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 VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE A LIVORNO
NA FESTIVIDADE DE SÃO JOSÉ

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
NO ENCONTRO COM OS TRABALHADORES
DA INDÚSTRIA SOLVAY

Sexta-feira, 19 de Março de 1982

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs

1. Eis-me finalmente entre vós, neste dia em que a Igreja celebra a festa de São José, exemplo e protector do mundo do trabalho. Convidastes-me: obrigado! E eis-me agora aqui para vos testemunhar quanto interesse, quanta simpatia e quanto afecto tem a Igreja por vós trabalhadores que, com a vossa fadiga quotidiana, ofereceis indispensável contributo ao progresso da humanidade.

Julgo por isso particularmente importante e significativo este encontro. Renovo a minha saudação ao Presidente da Sociedade e aos membros da Direcção Geral, que me acolheram com grande gentileza à minha chegada ao estabelecimento; renovo-a também aos membros do Conselho de Fábrica e aos Secretários dos Sindicatos de categoria da região, que tive o prazer de conhecer no encontro de há pouco, no termo da visita aos locais do vosso trabalho. Dirijo depois a minha saudação mais calorosa a todos vós — chefes, operárias e operários dos Estabelecimentos Solvay — que desejastes manifestar-me a vossa sincera simpatia acolhendo-me com espontânea e afectuosa cordialidade. E penso nos trabalhadores dos Estabelecimentos Solvay das outras áreas, em particular os do subterrâneo de São Carlos, junto dos quais não pude dirigir-me pessoalmente por causa do breve tempo à minha disposição, mas que foram os primeiros a convidar-me. Sei que uma numerosa representação deles quis estar aqui presente. Sinto a necessidade de exprimir-lhes o meu apreço por este gesto afectuoso, e ao mesmo tempo dirijo especial saudação aos trabalhadores de Ponte Ginori, que também estão connosco por meio de uma representação.

2. Caríssimos operários, empregados e dirigentes do Estabelecimento Solvay, ouvi com grande atenção as saudações pronunciadas pelos porta-vozes das várias componentes do vosso complexo industrial. Delas recolhi dois claros elementos: resultados e ansiedades. Os resultados foram por vós conseguidos mediante o concorde esforço, a generosa dedicação e a firme esperança, que vos animaram. Mas tendes também ansiedades pela difícil conjuntura económica e pelas repercussões que daí derivam para o emprego, quer imediatamente quer em perspectiva; ansiedades pelas tensões que agitam o País e pelas explosões de violência homicida; ansiedades, por fim, pelas nuvens ameaçadoras que escurecem o horizonte internacional, por motivo da flagrante e muitas vezes cruenta violação dos direitos humanos, perpetrada em várias partes de um e de outro hemisfério.

Escutei e apreciei a madura consciência social, que em tais intervenções se manifestava. Impressionou-me, em particular — ao lado da franca denúncia de uma sociedade "que torna o homem cada vez mais egoísta, cada vez mais só e cada vez mais insatisfeito" —, a vontade reafirmada de trabalhar pela construção de um mundo diverso, no qual "no centro de tudo já não esteja o proveito e a ambição do poder, mas o homem com as suas exigências de paz, de democracia e de liberdade".

Alegro-me com todos vós, que soubestes exprimir bem a aspiração, que vos move no vosso esforço quotidiano, para "uma efectiva justiça social e para o respeito da dignidade humana no mundo do trabalho".

Estas coisas disseste-las, quase abrindo um diálogo comigo, num encontro que não quereis se mantenha como "fim a si mesmo", mas desejais conserve uma sua continuidade no futuro, graças também ao contributo que das minhas palavras contais retirar: seja para continuar com renovado empenho os resultados obtidos, e as esperanças que os animam; quer para vencer com ânimo forte as ansiedades referidas.

Pois bem, eu estou aqui para corresponder a esta vossa expectativa; estou aqui para oferecer, em cumprimento do ministério que me foi entregue, uma resposta às vossas interrogações; estou aqui para fazer-me eco da voz da Igreja, que partilha — segundo as palavras iniciais da Constituição Gaudium et spes, do recente Concílio —, "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, dos pobres sobretudo e de todos os que sofrem" (Const. Past. Gaudium et spes, 1).

3. Nas vossas intervenções fizestes referência diversas vezes à Encíclica Laborem exercens, mostrando apreciar as reflexões que nela expus. Estou-vos grato. Como sabeis, com tal documento pretendi recordar o 90° aniversário da Rerum novarum, a grande encíclica de Leão XIII, que abriu a série das manifestações da Sé Apostólica no tempo moderno sobre os vários aspectos da questão social, realizando como um grande colóquio "itinerante" com os homens das gerações que se vão apresentando.

