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VIAGEM APOSTÓLICA À ESPANHA
31 DE OUTUBRO - 9 DE NOVEMBRO DE 1982

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
 NO ACTO CONCLUSIVO DO ANO TERESIANO

Convento das Carmelitas Descalças de Alba Tormes
Segunda-feira, 1 de Novembro de 1982

 

Meus queridos irmãos e irmãs,
filhos e filhas de Santa Teresa

1. Encontramo-nos reunidos junto do sepulcro que guarda, como precioso tesouro, as insignes relíquias do corpo de Santa Teresa de Jesus.

Ao encerrar solenemente este IV Centenário, aberto há um ano pelo Cardeal meu Legado, quero que as minhas palavras sejam uma evocação e uma prece dirigida a Teresa de Jesus, presente entre nós na comunhão dos Santos.

2. Antes de tudo, a evocação daquela morte gloriosa.

Teresa de Jesus! Quero recordar as palavras dos últimos instantes da tua vida:

A humilde confissão das tuas faltas: "Cor contritum et humiliatum, Deus, nos despicies" (Sl 50, 19).

A exortação às tuas filhas a manterem intacta a tua herança espiritual, a fidelidade ao carisma.

O desejo de ver a Deus: "Senhor meu, tempo é já que nos juntemos; já é tempo de caminhar".

A gozosa profissão de fé: "Enfim, Senhor, sou filha da Igreja".

Entregaste a tua vida ao Senhor, envolvida no carinho maternal dessa Igreja de que te sentias filha: com a graça do sacramento da penitência, o viático da Eucaristia, a sagrada unção dos enfermos.

A tua foi morte de amor, como bem expressou São João da Cruz: "Consumida pela chama de amor viva rasgou-se a teia do doce encontro com Deus" (cf. Chama de Amor viva, 1, 29-30).

"Agora, portanto, dizemos que esta mariposa já morreu... e que vive nela Cristo" (Castelo Interior, VII, 1.3).

3. Vives com Cristo na glória e estás presente na Igreja, caminhando com ela pelas sendas dos homens.

Nos teus escritos plasmaste a tua voz e a tua alma.

Na tua Família religiosa perpetuas o teu espírito.

Deixaste-nos como lição a amizade com Cristo.

Legaste-nos como testamento o amor e o serviço à Igreja.

"Ditosas vidas — como a tua — que nisto se extinguirem!" (Vida, 40, 15).

A tua pátria é a Espanha, mas todo o mundo é hoje o teu lar, onde vivem as tuas filhas e os teus filhos, onde falas com as páginas dos teus livros.

És mensageira de Cristo.

És palavra universal de experiência de Deus.

A tua viva linguagem castelhana foi traduzida em muitos idiomas.

Os teus autógrafos mutilplicaram-se em edições sem fim.

Entraste na cultura religiosa da humanidade.

Estás presente, honrando a Igreja, na literatura universal.

Realizaram-se, Teresa, os teus desejos de servir o Senhor sem limites de tempo nem de espaço, até ao dia da vinda gloriosa de Jesus!

4. Eleve-se agora ao Pai, por tua intercessão, Teresa de Jesus, a prece ardente do Papa peregrino.

Peço-te pela Igreja nossa Mãe: "Não ande sempre em tanta tempestade esta barca da Igreja" (Caminho de Perfeição, 35, 5).

Intercede pela sua extensão evangelizadora e pela sua santidade, pelos seus pastores, os seus teólogos e ministros, pelos, homens e as mulheres que se consagraram a Cristo, pelos fiéis da família de Deus. Rogo-te por um mundo em paz, sem guerras fratricidas como as que feriam o teu coração.

Descobre a todos os cristãos o mundo interior da alma, tesouro escondido dentro de nós, castelo luminoso de Deus.

Faz que o mundo exterior conserve os vestígios do Criador e seja livro aberto que nos fala de Deus (cf. Vida, 9. 5).

Acolhe a minha súplica pelas almas que louvam a Deus com desassombro, pelos que receberam a grande dignidade de ser amigos de Deus, pelos que buscam a Deus nas trevas, para que se lhes revele a Luz que é Cristo.

Abençoa os que buscam o entendimento e a harmonia, os que promovem a fraternidade e a solidariedade, porque "é mister ajudar-se uns aos outros".

E "cresce a caridade com ser comunicada" (Vida, 7, 22).

Protege os homens do mar e do campo, os que trabalham e os que dão trabalho, os anciãos que em ti encontram um modelo de sabedoria e de incansável criatividade.

Abençoa as famílias, os jovens, as crianças.

Que encontrem um mundo de paz e liberdade, digno de homens chamados ã comunhão com Deus, onde possam cultivar-se essas virtudes humanas que tu levaste ao esplendor da santidade cristã: a verdade e a justiça, a fortaleza e o respeito das pessoas, a alegria e a afabilidade, a simpatia e o agradecimento.

Ponho nas tuas mãos a causa dos pobres que tu tanto amaste.

Faz que se cumpram os seus ideais de justiça numa fraterna comunhão de bens: porque todos os bens são de Deus e Ele reparte-os a alguns como administradores seus, para que os partilhem com os pobres (cf. Conceitos de Amor de Deus, 2, 8).

Intercede pelos enfermos, objecto dos teus cuidados até ao fim dos teus dias.

Ajuda os desamparados, os marginalizados, os oprimidos, para que neles se respeite e honre a morada de Deus, sua imagem e semelhança.

5. Teresa de Jesus, que segues vivendo nesta terra de Espanha! Peço-te por todos os seus povos. Faz que vivam a riqueza dos seus valores culturais em espírito de fraterna e solidária convivência.

A ti que és amiga de Deus e dos homens, e com os teus escritos abres caminhos de unidade, encomendo a unidade da Igreja e da família humana:

Entre os cristãos de diversas confissões, entre membros de diversas religiões, entre homens de diferentes culturas.

Que todos se sintam como tu os sentias: "filhos de Deus e irmãos" (Castelo Interior, V, 2, 11).

Faz que se cumpra a tua oração e a tua palavra de esperança, escrita no Castelo Interior, (VII, 2, 7-8).

"Rogando uma vez Jesus Cristo nosso Senhor pelos seus Apóstolos, disse que fossem um só com o Pai e com Ele, como Jesus Cristo nosso Senhor está no Pai e o Pai n'Ele (cf. Jo 17, 21). Não sei que maior amor pode existir do que este! E não deixaremos de entrar aqui todos, porque assim disse sua Majestade: não rogo somente por estes, mas também por aqueles que hão-de crer em mim". Faz que todos cheguemos aonde tu chegaste; até à comunhão com a Trindade "onde a nossa imagem está esculpida" (ib.).

Teresa de Jesus, ouve a minha oração! Eleve-se até ao trono da Sabedoria de Deus a acção de graças da Igreja, pelo que foste e fizeste, pelo que ainda farás no Povo de Deus que te honra como Doutora e Mestra espiritual. Quero fazê-lo com as tuas mesmas palavras de louvor e bênção:

"Seja Deus nosso Senhor para sempre louvado e bendito! Amém. Amém" (Castelo Interior, 4).

 

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

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