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VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE A LIVORNO
NA FESTIVIDADE DE SÃO JOSÉ

ENCONTRO DO PAPA JOÃO PAULO II
 COM O CONSELHO DE FÁBRICA EM ROSIGNANO

Sexta-feira, 19 de Março de 1982

 

Quero saudar todos os presentes. Saúdo o Conselho de fábrica.

Todos os domingos visito uma paróquia de Roma e encontro-me com um Conselho paroquial. Estes Conselhos já existiam na tradição da Igreja, mas depois do Concílio Vaticano II tornaram-se obrigatórios, universais. Por toda a parte eles existem.

Pergunto-me, ao visitar o Conselho de fábrica, se o modelo dos Conselhos pastorais nas paróquias não é, precisamente, um Conselho de fábrica. Se assim é, com muita probabilidade há uma afinidade porque tanto aqui como lá se trata de uma comunidade, de como salvaguardar o bem desta ou daquela comunidade e como atingir as suas finalidades. Naturalmente a fábrica tem característica diversa daquela da paróquia. Mas tanto aqui como lá existem duas comunidades. Trata-se do bem comum daquela comunidade e das finalidades que são próprias de uma certa comunidade.

Quis iniciar o meu breve discurso com esta comparação porque penso não ser errado dizer que o Conselho de fábrica, como instituição, tem a sua prioridade no tempo: é sem dúvida mais antiga. Devo agradecer a este tipo de Conselho por ter dado um exemplo que é seguido também pela Igreja no campo pastoral.

Depois desta breve introdução, saúdo cada um de vós, os que vos são caros, as vossas famílias; mas sobretudo, nas pessoas do Conselho aqui presentes, saúdo todos os vossos colegas, companheiros de trabalho, todos os operários e empregados da fábrica Solvay de Rosignano.

Que é o Conselho? O nome Conselho indica uma comunidade, sobretudo uma função, uma actividade: dar conselho. Estais aqui para dar conselhos e faço votos por que deis bons conselhos. Bons conselhos para a vossa fábrica e, especialmente, para o ambiente operário, dos trabalhadores e dos empregados. Dar-lhes bons conselhos. E bons conselhos são aqueles que se baseiam na justiça, na equidade e na honestidade. Estes conselhos referem-se à vida, a todos os aspectos da vida dos vossos colegas, de todos os colaboradores desta grande empresa. Referem-se à vida que desejam tornar mais humana, mais perfeita. Se consideramos este princípio compreendemos que também um Conselho de fábrica pode estender os seus interesses aos diversos campos da vida e da actividade humana, em que a vida humana pode tornar-se mais humana. No campo da vida profissional a intervenção do Conselho é imediata, mas depois há os outros campos da vida civil, da vida familiar sobretudo, e da vida cultural.

Estou convicto de que em todos os Conselhos é fundamental considerar a pessoa humana, a realidade humana na sua dimensão plena, na sua dimensão multilateral. Considerando assim o homem, bons conselhos podem ser dados ao homem envolvido num ambiente de trabalho, trabalho que é conatural ao homem. Trata-se de dar bons conselhos para o trabalho humano, ao homem que trabalha, ao trabalhador. Dar bons conselhos ao homem significa dizer ao homem que pode ser homem, com ele pode ser mais homem. Eis porque me sinto bem, hoje, no vosso ambiente.

Vós sabeis bem que a 19 de Março se festeja São José — todos sabem que São José era um operário, um artesão, um carpinteiro, e foi ele quem ensinou ao Filho de Deus, a Jesus, a ser também um operário — e esta solenidade de São José é por mim celebrada indo para junto daqueles que, devido ao próprio trabalho, estão mais perto de São José e também de Jesus.

Vim aqui também para ver a fábrica como instituição, na sua dimensão técnica que conheço pela minha experiência passada. Mas vim sobretudo para apertar tantas mãos, e ao cumprimentar-vos, bem como os trabalhadores e empregados desta fábrica, penso encontrar-me junto da realidade que nos foi indicada pelo exemplo de José de Nazaré, de Jesus de Nazaré.

Vim aqui também para encontrar a realidade da vossa vida quotidiana. Este dia solene para vós é a vida diária. Todos os dias vem-se a esta fábrica: dia e noite retoma-se o mesmo trabalho, vive-se quotidianamente entre a fábrica e a família. Assim me encontro dentro da vida diária dos homens, dos italianos e, indirectamente, de tantos outros homens do mundo.

Neste momento não serei capaz de tratar dos grandes problemas gerais referidos também no vosso discurso, pois me reservo a fazê-lo em outro discurso programado para o término desta manhã, e, além disso, muitas vezes já me exprimi sobre eles na Encíclica Laborem exercens, por vós citada. Faço votos uma vez mais por que deis bons conselhos aos vossos colegas, companheiros de trabalho, homens e mulheres. Dar bons conselhos ao homem é sempre dizer-lhe como pode ser mais homem mediante o seu trabalho. Devem ser eliminadas as diversas deficiências do trabalho e as injustiças causadas pelo trabalho; os obstáculos devem ser superados sempre com o objectivo de facilitar ao homem a possibilidade de ele ser mais homem. Auguro-vos que tenhais esta perspectiva em tudo o que fazeis, na vossa actividade do Conselho de fábrica.

Agradeço-vos o acolhimento.

