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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS BISPOS ITALIANOS DA SARDENHA
 EM VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

Terça-feira, 15 de Dezembro de 1981

 

Caríssimos Irmãos no Episcopado

1. Hoje tenho a grande alegria de poder encontrar-me com todos vós, Arcebispos e Bispos que presidis as onze Dioceses da Região Sarda. Dou-vos a minha fraterna e afectuosa saudação no Senhor! Juntamente convosco tenho presente o povo a vós confiado que, por vosso intermédio, desejo saudar cordialmente. Penso na vossa Sardenha "ilha rupestre e antiga — como a definiu Paulo VI de venerada memória —, rica de monumentos de arte e de fé... nobre e forte, generosa e paciente, laboriosa e cheia de pundonor" (Ensinamentos de Paulo VI, VIII, pág. 350, 24 de Abril de 1970); vejo as vossas Cidades, os territórios onde desempenhais a vossa missão juntamente com os Sacerdotes e os Religiosos, vejo as aldeias e os montes, as costas marinhas e as outras ilhas, onde operários, mineiros, pescadores e pastores trabalham com fadiga e tenacidade para a manutenção das suas famílias e para o progresso da Região; procuro compreender quer as dificuldades do vosso ministério de Mestres e de Guias, quer as várias situações dos fiéis inseridos na sociedade actual, com as suas luzes e as suas sombras; vejo o bem realizado em grande abundância, o infatigável empenho do Clero, o dinamismo de tantos leigos qualificados, o particular cuidado pelas Vocações sacerdotais e religiosas, o anseio apostólico para a animação da vida cristã, para a aproximação dos que estão afastados e para a pastoral do turismo, fenómeno tão importante e significativo para a vossa Ilha. E portanto manifesto-vos o meu apreço, a minha estima, a minha plena adesão ã vossa solicitude e também o meu encorajamento, unido à lembrança na oração.

2. A Sardenha tem sem dúvida características geográficas, psicológicas e linguísticas que a tornam um "mundo" particular, uma espécie de pequeno continente, com estruturas e comportamentos originais e diversos. Todavia, pode e deve dizer-se que as raízes do povo são profundamente religiosas e cristãs: tal é a cultura sarda, e tal se manteve através dos séculos. Deve também dizer-se que tal sentido religioso e cristão, como aliás em todas as Regiões da terra, é insidiado, e ao mesmo tempo também purificado, pelos vários fenómenos da sociedade moderna, como a urbanização, o turismo internacional, a mentalidade consumista, o permissivismo moral, o risco do desemprego, do desamor e da inflação. São fenómenos bem conhecidos, que provocaram em toda a parte a chamada "crise dos valores". Pois bem, é neste quadro que a visita "ad limina" constitui um ponto de referência fundamental: viestes até junto do Sucessor de Pedro, do Vigário de Cristo, para escutar a sua palavra de conforto e de confirmação, para receber os seus sentimentos de apreço e de encorajamento, a fim de recomeçardes depois com novo impulso e novo fervor o vosso trabalho nas dioceses a vós confiadas. Nenhum temor deve surpreender nem agitar os vossos corações! A Igreja, em nome de Cristo, não se atemoriza com as dificuldades, e prossegue, com rapidez mas certa de que deve ser a luz para os homens, os quais através das canseiras da vida e dos contrastes da história, aspiram ao Eterno e ao Infinito; certa de que deve ser o fermento na massa da humanidade. Por conseguinte, parafraseando São Paulo na sua carta a Timóteo, digo-vos: pregai a Palavra, insisti oportuna e inoportunamente, repreendei, censurai e exortai com bondade e doutrina... Sede prudentes, suportai os trabalhos, evangelizai e consagrai-vos ao vosso ministério! (cf. 2 Tim 4, 1-5).

3. Para o vosso ministério ser eficaz, sempre confiando na ajuda do Senhor, que dá força a quantos esperam n'Ele (cf. Is 40, 28-31), desejo sugerir-vos algumas directrizes práticas, que eu considero úteis nas circunstâncias actuais.

— Cuidai em primeiro lugar e de modo particular das vocações sacerdotais. Soube que todas as Dioceses têm o seu Seminário Menor, com alunos desde a Escola Média até ao Liceu. Há depois o Seminário Regional, com a sede e a direcção em Cagliari, que praticamente formou quase todo o Clero sardo, criando um clima de fraternidade e de auxilio recíproco. É-me grata esta realidade consoladora e exorto-vos a revigorar cada vez mais estas instituições. Sem dúvida verificou-se em toda a parte uma diminuição de alunos nos nossos Seminários menores e maiores, determinada por tantas causas, não sendo última a atmosfera de secularização de que a sociedade está impregnada. Tal situação significa que agora e no futuro a presença nos Seminários já não tem motivações ambientais, sociológicas e tradicionais, mas é uma verdadeira escolha pessoal, decisiva, corajosa, que se realiza depois da misteriosa chamada do Senhor, verificada pelo Bispo, e com o contributo convergente e consciente da família e de toda a comunidade cristã. Além disso, a situação social, tornada notavelmente mais difícil, exige maior fervor pessoal e apostólico tanto no Clero, qualquer que seja o cargo que ocupa, como no ambiente do Seminário mesmo. Enquanto a Obra Diocesana das Vocações deve aumentar cada vez mais e sempre melhor o seu trabalho, especialmente mediante a oração e a pastoral dos ministrantes, dos leitores e dos jovens cantores, o Seminário por seu lado deve empenhar-se com grande seriedade e método na formação dos meninos e dos jovens, de maneira que eles possam especificar de modo claro a própria vocação e formar-se positiva e decididamente para a vida apostólica, desde que tenham escolhido ser sacerdotes. A este propósito, é de suma importância que os responsáveis do Seminário, de modo particular o Director Espiritual, sejam sacerdotes iluminados por uma sã e equilibrada pedagogia e, sobretudo, inflamados de amor de Deus.

