRANTO (ITÁLIA) DISCURSO DO PAPA JOÃO
PAULO II Basílica-Catedral de Santa Maria da
Anunciação
Venerados Irmãos no Episcopado, 1. Há uma palavra do Apóstolo Paulo, na qual são bem expressos os sentimentos que se apresentavam ao meu espírito quando pensava neste encontro, e agora enchem o meu coração ao olhar para os vossos rostos e ao ouvir as vossas vozes: "Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós. Em todas as minhas orações peço sempre com alegria por todos vós, recordando-me da parte que tomastes na difusão do Evangelho, desde o primeiro dia até agora. Estou persuadido que Aquele, que principiou em vós a boa obra, a completará até ao Dia de Cristo Jesus" (Flp 1, 3-6). Sim, Irmãos e Filhos caríssimos, estou agradecido primeiro que tudo a Deus por quanto vai operando nas vossas existências, mediante a acção discreta e sábia do Seu Espírito; e estou agradecido, também, a vós todos pela disponibilidade generosa com que, em correspondência às solicitações interiores do amor divino, pondes as vossas energias intelectuais, morais e físicas ao serviço da causa do Evangelho. 2. O nosso encontro realiza-se no cenário sugestivo desta vetusta basílica, que tanta história viu decorrer debaixo das suas abóbadas airosas e solenes. Se há obra capaz de exprimir em síntese harmoniosa a espiritualidade profunda, a gentileza de espírito e o vigor criativo da gente de Ótranto, é certamente a catedral, sobre cujas estruturas arquitectónicas correm neste momento os nossos olhos admirados. A sucessão das ágeis e esbeltas colunas, a majestosa perspectiva das arcadas, a solene respiração das abóbadas, a onda de luz das monóforas e da rosácea central derrama-se sobre o grandioso mosaico pavimental; tudo se funde num harmonioso poema de fé e de beleza. É poema que os crentes do princípio deste milénio confiaram às gerações futuras, imortalizando na pedra as certezas, e as esperanças que tinham. Este poema nós, cristãos do fim do milénio, somos chamados a interpretá-lo, para recolhermos a mensagem daqueles nossos antepassados na fé e traduzirmos a plena riqueza dela nos modos de vida próprios do nosso tempo. É mensagem que diz respeito a todos, mas espera ser ouvida e captada sobretudo por aqueles que, pela directa participação no sacerdócio de Cristo ou pela formal profissão dos conselhos evangélicos, fizeram experiência mais íntima e mais profunda da vida nova, que a redenção inseriu na história do mundo. 3. Os habitantes desta terra quiseram que fosse majestosa e solene esta basílica, porque devia ser a igreja catedral, isto é, o lugar sagrado em que o Arcebispo teria a sua cátedra de mestre e de pastor. Aqui viriam escutar a proclamação da eterna Palavra do Evangelho, aqui teriam a necessária instrução sobre os mistérios do Reino, aqui lhes seriam explicadas de modo autorizado as verdades capazes de orientarem a vida e iluminarem a morte. Não é precisamente esta função da catedral que nós vemos sublinhada e exaltada naquela singular obra-prima que é o mosaico pavimental? Nele a vida humana inteira — nas alegrias e nas dores, nos impulsos de generosidade e nas retiradas egoístas, no decorrer tranquilo entre actividades agrícolas e domésticas, como também no topar imprevisto com a sombra negra do mal e da morte, a vida humana inteira, digo — entra na igreja para pedir à revelação divina uma palavra que a interprete, a esclareça, a oriente e a conforte. E o discurso do mosaico desenvolve a resposta nas imagens da tentação original e da queda, das consequências funestas do pecado e dos anúncios proféticos da redenção: eis a arca de Noé, símbolo da Igreja; eis o leão de Judá, símbolo de Cristo. O homem é chamado à responsabilidade de uma opção: diante dele estão o bem e o mal, a virtude e o vício. Pode abandonar-se ao ímpeto das paixões, acabando por se escravizar a elas num embrutecimento, de que o vasto mostruário de animais do