A Laborem exercens está em plena continuidade com este constante colóquio com o mundo operário. Nela referi-me também à experiência directa que fiz deste mundo que é o vosso, e foi também meu. Fui, na verdade, um de vós. Quantas recordações ocorreram à minha memória, enquanto visitava, há pouco, algumas secções deste vosso grande complexo industrial, enquanto saboreava a alegria de apertar a mão a muitos de vós, de trocar algumas impressões, de observar de perto os ambientes dentro dos quais se realiza a vossa quotidiana fadiga! Passei ao lado do banco do vosso trabalho e voltou-me espontaneamente à memória o tempo em que também eu, depois de deixar em Cracóvia as pedreiras de Zakrzowek, comecei a trabalhar na Solvay, em Borek Falecki, como operário nas caldeiras.

Quantas coisas mudaram desde então! Admirei a alta tecnologia, de que hoje se vale a Sociedade Solvay, tecnologia que foi pouco a pouco afinando, no decorrer destes anos, os seus processos de laboração. Vi quanto se fez para melhorar as condições de vida de todos os que para tais procedimentos contribuem com a prestação do seu trabalho. Outros passos falta ainda certamente dar nesta estrada. Será, graças ao empenho de todos, que tais passos poderão ser completados. O que desejo aqui reafirmar é que me sinto solidário convosco, porque me vejo participante dos vossos problemas, tendo-os compartilhado pessoalmente. Considero graça do Senhor ter sido operário, porque isto me deu a possibilidade de conhecer de perto o homem do trabalho, do trabalho industrial, mas também de qualquer outro tipo de trabalho. Pude conhecer a concreta realidade da sua vida: existência impregnada de profunda humanidade, embora não imune de fraquezas, vida simples, dura, difícil e digna de todo o respeito.

Quando saí da fábrica para seguir a minha vocação para o sacerdócio, levei comigo a experiência insubstituível daquele mundo e a profunda carga de humana amizade e de vibrante solidariedade dos meus companheiros de trabalho, conservando-as no meu espírito como elemento precioso.

4. Caros irmãos e irmãs! A Igreja, em virtude do seu mandato divino, está perto de vós, está do vosso lado, porque está ao lado do homem, de cada homem. A centralidade e a dignidade da pessoa humana incitam o Papa e os Bispos a proclamarem a sua solicitude pelo mundo do trabalho. A Igreja muito tem que dizer ao homem do trabalho: não nas questões técnicas, mas nas questões fundamentais e na defesa da dignidade e dos direitos dos trabalhadores. Ela proclama que a dignidade do trabalho faz parte da dignidade do homem; e tutelando a dignidade do trabalho, ela sabe que positivamente contribui para a defesa da justiça social. E se não deixa de reparar nos "resultados" conseguidos, justo motivo do vosso brio, ela vê em seguida demasiado bem as "ansiedades" e os perigos, que eles custam.

Como operários do sector industrial, estais inseridos na engrenagem do trabalho moderno que a força inventiva do génio humano agigantou. Ao mesmo tempo, porém, estais dispostos tanto às mais entusiasmantes como às mais perigosas consequências de tal processo, não só sob a perspectiva económico-social, mas também sob a ético-religiosa.

O desenvolvimento da técnica repropõe hoje de modo novo o problema do trabalho humano. A técnica, de fato, que foi e é coeficiente de progresso económico, pode transformar-se de aliada em adversária do homem. Ela, com efeito, apresenta-se marcada por uma evidente ambivalência: por um lado, diminuiu a fadiga do homem e multiplicou os bens económicos através de uma produção maciça; por outro, porém, com a mecanização dos processos produtivos, tende de facto para despersonalizar aquele que "realiza o trabalho", tirando-lhe toda a satisfação e todo o estímulo para a criatividade e a responsabilidade. Na actividade industrial encontram-se, com efeito, duas realidades: o homem e a matéria, a mão e a máquina, as estruturas empreendedoras e a vida do operário. Quem terá a preeminência? Tornar-se-á a máquina uma prolongação da mente e da mão criadora do homem, ou ficará este sujeito aos mecanismos que impelem a organização, reduzindo-se ela a operar como autómato? A matéria sairá nobilitada da oficina, e o homem pelo contrário degradado? Não vale porventura mais o homem do que a máquina e os seus produtos?

