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VIAGEM APOSTÓLICA A PORTUGAL

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
POR OCASIÃO DO ENCONTRO ECUMÉNICO EM LISBOA

Sexta-feira, 14 de Maio de 1982

 

Senhores e meus irmãos

1. AGRADECIDO PELAS PALAVRAS deferentes e votos que me foram dirigidos, quero saudar os representantes das Comunidades cristãs, do Judaísmo e do Islamismo, aqui presentes, exprimindo a todos fraternal respeito e estima. Podermos afirmar hoje em comum a fé num Deus único, criador de todas as coisas, vivo, omnipotente e misericordioso, seria já o bastante para me tornar grato este encontro; estou contente por nos ser dada esta oportunidade de testemunho, que é ao mesmo tempo preito e acto de submissão ao nosso Deus.

Irmana-nos, de algum modo, a fé e um empenho, em muitos pontos análogo, em demonstrar com as boas obras a coerência da nossa respectiva posição religiosa; e também o desejo de, ao honrarmos como Senhor o criador de todas as coisas, o nosso exemplo servir para ajudar outros na busca de Deus, na abertura para a trascendência, no reconhecimento do valor espiritual da pessoa humana e, talvez, na individuação do fundamento e fonte permanente dos seus direitos. Isto – sabemo-lo bem – é condição para subsistirem critérios de avaliação da mesma pessoa humana, que não se confinem à “utilidade prática”, mas que possam salvaguardar a sua intangível dignidade. Além disto, com os cristãos, a fé comum em Cristo Salvador constitui motivo especial de unidade e de testemunho.

2. A sociedade contemporânea aparece-nos distraída ou mesmo apostada, em vasta escala, em “prescindir” de Deus e da religião, e muito voltada para as dimensões materiais e terrenas do homem e da vida; admiráveis progressos, em todos os campos, proporcionam grandes benefícios, mas parecem favorecer em alguns a inversão e substituição de valores. Ao reconhecermos e proclamarmos os valores espirituais e religiosos, poderemos, certamente, suscitar e guiar uma geral intuição vital e, no comum das pessoas em condições normais, um certo vislumbre conceptual, da realidade de um Criador subsistente.

Por outro lado, na fidelidade à religião abraçada, há sempre espaço para a solidariedade humana, porquando, persuadidos como estamos do bem que para nós constitui a crença em Deus, vem espontâneo o desejo de partilhar com outrem este nosso bem. Com todo o respeito, nós podemos tornar-nos sinal do Omnipotente: para muitos, o “Deus desconhecido”; para outros, falazmente indicado em potências temporais, marcadas inexoravelmente pela finitude e caducidade.

3. Estes nossos contactos, o diálogo, e o apreço por inegáveis tesouros de espiritualidade de cada religião, a comunidade cristã e, quando isso é possível, a oração em comum, podem levar a convergir esforços, para obviar à ilusão de construir um mundo novo sem Deus e à inanidade de um humanismo puramente antropocêntrico. Sem a dimensão religiosa e, o que seria pier ainda, sem a liberdade religiosa, o homem fica empobrecido ou defraudado num dos seus direitos fundamentais. E todos desejamos evitar esse empobrecimento do homem.

Assim, quando motivados também pela solidariedade humana, nós passamos da oração, do cumprimento dos mandamentos e da observância da justiça para a vivência prática da coerência religiosa, ajudando a busca de Deus, nós estaremos a contribuir para o bem do nosso próximo e para o bem comum da humanidade.

E isto poderá verificar-se:

– pela honestidade pessoal e disciplina dos costumes, na vida privada e pública, entravando o avanço do relaxamento dos princípios da moral e da justiça, e do permissivismo ético;

– no respeito pela vida e pela família e seus valores, favorecendo a elevação, um humanidade e dignidade, dos nossos semelhantes, e a consolidação dos alicerces insubstituíveis da ordenada convivência em sociedade;

– com o culto do autêntico sentido e prática generosa do trabalho humano, e com corajosa e sapiente participação social e política, buscando o bem-estar de todos e a construção das sociedades e do mundo cada vez mais de acordo com os desígnios e decretos de Deus, em toda a terra, que só assim pode ser um mundo mais justo, pacífico e impregnado de amor fraterno.

4. Venho a Portugal, como sabeis, em peregrinação, principalmente para celebrar a misericórdia de Deus. Tenho para mim a profunda convicção de que Deus misericordioso que ver mais reflectido na inteira família humana, esse seu atributo; a autêntica misericórdia apresenta-se-me como algo indispensável para dar forma e solidez às relações entre os homens, inspiradas pelo mais profundo respeito por tudo o que é humano e pela fraternidade.

Os cristãos, com efeito, são exortados a imitar o Senhor Jesus, modelo de misericórdia. O Judaísmo também considera a misericórdia como um mandamento fundamental. E o Islamismo, na sua profissão de fé, atribui este epíteto a Deus. E Abraão, nosso antepassado comum, ensina a todos – cristãos, judeus e muçulmanos – a seguir este caminho de misericórdia e de amor.

Seja-me permitido concluir estas minhas palavras elevando o espírito em prece, a Deus misericordioso:

– o Inefável,
de Quem nos fala a criação inteira,

– o Omnipotente,
que nunca constrange
mas só convida e orienta a humanidade para o bem,

– o Compassivo,
que quer a misericórdia entre todos os homens:
que Ele nos guie sempre pelos seus caminhos,
nos encha os nossos corações do seu amor,
paz e alegria e nos abençoe!

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

 

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