mosaico oferece uma ilustração impressionante. Ou pode, ao contrário, empenhar-se na luta pelo bem, imitando os justos do Antigo e do Novo Testamento, e lançando-se, como veado na corrida, para a pátria prometida, figurada num maravilhoso jardim. Este, na substancia, o discurso catequético feito por aquela espécie de "enciclopédia por imagens", que é este vosso estupendo mosaico. Interessa fazer notar que obedeceu à vontade do Arcebispo de Ótranto de então, Jónatas, e foi executado, com generoso contributo de todos os fiéis, por um monge presbítero, Pantaleão. Não há em tudo isto uma referência à importância da catequese e ao empenho que nela devem pôr os Bispos, os Sacerdotes e os Religiosos? O povo cristão é isto que espera, em primeiro lugar, dos seus Sacerdotes e daqueles que fazem uma experiência mais íntima de Deus e do Seu transcendente mistério: que sejam mestres de verdade; não da verdade pessoal ou da de algum outro sábio deste mundo, mas da que Deus nos revelou em Cristo. Apraz-me recordar o que escrevi a este propósito na Exortação Apostólica Catechesi Tradendae: "A Igreja, neste século XX prestes a terminar, é convidada por Deus e pelos acontecimentos — que são outros tantos apelos da parte de Deus — a renovar a sua confiança na actividade catequética, como tarefa verdadeiramente primordial da sua missão; ela é convidada a consagrar à catequese os seus melhores recursos de pessoal e de energias, sem poupar esforços, trabalhos e meios materiais, a fim de a organizar melhor e de formar para a mesma pessoas qualificadas. Nisto não há que ater-se a um cálculo simplesmente humano, mas tem de haver uma atitude de fé. E uma atitude de fé refere-se sempre à fidelidade de Deus, que não deixa nunca de corresponder" (n. 15). 4. Outro pensamento guiou certamente os vossos antepassados na construção deste templo, que desejaram luminoso e belo: o pensamento de que devia realizar-se aqui o culto litúrgico, no qual a comunidade, sob a guia dos Sacerdotes, se encontraria com Deus e com Ele entraria em diálogo. A Terra de Ótranto tinha séculos de gloriosas tradições monásticas sobre si, quando se resolveu a pôr mãos a esta obra: ao lado de formas de vida eremítica, tinham florido nela pequenas comunidades de monges (as esíquias) e cenóbios maiores (as lauras); e entre estes teve posição de preeminência durante séculos o mosteiro de San Nicola in Casole. Como não recordar o testemunho que nos deixou a este propósito São Paulino de Nola, que — dirigindo-se numa poesia ao amigo Niceta, Bispo de Remesiana na Dácia — descreve o acolhimento que lhe seria reservado na sua passagem por estas terras? "A ti, quando passares por Ótranto e por Lecce, rodear-te-ão virginais fileiras de irmãos e de irmãs, cantando a uma voz ao Senhor" (Poema XVII, vv. 85-92: PL 61, 485). "Innubae fratrum simul et sororum catervae" povoavam, portanto, esta região já naqueles longínquos séculos e com o exemplo da própria devoção ensinavam à gente dos arredores a cantar os louvores do Senhor. São tradições gloriosas para que vós, almas consagradas de hoje, deveis continuar a olhar, a fim de tirar inspiração e incitamento no vosso empenho de total doação a Cristo e à Igreja. A essas tradições deveis, em particular, recorrer para que saibais amar, cada vez mais intensamente, a divina Liturgia, para que lhe assimileis cada vez com maior compreensão as inexauríveis riquezas e para que lhe celebreis os vários momentos com fé transparente e alegre fervor. Isto espera de vós o povo. Para isto, de facto, construiu a maravilhosa catedral em que estamos recolhidos. Recorrendo às vossas palavras, aos vossos cânticos ao conjunto da vossa atitude durante a celebração dos divinos mistérios, esperam os cristãos poder nalguma medida fazer a experiência da realidade fascinadora e tremenda de Deus três vezes santo. Seja cuidado vosso rodear de atenções particularmente solicitas o grande "Mistério da Fé": a Eucaristia, na verdade, se foi dada a todos os crentes em Cristo, "a nós foi confiada também 'para' os outros, que esperam de nós particular testemunho de veneração e de amor para com este Sacramento, para que também eles possam ser edificados e vivificados 'para oferecer sacrifícios espirituais' " (Carta do Sumo Pontífice João Paulo II sobre o mistério e o culto da SS. Eucaristia, n. 2). 