Caríssimos Irmãos e Irmãs no Senhor
1. Neste quinto Domingo da Quaresma, com profunda comoção me encontro aqui,
no meio de vós, neste lugar tão humanamente assinalado pelo sofrimento, mas, à
luz da fé cristã, tão privilegiado e espiritualmente rico. É também esta uma
visita pastoral que faço como todos os domingos, quando me é possível, a um
sector da vasta Diocese de Roma; também esta Casa se pode chamar uma "paróquia",
na verdade muito especial, em que, em vez do frenético murmúrio da vida do
mundo, se encontra o escondido fluir da dor, da paciência e da confiança. Mas
também vós, doentes e pessoas que vos curam, sois cidadãos bem vivos e
preciosos, sois fiéis insubstituíveis no contexto da sociedade e da Igreja, sois
membros eficazes do Corpo de Cristo!
Foi com muito satisfação, portanto, que recebi o convite para visitar esta
obra grandiosa e edificante, dedicada ao Beato Luis Guanella, o génio da
caridade que, seguindo o impulso do seu espírito profundamente sensível ao
humano sofrer e à vocação claramente inspirada por Deus, tanto bem operou e,
mediante as suas instituições, continua ainda a operar em Roma, no resto da
Itália e no Estrangeiro.
Quero portanto dirigir o meu sentido agradecimento, juntamente com a mais
cordial saudação, ao Senhor Cardeal Ugo Poletti, Vigário-Geral para a Cidade de
Roma e para o Distrito; ao Bispo Auxiliar Dom Fiorenzo Angelini, Delegado para a
Pastoral nos hospitais e nas clínicas; ao Padre Tito Credaro, Superior
Provincial da Congregação dos Servos da Caridade da Obra Don Guanella; ao Padre
Domênico Saginario, Director do Seminário Teológico; e ao Padre Pietro Ferrari,
Director da Casa de São José.
Saúdo depois com igual deferência e cordialidade as outras Autoridades que
desejaram intervir nesta cerimónia, os médicos e o pessoal médico auxiliar, os
terapeutas e os vários técnicos, que dedicam o seu tempo, com amor e perícia,
aos deficientes. Dirijo também a minha paternal saudação aos familiares, aos
sacerdotes e às religiosas dedicadas à Casa, ao Grupo de Voluntários, aos
Cooperadores, ao Centro juvenil, aos alunos e às Corporações do Centro de
Formação Profissional, aos Benfeitores e a todos aqueles que de algum modo
sustentam a Obra e vêm ajudar os hóspedes dela, com requintada delicadeza humana
e cristã; o Senhor — que é identificado com o fraco, com o doente, com o que
sofre e com o marginalizado — vos faça sempre apreciar a alegria de amar e
servir, e vos prepare a recompensa eterna prometida no Evangelho. Continuai com
ânimo e desvelo nas vossas civis e cristãs obrigações de caridade, de
fraternidade e de solidariedade!
2. Mas estou aqui especialmente para vos saudar e abraçar a vós, que tendes
todas as categorias de sofrimentos, vós pequenos e adultos, irmãos predilectos
de Cristo que sofre.
É com ânimo sinceramente comovido que me aproximo de vós, e foi para vós
sobretudo que vim a esta casa.
Desejaria exprimir-vos neste momento toda a profunda simpatia que sinto por
cada um de vós, toda a minha compreensão pela doença que trazeis no vosso corpo
e no vosso espírito; desejaria falar convosco um por um, para vos infundir
conforto e ânimo.
A vossa existência de pessoas deficientes constitui grande prova; prova para
vós primeiramente, prova também para os vossos pais, para todos aqueles que vos
querem bem e para todos os que se perguntam: porquê esta doença?
A vossa, na realidade, é uma prova que é também mistério.
Penso nesta altura em Jesus que, percorrendo os caminhos da Terra Santa, se
aproximava de preferência, como só Ele sabia fazer, com a Sua compaixão humana e
divina, dos pobres, dos que sofrem, dos doentes de corpo e de espírito, e a
todos levava consolação, abria o coração à esperança e por vezes oferecia também
o dom da cura.
Também hoje só a Ele devemos dirigir-nos se queremos receber a luz que
desvele ao menos um pouco o mistério do sofrimento e a graça de sabê-lo acolher
pacientemente.