— Cuidai também do bom andamento do Conselho Presbiteral. A principal preocupação do Bispo deve ser a santidade dos seus sacerdotes. E certamente o primeiro meio de santificação é o ministério quotidiano de cada presbítero, de modo que ele se sinta sempre, empenhado, fervoroso e dinâmico. Na carta que escrevi por ocasião da Quinta-feira Santa de 1979 dizia: "É necessário um profundo sentido de fé... De facto resultará sempre necessário para os homens somente o sacerdote que é consciente do sentido pleno do seu sacerdócio: o sacerdote que crê profundamente, que professa com coragem a própria fé, que reza com fervor, que ensina com profunda convicção, que serve, que realiza na própria vida o programa das Bem-aventuranças, que sabe amar desinteressadamente, que está ao lado de todos e, em particular, dos mais necessitados" (n. 7). Para conseguir coordenar uma "pastoral de conjunto", de modo que cada sacerdote possa exprimir-se a si mesmo e ser apreciado justamente, possa fazer sentir as suas dificuldades e ter um auxilio e um apoio, é sumamente útil o Conselho Presbiteral. Sem dúvida, tal Conselho, que não elimina a tarefa do Cabido dos Cónegos, pode ser ou tornar-se uma forma de ascética para o Bispo, porque é empenhativo e fatigante. De facto, è necessário saber escutar; saber individuar, considerar, respeitar e avaliar as atitudes e os dons de cada um, e fazê-los concorrer para o bem comum; é também necessário, ao mesmo tempo, propor, dirigir e exigir sempre com caridade e prudência, porque a responsabilidade última é sempre a do Bispo. Mas o Conselho Presbiteral pode servir para criar aquele clima de fraternidade e de amizade necessário para que cada um esteja sempre santamente empenhado no próprio trabalho.

A este propósito, não posso deixar de recordar a obra assídua e inesquecível do Senhor Manzella, o apóstolo da Sardenha, que catequizou durante cerca de quarenta anos, percorrendo-a de ponta a ponta: ele, primeiro como Director Espiritual no Seminário de Sássari, e depois nas suas "missões", teve sempre como ideal apaixonado o amor e o auxílio ao clero, amparando-o com a sua fé integérrima e com a sua obra infatigável. E precisamente a existência inteira do Senhor Manzella demonstra quanto é necessária a sintonia entre o Clero e os Religiosos nas várias actividades paroquiais, diocesanas e regionais e como é fácil realizá-la, desde que se queira, segundo as directrizes dadas recentemente pelo documento "Mutuae Relationes".

4. Caríssimos Irmãos!

Concluindo esta minha amigável conversão, é-me grato recordar as palavras que disse Paulo VI durante a peregrinação apostólica na vossa Ilha: "Non turbetur cor vestrum" (Jo 14, 1.27) — dizia — Não deixeis que se aposse de vós nenhuma perturbação. A hora que atravessamos — a Igreja e o mundo — é uma hora de grandes mudanças. Podem acometer-nos vertigens, como quando se navega por entre a borrasca. E, ainda por cima, nesta altura a Igreja, depois do Concílio, propõe-se aproximar-se do mundo; do mundo tal qual ele é. Pode existir o perigo de que, para inserir-nos no mundo, nos ponhamos a assimilar do mundo também aqueles aspectos incompatíveis com a integridade do nosso cristianismo. Por isso, impõe-se neste ponto, estarmos vigilantes" (Op. cit. pág. 371). AJude-vos e inspire-vos no vosso ministério quotidiano Maria Santíssima, que é particularmente venerada no Santuário de Bonaria e tão invocada pelo bom povo sardo: interceda Ela a fim de que todos os fiéis da Sardenha sejam na Igreja "activos, perseverantes, disciplinados, unidos, confiantes" (Paulo VI, ibid.). Ajudem-vos os antigos mártires venerados nas Igrejas locais, entre os quais o Papa São Ponciano (235), os Santos Salvador da Horta († 1567) e Inácio de Laconi († 1791) e os Servos de Deus Irmã Maria Gabriela Sagheddu e Nicolau de Gesturi, cujas causas de Beatificação estão em curso.

E acompanhe-vos também a minha propiciadora Bênção Apostólica, que de todo o coração vos concedo e torno extensiva a todos os caros fiéis da Sardenha!

 

© Copyright 1981 - Libreria Editrice Vaticana

 

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