5. É sabido como a era técnico-industrial promoveu inovações profundas, transformações radicais na sociedade. A presença da máquina no mundo da empresa modificou não só as configurações tradicionais do trabalho, mas influiu substancialmente sobre o género de vida do trabalhador, sobre a sua psicologia, sobre a sua mentalidade, sobre a sua consciência e a cultura mesma dos povos, dando origem a um novo tipo de sociedade.

Com o afirmar-se, em seguida, da organização cientifica do trabalho e com as consequentes cadeias de montagem, acentuou-se mais a situação de alienação do homem e a sua impossibilidade de participar responsavelmente no trabalho que realiza.

Nestes últimos decénios, além disso, teve o seu ingresso no campo da indústria a automação, cujo carácter inovador, baseado na electrónica e na informática, nem sempre está plenamente em favor do homem.

6. Na época moderna, a consciência que estão adquirindo os seres humanos, particularmente os operários e as operárias acerca da sua dignidade, vai tomando dimensões universais. Tal fenómeno foi expresso no terreno histórico não só mediante a progressiva proclamação e defesa dos direitos humanos, mas também mediante o profundo desejo de mais viva e mais concreta justiça social.

Não é difícil fazer notar como de todas as partes do nosso planeta brota hoje a aspiração a uma maior justiça, em relação com as novas condições da economia e com as novas possibilidades da técnica, da produção e da distribuição dos bens. A percepção e a necessidade de tal justiça tornam-se cada vez mais insistentes e dominantes na consciência humana que, se reconhece por um lado os "resultados" conseguidos, sofre por outro com maior agudeza devido às "ansiedades" causadas pelas discriminações e carências, que podem ferir as legítimas aspirações dos trabalhadores.

Com efeito, a justiça social, na visão cristã, constitui a base, a virtude-chave e o valor fundamental da convivência sócio-politica. Dirige e regula as relações e os nexos dos cidadãos para com o bem comum, num ponto de vista, portanto, não puramente contratual e individual, mas comunitário. Como tal ele representa um direito fundamental de todos os homens, a eles conferido pelo Criador, e confirmado pela Mensagem evangélica.

Superando as rígidas delimitações da justiça comutativa, a justiça social procura portanto subordinar as coisas ao homem, os bens individuais ao bem comum, o direito de propriedade ao direito à vida, eliminando toda a condição de existência e de trabalho que seja indigna da pessoa humana.

Eis-nos, então, caríssimos irmãos e irmãs, no ponto central do problema a que é dedicado o nosso presente encontro.

Não me cansarei de afirmar que a economia e as suas estruturas são válidas e aceitáveis unicamente se são humanas, isto é, feitas pelo homem e para o homem. E não podem ser tais, se arruínam a dignidade de quantos — operários e dirigentes — nelas empregam as suas actividades; se anulam sistematicamente neles o sentido da responsabilidade; se paralisam neles qualquer forma de iniciativa pessoal; se, numa palavra, deixam de possuir um sentido e uma lógica humana.

7. Desejo agora referir-me a alguns elementos que julgo essenciais para que a ordem social seja realmente inspirada na justiça a respeito do trabalho humano.

Numa sociedade que deseja ser justa e humana, o proveito e o lucro não podem prevalecer sobre o homem: é absolutamente necessário que o homem continue a ser o sujeito da economia e das diversas estruturas de produção. Escrevi na Redemptor hominis: o homem "não pode renunciar a si mesmo nem ao lugar que lhe toca no mundo visível: não pode tornar-se escravo das coisas, escravo dos sistemas económicos, escravo da produção, escravo dos seus produtos" (n. 16). Deus criou-o para que seja senhor e não escravo do trabalho.

Nesta exigência de justiça devem-se colocar o direito ao trabalho e os outros direitos dos trabalhadores.

O trabalho constitui, de facto, um dos grandes e fundamentais direitos inalienáveis do homem, porque lhe dá vida, serenidade e significado. Mediante o trabalho o homem torna-se mais plenamente homem e colaborador de Deus no aperfeiçoamento da natureza. É de ambicionar que tal direito represente verdadeiramente uma realidade concreta para cada cidadão, um direito pro movido e tutelado pela sociedade.

Procurar trabalho ou emprego não é tarefa simples; todavia é necessário afirmar que nisto está um aspecto central e um compromisso fundamental da ordem política e económica.

8. Escrevi na Laborem exercens que a "concreta verificação da justiça de todo sistema sócio-económico e do seu recto funcionamento está representada pelo justo salário". Com efeito, o modo mais consistente de realizar a justiça nas relações do trabalho entre operário e empresário, independentemente do tipo de sistema económico, em que a actividade humana se aplica, é o da justa remuneração.