O Senhor não nos pede fecharmos os olhos diante da enfermidade. Ela é bem real e devemos ter dela consciência lúcida. Ele pede olharmos mais em
profundidade, crermos que nestes corpos que sofrem palpitam não só a vida
humana, com toda a sua dignidade e os seus direitos, mas também, em virtude do
baptismo, a própria vida divina, a vida estupenda dos filhos de Deus. Se aos
olhos exteriores dos homens, vós pareceis débeis e enfermos, diante de Deus sois
grandes e luminosos no vosso ser. Don Guanella chamava-vos "as minhas pérolas" e
definia-vos "os predilectos da Providência".
Há ainda outra realidade muito importante que Jesus nos revela.
Na sociedade dos homens as pessoas poderosas e cultas ocupam os primeiros
lugares e aparecem mais em vista; mas no Reino de Deus sucede o contrário: os
primeiros e os maiores — diz-nos Jesus — são as crianças, os fracos e os que
sofrem. A maneira de proceder de Deus é mesmo desconcertante para o homem. O
Apóstolo são Paulo diz-nos: "Deus escolheu o que no mundo é fraco para confundir
os fortes" (1 Cor 1, 27).
Esta verdade, que nos deixa pasmados, torna-se crível se olhamos para o
exemplo mesmo de Jesus. Jesus não se contentou com patentear-nos o mistério do
sofrimento. Deu-nos a resposta mais convincente tomando sobre si as nossas
enfermidades, tornando-se o Homem das dores e conhecedor do sofrimento (cf. Is
53, 3).
Quando então nós perguntamos a Deus "porque tem de sofrer este inocente?",
Deus por Sua vez dirige-nos uma pergunta: "Não Me vês tu presente no irmão que
sofre? E que fazes tu por Mim e por ele?".
3. Caríssimos! A minha visita pastoral, já próxima da Semana Santa, torna-se
deste modo uma meditação sobre a "Paixão de Cristo" e sobre a "Paixão do homem":
reflectindo sobre o Verbo Divino que passa, através da angústia do Getsémani e
da agonia da Cruz, para remir o homem das trevas do erro e do mal,
compreende-se porque também a humanidade deve passar através do calvário do
sofrimento. Até à nova vinda de Cristo, está-se realizando, dia após dia, a
Redenção. Aproveito a ocasião para exprimir a minha viva complacência por todos
os modernos recursos adoptados com o fim de socorrer os doentes, de desenvolver
as suas possibilidades, de os tomar quanto se pode esperar auto-suficientes,
interessando-os e responsabilizando-os; e ao mesmo tempo exorto e animo a que
se utilizem com empenho e boa vontade todas as técnicas fisioterápicas e
psicoterápicas. Todavia interessa-me também recordar que, não obstante todas as
conquistas da ciência, perdura na história a "Paixão de Cristo", juntamente com
a "Paixão do homem", em função e na perspectiva da Ressurreição final em Cristo
para todos os que n'Ele creram e com Ele amaram e sofreram. Don Guanella no
termo da sua vida, no espasmo da sua última doença, um dia pronunciou esta
expressão: "Deve ser grande mal o pecado se trouxe à terra dores tão terríveis".
Era a manifestação da sua fé simples, mas firme e segura, que lhe tinha feito
descobrir o "tesouro escondido", pelo qual tinha abandonado tudo e que, antes de
morrer, lhe sugeriu ainda a síntese da sua mensagem: "Omnia in caritate!".
"Paraíso, Paraíso!".
Transformai também vós — doentes, familiares e amigos — a vossa "paixão" num
acto de amor redentor; oferecei-a cada dia e levantai-a ao Altíssimo como o
Sacerdote no altar oferece a Hóstia pura e santa, e o cálice da Salvação eterna!
Ajude-vos neste propósito o Beato Luís Guanella, que na felicidade do Céu
continua sempre a vigiar com solicitude pelas suas Obras e em especial por esta
Casa. Acompanhe-vos o afecto maternal da Virgem Santíssima, Mãe da
Providência, cuja devoção deve ser preeminente no programa da vossa vida e do
vosso dia. Ajude-vos também a minha prece, que do coração vos prometo, ao mesmo
tempo que a todos concedo a minha Bênção.