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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
À PEREGRINAÇÃO DO CARMELO TERESIANO DA ITÁLIA

Sala Paulo VI
Domingo, 3 de Outubro de 1982

 

Caros Irmãos e Irmãs!

1.Saúdo-vos com particular afecto, e manifesto-vos toda a minha alegria ao encontrar-me hoje convosco, vós que constituis a peregrinação a Roma do inteiro Carmelo Teresiano da Itália. Sei que representais aqui os Religiosos e as Religiosas das várias Congregações Carmelitanas Teresianas, os pertencentes à Terceira Ordem Carmelitana e às Comunidades que se inspiram no Carmelo. A vossa presença na Itália é certamente significativa e distingue-se entre as muitas Famílias religiosas por um típico testemunho evangélico de vida comum, de oração e de difusão de uma sólida espiritualidade, centrada na contemplação. Por tudo isto estou grato ao Senhor, que não deixa de suscitar novas energias na sua santa Igreja, provendo-a de fecundas e estimulantes forças vitais. Ao mesmo tempo tende logo a certeza de que vos recomendo todos ao Senhor e ao poder da sua graça, para que se mantenha sempre vivo, ou melhor, aumente no Carmelo italiano o aprofundamento e a fidelidade à vossa originária vocação.

2.O nosso encontro de hoje adquire o seu pleno significado pelo facto de se realizar não só na proximidade da festa de Santa Teresa d'Avila, mas também, e sobretudo, no IV Centenário da sua morte. A circunstância, portanto, impõe à nossa atenta reflexão a figura desta mulher, que foi e continua a ser um gigante na história da Igreja. É importante, com efeito, descobrir sempre de novo e apreciar adequadamente, e sobretudo traduzir na própria vida, o seu particular carisma. E não é difícil individualizá-lo nas suas obras. Assim eu escrevia, a 14 de Outubro do ano passado, ao Superior-Geral da Ordem dos Carmelitas Descalços: "Teresa compreendeu que a sua vocação e o seu dever eram orar na Igreja e com a Igreja, que é uma comunidade orante, incitada pelo Espírito Santo a que, ao lado de Jesus e em Jesus, adore o Pai em Espírito e verdade... Portanto, quando alguém reza e vive da oração, quando na oração faz a experiência do Deus vivo e se doa a Ele, então assim também se dispõe a sentir mais profundamente a realidade da Igreja, na qual Cristo continua a sua presença misteriosa e a sua obra da graça; torna-se consciente de ser necessária maior fidelidade à Esposa de Cristo". Aliás, não se pode ter a experiência de Deus sem a oração, e por isso Santa Teresa no seu De via perfectionis convida insistentemente a aplicar-se à contemplação (cf. 18, 3). E que foi a fundação dos vários Mosteiros por ela realizada, senão a instituição de múltiplas e fervorosas comunidades de oração? (cf. ibid. 21, 10).

3. Eis, portanto, um fundamental empenho, que é exigido hoje dos cristãos, e em particular de vós, que vos inspirais na doutrina Teresiana: dar testemunho de oração. E não é o caso de vos repetir hoje, aqui, quanto isto seja necessário para o homem e o mundo contemporâneo, que se arrisca a perder o sentido da transcendência por causa do seu vertiginoso desenvolvimento material e tecnológico. É preciso fazer saber que existe sempre em cada homem uma janela aberta para o céu azul dos supremos valores espirituais, ainda que muitos a tenham fechada. É preciso convidar os homens do nosso tempo a abrirem, ou melhor, a abrirem de par em par esta janela, para que entre abundantemente um ar ameno e purificante, que dê um novo respiro e, por conseguinte, maior vigor ao desenvolvimento das suas actividades. Precisamente isto é, em substância, a contemplação: mostrar-se e deixar se ser empossado pelo sopro do Espírito de Deus, como por Ele foram investidos e transformados os Apóstolos no dia do primeiro Pentecostes; acolher em si os seus estímulos e deixar-se condicionar por eles. Experimenta-se assim que a contemplação não pode, não deve isolar do contexto social e cultural, em que se está inserido; pelo contrário, ela oferece a possibilidade de introduzir nele novos germes de vida, ricos de virtualidades inovadoras. Aliás, como eu recordava, a 31 de Maio passado, na carta às Monjas Descalças da Ordem Carmelitana, foi a própria Santa Teresa que assim se expressou: "Seria precisamente uma calamidade se pudéssemos fazer oração apenas nos cantinhos da solidão" (Fundações S, 16).

4.Juntamente com esta fundamental dimensão, uma outra é do mesmo modo imprescindível na espiritualidade teresiana. A Santa, de facto, faz da adesão à vontade de Deus não só a motivação de base, mas também um critério para o progresso espiritual. E ela chega a dizer que a verdadeira perfeição não está na actividade ou na contemplação, mas na conformidade da nossa vontade à de Deus. Eis as suas palavras: "A suma perfeição não está nas doçuras interiores, nos grandes arroubos, nas visões e no espírito de profecia, mas antes na perfeita conformidade da nossa vontade à de Deus" (Fundações 5, 10). Mas onde a vontade de Deus se encarna e se manifesta é em Jesus Cristo; por isso, quem quer cumpri-la verdadeiramente deve seguir a Jesus e deixar-se conduzir por Ele. E é assim que a vida religiosa se torna uma forma particular de sequela Christi: não só no sentido de uma simples imitação exterior, mas ainda mais como imersão no seu mistério e quase como fusão pessoal com Ele; assim Teresa de discípula se torna esposa, numa plena união mística.

5.Caros Irmãos e Irmãs! Ao concluir-se este Centenário Teresiano, faço votos por que todos tenhais tirado dele muitos e saborosos frutos espirituais. Mas o de uma reconfirmada vida de oração deveria ser comum a todos. Daqui, de facto, nascem outros, como o de um aumentado empenho na vida da Igreja, de um estudo mais intenso da Palavra de Deus para aderir sempre melhor à sua vontade, de uma dedicação mais generosa à vinda e à expansão do Reino de Deus, e também de uma perspectiva mais iluminada e equilibrada sobre a dignidade da mulher e do seu legítimo posto na Igreja e na sociedade. Sabei, pois, haurir sempre maior proveito da intensa espiritualidade da grande Santa, cuja inspiração evocais. E vivei com alegria o vosso estado religioso. Da minha parte, como já vos assegurei, sabei que me recordo de todos junto do Senhor. A Igreja tem necessidade de vós e do vosso testemunho. Oxalá estejais todos à altura das esperanças que em vós são depositadas!

E recebei a minha particular Bênção Apostólica, que de coração vos concedo, estendendo-a a todos os membros das vossas Famílias carmelitanas, em penhor de abundantes e fecundas graças celestes.

 

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

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