 


Respostas do Santo Padre às perguntas formuladas pelos operários:

— Alguns perguntaram sobre a intervenção de sacerdotes na vida política e sindical. Aqui é preciso distinguir bem. Os sacerdotes, sob o ponto de vista social, exercem uma vocação e uma missão. Eles têm os seus ambientes e os seus Conselhos, os Conselhos presbiterais em que podem tratar dos seus problemas. Quanto à vida política e sindical, devem deixar aos leigos pois este é o campo dos leigos. Porém, com isto não quero dizer que a Igreja deva estar alheia aos problemas do trabalho e da política; não quero dizer que os sacerdotes não podem ser assistentes religiosos de organizações, de associações mesmo de tipo sindical ou também, direi, de tipo político. Quero todavia acrescentar que a vida deles é consagrada a serem Pastores, às actividades pastorais. É este o dever que devem exercer por toda a parte. Não se deve mudar a vocação ou a missão de cada um.

— Um de vós, depois, disse que o Papa é o representante de uma Instituição. Isto é verdadeiro, mas a característica desta Instituição é bem diversa das instituições leigas e civis. Ela tem a sua característica: provém do Evangelho, de Jesus Cristo. Se nem sempre somos capazes de cumprir bem tudo o que corresponde ao espírito do Evangelho, contudo a Igreja, como tal, permanece sempre a obra de Jesus Cristo, fundada no Evangelho e o dever dela é de ser fiel ao Evangelho, de ser como Cristo a formou.

— Passando a outra pergunta quero dizer-vos que certamente não vim aqui por interesse dos vossos patrões, da direcção. Para tanto, não se viria no dia de São José. Pois o dia de São José é o dia dos trabalhadores. Venho, pelo contrário, para uma aproximação com o mundo do trabalho. Aproximação de tipo pastoral, porque esta é a minha vocação, não outra. Ela não é profissional nem industrial, mas é pastoral. Na dimensão da vocação pastoral encontram-se os diversos campos e as várias dimensões da vida humana e, por conseguinte, a vida dos trabalhadores. A Igreja é também humana e cristã. No âmbito dos trabalhadores estão igualmente os crentes que vêem na visita do Bispo de Roma, o Papa, a visita do seu Pastor. Este é o verdadeiro objectivo da minha visita hoje no meio de vós.

— Uma das finalidades do Conselho de fábrica é a de proteger os trabalhadores e o mundo do trabalho para prevenir as doenças causadas pelo trabalho, assegurar a saúde aos trabalhadores e cuidar dos doentes. Estes são deveres de carácter humanitário.

— Alguém colocou também a pergunta de como encontrar a felicidade no trabalho. É um problema importante porque não se é somente trabalhador mas, sobretudo, homem, e o homem procura a felicidade. Este é o seu desejo natural. Procura-a, outrossim, como trabalhador. Procura-a no trabalho e quer encontrar, portanto, satisfação no trabalho. O trabalho deve proporcionar ao homem uma satisfação específica. Se ela não existe, então o trabalho é considerado como um peso. Ao contrário, existe se se permite ao homem desenvolver-se e progredir humanamente. Então o trabalho torna-se na verdade um benefício para o homem, digamos, a bênção da sua vida; não um castigo mas uma bênção.

— Há homens que ocupam posições importantes e outros desenvolvem tarefas humildes. Algumas vezes pensa-se que quem ocupa um posto importante, como dirigente, chefe, Presidente, Bispo ou Papa, seja um privilegiado; mas posso dizer-vos que a felicidade, a satisfação não depende do posto que se ocupa: sobretudo os que ocupam altas posições têm os seus sofrimentos. Talvez sejam privilegiados porque tiveram uma instrução e uma formação melhor em relação aos outros. Talvez porque detêm o poder e pelo seu ganho. Isto é verdade. Mas estes são tão somente meios. Com tais meios pode-se ser menos homem e menos feliz do que com os meios muito mais pobres de que dispõe um simples homem, um simples empregado, um simples trabalhador ou operário. Tudo o que agora vos digo é profundamente cristão. O cristianismo está compreendido nisto; a Igreja e eu mesmo, porque fiz a específica experiência de trabalho físico, como operário, estamos profundamente envolvidos nos problemas da justiça social. A Igreja está convicta de que a justiça, toda a justiça, e portanto também a justiça social com toda a sua importância, não resolve todos os problemas da pessoa humana. A Igreja, por sua vocação específica, procura em primeiro lugar resolver os problemas da pessoa humana. Naturalmente para fazer isto deve conhecer a dimensão da justiça social, os problemas do trabalho, etc.

Mas o problema do homem é maior. Como disse, alguns podem estar em postos elevados na hierarquia da sociedade, mas o que decide é o valor do homem como tal. Isto não significa que devamos deixar de lado as preocupações sociais, a luta pela justiça social e a paz. Isto é um dever ético mas não responde a todos os problemas nem os resolve. Deve-se procurar ainda aquela dimensão que é mais especificamente humana, em que o homem se sente como pessoa e é ele mesmo, e deve desenvolver-se como homem. Esta é a função específica da Igreja, esta é também a visão específica do Evangelho, e foi com esta missão que vim para junto de vós. Não existe uma posição social em que o homem não possa realizar-se a si mesmo, realizar plenamente a sua humanidade. Com os meios pobres muitas vezes realiza-se a personalidade humana mais do que com os meios ricos. Por isso, se lerdes o Evangelho, Cristo tem sempre uma predilecção pelos pobres, porque estão mais perto daquela visão fundamental em que o que importa é o homem como tal, a pessoa humana, a salvação do homem.

Todas as comunidades humanas passam, o homem permanece, permanece o problema da sua salvação, da salvação da sua pessoa.

Não sei se me expliquei bem, e se não consegui fazê-lo, permanece sempre D. Ablondi para melhor explicar.

O que disse não é uma fuga dos problemas sociais. Absolutamente não. Nós, a Igreja, entramos naquela dimensão social e procuramos ver aquilo que está para além do que transcende a dimensão sócio-económica da vida humana, o que é propriamente humano. Não é uma fuga, é um entrar, direi, nesta realidade humana.

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

 

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