Mediante o salário é de facto geralmente aberto o caminho concreto de chegar aos bens destinados ao uso comum. Adequar o salário nas suas múltiplas e complementares modalidades, de maneira que se possa afirmar que o trabalhador participa real e justamente da riqueza, para cuja criação contribui de modo solidário, quer na empresa privada quer na economia nacional, é postulado e exigência de uma economia sã ao serviço de uma efectiva justiça social.

A aplicação das propostas imaginadas no campo católico com o fim de conseguir que o operário possa considerar-se co-proprietário do grande banco do trabalho é um elemento base daquela verificação, a que acima me referi: não só para que o homem do trabalho encontre plena satisfação no seu aspirar à justa remuneração, mas também e sobretudo para que seja salvaguardada a justiça em todas as estruturas do processo económico (cf. Laborem exercens, 14).

9. Desejo ainda chamar a vossa atenção para outro aspecto essencial da justiça social: quer dizer, para a liberdade de associação, que deve reconhecer aos trabalhadores a possibilidade efectiva de participarem livre e activamente na elaboração e contraprova das decisões que lhes dizem respeito, em todos os níveis. A experiência histórica demonstra — como já afirmei noutras oportunidades — que tais associações ou sindicatos são elementos indispensáveis da vida social, especialmente nas modernas sociedades industrializadas. Surgidos para defender os justos direitos dos operários diante dos proprietários dos meios de produção, os sindicatos, particularmente os do sector industrial, cresceram sobre a base da luta. Todavia, nas suas atitudes de oposição social, devem imprimir essencial realce nos valores positivos que os animam, no desejo do justo bem, dentro do contexto do bem comum, na sede de justiça social, nunca na luta "contra" os outros, porque a primeira característica do trabalho é a de ser "por", de unir os homens; e aqui está a sua grande força social. Foi precisamente através da união e da solidariedade que os sindicatos puderam defender os interesses dos operários obtendo um salário justo, condições de trabalho dignas, segurança para o trabalhador e sua família.

Os poderes públicos, chamados a servir o bem comum, devem considerar portanto obrigação sua proteger no âmbito estatal estas associações através de leis prudentes; por sua parte, os sindicatos devem ter sempre na devida conta as limitações que a situação económica concreta geral pode, por vezes, requerer, no quadro do bem comum da Nação inteira.

10. Vós todos, caros irmãos e irmãs, estais justamente desejosos de que, nos vossos canteiros de obras e nas vossas fábricas, reine a justiça como dimensão fundamental das vossas actividades laborais. Não é assim? Isto honra-vos: mas sem dúvida não basta! Do mundo do vosso trabalho deve também vir a solução para realizar a justiça social: são necessários sempre novos movimentos de solidariedade entre os homens do trabalho e com os homens do trabalho para criar a união dos corações, uma união construtiva, sincera, animada pela formação moral e pelo espírito de responsabilidade.

"A experiência do passado e do nosso tempo demonstra que a justiça sozinha não basta e que, pelo contrário, pode levar à negação e à aniquilação de si mesma, se não se consente — àquela força mais profunda, que é o amor — moldar a vida humana nas suas várias dimensões... Tal afirmação não desvaloriza a justiça e não atenua o significado da ordem que sobre ela se estabelece: mas indica somente a necessidade de recorrer às forças do espírito, ainda mais profundas, que condicionam a ordem mesma da justiça" (Dives in misericórdia, 12).

Sabeis, com efeito, que o amor cristão anima a justiça, a inspira, a descobre, a aperfeiçoa, a torna realizável, a respeita, a eleva e a supera; mas não a exclui, não a absorve, não a substitui, pelo contrário pressupõe-na e exige-a, porque não existe verdadeiro amor, verdadeira caridade, sem justiça. Não é acaso a justiça a medida mínima da caridade?

Eu ouvi atentamente a operária que falou no princípio deste encontro: pois bem, ela sublinhou de modo perfeito a necessidade de procurar no amor a inspiração para um esforço social mais pleno. Considero importante esta intuição. Se, de facto, a justiça social dá fisionomia humana à empresa, a caridade infunde-lhe o impulso vital da verdadeira solidariedade.

11. Caríssimos irmãos e irmãs! Alimento confiança de que este encontro de hoje consolide, em cada um de vós, a sincera adesão ao Evangelho do trabalho, proclamado por Aquele que, sendo o Filho de Deus feito homem, quis pertencer ao mundo do trabalho manual junto do banco do carpinteiro José, esposo de Maria Santíssima.