5. Entre os motivos que levaram os vossos antepassados a edificar este templo vasto e acolhedor não pôde faltar um para o qual desejo, por último, chamar a vossa atenção: aqueles antigos cristãos quiseram construir para si, nesta basílica, um ambiente em que eles, e depois os filhos e os filhos dos filhos, pudessem recolher-se no dia do Senhor para se sentirem "igreja" e se confortarem mutuamente, nos caminhos tormentosos do tempo, mediante a confissão da mesma fé e o antegosto, na esperança, dos mesmos bens prometidos. A Igreja é a casa em que se reúne a família dos filhos de Deus, para fortificaremos vínculos da comunhão fraterna, superando as possíveis tensões, concedendo os necessários perdões, e oferecendo a cada um o socorro espiritual ou material de que precisa. A Igreja é o lugar em que deve cada um, qualquer que seja a sua origem social, poder viver uma experiência de autêntica fraternidade. Também a contar deste ponto de vista tem a vossa terra tradições significativas. A posição geográfica, que faz de Ótranto como que uma cabeça de ponte para o Oriente, favoreceu no decurso dos séculos intensas trocas com essas regiões, determinando o encontro e a fusão de raças e culturas diversas. A Igreja soube mergulhar neste mundo cosmopolita, recolhendo-lhe e valorizando-lhe a tendência cosmopolita, tão de acordo com a catolicidade da sua missão. Os mosteiros desta zona, as igrejas disseminadas no território e a própria catedral constituíram outros tantos pontos de encontro entre o pensamento ortodoxo e o latino, entre a liturgia grega e a romana, como também entre os homens de uma margem do Canal e os da outra. Aqui, sob o olhar de Deus, pessoas que falavam línguas diversas e eram tributárias de culturas distantes entre si, puderam sentir-se irmanadas na invocação do único Pai, que se revelou na história mediante a encarnação do Filho, "o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus" (1 Tim 2, 5). São testemunhos históricos animadores, que, devem continuar a inspirar a acção da actual Igreja de Ótranto. Guias e modelos deste esforço de comunhão na caridade deveis ser vós, Sacerdotes, Religiosos e Religiosas, que no sulco destas tradições nobilíssimas crescestes e, dos ensinamentos e dos exemplos destes pioneiros, vos alimentastes. A vós toca a missão de repropor, com a palavra e com a vida, no contexto da actual geração, a eterna mensagem de um amor que, em Cristo; pode abrir-se para acolher todo o ser humano, para o fazer sentar à mesa sobre a qual é partido o Pão único (cf. 1 Cor 10, 16-17). 6. Filhos caríssimos, para a alegria deste encontro perseverar duradoura e se exprimir em frutos fecundos de esforço apostólico, confio os vossos bons propósitos à intercessão da Virgem Maria, cuja imagem dulcíssima ficou — respeitada mesmo na invasão de 1480 — nas paredes da catedral. Vele Nossa Senhora por vós e por tudo o que fazeis em serviço do Reino do seu Filho divino. E obtenha que numerosas vocações surjam desta terra banhada pelo sangue de tantos mártires, para que às novas gerações não faltem pastores corajosos e esclarecidos, que saibam indicar nas mudadas situações do presente, o caminho que leva a Cristo, a Ele "que é o mesmo, ontem, hoje e sempre" (Heb 13, 8). Com estes votos, ao mesmo tempo que vos renovo o testemunho do meu afecto sincero, concedo a vós todos uma especial Bênção Apostólica.
© Copyright 1980 - Libreria Editrice Vaticana
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