Jesus olha com amor para o nosso trabalho e as suas diversas manifestações, vendo em cada uma delas um revérbero da semelhança do homem com Deus Criador. O trabalho é querido e abençoado por Deus: traz consigo não já o peso de uma condenação, mas a nobreza de uma missão, a de tornar o homem protagonista, com Deus, na construção da humana convivência e do dinamismo que reflecte o mistério do Omnipotente.

Para o vosso trabalho olha a Igreja, que procura, juntamente com todos os homens de boa vontade, corroborar os "resultados" obtidos, e encontrar a resposta às "ansiedades" que se agitam no vosso ânimo. A fé cristã possui o poder oculto de dar alma ao trabalho, de conferir-lhe serenidade, paz, força e racionalidade, fazendo assim dele um instante de crescimento humano não só pessoal, familiar e comunitário, mas também religioso.

12. E agora consenti-me que me dirija a todos vós que participais neste encontro — a todos e a cada um em particular. Ao fazê-lo, penso, simultaneamente, nas vossas famílias, nas vossas crianças, nos vossos filhos, nas vossas esposas, nas vossas mães, nos vossos doentes e em todos os que vos são caros: sei o lugar que têm no vosso coração, sei o grande valor que representam para vós. Para eles encontrais vós, na fadiga e no trabalho de cada dia, a plena expressão e a medida espontânea do vosso amor.

Amai as vossas famílias! Repito-vo-lo: amai-as! Sede delas os guias alegres, a luz segura e os vigilantes tutores contra os germes da desagregação moral e social, que por desgraça conduzem inexoravelmente ã decomposição tantos núcleos familiares.

Abri as vossas famílias aos valores sociais, às exigências do espírito! A vida familiar deve ser experiência de comunhão e de participação. Longe de encerrar-se em si mesma, a família é chamada a abrir-se ao meio social para se tornar — movida pelo sentimento da justiça, pela solicitude para com os outros e pelo dever da própria responsabilidade para com a sociedade inteira — instrumento de humanização e de personalização, serviço ao próximo nas multiformes expressões de fraternal auxílio, defesa e tutela consciente dos próprios direitos e deveres.

Abri as vossas famílias a Cristo e a Sua Igreja! Não por acaso foi a família cristã definida como "Igreja doméstica", "pequena Igreja". Entre os seus encargos fundamentais há também o eclesial de testemunhar Cristo ao mundo: "ela, quer dizer, coloca-se ao serviço da edificação do Reino de Deus na história, mediante a participação na vida e na missão da Igreja" (Familiaris consortio, 49) e é chamada a tornar-se, cada dia mais, uma comunidade crente e evangelizante, vencendo a tentação de viver timidamente a própria fé dentro da intimidade das paredes domésticas.

Mantende viva e constante a vossa sensibilidade pelo respeito da justiça social no mundo do trabalho; alimentando-a e sustentando-a com o amor que é "o vínculo da perfeição" (Col 3, 14).

Reine sempre nas vossas fábricas, nos vossos locais de trabalho, a serenidade da modesta oficina de Nazaré, a serenidade que provém da consciência de terdes cumprido quotidianamente o próprio dever, a serenidade que torna o trabalho humano factor de crescimento e lhe dá a medida de vocação fecunda. A Igreja é vivamente sensível ao valor do ambiente "fábrica", o lugar em que se realiza a vida do trabalhador — a vossa vida! —, mas ao qual deveis também levar a fé para actuar de modo construtivo; fazer que ela se torne operante.

O Senhor está aqui connosco; não só agora; está sempre convosco no banco do vosso trabalho, para dar a todos a força regeneradora do Seu Evangelho, da Sua graça e do Seu amor. Não O esqueçais nunca! Não O marginalizeis nunca!

Tende sempre, como meta da vossa actividade, construir um mundo mais humano, mais fraternal e mais cristão; a vontade de criar formas mais perfeitas de união, de solidariedade e de socialidade, segundo as exigências dos tempos; o ideal de crescer em humanidade, progredindo cada dia mais na justiça e no amor.

Por isso, abençoo-vos a todos! Todos vos levo no coração, operárias e operários da Solvay! E pedirei sempre por vós, pelas vossas famílias e pelo vosso trabalho, recordando sempre comovidamente este dia belíssimo! São José vos proteja, Nossa Senhora vos ajude; Cristo vos conserve na Sua graça!

E seja louvado Jesus Cristo.

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

 

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